Capítulo 02

O Topo

Regina não viu mais o ladrão depois daquele dia, o que não impedia de pensar nele, revivendo as memórias de seu encontro. Havia algo nele que era tão vivo, selvagem, um espírito livre num mundo tão ruim de castelos e realezas, que a lembrava de Daniel. Talvez por isso mesmo, quando retornou para a Fortaleza Proibida mais uma vez depois de muitos dias, quase dois meses, tudo que passava em sua mente era o desejo de encontrá-lo.

Tão logo a dragoa deixou o castelo para seguir com suas caçadas, a jovem Rainha já acendia uma tocha e colocava na janela mais alta alinhada com a porta da cozinha. Imaginava que ele veria o fogo de longe e lembraria dela e sua chama, isso talvez o atraísse, se ele ainda quisesse aparecer.

- Desse jeito vai chamar atenção de todos os ladrões nas proximidades - disse uma voz masculina próxima.

Ela já sabia quem era e se voltou feliz para o seu interlocutor:

- Bem, só tem um ladrão que quero receber aqui - falou sorrindo.

Robin Hood fez mais uma vez a reverência, pegando a mão dela com delicadeza e beijando as costas.

- Imagino que não tenha vindo aqui apenas para me ver - ele comentou, embora fosse uma notável provocação.

- Não - a resposta parecia mais uma mentira. - Eu venho aqui estudar, já te disse. Te ver é só algo a mais.

O ladrão sorriu, sabia que aquele era o comum comportamento das mulheres quando estão querendo se apresentar como difíceis de conquistar, mas isto não era um problema, a garota era simpática e divertida, mesmo que com uma língua ferina.

- Como você sabia que eu estaria aqui? - Ela perguntou. - Eu mal acendi a tocha e você já havia chegado.

- Eu estava nas proximidades e vi a dragoa deixando o palácio. Depois apenas pulei o muro e segui pela porta dos fundos - Robin explicou. - Eu não sabia que você estaria aqui, quer dizer, antes eu achava que morava aqui, mas depois das primeiras vezes, vi que era uma visita.

O comentário levou Regina a erguer uma sobrancelha em um pouco de descrédito. Ele estava dizendo que observava o castelo sempre e invadia a cada vez que Malévola saía para procurar por ela.

- Eu estou falando sério! - Ele falou rindo. - Onde você mora? Assim fica mais fácil para te visitar.

A jovem imediatamente mudou de postura com a pergunta. Era uma questão tão desagradável que ela precisou de mais do que alguns segundos para responder algo simples, pois simplesmente não se via falando a verdade.

- Por favor, não me pergunte isso - falou num tom triste. - É complicado.

Sabendo que a havia deixado chateada, Robin chegou perto dela e tocou-a no rosto com carinho, passando o polegar em sua bochecha como uma espécie de carícia para que ela se sentisse melhor.

- Você não tem que dizer nada que não queira - ele disse. - Só quero que fale caso se sinta confortável.

Era tão gentil, como estar num sonho, ela pensava. Antes mesmo que se desse conta, Regina sabia que estava criando sentimentos por aquele homem, o primeiro homem a vê-la como ela era de verdade, respeitá-la e tratá-la como ela merecia desde que Daniel falecera. Ela acabava sendo tão transparente em seus olhos e seus sentimentos que ele só poderia ter notado, pois se inclinava e depositava um beijo suave sobre os lábios dela. Era tão gostoso, tão diferente dos beijos que recebia de seu Rei, poderia ficar ali para sempre se soubesse uma magia para fazer o tempo parar. Quando se afastaram, ele disse:

- Você deve ser mesmo especial, nunca conheci ninguém que me fizesse sentir assim.

Ela só riu, incapaz de formar palavras depois de um beijo tão bom. Robin era perfeito, o momento era maravilhoso, o lugar, tudo, só queria estar ali, ficar com ele.

- Então é para isso que você veio?

A voz ecoou do corredor, mas não havia um corpo visível a quem pertencesse. No entanto, Regina sabia de quem era e o seu coração se comprimiu no peito em susto e medo do que poderia acontecer com o ladrão. Imediatamente Robin a abraçou em uma atitude instintiva e protetiva, mas ela se afastou, pois aquilo precisava ser conversado.

- Claro que não, Malévola - a Rainha disse. - Eu vim para estudar e ficar com você. Robin é meu amigo e veio me visitar.

- Robin de Robin Hood? - Ela perguntou desgostosa.

Com estas palavras, a mulher loira se materializou diante do casal, revelando uma expressão séria, fria, como se esperaria de uma poderosa feiticeira das trevas. Ela fechou os olhos e inspirou o ar com um pouco de força, como se farejasse, ao que se voltou para a Rainha:

- Acho que encontramos o "rato".

Não era uma pessoa que pudesse enganar por muito tempo, claro que Malévola já havia ligado os pontos e entendido o que estava se passando. Ela olhava para Regina e seus olhos de intenso azul diziam mais do que raiva, carregavam uma tristeza sem igual, decepção. A Rainha queria falar, queria pedir desculpas, mas sabia que a situação estava longe de qualquer conserto. A dragoa então apontou o cajado na direção do homem, ao que a morena se colocou na frente para protegê-lo.

- Saia da frente, Regina - ela mandou.

- Não, Malévola, por favor! - A Rainha implorou. - Por favor, não o machuque!

- Você vai proteger um ladrão que invadiu o meu castelo?! Sério?! - A loira estava furiosa com aquela atitude, ao que batia com a ponta do bastão contra a parede. - Você está tão idiota assim por ele, um homem que você conheceu outro dia? Não pode se apaixonar por quem acabou de conhecer.

As palavras da dragoa deixaram Regina mais do que apenas magoada, incendiavam as trevas que começavam a brotar em sua alma. Era como se a loira não estivesse permitindo que ela pudesse ser feliz. As palavras acabaram saindo tão rápidas quanto o seu pensamento:

- Não pode ficar com raiva porque eu gosto dele! – E nem se importava com a sinceridade das mesmas, de estar expondo os seus sentimentos da frente do ladrão. – Eu gosto dele!

Os olhos de Malévola mudavam de cor e ficavam grandes e verdes como os de um gato. Estava acordando a fera que havia dentro dela, fazendo crescer o seu fogo interior. Apontou mais uma vez o cajado para o homem e disse lenta e pausadamente, com o mais puro desprezo:

- Suma daqui, humano.

Regina ia ficando cada vez mais tensa, porém Robin saiu de trás dela com a sua coragem e orgulho, ao que se dirigia para a dragoa:

- Olha, Malévola...

Mas ela sequer deixou que ele terminasse a frase e já lançava um feitiço que o fez ser envolvido por algo como um chicote de luz e lançado para fora da janela. Quando Regina correu para o para-peito, sabendo que uma queda daquela altura seria a morte certa, a feiticeira o fez desaparecer em meio a fumaça negra, sumindo em pleno ar. A Rainha ficou sem palavras durante algum tempo, apenas olhando fixamente o ponto em que o vira sumir.

- Foi melhor assim. Eu não confio em quem tente invadir meu ninho para roubar.

Mas, a este ponto, a morena já havia respirado o bastante para ter o ar de falar o qu desejava:

- Como pôde?! – Ela explodiu com a voz alta e agressiva. – Como pôde fazer isso? Eu gostava dele!

- Exatamente! – A dragoa falou agora já muito mais calma. – Não foi você quem disse que a vingança era a única coisa em sua vida? Além do mais, acha mesmo que daria certo pra você? Você que deseja ter o coração mais cheio de trevas do que o meu, o coração mais negro da Floresta Encantada? Você está fadada a ficar sozinha enquanto só tiver olhos para a sua vingança, eu te fiz um favor.

- Você está errada... – A voz se tornava baixa e nem por isso menos enfurecida. – Você... – Não consegui pensar numa resposta que fosse a altura, que rebatesse tudo aquilo que ela sabia possuir um fundo de verdade, não aguentava escutar o que merecia ouvir, pois tinha a esperança ainda de ser diferente e estar errada. – Você é igual a minha mãe.

Pronto. Regina ultrapassara qualquer limite em suas palavras e agora nem Malévola tinha uma resposta. A face da loira só conseguia demonstrar uma coisa: tristeza, porém o sentimento não durou muito, pois a Rainha não conseguia mais parar:

- Eu sei que você gosta de mim e eu agradeço, pois eu também gosto muito de você. Você é a minha única amiga, mas... – A escuridão aflorava de seu peito e tomava forma em sua boca. – Você não tem como suprir tudo que eu preciso de alguém. Nós duas somos muito diferentes, você nem ao menos é humana de verdade.

Isso deveria ser uma ofensa, mas a dragoa não enxergava assim, em verdade, se achava até bastante humana, ou o suficiente para não ser tão um dragão, mas também não era uma pessoa. Seus dedos apertavam o cabo do cajado, dedos que não eram seus de verdade, mas apenas um feitiço para encobrir a sua forma de réptil gigante.

- Verdade, somos muito diferentes – Malévola disse com certa ironia. Porém, seu impulso de revidar a abandonava. Estava cansada demais para isso, era Briar Rose outra vez. Suspirou e respondeu: - Faça o que quiser.

- Eu faço – Regina continuava valente. – Nós somos mesmo muito diferentes e eu não vou deixar que você fique no meu caminho, não vou deixar que me impeça de alcançar os meus objetivos, como tem feito todo esse tempo.

A única reação da loira foi a de erguer uma sobrancelha, questionando a veracidade do que estava escutando. Isso deixava a Rainha furiosa:

- Sim! Sim, você tem toda esse poder toda essa magia... Eu li o seu maldito livro! Eu o li milhares de vezes, o livro que você mesma escreveu, e eu sei que você é a feiticeira mais poderosa da Floresta Encantada, talvez até mais forte que o próprio Dark One!

De fato existia esse questionamento entre os dois magos, o que fez a dragoa revirar os olhos de forma involuntária com o simples pensamento. Isso apenas fazia com que a jovem continuasse a indagar:

- Então por quê? Por que não me ensina? Você tem os meios, a capacidade, então por que escolhe não utilizá-los para me ensinar?

Malévola a olhou muito bem e demoradamente. Tal qual a criatura milenar que ela era, sabia que o tempo era necessário para tudo, inclusive para dar respostas que as pessoas não estariam preparadas para ouvir. Mas também não queria que Regina a odiasse, isso partiria o seu coração novamente e talvez, agora, não fosse mais possível ter volta. Sendo assim, sua emoção levou a melhor e acabou dizendo:

- Vá buscar a sua felicidade, Regina, mesmo que seja bem longe daqui.

Foi uma resposta bem diferente do que a morena esperava, pois ela abriu grandes olhos desesperados, quase assustados, pois não acreditava que a outra estivesse desistindo dela assim tão fácil.

- Eu vou.

Não trocaram mais palavra ou olhar, ao que a Rainha apenas deixou o castelo e dirigiu aos estábulos para pegar o seu cavalo.

Não havia qualquer arrependimento, apenas uma decisão firme, um objetivo gravado a ferro em brasa na sua mente. Cavalgou com todas as forças de Rocinante, percorrendo os arredores das montanhas, seguindo pelas vilas, as clareiras e as florestas, mas não conseguia encontrar o ladrão. Por fim, desistiu e acabou retornando para o palácio de seu marido, ou a sua própria prisão, para ficar sozinha com os seus pensamentos.

Enquanto isso, Malévola se servia de uma grande taça de vinho enquanto mirava o fogo a crepitar em sua lareira. Talvez Regina estivesse certa, talvez a dragoa realmente não quisesse ensiná-la a usar magia, mas será que a ocorrera que fizera isso para proteger a morena?

- Somos mesmo diferentes...

Acabou falando sozinha, para si mesma. Sua raça não era como os humanos, criaturas fúteis, egoístas, breves e apaixonadas por tudo que o tempo pode vir a tirar de uma vida. Mas Malévola não era assim, ela era eterna e amava tudo que não poderia ter fim. Por isso ela não sabia lidar quando o seu amor recaía sobre algo fugaz, cujo fim chegava cada vez mais perto. A inocência de Regina se esvaía diante dos seus olhos não poderia fazer nada quanto a isso, exceto deixar que a garota perseguisse a própria felicidade.

- Ainda que ela se destrua...

Pois a amava demais para conseguir pará-la, a amava demais para conseguir conviver com o ódio que qualquer atitude sua no sentido de impedir a outra pudesse gerar. Exatamente como Briar Rose.

O cálice de vinho voou e foi parar nas chamas, fazendo com que brilhassem ainda mais intensas pelo álcool.