CAP 1A
A Torre No Fim do Deserto
§ Segundo a trindade divina que criou nosso Universo, a Humanidade vive entre dois mundos. Um deles é o Mundo Subterrâneo, habitado pelos seres de espírito mundano, ou demônios, de acordo com autores mais literários de nossa tradição religiosa.
§ São os demônios que atraem os humanos para formas menos elevadas de pensamento e os prendem a Maya, a ilusão do mundo material, condenando-os a uma existência sem a luz da compreensão de como funciona o Todo, o Universo.
§ O segundo mundo é o Mundo Espiritual ou Divino, chamado de Paraíso pelos autores da tradição literária. É nele que vive a trindade criadora: Brama, Vishnu e Shiva, de onde observam os humanos e nos governam à distância.
§ A trindade deixou para nós um precioso legado: os textos sagrados. Por meio deles, o Homem compreende a si mesmo, aos seus próximos e ao Universo e através da meditação, desperta os sete chackras, canais de energia do corpo e da alma. Quando um ser humano tem domínio de todos os seus chackras, resiste a qualquer demônio que tente enganá-lo e prendê-lo a Maya.
§ Há mais deuses atuando em nossa dimensão, mas de todos eles, somente um encarna em nosso mundo quando a destruição ameaça sobrepujar-se à criação. E este deus é Vishnu, o preservador da ordem cósmica.
A jovem ergueu o rosto das inscrições contidas no tablete de argila e serviu-se de um gole d'água de seu cantil, feito de couro de cabra.
Seu nome era Christina Damodara. Após celebrar seus 21 anos de vida, ela se preparava para enfrentar o maior desafio que uma Brâmane poderia encarar: viajar a um dos cinco locais escolhidos nos territórios selvagens de seu país, onde o clima era hostil e a água escassa. Uma vez lá, seu dever era empregar seus conhecimentos marciais e religiosos para sobreviver às tentações criadas pelos demônios, sem ajuda nenhuma de seus mestres ou amigos.
'-Arf ...aqui é um pouco mais quente do que em Tir'Vali ou Kashara.' -ela arfou, citando o nome da cidade onde morava e a vizinha- 'É melhor eu viajar após o Sol cruzar o meio do céu, ou não chegarei viva naquela torre.' –ela concluiu, guardando o tablete de argila na mochila de couro.
Christina recolocou a paliçada na boca da caverna e tapou a intensa luminosidade, exceto por um facho ou outro de luz que insistia em penetrar a escuridão. Buscando ter o que fazer para passar o tempo, ela mexeu em sua mochila até encontrar sua flauta.
A moça, trajada em vestes típicas de viajantes do deserto, afastou a parte da roupa que encobria sua cabeça e cruzou as pernas, sentando-se em pose de lótus. O silêncio da caverna se desfez conforme ela tocava uma melodia, na qual era narrada uma das batalhas do grande herói lendário Krishna, o salvador de seu povo em épocas remotas.
Assim que o Sol já começava a se pôr, a viajante recolheu seus pertences dentro da mochila, recolocou sua proteção de tecido na cabeça e retomou a longa travessia pelas dunas. No horizonte, era visível uma alta torre, parcialmente encoberta pelas areias do deserto.
...
"-Venho de uma família de Brâmanes. Em meu país, somos a casta mais elevada, composta de estudiosos e mestres religiosos. Somos treinados nas artes da guerra, onde aprendemos a ter disciplina. Devido às meditações que fazemos para alcançar a espiritualização, acabamos tendo contato com o mundo divino e tendo visões do que ainda está por vir. Mas não pense que isso é uma dádiva dos deuses.
Ser um Brâmane é tanto uma bênção quanto uma maldição. Bênção por saber de antemão quais desastres assolarão nosso mundo. Maldição por ter plena consciência de sua vinda e muitas vezes não saber como impedi-los.
Por cinco anos treinei para o desafio que hoje enfrentarei ao ascender os dez andares daquela torre. Mas apesar de todo meu treinamento, encontro-me em muitos momentos duvidando de minha própria capacidade. Minha mãe, Lakshimi Damodara, me diz que isso é normal em jovens da minha idade. Sei que ela tem razão por já ter passado pelo desafio que estou prestes a enfrentar, mas... essa incerteza tem raízes em um lugar tão profundo da minha alma que nem mesmo a meditação consegue acalmá-lo.
Meus mestres me dizem que estou pronta, que já me superei no treinamento... então por que tenho a terrível sensação de que nada me preparou para o que encontrarei nessa torre?"
...
Ao cair do 5º dia de viagem, Christina havia chegado aos pés da imponente construção.
'-Chegou a hora.' –ela disse, observando a torre com um sentimento de insegurança avassalador.
De acordo com seus mestres, a torre era um canal de passagem para o mundo dos deuses. O último nível era acessível somente a brâmanes que despertaram o último chackra e alcançaram o nirvana. Para Christina completar seu desafio, ela deveria adentrá-lo e trazer o objeto que fora depositado em um altar. Se ela fracassasse, morreria de fome e sede no deserto, virando presa dos demônios que infestavam a torre e desencaminhavam seus visitantes com ilusões.
Enquanto subia os degraus da frente, a jovem brâmane pensava sobre uma das visões que vinha tendo desde o começo de seu treino. Em sua mente, ela via o vasto deserto que circundava Tir'Vali, a cidade-estado onde vivia, converter-se em um oceano.
Isso era impossível e Christina bem sabia disso. A cidade e o restante do país eram cercados por uma cordilheira, de onde nenhum homem, nem criatura viva tinha condições de se aproximar, tamanha a força das tempestades de areia naquela região. A água era extraída do subsolo, após infiltrar a encosta das elevadas montanhas. Chuva era algo raro na região, trazida pelas monções durante apenas dois meses do ano. Então por que as visões insistiam em perturbar Christina, que sequer uma brâmane completa era ainda?
A jovem estava tão imersa em seu próprio mundo que não percebeu quando um vulto saiu das sombras e a atacou pela direita.
...
Um grito estridente veio do canto e Christina soube se tratar de um demônio. Ela ergueu seu antebraço para se proteger e a arma do agressor ricocheteou contra sua proteção metálica. A força do impacto fez ambos recuarem, perdendo o equilíbrio. O demônio se recolheu nas sombras como um réptil, ao que Christina reconheceu um par de vívidos olhos vermelhos em um rosto esverdeado.
Arfando de tensão, ela sacou o curto objeto de metal que levava na bainha e o sacudiu, produzindo um alongado bastão. Usando-se de seu treino em luta, ela sentiu o deslocamento de vento por onde o demônio passava, invisível no mundo material, procurando por um ponto vulnerável em sua presa.
Assim que se posicionou rente à sua nuca, o demônio ressurgiu sob forma visível e a atacou, dando um salto no ar. Ágil com o bastão, a jovem girou a arma em suas mãos, defendendo-se do ataque e, com outro giro, golpeou o flanco do inimigo, atirando-o para longe.
Ele guinchou de dor, perfazendo uma parábola pelo ar até colapsar em uma pilastra de mármore. De sua cabeça saía um filete de sangue azul, ao que Christina não se deixou enganar. Demônios não morriam com facilidade. Segundo um dos contos de um famoso monge que viveu há três séculos, ele foi morto enquanto viajava de Tir'Vali a Kashana por um demônio, que forjou sua morte após um breve desentendimento entre ambos e, logo em seguida, garroteou o homem por trás com o próprio cinto.
A jovem ergueu seu bastão e esmagou a cabeça do inimigo, que de fato emitiu um último guincho, agora finalmente morto. A seguir, ela entoou uma prece, completando o ritual de purificação para que a alma do demônio regressasse ao Mundo Subterrâneo.
À sua frente, um par de portas pesadas contendo inscrições cuneiformes protegia a passagem para os nove andares restantes da torre. O último só seria alcançado se Christina fosse capaz de despertar o chackra final ao longo de sua ascensão.
A jovem fechou os olhos respirando fundo, contendo uma crescente ansiedade pelo que devia esperá-la nos próximos andares.
'-Om tat sat srí náráyana tu (Tu és a única verdade, Narayana).' –ela disse em tom de prece, repetindo o mantra para aplacar a insegurança.
Ao abrir as portas para o segundo andar da torre, o som de uma horda de demônios ecoou lá de cima. Recitando a prece em sua mente, a jovem prosseguiu pelos degraus, encarando seis demônios idênticos ao primeiro, prestes a atacá-la.
...
O dia já chegava ao fim quando Christina abriu as portas do nono andar, o penúltimo da torre.
Antes de alcançá-lo, ela passou por oito desafios que testaram se sua energia espiritual já havia despertado em seis de seus sete chackras. Christina resistiu ao demônio da luxúria sob a forma de um homem belo, elegante e alto, que a convidava para descansar em uma confortável cama antes de continuar seu desafio, ao que a jovem negou o convite e lutou contra ele em uma árdua batalha.
A seguir vieram mais demônios nos andares superiores: falsos profetas dando-lhe conselhos mentirosos sobre como não se perder na torre, amigos que a aguardavam em Tir'Vali pelo seu retorno e apareciam na construção do nada, espíritos que a assombravam tentando instilar o medo em sua alma, animais ferozes que surgiam em pleno ar e a atacavam sem dar trégua...
As portas do nono andar se abriram e Christina viu uma cena peculiar. Um rapaz de idade aproximada à sua, trajando roupas de monge e de longos cabelos negros amarrado em um rabo de cavalo alto rezava perante um altar. A jovem se sentiu confusa, pois sabia que o altar somente se encontrava no décimo andar da torre. E quem era aquele monge, que viajara para um local tão inóspito, onde somente guerreiros treinados se aventuravam?
A porta atrás de si fechou sem querer com um estrondo, interrompendo a meditação do rapaz.
'-O que...isso...está fazendo aqui?' - perguntou Christina em um tom um tanto rude, esgotada após as exaustivas batalhas.
O jovem virou-se discretamente e, com distinção, ficou de pé, fazendo a típica saudação dos habitantes de Kashana. Ele reparou que a jovem guerreira apontava para o altar com a ponta do bastão manchado de sangue azul. Em um tom límpido como a água, ele disse:
'-Isto? É um dos altares da torre.'
'-Um dos?' –ela repetiu, desconfiada- '-Não existe mais de um altar. '
'-Não?' –ele fez, questionando- '-Você já esteve antes na torre para saber?'
Christina baixou o rosto e recordou-se do que os textos sagrados diziam. As lutas haviam sido tão intensas que parecia que tudo o que havia aprendido ficara esquecido em sua mente anos atrás.
Ela voltou a encarar o jovem com olhar determinado.
'-Não há dois altares. '
O jovem se limitou a sorrir discretamente, baixando o rosto.
'-Como quiser. De minha parte, creio que já terminei o que vim fazer aqui. Se não se importa, deixarei a torre. '
Christina o observou apanhar uma bolsa de couro que parecia um cilindro do chão e pendurá-lo nas costas, preparando-se para sair. Um silêncio constrangedor se abateu sobre os dois conforme ela avançava pelo recinto e ele marchava até as portas. Nenhum deles disse nada ao outro quando passaram em proximidade no meio do caminho.
Assim que Christina se encontrava no meio do andar, seus olhos distraidamente caíram na estrutura de mármore usada para construir o altar. Ela não sabia se foi o último raio de Sol que sumiu no horizonte ou seu próprio cansaço mental e físico, mas a imagem do altar tremulou, parecendo incorpórea por um segundo.
Imediatamente a palavra Maya (Ilusão) veio à sua mente, fazendo-a arregalar os olhos.
Uma flecha certeira atingiu suas costas,perfurando o colete de couro que protegia seu torso. A velocidade dela foi tamanha que a ponta metálica atravessou seu coração, saindo pela parte da frente do corpo.
'-Você estava certa. ' - disse a tranquila voz do rapaz atrás de si, segurando seu arco em riste. - '-Só há um altar nessa torre. E você nunca irá alcançá-lo. '
A jovem caiu de joelhos, sentindo uma dor lancinante brotar de seu terceiro chackra e rapidamente se espalhar para os demais. A flecha, do que quer que fosse feita, havia contaminado o fluxo de energia em seus seis pontos vitais despertos. Sentindo-se impotente perante os protestos de seu corpo, ela se manteve imóvel por alguns instantes, repetindo em desespero a prece a Vishnu que recitara durante sua ascensão, mas a dor obliterava qualquer pensamento são de sua mente.
Christina estava certa; nada do que aprendeu em seu treinamento a preparou para tamanho sofrimento.
...
O jovem monge aproximou-se dela a passos lentos.
'-Tsc, tsc... para alguém que subiu tão rápido os nove níveis, você parecia ser alguém mais poderosa do que isto.'
A última palavra foi dita com desdém. Os passos ecoavam no silêncio da noite, com o assobio baixo da brisa noturna fazendo-se quase imperceptível. A voz do falso monge aproximava-se da jovem, ainda paralisada pela dor.
'-Sabe, eu não entendo por que vocês humanos insistem em fazer esses rituais tolos. Não entendem que não são nada além de marionetes nas mãos dos deuses? Eles os criaram com um pouco mais de inteligência do que o restante dos outros seres; e daí? Acha que foi para o benefício de sua raça?'
O falso monge observava com deleite o sangue vermelho jorrar das costas da jovem, que havia inclinado o torso para frente, arfando.
'-Hum. Que povo fraco. Durante todos esses anos, vocês só sabem brigar, brigar brigar... até os monges de vocês brigam. E por poder!' –ele deu uma risada curta- '- Isso é que é o mais ridículo! Vocês se declaram guardiões da moral, dizem ter contato com os deuses e, quando menos se espera, um brâmane declara guerra ao outro. Ah, sinceramente!' - exclamou o rapaz, tacando o arco no chão.
A jovem vomitou sangue, tremendo pelo corpo todo, extremamente pálida, sentindo seus derradeiros momentos de vida fugirem sem ela nada poder fazer.
'-E depois nós, demônios, é que somos uma praga a ser extirpada do Universo. HÁ! Vocês se matam entre si e depois que perdem a guerra, culpam os demônios por terem começado tudo. Nós somos usados por vocês e sequer recebemos nada em troca disso, só escárnio! Seus hipócritas! Eu cuspo na cara da criação dos deuses!'
E de fato o demônio aproximou-se de Christina com intenção de humilhá-la ainda mais, caminhando com grande agilidade até seu corpo quase combalido. Mas quando ele a virou, a ponta de um longo objeto metálico acertou em cheio seu rosto.
Com dificuldade, ela se levantou do chão e girou o bastão mais uma vez, dando outro golpe no demônio. E novamente. E novamente. Até que...
'-PARE!' - ele gritou, apavorado.
Christina, que precisou parar para recuperar o fôlego, atendeu ao pedido. Ela estava prestes a morrer, mas a ponta afiada de sua arma estava posicionada em cima do coração do outro. Como se tratava de um demônio, seu instinto natural lhe mandava matá-lo. Porém, algo na voz do falso monge a alertou de que havia algo de errado.
Analisando seus traços faciais com o poucos minutos de vida que lhe restavam, ela então se recordou de uma antiga lenda sobre um demônio poderosíssimo, capaz de possuir humanos sem ser detectado.
'Se eu estiver errada, esse demônio vai se levantar e me matar no instante em que eu baixar minha guarda. Mas e se eu estiver certa? Terei matado um inocente e o demônio continuará vivo, vagando em nosso mundo até achar uma nova presa!'
Engolindo a seco várias vezes, ela decidiu tomar a decisão mais arriscada. Se ela treinava para se tornar uma brâmane, as regras de sua conduta de vida exigiam que ela pensasse primeiro em salvar outros antes de si. Ainda com a ponta do bastão apontada para o falso monge ela entoou uma prece sagrada e invocou imagens de pureza em sua mente, limpando seu espírito. Com seu poder, ela se ajoelhou e tocou no meio da testa do monge, expulsando o demônio de dentro dele.
Quando Christina abriu os olhos, constatou que o rapaz estava desmaiado.
'-Eu quase o matei por culpa de uma ilusão. Os deuses estavam certos, mas aquele demônio estava mais certo ainda. Por mais que eu tenha estudado por todos esses anos, poderia ter cometido um ato de tamanha atrocidade que isso jamais me permitiria tornar uma brâmane de verdade. Ao menos não em meu coração.'
Ela se ajoelhou perante o corpo do rapaz pedindo perdão, apesar de não tê-lo matado e começou a chorar copiosamente, expurgando as frustrações com a difícil ascensão pela torre. Christina compreendia pela primeira vez o que era o peso de ser uma representante dos deuses na Terra e chorava com a limitação dos Homens. Eles eram meros grãos de areia perante os poderes do Universo, traídos por seus impulsos e por sua ignorância.
De repente, ela se sentia muito pequena naquele vasto mundo, muito embora tivesse derrotado hordas demoníacas, resistido a tentações voluptuosas e subjugado feras bestiais. Mas no momento, nada disso importava; Christina entendeu que ela ainda possuía à sua frente uma longa e demorada travessia até tornar-se alguém digna de um dia liderar seu povo.
O choro aliviou seu coração e ela se sentia estranhamente leve, como um pássaro que é embalado pelas correntes de vento enquanto plana acima das montanhas... um sentimento de serenidade que ela nunca experimentou antes inundou sua alma e ela sabia que estava em paz. Não a paz momentânea, que intercalava com a angústia e as demais sensações mudanas; mas a mais absoluta paz.
Ouviu-se um baque e as portas do décimo andar se abriram. Christina tateou seu corpo e não havia nem flecha, nem sangue derramado. O falso altar sumiu de vista e somente restavam o jovem monge desmaiado e seu arco, bem como a aljava guardada dentro de sua bolsa.
Resoluta, a jovem prosseguiu pelo andar final da torre, subindo com crescente ansiedade os degraus brancos. No fim, ela se viu no topo da construção, coroada pelas estrelas e rodeada por uma cerca protetora. No centro estava o altar com uma pequena lótus esculpida em um material raro, cujo nome fora esquecido nas eras antigas do mundo.
'-O símbolo de Vishnu... ' - ela murmurou, apanhando-a entre suas mãos calejadas.
A jovem deu um amplo sorriso, cerrando os olhos, aliviada. Sentindo a suave brisa passar por seus cabelos, o cansaço a fez perder a noção do tempo, quando um tremor a fez despertar.
'-O que... o que está havendo? Que luz toda é essa?'
Sem se dar conta, ela havia adormecido no topo da torre e já era de manhã. Guardando a lótus com cuidado em um bolso interno, ela ajustou seus trajes e fitou a paisagem em volta, sem entender de onde vinham os tremores. Eis que ela ouviu vozes vindas de muito longe e uma súbita tontura tomou conta de si, fazendo o mundo girar. Christina cambaleava conforme imagens inacabadas se sobrepunham umas às outras em sua mente. O turbilhão de visões a deixou nauseada e seu corpo não aguentou. Ela colapsou por alguns instantes, enquanto sua mente transitava entre o Mundo Humano e o Divino.
A cidade de Tir'Vali parecia estar em guerra contra um inimigo desconhecido. As catapultas foram alinhadas por detrás da muralha que a protegia e os flecheiros estavam posicionados nas torres. Assim que soou a trompa militar, ambos atiraram em direção ao inimigo externo, voando para além da fortaleza.
O olhar de Christina seguiu as flechas e ela viu que estava fora da cidade, à frente de suas portas dianteiras. Adiante vinham mais de duzentas tropas do exército de pele azul, indicando que um deus atacava os humanos. Mas quem? Forçando o olhar, ela viu uma mulher de aparência assustadora cavalgando um cavalo branco, hasteando a bandeira com seu símbolo. Não havia dúvidas: aquela era Kali, a deusa da destruição, pronta para inaugurar uma nova era de guerras e morte.
A infantaria continuava a avançar e, apavorada, Chrstina largou seu bastão e correu de volta às portas da cidade, mas os soldados se recusaram a abri-las. As tropas não pararam e estavam prestes a atropelá-la quando a jovem brâmane despertou arfando do sonho.
'Foi uma ilusão? Não, não pode ser. Nenhum demônio possui tamanho poder, a ponto de dominar a psique de um brâmane. '
A resposta veio logo em seguida. Reparando que havia traços marcados em um de seus braços, Cristina reconheceu os símbolos de lótus, indicando que se tratou de uma mensagem divina. Ela sentou-se por alguns minutos para refletir sobre o que os deuses queriam lhe comunicar com aquele sinal.
Após um tempo considerável ruminando lendas antigas, ela finalmente recordou-se de uma profecia, feita há muitos anos por seus antepassados sobre o retorno da deusa Kali, responsável por inaugurar uma era de guerras e morte no mundo. A era profetizada coincidia com o período atual. No entanto, sabia-se que cada vinda de Kali era precedida pelo surgimento do herói Krishna, avatar de Vishnu.
Só havia um problema nessa história toda... Krishna não dera sinal algum de haver encarnado naquele mundo.
A torre sofreu outro tremor violento, e desta vez ele não tinha nada a ver com a ação dos deuses. Christina foi até a beirada da cerca e não via indicação nenhuma de que a torre colapsaria. Então o que estava causando os abalos?
De sua direita ela ouviu uma forte explosão e se virou para ver o que havia ocasionado o estrondo. Seu assombro foi tamanho que Christina deu um longo e agonizante grito, recuando vários passos, tremendo com a visão inexplicável à sua frente.
Parte do deserto havia sido destruída e se transformado em uma grande rede de símbolos luminosos em um fundo negro. Os símbolos subiam e desciam numa velocidade rápida demais para ela acompanhar. Do outro lado havia somente o vazio infinito.
Christina ficou acuada perante a visão aterradora. Nenhum texto religioso, nenhuma profecia explicava o que estava perante de si a não ser uma lenda, aquela que contava da origem do Universo. Sendo incapaz de compreender o fenômeno fora das interpretações dadas pelos brâmanes, Christina entendeu que o que estava perante dela era o grande vácuo, o Nada, que precedia o primeiro instante da Criação e onde somente os deuses podiam trafegar sem serem destruídos.
Seria esta uma evidência de que o mundo estava prestes a ser consumado pelos deuses? Teria seu povo falhado em prever o fim do mundo? E se assim deveria ser, por que Christina, uma brâmane ainda em treinamento, teve de ser a humana a presenciar isso?
Ajoelhando-se em prantos, ela rezou para que os deuses falassem com ela novamente, indicando-lhe um caminho claro do que fazer. Assim a jovem se manteve durante vários minutos, suas preces ecoando angustiadas pelo deserto, até ela começar a ouvir vozes do outro lado do vácuo. Eram vozes fracas, impossíveis de discernir. Estariam elas chamando por si?
Christina lançou um último olhar às dunas, onde ao longe cintilavam as altas torres de marfim de Tir'Vali. A jovem estava em dúvida, temerosa de que suas ações poderiam precipitar a ira dos deuses. Christina havia recebido um sinal claro do Mundo Divino. Kali voltaria e era seu dever como brâmane avisar seu povo para que se preparasse. Mas então, por que os deuses abriram a passagem para o Mundo Divino diante dela?
As vozes tornavam-se mais fortes do outro lado da imensidão negra, fazendo sua curiosidade combater seu temor...
'Se Kali voltar, então Krishna já deveria estar entre nós. Onde ele está? Poderia sua alma ainda estar no Mundo Divino, aguardando um avatar para renascer? Talvez os deuses tenham me dado a missão de encontrá-lo no Mundo Divino e trazê-lo para Tir'Vali. Talvez isso tenha a ver com minhas visões. ' –ela cogitava, indecisa.
A jovem brâmane viu um facho de luz brilhar de dentro da imensidão e julgou que aquele era o sinal pelo qual tanto esperava. Agarrando sua mochila, ela a prendeu firmemente nas costas e correu até o vácuo, fechando os olhos ao deixar o deserto.
Assim que seus pés tocaram o chão, ela sentiu seu corpo esbarrar em algo sólido logo à frente. O vácuo era composto de matéria! Matéria, igual ao mundo humano! Como isso era possível? Mas antes que suas dúvidas fossem respondidas, o facho de luz tornou-se mais forte e Christina sentiu um objeto grande e pesado colidir com seu corpo.
A jovem brâmane foi arrastada por vários metros até o objeto parar. Seu frágil corpo rolou pelo chão macio e sua visão ficou turva. Antes de desmaiar, seu olhar distinguiu uma figura maciça de cabelos ruivos e gentis olhos negros inclinando-se em direção ao seu rosto.
NOTAS:
-Damodara é um dos muitos nomes do deus Vishnu.
-Krishna, um dos avatares de Vishnu, é desenhado tocando uma flauta, sentado com as pernas dobradas.
-Segundo a tradição hindu, a deusa Kali aguardou Krishna desencarnar do mundo para entrar no mundo humano e começar uma era de guerras. A fic seguirá a mesma tendência.
-Maya é o mundo material que, segundo o Hinduísmo, é pura ilusão. Quando morremos, a ilusão some e alcançamos o mundo divino, considerado eterno pela religião.
-A lótus simboliza o grau espiritual mais elevado e o 7º chackra quando aberto.
Como vc percebeu, Christina o despertou ao compreender a totalidade do ser humano e sentir compaixão por ele perante um Universo tão complexo. Diz a tradição hindu que a sensação descrita por Buda ao despertar seu 7º chackra foi "um grande amor por tudo e por todos".
- O 1º cap foi longo por narrar o jogo do qual Christina vem, para que vc se familiarize com ela e mergulhe em seu universo pessoal. Os próximos serão mais curtos e já no cap 2 começa a aventura no arcade, com Christina conhecendo Ralph.
