Sinopse: Tommy e Kimberly estão frente a frente, o que resultará disso? Qual o motivo que a levou a deixá-lo? Existe realmente outra pessoa em sua vida?

Censura: T.

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Residência dos Campfield.

Passado.

A porta da sala se abriu com um rangido. Ela entrou sorrateira, na ponta dos pés segurando as sandálias de salto plataforma cor-de-rosa. Aísha acordou assustada, havia adormecido no sofá esperando pela amiga que não chegava. Acendeu a luz do abajur que ficava na mesinha do telefone, e piscou os olhos com dificuldade por causa da claridade.

- Kim, é você?

- Miau!- sussurrou Kimberly, zombeteira.

- Não pense que me engana- falou Aísha fingindo estar zangada. – Você sabe muito bem que há três semanas descobri que a minha gatinha de estimação era bem mais que uma gatinha.

Kimberly balançou a cabeça negativamente ao se lembrar do plano terrível de Rita e Zedd para destruí-los usando Katherine como espiã na forma de uma inofensiva gatinha branca. Apesar das coisas terem se resolvido, e de Kimberly ter confiado em passar seus poderes para ela, havia algo em Katherine um tanto ameaçador, principalmente no que se referia a Tommy. Kimberly percebia nitidamente o interesse dela pelo seu namorado, mas mesmo assim não dava o braço a torcer e era sempre muito simpática com ela para mostrar que não se sentia ameaçada.

- Por onde andou Kim? Meus pais já estavam preocupados pensando que você tinha tido um outro piripaque por causa dos treinos de ginástica. Fui até o ginásio te procurar e o Ernie disse que você tinha saído de lá com o Tommy. Para onde foram?- indagou Aísha, mais curiosa do que zangada.

- Ah, nada demais. Eu e o Tommy fomos até o parque conversar.

- E ficaram lá até essa hora? Digo, vocês não foram pra nenhum outro lugar, foram?- Aísha perguntou empolgada.

- Não Aísha, nós só conversamos sobre a minha partida pra Flórida. Mas confesso que durante a conversa eu me senti um pouco estranha.

- Como assim estranha? Amiga o que aconteceu? Me conta por favor!

Mas antes que Kimberly pudesse dizer alguma coisa, Lionel, o pai de Aísha surgiu de pijamas na sala e acendeu o interruptor de luz surpreendendo-as.

- Meninas, estão acordadas até essa hora? Já passa da meia-noite. E você Kimberly, chegou agora?

- Estávamos estudando papai.- falou Aísha, atropelando as próprias palavras.

- E onde estão os livros?- ele perguntou, desconfiado.

- Bem, na verdade Sr. Campfield estávamos discutindo um trabalho em dupla que iremos apresentar amanhã.

- Sei- ele falou sem acreditar muito. – Acho melhor irem dormir, já é tarde.

As duas levantaram-se rapidamente do sofá e correram para o quarto, fechando a porta atrás de si.

- Kim, anda me conta!- Aísha insistiu enquanto procurava a camisola debaixo do travesseiro.

- Foi estranho porque...ah sei lá, ele me beijou diferente. Daí eu senti uns arrepios pelo corpo inteiro, uma coisa tão boa. Daí me deu uma vontade de pedir pra ele me tocar, queria que ele pegasse nos meus seios...mas não tive coragem porque se eu pedisse um negócio desses ele ia achar que eu sou uma oferecida.

- Eu sei como é.- Aísha sorriu. – Já senti isso com o Jordan, mas o máximo que eu deixei foi ele me dar uns beijinhos no pescoço.

As duas riram baixinho, cúmplices.

- Então eu disse que queria ficar com ele a noite inteira.

- Não acredito.- Aísha levou a mão direita à boca. – E o que ele disse?

- Disse que já era tarde e que devíamos ir pra casa.

- Ahhhhhhh, esse Tommy às vezes é um banana!.- resmungou Aísha. – Mas me diz, você pretende fazer amor com o Tommy antes da sua partida? Seria tão romântico.

- Eu não sei Aísha. Eu vou fazer 18 anos em Fevereiro, mas não sei se estou preparada, fazer amor é algo muito sério. Eu o amo, mas não quero que isso aconteça por causa da minha partida. Quero que seja algo mágico, inevitável.

- Nossa!- Aísha sorriu. – Bem, eu pensei no Jordan.

- Pensou no Jordan pra quê?- indagou Kimberly já vestida com o pijama e cobrindo-se com as cobertas.

- Você sabe.

- Aísha!- Kimberly falou em tom de repreensão. – Você o conhece há três semanas, não acha que é muito cedo?

- Talvez, mas eu tenho curiosidade, você sabe.- ela falou justificando-se.

- A curiosidade matou o gato, já dizia minha avó- falou Kimberly. – Acho melhor dormirmos, e você pense bem no que vai fazer. Boa noite.

- Boa noite.- Aísha respondeu.

O silêncio reinou por alguns segundos, até que Kimberly falou:

- Aísha?

- O quê?- Aísha perguntou, sonolenta.

- Amo o Tommy, jamais teria coragem de deixá-lo, por nada nesse mundo. E morreria se ele me deixasse também. Estou com medo dessa viagem, com medo de perdê-lo enquanto eu estiver longe, tenho pressentimentos ruins. Você acha que a Katherine conseguiria tirá-lo de mim?

- A Katherine? Por que a Katherine?- perguntou Aísha, fazendo-se de desentendida.

- Não se faça de boba Aísha, você sabe que ela tem interesse nele, é a fofoca do ano. Você acredita que o Skull teve a cara-de-pau de me perguntar se caso eu e o Tommy terminássemos por causa da Katherine, se eu ficaria com ele?

Aísha riu.

- O Skull é um idiota mesmo. Mas acho que você está se preocupando a toa. Sim, tem razão, a Kat está interessada nele, todo mundo comenta. Mas é você quem ele ama. Agora vamos dormir, temos que acordar cedo. Boa noite outra vez.

- Boa noite.- respondeu Kimberly mecanicamente, estava preocupada mas logo o sono veio fazendo com que ela se esquecesse do que a perturbava. Nos seus sonhos via a si mesma ganhando medalhas e sendo aplaudida pelas pessoas, um sonho que para ela estava prestes a se concretizar.

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Ginásio da Universidade de Miami.

Presente

As pessoas ao redor, inclusive o técnico Schimdt, pararam tudo o que estavam fazendo e voltaram seus olhos para aquela estranha cena. Kimberly paralisada com o olhar em choque na direção de um rapaz alto, de belos olhos e longos cabelos negros presos em um rabo de cavalo. À medida que Tommy se aproximava dela, ela se sentia mais tensa. O treinador colocou-se ao lado dela de modo protetor, como se ele fosse um lobo mal se aproximando de uma de suas ovelhinhas e o encarou. As outras ginastas olhavam extasiadas para ele e cochichavam entre risinhos quem ele poderia ser.

Quando finalmente se aproximou dela, olhou-a diretamente nos olhos antes de voltar-se para o treinador Schimdt. Ela realmente parecia assustada, mas não foi só isso que ele leu em seu olhar. Seus olhos faiscavam indicando várias coisas, entre as que ele conseguiu compreender viu amor e saudade, e isso lhe deu um pouco de esperança e autoconfiança. Sem que ela falasse uma palavra, Tommy agarrou sua mão e entrelaçou seus dedos nos dela, olhando para o treinador Schimdt. O homem, que a princípio parecera a Tommy confiável e paternal, agora a seus olhos assumia uma personalidade ambiciosa e desagradável, do tipo que não mede conseqüências para conseguir seus objetivos.

Tommy tinha experiência de sobra em lidar com o mal, devido ao tempo em que era um ranger. Mas com certeza, era muito mais fácil lidar com seres malignos por excelência do que com seres humanos, com seus comportamentos imprevisíveis. No entanto, isso não o desanimava, e ele se dirigiu calmo e educado ao treinador, contendo o nervosismo que sentia ao segurar a mão de Kimberly outra vez:

- Treinador Schimdt, é bom vê-lo outra vez. O senhor se lembra de mim, Tommy Oliver de Alameda dos Anjos?- indagou Tommy estendendo sua mão cordialmente para o treinador, que a apertou sem nenhuma emoção. – Como o senhor pode imaginar, eu vim de muito longe para vê-la, por isso o senhor não se importaria se conversássemos um pouco agora, já que vejo que ela terminou sua rotina.

O homem mostrou-se impassível por alguns segundos, o que deixou Tommy um pouco preocupando acreditando que ele poderia pôr todo o esforço dele a perder. Porém, o treinador Schimdt surpreendeu Tommy com um meio sorriso:

- Talvez sua vinda tenha sido providencial. Kimberly tem trabalhado muito, e acredito que um pouco de distração irá ajudá-la a melhorar. Por favor, sintam-se à vontade para sair e conversar. Gostaria apenas que Kimberly assinasse e justificasse sua ausência em sua ficha com Baby. Em seguida, o treinador apertou mais uma vez a mão de Tommy: - Prazer em vê-lo, Sr. Oliver.-e se afastou gritando para as outras ginastas que tinham ficado prestando atenção à conversa: - Vamos todas, de volta ao trabalho, agora!

Tommy tinha ficado feliz em saber que o treinador apreciava sua visita, mas não imaginou que fosse obter permissão para tirá-la do ginásio. Quando resolvera lhe procurar para conversar, o mínimo que esperava era que o treinador cedesse um momento no próprio ginásio para que conversassem, mas conversar em outro lugar? Ele não tinha se preparado para isso, o que o deixou ainda mais ansioso.

Quando o técnico se afastou, Tommy voltou seus olhos para Kimberly, mas sem soltar-lhe a mão. Ela o olhava sem dizer uma palavra, seu rosto denotava apenas surpresa, nervosismo e ansiedade. Sem mais conseguir se conter, Tommy envolveu-a em um carinhoso abraço, ao qual ela correspondeu sem pestanejar. Ele podia sentir a ansiedade dela devido ao suor incessante de suas mãos. Finalmente, ele resolveu falar com ela:

- Como é que nós saímos daqui, linda?- perguntou com a voz mais doce do mundo, da forma que costumava chamá-la quando namoravam em Alameda dos Anjos.

Mas ela não respondeu, apenas assentiu a saída com um movimento discreto da cabeça, puxando-o delicadamente pelo braço até a rampa que dava para a recepção onde estava Baby. Tommy não conseguia parar de sorrir, e sorriu ainda mais quando viu um leve sorriso de satisfação se formar nos lábios de Kimberly. Quando chegaram à recepção, Kimberly se manifestou pela primeira vez :

- Oi Baby.- falou, saudando a recepcionista.

- Oi querida. – saudou Baby de volta, sorrindo. – Vejo que seu namoradinho encontrou você.

As palavras de Baby fizeram com que Kimberly voltasse seus olhos para Tommy, que por um momento imaginou que ela fosse corrigir a mulher dizendo que não eram mais namorados. Mas ela não fez nada disso, a única coisa que seu olhar dizia era que estava contente em vê-lo, e isso foi o suficiente para que Tommy sentisse como se tivesse voltado no tempo, para as tardes ensolaradas no parque da Alameda dos Anjos, passeando com ela de mãos dadas.

- Então Baby, o que fazemos agora?- Tommy perguntou, sem se dar conta da ambigüidade de suas palavras.

Percebendo isso, Baby sorriu e gracejou:

- Suponho que vocês saibam o que fazer!

Kimberly ficou um pouco sem graça com a brincadeira. Tommy pigarreou e falou, tentando desfazer a confusão: - Me refiro à burocracia para Kimberly sair daqui um pouco.

Percebendo o mal estar dos dois, Baby desculpou-se: - Ah queridos não fiquem ofendidos, eu estava só brincando, porque imagino o quanto estão ansiosos para ficarem a sós e conversarem. A única coisa que precisam fazer é assinarem a ficha quando retornarem, ok?

Retornar? Por um breve momento de insanidade Tommy teve vontade de pegá-la nos braços e sair correndo para nunca mais voltar, agora que a tinha de volta não estava disposto a deixá-la mais.

- E se nós não voltarmos esta noite?- ele arriscou.

- Então fiquem sabendo que quando retornarem pela manhã provavelmente as coisas de Kimberly estarão na rua.- a mulher falou em um tom de voz muito sério. – Não pense que o treinador Schimdt vai ser bonzinho com Kimberly só porque é a primeira vez que aparece um visitante para ela. Se a srta. Hartie não estiver aqui até às sete da noite, o treinador não vai pensar duas vezes em dar um pontapé nela para fora do programa de treinamento.

- Não se preocupe Baby, estaremos de volta antes das sete.- Kimberly falou com bastante seriedade, o que deixou Tommy menos confiante.

Então ela o puxou na direção da escada que dava para os alojamentos. O deixou esperando em uma pequena saleta de visitas enquanto foi até seu quarto para tomar um banho e se trocar. Quando voltou estava com os cabelos castanhos soltos e vestia uma calça jeans estilo corsário, clara, combinando com uma blusa de alcinhas amarelas amarradas nos ombros, e calçando um par de sandálias de salto alto brancas amarradas nos tornozelos , de um estilo que Tommy nunca a vira usar antes, fazendo-a parecer mais adulta. Tommy pegou sua mão e os dois saíram caminhando em silêncio para fora do ginásio rumo ao ensolarado início de tarde de Miami.

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Depois de andarem algum tempo em silêncio, Tommy perguntou tentando puxar assunto:

- Você conhece algum lugar legal onde podemos comer alguma coisa e conversar?

- Creio que sim mas, você sabe que não posso quebrar minha dieta ou o técnico me mataria.

- Que se dane o técnico- Tommy falou sem pensar, mas logo em seguida consertou: – Digo, vamos comer algo decente e bem gorduroso como nos velhos tempos, o que me diz?

Ela esboçou um sorriso: - Está bem!

- Onde podemos conseguir um táxi por aqui?

Kimberly apontou para o outro lado da rua e os dois seguiram. Logo um táxi amarelo passou por eles, e Tommy fez sinal para que ele parasse. Os dois sentaram-se no banco de trás, e o motorista de traços orientais perguntou:

- Para onde senhores?

- Nos leve para o melhor restaurante de Miami.

- Então vou levá-los ao "Sunshine".- e dizendo isso, o motorista seguiu seu destino.

Kimberly voltou seus olhos para Tommy um tanto surpresa. Ele compreendeu que ela o olhava assim porque durante todo o seu relacionamento jamais tinham ido a um lugar como esse, eram adolescentes e o melhor lugar para se ir em Alameda dos Anjos era o Juice Bar. Mas para Tommy, aquele momento pedia outra coisa, algo mais adulto e especial para a conversa que iriam ter. Além do mais, ele queria mesmo surpreendê-la.

- Tommy você não precisa fazer isso pra me impressionar.- ela falou.

- Te impressionar? Você pensa que estou fazendo isso pra te impressionar? Só acho que faz muito tempo que a gente não se vê e eu não queria te levar em um carrinho de cachorro quente.

- Bem, eu pensei...- mas antes que ela pudesse falar ele a cortou.

- Kim, o que quer que você esteja pensando, não se preocupe com isso agora. Só estou tentando fazer você se divertir um pouco, se distrair do trabalho duro que vem fazendo. Isso é tudo. Se você pensa que meu comportamento tem algo a ver com a última carta que recebi, falaremos disso depois.

Kimberly engoliu em seco. Falar da "carta" era um assunto que ainda estava evitando desde que ele a procurara no ginásio.

Escuta, vamos apenas nesse momento almoçar e ficar um pouco juntos, está bem?

- Está bem- ela concordou.

Ele a puxou mais para perto, e instintivamente ela colocou a cabeça em seu peito. Tommy não precisava de mais nada na vida naquele momento.

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A conversa no restaurante estava sendo animada e desinteressada. Tommy falava sobre Alameda dos Anjos, a escola, seus amigos, e Kimberly por sua vez comentava sobre a rotina dura de treinamento da ginástica, os passeios ocasionais com as amigas ginastas, e outras banalidades. Quando o garçom trouxe para eles mais uma rodada de batatas fritas, Kimberly reclamou:

- O que é isso? Um complô contra a minha silhueta?

Tommy riu, e comentou:

- Nossa, estou quase ouvindo a Tanya falar. Todas as vezes que vamos ao Ernie e pedimos fritas, hámburgeres e outras coisas ela faz comentários como este. Você ia gostar de conhecê-la.

- Eu adoraria.- falou Kimberly. – E como está a Katherine?

- Ela está bem, risonha como sempre.

- Risonha?- Kimberly indagou, enquanto acrescentava batatas em seu prato de salada. – Eu tinha uma outra imagem dela, um pouco séria demais.

- Que nada, ela é uma ótima pessoa, você escolheu muito bem a quem passar seus poderes.

Kimberly deu um sorriso triste. E os outros, como estão?

- Ah o Rock comprou um carro. Uma lata velha de segunda mão.- Tommy riu. - Mas tem quebrado o galho quando saímos nos fins de semana, embora o motor costume pifar a cada dez minutos e o Billy precise descer do carro para consertá-lo.

Kimberly riu: - E o Billy? E Adam? Sinto tanto a falta deles.

- O Billy está bem diferente agora, você tinha que ver. Está usando lentes de contato. Tá fazendo sucesso com a mulherada. E o Adam tem se dedicado bastante à música, ele está aprendendo a tocar piano e se vira muito bem com a guitarra, está pensando até em montar uma banda. Como a Tanya canta muito bem, tudo indica que ele a escolherá para ser a vocalista.

Kimberly sorriu: -E você tem mantido contato com os outros? Aísha sempre me escreve da África.

- Sim, claro, ela sempre me manda e-mails. Converso sempre também com Jason e Zack pela internet, e falei recentemente com a Trini pelo telefone.

- Falei com ela no ano novo. Sinto tantas saudades dela, de seus conselhos.- ela fez uma pausa e respirou profundamente para então continuar: -Quando ela estava por perto eu nunca me sentia perdida.

- Se sente perdida agora?- Tommy perguntou de supetão, aproveitando a deixa dela..

Kimberly desconversou:

- E o Ernie? E Bulk e Skull, os mesmos bobocas de sempre?

O Ernie está ótimo. Está até pensando em abrir um bar na praia. Quanto a Bulk e Skull, agora são detetives e trabalham pro tenente Stone que você não vai acreditar, foi expulso da polícia, jamais pensei que isso pudesse acontecer.

- È estranho mesmo, porque o tenente Stone sempre foi um homem tão competente.

Tommy deu de ombros: - Isso é o que dá pôr grandes responsabilidades nas mãos de Bulk e Skull. Mas Kim, não fuja da minha pergunta. O que está acontecendo com você? Sinto que você não está bem, que existe algo que te incomoda, e não estou falando do fato de estar surpresa com a minha presença aqui, e sim de outra coisa.

Ela engoliu rapidamente o refrigerante do seu copo, e desconversou novamente:

- Tommy, conte-me sobre a equipe, os novos poderes Zeo. Aísha me falou algumas coisas mas creio que não sei muito.

Tommy respirou fundo e resolveu fazer o jogo dela, afinal sabia que não adiantava nada forçar a barra para que ela falasse, a conhecia muito bem. Então explicou tudo sobre os cristais Zeo, os novos vilões que estavam enfrentando, a chegada de Tanya à equipe, etc. Falou de Zordon e Alpha, e contou que Billy já não participava mais da equipe como um ranger, ele passava a maior parte do tempo trabalhando com Alpha e Zordon no Centro de Comando.

Depois disso, a conversa prosseguiu agradável e sem cobranças. Kimberly ainda falou da saudade que sentia dos pais e da vida que levava em Alameda dos Anjos. Quando terminaram de comer, Tommy pagou a conta e eles se levantaram da mesa em direção à saída. Ele não sabia ainda como começar a tão terrível conversa que certamente os aguardava, ainda mais devido às reações dela a qualquer tentativa que ele tenha feito de fazê-la se abrir.

Uma vez fora do restaurante, os dois se depararam com uma tempestade tropical surgida do nada. Acabou com todos os planos de Tommy de levá-la para uma praça ou um parque tranqüilo onde pudessem conversar, e o shopping estava mesmo fora de cogitação, por isso falou, arriscando levar um não:

- Kim, eu não vim até a Flórida à toa, precisamos ter uma conversa séria.

- Eu sei.- ela respondeu nervosa.

- E já que está chovendo muito...- ele hesitou, com medo da reação dela. Mas criou coragem e perguntou: -Você se importaria se fôssemos conversar em meu quarto no hotel, está chovendo muito e eu acho que esta não é uma conversa que possamos ter em um shopping, por exemplo.

Ele ficou prestando atenção à reação dela ao seu ousado convite. Mas Kimberly puxou uma respiração profunda, e respondeu sem rodeios: - Está bem!

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Os vinte minutos seguintes que permaneceram no carro indo em direção ao hotel "Jardim Primavera" passaram voando para Tommy. Os dois ficaram em silêncio durante todo o trajeto, mesmo quando chegaram ao quarto e entraram, com Tommy fechando a porta atrás de si. A conversa finalmente aconteceria, pensou Tommy, não tinha mais como voltar atrás.

Kimberly sentou-se na cama, tirou os sapatos e escorou as costas no batente, colocando as pernas para cima, e abraçando os joelhos. Tommy imaginou que aquela posição dela significava receio, o mesmo que ele também sentia quando se sentou na outra ponta da cama, também tirando os sapatos, distante dela. Foi então que ele mesmo quebrou o gelo:

- Kimberly?

Mas ela não respondeu, seus olhos apenas travaram nos dele. Tommy então continuou, sabia que seria ele quem teria de começar a discussão já que fora ele próprio quem não aceitara a decisão dela dita na carta, indo para a Flórida tomar satisfações.

- Eu sei que não escrevi pra você com a freqüência que deveria.

- Não foi sua culpa.- ela apressou-se em dizer. – E não é o que você pensa!

- Não é o que eu penso?- ele indagou, sem entender.

- Que foi negligência sua e por isso eu encontrei outra pessoa.

- E existe mesmo outra pessoa?- Tommy perguntou, suor frio escorrendo pelas mãos, o coração acelerado.

Kimberly estava nitidamente fazendo força para conter as lágrimas, mas era inútil, seu rosto já estava tomado por elas.

- Sim, existe. – Mas não deixei de amar você, é complicado. As coisas simplesmente aconteceram.

Tommy sentiu uma pontada no coração. Sim, existia outra pessoa, no entanto ela ainda não deixara de amá-lo. Como resolver isso? O fato de ela ainda amá-lo não significava nada, pois tinha escolhido o outro. Mas naquele momento acreditou que isso era uma vantagem, percebia nitidamente o quanto ela estava balançada com a presença dele, e por mais desonesto que parecesse pretendia usar isso para tê-la de volta.

- Eu também ainda te amo muito, mais do que você imagina. E por isso vim até aqui, porque não posso continuar sem você. Porque não existe nada mais vazio do que isso, do que esse inferno em que estou sendo obrigado a viver.

Ela não se moveu do lugar, parecia paralisada. Tommy então se aproximou dela o máximo que pôde, ficando um de frente para o outro na cama, ambos sentindo-se inevitavelmente atraídos. Naquele momento, Tommy pensou no quanto era perigoso estarem ali sozinhos naquele quarto. Nunca tinha tido Kimberly em sua cama, e não sabia quanto tempo conseguiria se controlar sem agarrá-la e beijá-la. Ela sempre o fizera ferver, expressão usada por seu amigo Jason para se referir a um dos sentimentos que Tommy tinha pela namorada, e tê-la ali, olhando-o daquele jeito, totalmente vulnerável, aumentava ainda mais a tensão. Kimberly continuou olhando profundamente nos olhos dele, e enterrou as mãos em seus cabelos, se aproximando ainda mais.

Tudo o que Tommy queria naquele momento era jogá-la na cama e beijá-la até faltar-lhe o ar, e mandar todas as perguntas que tinha pro inferno. Mas sabia que as coisas não eram bem assim, que se deixasse tudo pra lá em outro momento as perguntas voltariam para assombrá-lo, e foi por isso que fez as tais perguntas que não queriam calar, ao mesmo tempo em que tirava a carteira do bolso e jogava diante dela a carta surrada:

- Por que resolveu me deixar? Por que me escreveu esta carta? Onde foi que eu falhei com você?

Ela abaixou o rosto sem tocar na carta, não queria olhar pra ele. Tommy então pegou o papel de cima da cama e o atirou no chão do quarto, em seguida segurou firme, no queixo dela, mas sem machucá-la forçando-a a olhar pra ele.

- Eu sou um irmão pra você, Kim? É assim que você me vê?

As lágrimas caíam de seus olhos incessantemente. Tommy percebeu que a verdade do que estava pedindo era muito dolorosa para ela, mas ele precisava saber.

- Eu não tive escolha, Tommy.- ela alteou a voz, atordoada.

Ele nada disse, apenas a observou.

- Após o natal as coisas pareciam muito bem, mas você não fazia idéia de como eu me sentia tendo que deixar tudo outra vez, a minha vida, cidade, amigos, você. Eu estava quebrando por dentro. E para seguir o caminho da ginástica, eu sabia que teria de esquecer todas essas coisas, porque elas interferem muito. E eu não podia continuar mais vivendo com a família da Aísha, eles tinham planos de se mudar para a África, e eu também não queria morar com o meu pai, e muito menos ir para a França com a minha mãe. Tommy, eu precisava ter a minha independência, me sustentar, fazer algo por mim. Mesmo que isso me custasse o que eu mais amava.

Tommy a ouvia sério.

- E depois que eu voltei de Alameda dos Anjos, o técnico intensificou ainda mais os treinos, mudou radicalmente a minha dieta, eu perdi uns cinco quilos...e comecei a me sentir completamente perdida, questionando o que eu realmente estava fazendo ali. Até que aconteceu algo, e conheci alguém muito especial, que tem me ajudado a levar as coisas adiante. Alguém que está mais próximo a mim do que você nesse momento. Tommy você tem sua vida em Alameda dos Anjos, e eu não acho justo você não vivê-la por mim, jamais te pediria para largar tudo e ficar aqui comigo, passando provações. Além do mais, sei que existem garotas que se interessam por você, e estão ao seu lado nesse momento, como a Katherine.

Tommy balançou a cabeça negativamente.

- A Katherine não me interessa, só você!- ele esbravejou segurando os pulsos os dela, mas sem fazer força.

- Tommy você não imagina como foi duro pra eu fazer isso, e o treinador Schimdt...

- O que tem aquele louco psicótico? Aposto que foi ele quem sugeriu que você me deixasse para se concentrar mais na ginástica.

Kimberly nada disse, soltou os pulsos das mãos dele e entrelaçou seus dedos com os dele.

- Tommy, me perdoe. Mas não posso voltar atrás, a ginástica sempre foi muito importante pra mim...isso é tão terrível! Quando você apareceu no ginásio, eu senti muito medo porque sabia que se visse você de novo, era capaz de desistir de tudo.

- Kim, não posso aceitar isso. Amor...- ele falou abraçando-a.

- Tommy não faz assim!. – ela falou se aconchegando no abraço dele. – Ver você aqui me traz ainda mais dúvidas do que as que eu já tinha.

- Kim, esquece tudo isso e vamos voltar pra Alameda dos Anjos.

Ela balançou a cabeça incrédula.

- Tommy, suponha que eu resolva fazer isso. Pra onde eu iria?

- Pra minha casa, eu falaria com os meus pais e...- ele começou mas ela o cortou:

- Tommy, não vê que tudo o que está dizendo é loucura? Eu preciso ficar aqui e prosseguir com a minha vida. Esse é o mundo real e é assim que as coisas são.

Tommy irritou-se:

- È por causa desse cara? Quem é esse cara Kimberly, que fez você mudar tanto a ponto de eu não te conhecer mais? Até onde você já foi com ele? Deixou ele fazer tudo o que nunca fez comigo?

Ofendida com a pergunta, antes que pudesse se controlar Kimberly deu um tapa no rosto dele, que gemeu de dor em resposta, afastando-se dela. Ficaram alguns segundos em silêncio, ambos alterados. Kimberly resolveu falar:

- Sei que não tinha o direito de fazer isso Tommy, me desculpe, mas tem certeza de que não me conhece mais? Está duvidando de quem eu sou? Vocês homens são todos iguais, uns machistas. E eu que pensava que você era diferente. E respondendo à sua pergunta, isso não é da sua conta.

Ela fez menção de levantar-se quando ele se aproximou e sentou na cama de frente pra ela novamente pousando as mãos em seus ombros, arrependido:

- Por favor Kim, me perdoe. Eu sou um idiota, tô aqui desesperado tentando entender suas atitudes, e ao mesmo tempo louco de ciúmes deste cara que está me fazendo perder você. Se você diz ainda sentir algo por mim, e lembra de tudo o que nós vivemos- ele pediu beijando as mãos dela. – linda, vamos voltar pra nossa cidade, não sei viver sem você.

Ela soltou uma respiração profunda, e falou resignada:

- Tommy, depois de tudo o que eu tive de abrir mão em Alameda dos Anjos para vir pra cá, não seria justo voltar sem ter conseguido nada, será que você consegue entender isso? Além do mais, não suportaria voltar pra lá sabendo que perderia você de qualquer jeito. Logo você iria se cansar de me proteger e ia querer viver sua vida.

- Isso jamais vai acontecer. Você nunca me perderá, e se você escolher continuar treinando para as Olimpíadas e não der certo, e resolver voltar, ainda estarei lá em Alameda dos Anjos, esperando por você, sempre meu amor, sempre. Não importa quantos tapas você quiser dar em mim pra tentar me fazer mudar de idéia.

Kimberly sorriu, e colou seu rosto ao dele, confirmando para si mesma que jamais deixara de amá-lo. Tommy a abraçou e delicadamente fez com que ela se deitasse na cama, se deitando em seguida ao lado dela. Olhavam-se profundamente, e os lábios estavam próximos. Kimberly sentia a respiração dele próxima ao seu rosto e pensou que já não poderia mais resistir. Ele deslizou seus braços até a cintura dela e disse, ternamente:

- Eu te amo linda. Doeu demais aquela carta. Seja lá o que esteja acontecendo na sua vida, só te peço que fique comigo aqui esta noite...até que o destino interceda por nós e decida o que fazer.

- Eu te amo Tommy, aquela carta foi um grande erro e também uma grande mentira, mas existem coisas das quais você não sabe e que mudam totalmente o rumo da situação.

- Shhhhhhhiii...você vai ter tempo para me contar.- Tommy a calou com a ponta do dedo em seus lábios. Não se conteve mais e a beijou intensamente, provando a doçura dos lábios que nunca tinha esquecido. Kimberly correspondeu ao beijo entrelaçando sua língua com a dele, enquanto envolvia seus braços no pescoço dele. Tommy colocou seu corpo por cima do dela, e Kimberly o acomodou entre suas pernas, enquanto um leve suspiro escapava de seus lábios ao contato do corpo dele com o seu.

- Tommy, é melhor pararmos, eu preciso ir!- ela sussurrou enquanto ele lhe beijava a nuca e emaranhava seus cabelos.

- Não, você não vai agora, preciso de você Kim. Senti tanto a sua falta, amor.

Kimberly estava baixando todas as suas defesas, fosse qual fosse o motivo que a tinha levado a escrever aquela carta para Tommy, naquele momento já não importava mais. Só queria se entregar, deixar que ele a beijasse e a tocasse o quanto quisesse. Aquele era o momento mágico e inevitável que sempre esperara. Tommy começou a desamarrar uma das alcinhas da blusa que ela usava, enquanto trocavam beijos impetuosos sem parar. O clima estava esquentando rapidamente.Entretanto, o barulho estridente do comunicador de Tommy trouxe-os de volta à dura realidade. Tommy o havia desligado desde que viajara, mas o aparelho tinha um dispositivo de emergência criado por Billy recentemente, que tocaria mesmo que o comunicador estivesse desligado. Assustados, ambos se separaram na cama. Se recompondo, Tommy sentou-se e ligou o botão do comunicador, Kimberly permaneceu deitada em silêncio:

- Na escuta Zordon.

- SINTO MUITO INTERROMPER SUA VIAGEM TOMMY, MAS SEUS AMIGOS PRECISAM DE VOCÊ EM ALAMEDA DOS ANJOS URGENTE. VOCÊ PRECISA TELETRANSPORTA-SE IMEDIATAMENTE!

- Estou indo Zordon!- respondeu Tommy mecanicamente.

Ele voltou seu olhar para Kimberly, ela havia se levantado e estava calçando apressadamente os sapatos, seu rosto estava afogueado, o cabelo em desalinho e uma das alcinhas da blusa desamarradas.

- linda, aonde você vai?- perguntou Tommy.- Por favor, fique aqui e espere que eu volte, não faz isso comigo.

- Eu preciso ir Tommy, logo vai escurecer e eu não quero chegar tarde aos alojamentos. Além disso, você tem que ir, a equipe precisa de você.

Ela se levantou da cama, arrumou a alça da blusa e ajeitou os cabelos rapidamente com os dedos.

-Vá, assim que você teletransportar eu vou pegar um táxi pro alojamento. Nos vemos depois que você resolver esse problema.

Tommy sorriu bobo, completamente apaixonado, o coração cheio de esperanças. Ele aproximou-se dela e a beijou novamente.

- Estarei de volta logo, princesa. Nenhum monstro vai me afastar muito tempo de você.

Kimberly sorriu, mas seu sorriso era de dúvida.

- Vai logo!

Ele então se teletransportou. Quando Kimberly se viu sozinha, pegou seu celular e ligou, ao primeiro toque uma voz masculina atraente atendeu:

- Kim?

- Lucas, preciso falar com você.

Continua...