20 DE NOVEMBRO DE 2015, 18h
KENNY KOCH
Eu precisava saber se realmente era ela. Tudo bem, era praticamente impossível que não fosse, pois a probabilidade de encontrar alguém com o mesmo nome e sobrenome do dela, na mesma profissão, aprovada na seleção que eu sabia que era o sonho dela desde a época da faculdade, era praticamente inexistente. Mesmo assim, eu precisava ter certeza.
Fazia longos cinco anos que eu não via ou falava com Anna Bennet. Desde o dia que ela embarcara para Londres, levando junto consigo todas suas mágoas. Ela era recém-formada em direito pela Universidade de Harvard, assim como eu, e tinha uma carreira brilhante pela frente. Acredite, Anna Bennet era daquele tipo de pessoa que poderia ser o que quisesse, sem muito esforço.
Ela era dona de uma inteligência acima do normal, até mesmo para os alunos de Harvard. Dona do par de olhos cor de âmbar mais bonitos que eu já vira, dona do sorriso mais simpático e apaziguador, dona dos acordes mais belos que qualquer piano já tinha escutado. Anna era o tipo de garota que fazia de tudo para passar despercebida, sempre sem sucesso. Sim, ela era bonita, com seus longos cabelos castanhos cor de mel esvoaçando por onde passava. Mas não era a beleza ou a inteligência de Anna que fazia com que todos soubessem seu nome ou quem ela era.
Infelizmente, segundo a própria Anna, ela era filha do – na época – governador de Illinois, Peter Bennet. Sim, aquele Peter Bennet, dos escândalos sexuais, dos desvios de dinheiro, das prisões por favorecimentos ilegais. Todos, mesmo negando, sempre souberam que o governador Bennet estava envolvido até a boca com 90% dos escândalos da política do estado.
Depois do estouro dos escândalos de Bennet, alguns meses após nossa formatura na faculdade, Anna e a mãe, a bela primeira-dama de Illinois Alice Bennet, embarcaram para Londres, na esperança de que pudessem reduzir o impacto sobre a família.
E agora, cinco anos depois, o nome dela estava ali, naquela lista que eu, na condição de Defensor Chefe, havia assinado. Os novos quinze defensores que tomariam posse naquela noite estavam ali, naquela folha de papel. E aquele nome que eu conhecia tão bem parecia saltar da folha. Anna Claire Elliot Bennet.
Seria possível que ela estivesse de volta? A imprensa não saberia? Duas batidas suaves na minha porta. Resmunguei um entre, ainda pensando como estaria Anna Bennet nos dias atuais. Cinco anos era tanto tempo...
- Dr. Koch? – a voz de Dean Barbara cortou meus devaneios. Dean era meu secretário. Na verdade, muito mais do que secretário. Era a "cabeça" de toda a logística da Defensoria Pública. Devia muito a ele, apesar de não deixar isso evidente, já que Dean era conhecido por seu ego grande – todos os novos membros chegaram. O Dr. não quer conhecê-los?
Pulei da cadeira, mas depois me contive, para não parecer muito ansioso. Segui Dean para fora da minha sala, enquanto descíamos pelo elevador até o auditório onde seria a recepção. Durante o trajeto, fui ensaiando mentalmente o que eu diria caso encontrasse Anna.
Pode parecer estúpido, mas eu tinha dois discursos prontos. Um para o caso dela sorrir quando me visse, outro para o caso dela parecer desgostosa. Depois de cinco anos e de uma despedida um tanto azeda, eu realmente não sabia o que esperar. Quando entrei no auditório, respirei fundo.
Os recém-chegados conversavam animadamente entre si. Eu havia conferido a lista. Dos quinze, eram seis mulheres e nove homens. Mal dei cinco passos dentro do auditório e pude sentir todos os olhares recaírem sobre mim. Cumprimentei alguns com um aceno, enquanto caminhava para o palco.
Já havia passado por quatro mulheres e avaliado discretamente seus rostos. Nenhuma delas podia ser Anna, mesmo que ela tivesse mudado radicalmente nos últimos anos. Continuei caminhando, tentando parecer despreocupado, distribuindo mais alguns acenos e sorrisos.
Quando subi no palco, consegui enxergar as duas mulheres que faltavam. Uma ruiva com um olhar animado conversava com uma mulher de cabelos acastanhados, ambas segurando uma taça de champanhe e apoiadas na parede do lado esquerdo do pequeno auditório. A ruiva ria de algo que a mulher de cabelos castanhos dizia, balançando animadamente a taça de champanhe.
Ela estava de costas para mim. Usando um vestido preto, justo, com um ombro desnudo, sapatos de salto alto também pretos. Repassei mentalmente a imagem que eu tinha de Anna na minha cabeça. A altura, a princípio, era a mesma. A cor dos cabelos também. Estavam um pouco mais compridos, talvez, batendo abaixo da metade das costas. A cintura estava mais fina do que eu lembrava, o vestido emoldurando perfeitamente cada curva. Eu encarava suas costas quase fixamente, apenas acompanhando sua taça de champanhe. Levava à boca, bebericava, baixava, gesticulava um pouco, a ruiva sorria, bebericava mais um pouco...
Eu estava tão hipnotizado que levei um susto ao escutar a voz de Dean anunciando o início do evento de boas vindas ali ao meu lado, no palco. Boa noite, novos integrantes!
Ao ouvir a voz de Dean, todos pararam no mesmo instante. As vozes sumiram, e os quinze rostos viraram para o palco. Mas eu estava esperando só um. Com um movimento suave, ela olhou por sobre o ombro na minha direção. Foi questão de segundos até nossos olhares se cruzarem. Dean continuava a falar, apresentando a instituição aos novos membros. Mas, naquele momento, eu só conseguia enxergar aquele par de olhos âmbar, que me encaravam de volta. Eu havia me esquecido de como eram lindos.
