O celular tocou sonoramente. Troy despertou de repente e a grande vasilha de pipoca que estivera em seu colo voou para o chão, o dvd que estivera assistindo antes de adormecer já novamente no menu inicial.
Levantou molemente da cama tendo cuidado para não pisar nas pipocas agora espalhadas por todo o carpete de seu quarto.
- Merda! – murmurou.
O resto da semana passara sem nenhum tipo de imprevisto. Troy e Gabriella foram convidados para três festas no final de semana, dois passeios para o shopping local e uma leitura de um novo bestseller em uma livraria no centro. Todos os convites educadamente recusados.
Franziu o cenho ao ver o nome de Chad no visor.
- Hey! – cumprimentou.
- O negócio é o seguinte! – ele disparou. - Você não pode ir à festa do Zeke, não pode acompanhar a Gabriella no shopping com a Taylor e muito menos ir à livraria com o tapado do seu novo amiguinho, o Neil! Estranho, não é?
Troy bocejou do outro lado da linha. Aquele papo de estar diferente pontuara todas as conversas com Chad durante toda a semana. Ele não estava diferente. Estava angustiado, cansado. O basquete e os estudos tomavam a grande maioria de seu tempo e agora, havia o musical. Era demasiada muita coisa para um adolescente só e as pessoas na escola pareciam não perceberem ou não se importarem com toda a exposição do garoto.
- Chad, eu já expliquei! Mais uma vez: eu e Gabriella temos um compromisso no Sábado com o Grupo de Teatro, uma festa.
- Okay, eu sei, eu sei! E você prefere mesmo ir a essa festinha chata e perder a festa na casa do Zeke? Eu já falei que os pais dele foram para Espanha por duas semanas? Hein?
- Sim, Chad! Na verdade três vezes! É um compromisso que temos com a Senhora Darbus! Já discutimos isso! Ela quer que nos conheçamos melhor e é só.
- E por que eu não posso ir? Ou a Taylor? Não que eu queira perder a festa na casa do Zeke, de jeito nenhum!
- Por que pessoas de fora provavelmente acabariam com idéia de prisão social que a Senhora Darbus teve para essa maldita festa! Eu não prefiro estar lá, já comentamos isso, é um compromisso e eu realmente tenho que desligar agora! Até mais, cara!
Jogou o celular na cama achando melhor mantê-lo ali. Não queria mais perguntas importunas enquanto estivesse fora. Calçou os tênis rapidamente e dando uma última olhada no carpete coberto de pipoca e manteiga, prometeu a si mesmo que o limparia assim que retornasse.
Correr sem destino até as pernas comicharem era uma ótima solução para esquecer dos problemas. Ou a falta deles. Era um hábito agora para Troy vagar pelas calçadas do bairro, Ipod no ouvido, tentando de certa forma acabar com o nada que rondava sua cabeça.
Os anos que passara em East High até o momento de maneira alguma foram monótonos ou desagradáveis, pelo contrário, tinha amigos lá, amigos que se importavam com ele, que aproveitavam sua companhia. Por que agora tudo isso parecia besteira? Por que todo o carinho de seus amigos tornara-se no momento algo menos importante do que um dia fora?
Pensou em Gabriella. Lembrou que mesmo um pouco antes de começarem a namorar já se sentia afetado, angustiado. Angustiado com algo que não sabia exatamente que era. Esperava, mesmo que inconscientemente, que a presença de Gabriella em sua vida acabasse afastando esse sentimento estranho, o que supostamente não aconteceu.
Gabriela era a namorada dos sonhos. Atenciosa, carinhosa e tudo o que um bom namorado poderia esperar. Ele reconhecia isso e aproveitava tudo o que Gabriella estava disposta a oferecer.Era como se o problema se concentrasse nele. Tudo que fazia nunca era suficiente, sempre havia a procura por algo a mais, embora mesmo que tudo muito inconsciente.
Virou a esquina sem ao menos perceber onde estava, Feel do Robbie Williams nos ouvidos. A noite caia lenta, o vento frio de dezembro batia em seus cabelos anunciando a chegada do inverno enquanto suas mãos começaram a ficar secas e geladas. Apertou o passo e logo depois, em uma longa calçada de asfaltamento liso, começou uma leve corrida.
Come and hold my hand
I wanna contact the living
Not sure I understand
This role I've been given
As árvores do outro lado da rua passavam como um borrão pelo canto de seus olhos enquanto o vento parecia ficar mais frio e mais revolto. O capuz do casaco verde que pendia para trás logo fora posto na cabeça, acolhendo as orelhas e o pescoço do frio.
I sit and talk to God
And he just laughs at my plans
My head speaks a language
I don't understand
Como era bom aquilo. Correr. Sem destino algum. Correr simplesmente por correr, sem se preocupar em chegar ou aonde chegar. Era apenas correr. A costumeira angustia parecia não encontrar seu espaço quando correr tornava-se o ar para Troy. Essencial.
I just wanna feel real love
Fill the home that I live in
'Cause I got too much life
Running through my veins
Going to waste
O calor que emanava de seu corpo parecia contagiar sua mente. Seria o vento parando de soprar? Ele não se importava com o vento. Aquele calor esquentaria qualquer coisa.
I don't want to die
But I ain't keen on living either
Before I fall in love
I'm preparing to leave her
I scare myself to death
That's why I keep on running
Before I've arrived
I can see myself coming
Viu uma bola passar pelo aro vagarosamente, uma lágrima sua desprendendo-se de seus cílios, pousando na bochecha e caindo veloz como uma bala de chumbo até colidir com o chão. Viu Chad pulando encima de suas costas e todo o time, assim como o seu pai, seguindo-o e fazendo o mesmo. Mais lágrimas caiam como balas de chumbo. As arquibancadas agora urravam de alegria e satisfção, o rosto de Gabriella era facilmente discernível, emanava uma luz especial.
BUM!
Ele colidira. O baque com o chão fora pior do que o baque com o que quer que fosse que o havia atingido. Ainda de olhos fechados ele gemeu, a mão livre do Ipod esticada em um ângulo curto para apalpar a coluna.
- Troy? Troy! Você está bem?
Mesmo no chão e com os fones ainda ligados no ouvido ele pode reconhecer a voz. Sorriu desajeitado.
- Vamos! Dê-me a mão! Devagar, por favor!
Ela estendeu a mão para ajuda-lo e ele a tomou, dando um breve impulso para cima.
- Kelsi... – murmurou.
-Você está bem?
- Acho que sim, foi o baque com o chão, eu...
Uma segunda mão apertou seu ombro enquanto ele olhava para o chão, uma de suas mãos ainda na coluna.
- Você apareceu do nada, cara! Não tivemos como parar o carrinho.
A imagem da mão pálida em seu ombro logo conectou-se com a voz calma de Ryan.
-Ryan? Kelsi? O que vocês estão fazendo aqui?
Um grande letreiro de néon de uma loja de necessidades a sua direita ofuscava agora suas vistas. Havia um carrinho de metal tombado próximo a bolsas de papel pardo espalhadas pelo chão.
- Ah, me desculpem! – ele disse, logo entendendo a situação e abaixando-se para recolher as sacolas – são as compras para a festa de Sábado, não é? Não foram vocês os responsáveis pelas compras? Eu estava distraído e...
- Está tudo bem Troy! – disse Kelsi aceitando a sacola que Troy balançava em sua direção - de verdade, está tudo bem!
A noite parecia um veludo negro agora. A proximidade das luzes do neon no letreiro fez com que o ambiente parecesse menos vespertino do que estantes estivera.
-Vocês... querem ajuda com as sacolas? – Troy gaguejou.
- Ah, não precisa cara! Eu vim no carro do papai e são só umas coisinhas aqui, o resto já está com a Sharpay em casa. Não se preocupe.
Ryan sorriu. Kelsi ofegou por um estante e antes de falar mirou incerta a sujeira da queda no casaco de Troy.
- Você... vai para casa? – perguntou.
- Uh? Sim. Acho que sim.
- Uh... acho que o Ryan e eu podemos oferecer uma carona, não é Ryan? – ela olhou apreensiva para o companheiro, a cabeça em gesto de afirmação.
- Claro! Claro, claro! O carro! Ele está logo aqui, pela direita.
Kelsi fez menção de empurrar o carrinho e seguir Ryan, que já dera as costas aos dois e rumava para o estacionamento, quando Troy pôs as mãos em suas costas.
- Não! Não precisa! Minha casa fica justamente no lado oposto ao de vocês e eu realmente gostaria de voltar correndo, eu...
- Não seja bobo, Troy! – kelsi passara o braço por volta de um dos braços de Troy enquanto o outro prendia o carrinho – olhe o seu estado! O Ryan não se incomoda de te dar uma carona! Ela não é a Sharpay, sabe? Se bem que tenho certeza de que ela não se importaria de te dar uma carona também! Okay, eu não disse isso!
Os dois gargalharam. Kelsi, ainda com uma das mãos, guiou o carrinho de compras em direção ao estacionamento, Troy a acompanhando pelo outro braço.
A manhã de Sábado amanhecera chuvosa. Troy não estava disposto a levantar do conforto de sua cama quando o celular apitou, anunciando o horário do treino técnico e particular com o treinador Bolton naquela manhã. Suspirou lento e sonolentamente enquanto enfiava o rosto no travesseiro.
Mesmo tendo chegado por volta das oito horas em casa com a carona de kelsi e Ryan na noite passada, Troy sentia-se indisposto para treinos (mesmo técnicos) no momento. Passara uma boa parte da madrugada anterior conversando com Gabriella e os amigos na internet e o sono, como de costume agora, demorara a chegar quando decidira se deitar. Mesmo achando que um treino nas condições lastimáveis que se encontrava seria uma perfeita perda de tempo, levantou-se da cama e despiu-se. A calça cinza moletom fora para baixo da cama, enquanto a cueca e camiseta branca caíram para trás da porta do banheiro quando passou por ela trancando-a.
O treino aquela manhã, como ele bem adivinhara, não fora lá muito produtivo. Seus bocejos e momentos de descontração lhe renderam boas broncas e alfinetadas de seu pai, que decidira em dispensa-lo meia hora mais cedo que o combinado. Troy decidira por passar o resto da manhã embaixo de edredons em seu quarto, vendo a chuva cair pela janela e assistindo TV.
A chuva não cessara a tarde quando Chad o ligou mais uma vez para uma nova discussão a respeito dos planos inesperados de Troy e Gabriella para o fim de semana. Troy mais uma vez sorriu internamente quando percebeu o incontrolável ciúme do amigo com o seu provável afastamento com os ensaios para o musical.
Com a chegada de Dezembro, os ensaios começariam a tomar conta de uma boa parte do horário do garoto e como Chad recusou-se plenamente a fazer qualquer tipo de participação que fosse no evento, seus horários seriam obrigados a desvirtuarem-se um do outro.
Gabriella o ligara ás seis aquela tarde, quando a chuva parecia um pouco mais amena. A Senhora Montez a levaria para a festa e Troy não precisaria buscá-la em casa como o planejado.
Decidindo não mais esperar por um banho, às seis e meia Troy deixou os edredons da cama e pulou para o closet. Retirou do cabide uma camisa azul marinho lisa, de mangas compridas, justa ao corpo e sem botão. Calça jeans escura e grossa com detalhes finos e manchados na altura dos quadris. O calçado seria um novo modelo da Nike, couro e cadarços, ambos brancos, doze molas vermelho sangue na sola.
Às sete meia deixou o quarto, devidamente penteado e perfumado. Cruzou o corredor até alcançar as escadas e desceu-as chegando ao Hall.
- Pai! – chamou já da porta – Estou pegando as chaves!
- Certo! E tenha atenção no volante!
- Olhe o horário, querido! – gritou a Senhora Bolton da cozinha.
A casa dos Evans localizava-se há uns bons quinze minutos a carro dali. Tentando não se preocupar com o fato de que chegaria um pouco adiantado e esfregando uma mão na outra para aquecer-se do vento frio, Troy deu início no carro, deixou a garagem e partiu rumo ao Norte.
- É o Troy! É o Troy!
Às oito em ponto ele buzinara quando estacionou próximo a calçada da frente dos Evans. Não havia luzes no jardim da frente e muito menos movimentação quando o portão da frente emitira um breve som de destranque permitindo-lhe a entrada.
Cruzou rápido o caminho de pedra até uma larga abertura ladeada por altas pilastras brancas. Uma escada de mármore também branco conduzia-o até uma grande varanda onde uma larga porta de madeira envernizada estava localizada. Tocou a campainha.
A porta logo se abriu e juntamente com uma luz azul e calor, o perfume doce de Sharpay fez contato com os seus sentidos.
- Bolton! – ela exclamou. Vestida de branco com um belo vestido decotado e com uma fenda na lateral direita, os cabelos elegantemente presos em um rabo de cavalo, Sharpay exalava alegria. – Entre, entre!
- Obrigado – murmurou Troy.
A ampla e alta sala estava escura. A únicas fontes de iluminação eram pequenos holofotes de luz azul fluorescente espalhados por cantos estratégicos da sala e uma fina brecha de luz branca vazante de uma porta ao outro extremo do saguão, exatamente na direção oposta da porta de entrada. Não havia mesas nem cadeiras, apenas alguns poofs pretos espalhados. Os móveis haviam sido cuidadosamente postos de lado, quase imperceptíveis, eram engolidos pela escuridão. Duas grandes caixas de som foram postas na sala, uma ao lado da porta de entrada, a outra, ao lado da segunda porta, a que os conduziriam a um outro cômodo na casa.
Os olhos de Troy adaptaram-se a escuridão repentina em segundos e logo pode perceber as silhuetas conhecidas dos atores do Clube de Teatro. Para o horário, o local já estava bastante cheio.
- Gabriella? – ele perguntou aproximando-se do ouvido de Sharpay.
- Como? – ela respondeu. O som na sala não possibilitava conversas casuais. Era necessário chegar realmente perto para se fazer entendido.
- Gabriella! Não chegou? – ele repetiu mais alto aproximando-se.
- Ora, Troy! Vá se divertir e desgrude um pouco da garota! Ela ainda não chegou de qualquer forma!
Sharpay sorriu aceitando uma taça fina de alguém que passava por perto e a estendera o drink. Afastou-se levando a taça ao alto e sacudindo a cabeça ao som da música.
A música era boa e contagiante. Se Troy não estivesse sentindo-se completamente deslocado e desconfortável, talvez obedecesse a vontade repentina de sacudir o corpo que parecia ter o apossado. Uma coisa era certa: os Evans sabiam como dar uma boa festa! Logo um drink pousou em sua mão. Era melancia com um pequeno toque de álcool. Bebeu pouco menos da metade em um só gole e mesmo no frio, a bebida desceu agradavelmente refrescante por sua garganta.
- Troy!
- Kelsi!
Kelsi também segurava um drink escuro que Troy logo supôs não ser o drink de melancia e muito menos conter qualquer teor alcoólico. Vestia um conjunto vermelho com blusa tomara-que-caia e uma saia elegante até os joelhos. Os cabelos estavam soltos como Troy raramente os via no colégio.
- Então você também se rendeu ao famoso drink de melancia da Sharpay? – ela perguntou em seu ouvido com um sorriso.
Troy sorriu sem graça. Levantou a taça na altura da cabeça como se cumprimentasse alguém a distancia e bebeu o restante do liquido.
- Sabe – continuou Kelsi também bebericando um gole de sua própria taça – a verdade é que mais cedo os dois quase se mataram com essa história de drinks!
- Os dois?
- Ryan e Sharpay! Ryan não foi muito fã de fazermos os drinks! Disse que Sharpay os faria para aborrece-lo e que se o Senhor e Senhora Evans ou a própria Senhora Darbus descobrissem os dois estariam encrencados!
- Não é como se ele estivesse totalmente errado, não é mesmo? – Troy perguntou torcendo o rosto em um sorriso espantado.
Agora que a sala parecia bem menos escura para seus olhos, ele conseguira enxergar uma pequenina mesa redonda a um canto da sala. Era fina e sua superfície era espaçosa o suficiente para receber um grande e fundo recipiente de vidro. Era uma grande vasilha de ponche e o liquido, que lembrava muito o drink que praticamente todos ali tinham nas mãos, parecia estar apenas a dois dedos do início. Olhando melhor agora, parcialmente engolido pelas sombras, encostado na parede ao lado da pequena mesa, com uma justa camisa preta e de mangas curtas, calça também preta e com uma taça nas mãos, estava Ryan. Um de seus tênis, brancos com listras laterais negras, estava desamarrado.
A música pareceu perder um pouco de sua intensidade quando a porta de madeira envernizada da frente se abriu. Uma luz fraca iluminou a caixa de som ao lado e Gabriella, sorrindo, entrou no saguão. Ela vestia jeans escuro, sapatos de bico fino e salto alto e uma blusa verde cuja gola caia por um ombro e a barra amarrada por uma fita também verde do mesmo tecido ia até o início das coxas.Tinha uma pequena bolsa nas mãos que combinavam perfeitamente com os sapatos e os cabelos estavam soltos e emitiam a luz de sempre.
Caminhou confiante com um sorriso no rosto até Troy e Kelsi. A proximidade que com um beijo nos lábios de Troy ambos tiveram o fez sentir seu perfume, suas mãos logo contornaram a cintura da garota quando esta cumprimentou Kelsi.
- Mamãe se atrasou um pouco no trabalho! – ela disse ao pé do ouvido do namorado.
Logo, mais uma mão que carregava mais um drink cor de rosa apareceu em cena. Gabriella recusou com um sorriso sem graça apontando para o rapaz que a oferecia a taça assim que este se virara.
- Alcoólico? – ela perguntou.
Kelsi, lendo a palavra nos lábios da garota, sacudiu a cabeça positivamente. O olhar de Gabriella pareceu penetrado por um breve par de segundos, mas os carinhos do namorado logo tiraram sua mente da assustadora possibilidade de Darbus descobrir a existência de álcool em uma festa do Clube de Teatro.
Mais drinks eram servidos quando a música fora finalmente capaz de embriagar os pés de Troy. As horas voavam e era praticamente impossível não dançar a essa altura da festa. O saguão estava confortavelmente cheio, com meninos e meninas sentados nos poofs sacudindo-se ao ritmo das batidas, enquanto outros mais se agitavam de pé ao centro da sala em uma pequena aglomeração. Troy logo descobriu uma longa mesa de aperitivos na sala atrás da segunda porta do saguão e o vai e vem de pessoas pela passagem, com o passar do tempo, obrigou a porta a ficar escancarada.
Os garotos do Clube de Teatro já não mostravam nenhum tipo de inibição. Dançavam e gritavam uns com os outros com sorrisos e gargalhadas, faziam trenzinhos, rodinhas e eventualmente desapareciam, pela porta da frente ou porta da sala de jantar dos Evans, em casais recém formados.
Troy dançava sozinho no meio da aglomeração. Não sabia se estava realmente no meio de todos, como em uma espécie de roda, ou era só uma forte impressão. Ele decidira parar de beber as taças do liquido rosado de Sharpay pois sua cabeça já dava vestígios de tonteira. Agitava os braços para o alto e sorria de olhos fechados, como se ninguém fosse capaz de vê-lo, ou como se não fosse suficientemente capaz de se importar com todos a sua volta. As batidas da música invadiam seus ouvidos e todo o seu corpo se empenhava em resposta, como se as batidas fossem o sangue que corresse em suas veias, a música seu cérebro livre de preocupações e seu corpo não tivesse a menor chance de independência, era simplesmente obedecer.
Abriu os olhos de relance e se viu cercado por pessoas agitadas. Cabelos no ar, mãos para o alto e corpos colados. Sorriu ao perceber (equivocadamente) que nenhuma daquelas dançando ao seu redor o prestava muita atenção.
Um par de tênis brancos e desamarrados capturou sua atenção. Eles ainda estavam parados próximos a pequena mesa do ponche como se estacionados ou presos ao chão.
Desvencilhando-se dos muitos braços e corpos ao seu redor ele contornou um poof onde um casal, um sentado bem próximo ao outro, sorria. A luz azul de um holofote iluminou seu rosto de maneira incomoda quando se aproximou da mesinha.
- Ryan?
Ele parecia resgatado de um sonho ou acabado de acordar quando seus olhar pareceu ficar menos tenso à voz de Troy.
- Troy – disse sorrindo apenas com um lado dos lábios.
- Você... está bem?
- Eu? Ah, claro, estou bem, bem, a minha blusa, ela, ela...
Ele abaixara a cabeça molemente até a ponta do queixo pálido tocar a gola da camisa negra. Havia respingos concentrados do drink de melancia formando um circulo na camisa na altura de seu peito, sua mão direita segurava firme uma taça completamente cheia do ponche, a esquerda estava no bolso, agora completamente quieta.
- Pensei que você não gostasse do drink – disse Troy sorrindo, seus dedos passaram de leve na pequena mancha na camisa de Ryan, tirando o excesso do liquido.
- Eu não gosto – ele bufou. Ainda Tinha o queixo quase na gola da camisa, os olhos na taça em sua mão – Melancia é uma fruta gostosa, eu realmente gosto de melancia, e Sharpay sabe disso. Ela sabe muito bem o quanto eu gosto de melancia.
Ele parecia agora abobalhado. Tomou um longo gole da taça que quase a esvaziou, um filete do liquido cor de rosa descendo seu queixo.
Troy, tonto e lento, não sabia o que fazer. Era claro para ele que alguém deveria tirar a taça que retornava a ser cheia a cada gole da mão de Ryan. Sabia que se possível, alguém teria de tira-lo dali, leva-lo para um lugar mais calmo e menos abafado, onde o garoto pudesse respirar melhor.
Ele sabia que não seria ele essa pessoa, que havia de ser alguém menos tonto, alguém que tivesse bebido menos do ponche de melancia, mas de qualquer forma, ele tinha de tentar. Pousou a própria taça na mesinha ao lado e pegou a taça da mão de Ryan com murmúrios de desaprovação do garoto.
-Vamos! Seu quarto!
- Não! Meus tênis! Eles... tenho que...
- Eles vão ficar como estão Ryan, agora por favor, venha comigo.
Ele passou o braço pelas costas de Ryan e o apertou contra o peito, sua mão esquerda no ombro esquerdo do rapaz. Caminharam seguindo a mesma parede em que Ryan e a mesinha estiveram apoiados, guiando-se no escuro pelas luzes azuis dos pequenos holofotes. Logo um longo corrimão de madeira seguiu a parede, e virando a esquerda, com Ryan apoiado de cabeça baixa em seu peito esquerdo, Troy deparou-se com uma longa escada cujos degraus eram cobertos por um carpete marfim.
- Lá encima? – ele perguntou.
Ryan confirmou com a cabeça sem mesmo retirar os olhos do chão.
Subiram as escadas devagar e logo Troy teve uma visão de toda a festa olhando pela escada. As pessoas continuavam a dançar, Gabriella ou Kelsi não estavam em algum lugar da sala prncipal e o entra e sai da sala de jantar parecia não querer cessar.
Um corredor escuro surgiu no fim da escada. Ryan, esforçando-se para endireitar-se no peito de Troy, apertou um interruptor no início da parede e uma luz dourada tomou o local. Havia cinco portas ali. Duas no lado esquerdo, duas no direito e uma ao fim do corredor. Todas de madeira envernizada com o restante das portas na casa dos Evans.
Ryan indicou a segunda à esquerda e Troy, ainda sustentando o peso de Ryan no peito e abraçando-o com um dos braços, girou a maçaneta.
As luzes morreram quando os garotos passaram pela porta e a encostaram, fazendo o barulho da música no salão de estar no andar de baixo tornar-se um ruído longínquo. Troy deitou Ryan na cama e acendeu as luzes do quarto. Era um quarto amplo e bem mobiliado, uma cama de casal com um colchão fofo, uma estante repletas de livros, uma mesa moderna para o computador, a televisão e o som, um poof preto muito parecido com os tantos espalhados no primeiro andar enfeitava um canto do quarto com uma alta luminária ao lado.
Troy cruzou o quarto, o chão revestido com o mesmo carpete marfim das escadas, destrancou as grandes janelas e abriu-as, afastando as cortinas. Os murmúrios de desconforto de Ryan logo o fizeram perceber que o barulho da chuva lá fora ou o vento frio e cortante o incomodavam. Voltou a fechar as janelas e as cortinas e sentou-se no poof no canto direito do quarto.
- Ela não faz por mal, sabe?
- O que? Quem? – perguntou Troy encostando a cabeça pesada no tecido de couro negro.
- Ela é minha irmã, tenho certeza que não quer o meu mal.
- Sharpay? Do que você está falando, Ryan?
- Ela sabe que eu não posso, sabe que sou fraco, mas, ela tanta ajudar e...
Ryan estava de bruços, a voz abafada com a proximidade da boca no edredom em tons de azul na cama.
- Ryan –começou Troy – se você não está se sentindo bem, ou sóbrio, é melhor não me contar nada que não me contaria se estivesse em situações normais, eu...
- Não! – ele levantou uma mão ainda de bruços, tentando calar o outro, o rosto agora no travesseiro – vocês não entendem! A Sharpay, ela, ela não é uma patricinha megera, ela, ela gosta de você Troy, gosta de você de verdade.
O barulho da chuva parecia mais forte no quarto de Ryan. O silêncio que seguiu as palavras do garoto trouxe o ruído disforme que era a música lá embaixo até os ouvidos de ambos os garotos. Ryan agora parecia quase adormecido na cama, a boca escancarada e completamente imóvel, apenas os olhos vidrados dando algum sinal de vida.
Troy aproximou-se, apoiou-se na cama e fez menção de tirar os tênis de Ryan.
- Não! - ele encolheu as pernas levando os pés para bem longe das mãos de Troy - tenho frio nos pés, Troy.
Troy afastou-se da cama. Verificou se as janelas estavam realmente fechadas e partiu em direção da porta, quando o choro baixo de Ryan o fez parar, as mãos já na maçaneta. Ele ficou ali, completamente imóvel, mirando a madeira escura da porta, enquanto os soluços do outro, mesmo que baixos e abafados pelo som da música e da chuva, penetravam seus ouvidos.
Ele não queria encara-lo e consola-lo. Não sabia como faze-lo e isso o fazia não querer faze-lo, mas o choro e os soluços de Ryan eram como uma súplica por ajuda e ele não seria capaz de negar ajuda a alguém como Ryan.
Largou a maçaneta e se virou, com os olhos fechados mordeu o lábio inferior.
- Ryan... eu, eu não sei se entendi bem...
- Ele me largou, Troy!
Ele dissera sem mesmo levantar o rosto, a voz abafada e tremula. Troy se sentou no canto da cama.
- Ele? Quem? O que houve Ryan?
Ryan levantou o rosto manchado de lágrimas, os cabelos, loiros e curtos em um corte moderno, despenteados.
- Não era um namorado – ele disse com os olhos grudados nas mãos – era um amigo, um amigo que...
Ele de repente se atirara nos peitos de Troy, o choro cresceu e enfureceu-se, as lágrimas de seus olhos azuis molhando a camisa do outro perplexo.
Perplexo, ele não sabia o que fazer. Levantou as mãos com surpresa enquanto os braços de Ryan estavam atirados por volta de sua cintura, a cabeça colada em seu peito. Tentou dizer algo que o consolasse mas sua boca se movia e apenas sons ininteligíveis faziam-se ser escutados. Passou um braço por entre as costas de Ryan, sentindo que toca-lo seria mais fácil do que falar em sentido literal. Hesitou quando levantou uma mão e posicionou-a na direção dos cabelos dele, mas enfurecendo-se com sua covardia, com as mãos trêmulas, sentiu sua mão vencer seus medos e toca-lo a cabeça.
Acariciou seus cabelos e suas costas como um irmão mais velho consola o caçula. Apoiou com cuidado o queixo em sua cabeça, acariciando agora sua orelha. O choro e o desespero de Ryan o comoviam quase paternalmente, deixando-o desesperado para acalma-lo.
A chuva caia como uma dádiva para ajuda-lo. O som das gotas era reconfortante e parecia exercer um efeito calmante em Ryan. Seus soluços cessaram e o choro agora era baixo, como o choro de alguém arrependido e receoso. As mãos de Troy ainda acariciavam as costas e os cabelos do outro, as lágrimas que caiam em sua camisa o fizera sentir contagiado, a visão do tecido molhado provava o quão próximo ele estava do garoto, o quão útil ele tentava ser.
As mãos de Troy não soltaram Ryan pelos breves dez minutos que o silencio reinou no quarto. Continuaram a afagar os cabelos do rapaz, a acariciar suas costas. O silêncio agora era bem vindo. Não havia choro, não havia mais soluços. Ryan endireitou a cabeça no peito do outro, como uma criança que se ajeita no colo do pai, prestes a dormir. Seus dedos encontraram o pulso de Troy e ele o acariciou lentamente, ainda com o rosto manchado de lágrimas, ainda com os cabelos despenteados, ainda com um olhar vidrado.
Ele não queria sair dali. Não queria que Troy fosse embora, que o dia amanhecesse, não queria encarar Sharpay e confronta-la, dizer que embebeda-lo não era a melhor maneira de faze-lo esquecer a perda de alguém tão querido, por mais que soubesse que as intenções da irmã, consideradas cruéis se descobertas por alguém, foram inteiramente visando o seu próprio bem.
Continuou acariciando o pulso de Troy, perdido em pensamentos. Levantou os olhos e viu o rosto do outro, sereno, os olhos fechados, um leve sorriso quase imperceptível, mas que no momento ele sabia estar lá. Levantou a cabeça e o tronco se apoiando nos braços que o contornavam carinhosamente, seu rosto encaixou no pescoço do garoto, e ele o acariciou com a ponta do nariz, sentindo um cheiro gostoso que o fez sorrir internamente. Seus lábios agora tocaram a pele do outro e ele não hesitou em tira-los dali.
Os olhos de Troy continuavam fechados, semicerrados, e a mão que afagava os cabelos de Ryan estava paralisada, como em surpresa. Ryan pôs suas mãos sobre as mãos de Troy, ainda apoiado em seu peito ele inclinou-se, virou o rosto do rapaz até faze-lo encara-lo, mas os olhos de outro insistiam em ficarem fechados, como se receosos do que poderiam ver. Não foram os lábios de Ryan que inclinaram-se, mas sim os de Troy, que de olhos ainda bem fechados e com as mãos levemente suadas, provara Ryan pela primeira vez.
