2. Sentidos

Não dava pra acreditar, na verdade ninguém queria! Mas, segundo Brad tudo batia, o horário, o lugar, o destino de chegada, o celular que ninguém atendia. Era difícil de aceitar: Cory podia estar no meio daquela catástrofe, ser uma das centenas de vítimas. As informações que eles tinham acesso pelo tv ou Internet ainda eram vagas, imprecisas, devido a dimensão do atentado e a quantidade de gente envolvida.

"Ele poderia estar lá, mas e se ele desceu antes do previsto?" indagou Chris. Todos queriam encontrar alguma esperança para acordar daquele pesadelo.

"Continua tentando o celular, não vamos desistir!", Lea suplicava a Mark. "Eu vou ligar nos hotéis pra ver onde ele estava hospedado, quem sabe ele está lá!"

Dianna, Jenna e Chris se grudaram na Internet em busca de notícias, principalmente dos sobreviventes. Os demais sintonizavam todos os canais possíveis também à procura de novas informações. Quanto mais o tempo passava, mais a turma ficava angustiada.

Eles viraram a noite procurando novidades. Nada. Uns acabaram adormecendo na frente da tv, outros em seus aparelhos de iphone, computadores, exaustos. O dia amanheceu e com ele as primeiras impressões da equipe de resgate falando ao vivo de Londres. O responsável comentou sobre a tragédia contando sobre a situação que era pior do que todos imaginavam. Ele também deu a primeira lista das vítimas. Eram sobreviventes, já que a grande maioria morreu, tendo uma porcentagem muito grande de corpos irreconhecíveis. Pra tristeza geral, nada do nome de Cory.

"Ei não vamos se entregar, tenho fé que ele está bem!", Kevin tentava animar os amigos.

"Está começando a ficar difícil de esperar coisa boa, agora o celular já não faz a chamada". Disse Mark.

"Pro hotel ele também não voltou", disse Lea meio choramingando.

"Liguei pro Sr. Branson, ele também não chegou na conferência", anunciou Ryan entrando na sala.

Todos começaram a ficar ansiosos.

"Gente, com toda a confusão que está na cidade, ele pode estar em algum lugar perdido, sei lá", Amber tentava achar uma explicação.

"Não quero ser pessimista mas diante de uma situação dessas, se ele estivesse 'a salvo', teria ligado pra cá, pros amigos com quem ele mora. Ele é esperto, se estivesse perdido, logo acharia uma forma de tranqüilizar a todos aqui!", comentou Brad.

De repente, a atenção de todos voltou-se pra tv, mais um boletim de vítimas. Agora seriam os nomes das mortes confirmadas. Eles optaram por anunciar na tv, pois perceberam que eram a maioria estrangeiros, sendo assim iriam comunicar os parentes e interessados. A lista era imensa e a cada nome dito que não era Cory, um suspiro de alivio inundava a sala. Infelizmente, já no final da lista, o que eles tanto temiam aconteceu: Cory estava entre as vítimas fatais. Ninguém conseguia acreditar, finalmente a confirmação. Todos caíram no choro. O desespero tomou conta da turma.

Atores, produtores, profissionais que trabalham por traz das câmeras, todos sem exceção, partilhavam daquele momento tão triste. Cory era muito querido e ninguém queria aceitar. Em menos de uma hora depois do anúncio da sua morte, toda a mídia já sabia, e o set já não era mais um lugar seguro pra se ficar ali. Todo elenco teve que 'fugir' pra evitar o assédio da imprensa. Ninguém ali tinha condições de falar nada. Lea foi uma das últimas a deixar o estúdio e, quando a morena saiu pela porta e viu um laço preto amarrado nela, não agüentou e desmaiou. Aquela situação era demasiada forte para qualquer um deles suportar.

"E a família? Será que já sabe? Os amigos que ele morava junto aqui em Los Angeles?", Kevin perguntou a Brad.

"Todos já sabem. A família dele já sabe, não tive coragem de ligar pra mãe dele, vou fazer isso a noite. Sei que ela passou mal e teve que ser amparada. O pai também teve que ser socorrido. São pessoas já de certa idade e lidar com a morte do filho é uma das piores coisas que existe. Falei com o irmão dele, pois alguém da família tem que ir pra lá pra retirar o corpo do IML. Dadas as condições dos pais, terá que ser o irmão. Me ofereci pra ir junto, mas ele disse que o Sr. Branson vai acompanhá-lo, parece que de certa forma ele se sente culpado por ter mandado Cory pra Londres".

"Imagino o que ele deva estar sentindo, mas ele não tem culpa, estava agindo com a melhor das intenções, agora é bom que ele vá junto, pois deve ser a maior burocracia lá, e um homem de poder e rico como ele pode ser de valiosa ajuda nesse caso!", Kevin ponderou.

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O dia foi de muitas orações e comoção de todos, sejam os fãs que cobriram os estúdios da Fox em Los Angeles de flores, ou nos mares de palavras carinhosas dos mesmos através das mídias sociais. A imprensa também não ficou pra trás, tv, rádio, internet, em todo lugar se falava na morte prematura de um dos astros de Glee. Seus amigos estavam em choque e ainda pra todo lugar que olhavam viam algo ou alguém falando do companheiro. Estava impossível viver num mundo só com as lembranças de Cory.

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"...sei que a senhora não está bem, como eu não estou, mas sei também que nem de longe o meu sentimento é parecido com a sua dor, a dor de perder um filho. Mas no momento que fiquei sabendo, me lembrei da senhora. Cory sempre falava tanto da mãe. Eu precisava ligar pra dizer que pode contar comigo, só nos vimos uma ou outra vez, talvez nem se lembre de mim, mas eu sempre gostei tanto do seu filho, gostaria que a senhora soubesse que tem em mim uma amiga, ..."

"Eu sei sim quem você é...Você é a Lea Michele. Meu filho sempre falou com carinho de você. Ele gostava muito, acho que muito mais do que ele podia entender. Não somos próximas mas lhe conheço bem, de tanto que ele falava em você. Agora entendo o porque do fascínio dele, você é mesmo especial!"

Lea achou que já havia chorado tudo o que podia, mas naquele momento, conversando com a mãe de Cory, ela percebeu que não tinha nem chorado a metade. Era pra ela confortar a senhora, mas era ela que estava recebendo todo o carinho. Pelo jeito não era só a jovem morena que gostava tanto de um amigo que não sabia nem ao certo compreender seus sentimentos. Ele também sentia o mesmo e comentara até com a mãe. 'Deus, por que tinha que ter acontecido isso?', ela pensou.

"Se fecho meus olhos, é como se estivesse sonhando um sonho ruim, mas o pior é que quando abro eles vejo que é verdade! Mas meu coração não vê isso, acho que é o que mais dói, quando os olhos vêem mas o coração não quer aceitar!", Lea comentou.

"Sinto o mesmo minha querida", disse a senhora do outro lado da linha, "o coração da gente é tão bobo que não quer se conformar com a realidade. É como se, por mais que me falem, meu coração diz que ele não está morto!"

"O meu também sente isso!", disse Lea.

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Finalmente os aeroportos de Londres foram abertos, e Shaun, irmão mais velho de Cory, e Richard Branson, puderam ir cumprir uma das piores missões que já haviam lhes dado: trazer Cory de volta pra casa. Enquanto isso, os preparativos iam sendo feitos para seu funeral. Ficou acertado que iria ser no Canadá, logo todos os amigos de Los Angeles iriam pra lá.

Chegando no necrotério indicado, Shaun e Sr. Branson, puderam sentir um pouco do caos que tomou a cidade. Famílias desesperadas atrás de seus entes, muitas sem mesmo terem notícias se estavam mortos, onde estavam, ou ainda aquelas que tinham a confirmação das mortes. Gritos, choros, lamúrias. Os dois homens ainda tinham que encontrar forças para entrarem e fazer o reconhecimento do corpo. Mesmo tendo achado o mesmo com os documentos, era de praxe explicou a eles um responsável do local. Apenas Shaun entrou já que era da família.

Meia hora depois, ele voltou. Com rosto pálido, parecia até ter desmaiado. Ele disse ao companheiro que nunca pensou passar por uma situação dessas, não só por ter de reconhecer o corpo do irmão, mas por ver tanta gente morta em péssimo estado. Parecia que vieram de uma guerra dado o estado em que se encontravam os corpos.

"E então, era Cory?", perguntou o senhor.

"O senhor acredita em intuição?", o homem afirmou que sim, "bem, me chame de louco, é muito parecido, apesar de está bastante machucado no rosto, mas..."

"...mas?"

"mas eu não senti que era meu irmão!"