Analogias
Por Graciela Pettrov
I
N
O
As pessoas passavam como borrões para Ino.
Era assim desde sempre: ela ficava a maior parte do dia atrás daquele balcão e os moradores da pensão de sua mãe não eram nada além de uma de suas obrigações. Ino os cumprimentava por respeito. Sorriam-lhe por respeito. Fingia que se importava com o fato de chegarem cansados do trabalho, por puro respeito e nada mais que isso.
Ela não estava atrás do balcão naquele momento, estava, na verdade, indo a caminho da escola, mas ainda sim as pessoas que passavam por ela não eram nada além de borrões que falam. Sem rosto. Sem forma. Sem personalidade. E todos a olhavam de modo semelhante, falavam-na palavras de incentivo, davam conselhos, mas não faziam ideia do quando isso só piorava a situação.
Ino detestava aquilo.
E quando falavam em psicanálise era o mesmo que lhe dar um soco diretamente no estômago. 'Não sou louca!' Era o que sua mente gritava fazendo o papel que sua boca não era capaz. Na opinião de Ino, os pais só mandavam o filho adolescente para o psicólogo quando sentiam que o mesmo estava passando dos limites da anormalidade padrão para uma pessoa de dezessete anos.
Tá certo que ela passou por alguns probleminhas envolvendo sua auto-estima, mas isso era passado. Cinco anos é tempo suficiente para que a realidade bata em sua porta ou entre pela janela sem que queiramos. Em seu caso ela havia entrado sorrateira pela janela de seu quarto em uma noite conturbada de um dia mais conturbado ainda.
Depois daquele evento, Ino nunca mais chegou perto de uma lâmina, pois ela sabia das consequências, não era mais uma criança. E por Deus! Sua mãe não parecia ver isso! 'Chega de drama!' Foi o que pensou naquele momento, sozinha em seu banheiro. Só ela e seus demônios. Tais quais a instigavam a tocar aquela lâmina reluzente em sua pele pálida demais para uma pessoa saudável.
Ela o fez.
E enquanto o objeto afiado rasgava sua carne ela presenciava aquela sensação, algo realmente inexplicável, uma mistura de prazer e dor com arrependimento e vontade de repetir. Era um turbilhão de sensações em um só corte.
O problema é que naquele dia em específico, Ino exagerou. Os cortes passaram de dez.
Esta matemática era apenas um sintoma da privação de um desejo insano. Porque, na maioria das vezes, Ino necessitava sentir aquilo mais de uma vez em um só dia, e desde que começara com isso vinha usando-a diariamente. Até que parou subitamente. E como um balão que é soprado sem parar, a vontade dela foi enchendo e enchendo até que dado momento, explodiu.
Os estilhaços da explosão ficaram marcados em sua pele. Literalmente.
Mas essa fase passou. Ficou para trás. Ela não tinha mais doze anos! No entanto, quando chegou à porta da escola e deparou-se com aquela realidade, sobreveio por sua mente que talvez tudo aquilo ainda estivesse à espreita só esperando para retornar.
[...]
Por mais que seis aulas diárias de uma escola secundária fossem tão necessárias quanto entediantes (pesando mais para a segunda opção na opinião da maioria dos alunos), Ino nunca desejava tanto que elas demorassem a passar quanto na última semana de todos os meses do ano. Todos aqueles sete ignóbeis dias pareciam passar extremamente devagar, segundo sua percepção de tempo e espaço.
Porém, por mais que a loira desejasse que os ponteiros de todos os relógios do mundo andassem um tantinho mais devagar, isso, obviamente, não acontecia. Então o sinal anunciando o término da última aula soava alto em seu ouvido e enquanto todos comemoravam e corriam e empurravam uns aos outros para saírem pela porta pequena demais para três pessoas passarem de uma vez só, a Yamanaka organizava suas coisas calmamente, colocando seus livros dentro de sua bolsa bem devagar como se o interior da mesma estivesse apinhado de cristais que poderiam se despedaçar se ela batesse com a ponta do livro neles.
Após toda cerimônia ela levantava-se, despedia-se de uma ou duas colegas de classe, jogava a bolsa sobre o ombro esquerdo (naquele momento os cristais não mais existiam pareciam terem sido substituídos por barras de ferro) e saia tranquilamente da quarta das cinco salas de aula que a escola continha. Passava pelo corredor indo em direção ao portão de entrada (e também saída) acenando e observando, sem qualquer interesse, os demais alunos que conversavam interagindo entre si, fossem duplas ou grupos, eram sempre os mesmos rostos.
Ela poderia citar o nome de cada um ali, no entanto, o fato de saber o nome de todos os alunos e funcionários do colégio não era nem de longe considerado algo digno de atenção (não que ela fosse digna, ela não era). Qualquer um que, como ela, estudasse lá há três anos ou mais e não sofresse de nenhum tipo de doença que envolvesse a memória poderia fazer isso.
O Colégio Secundário Sigma era o menor estabelecimento público da cidade (Ino não era a única que parecia indigna de atenção) e dispunha de apenas cinquenta alunos e todos, sem exceção, acompanhados de um histórico de repetição de ano.
O Sigma era conhecido por ter a maior população de alunos com mais de dezoito anos ainda estudando no ensino médio quando, no ponto de vista social, já deveriam estar na faculdade. E também usufruía da fama nada boa de ser a escola com área territorial bem menor que a da quadra de esportes de uma faculdade, ou melhor, de qualquer faculdade que dispusesse de uma quadra.
Entretanto, Ino não se importava com aquilo. Ela repetiu o ano sim, mas a sua explicação para tal fato era, em suas próprias palavras, de que "Se isso aconteceu é porque eu ainda não me encontro preparada para um ensino superior ao que estou agora e devo estar novamente no próximo ano".
E não estava mesmo.
Percebia isso toda vez que conversava com Sakura e a mesma lhe dizia que quase nem tinha tempo para as coisas mais simples do cotidiano como, por exemplo, sair com o namorado. Pelo o que descobriu nas vagas e breves conversas com a Haruno, apenas na sala da mesma cursavam cento e dois universitários. Essa informação a assustou, porque aquela quantidade era mais do dobro de alunos de toda sua escola. Se a Yamanaka passasse o dia todo, todos os dias, de todas as semanas, dos meses, dos três anos que estava lá, em uma sala com todos os alunos e mais o professor por quase seis horas, aí sim ela ficaria louca e sua mãe teria um motivo sólido para mandá-la ao psicólogo.
No entanto, não eram necessários tantos números para que isso ocorresse. Ino tinha sessões em toda última semana do mês. E era exatamente para lá que a mesma estava indo depois de sair da escola.
O consultório do Dr. Kakashi Hatake ficava no centro da cidade, a exatos quarenta e sete quarteirões de onde ela estava. E mesmo com metade de sua razão dizendo: 'Não adiantará nada retardar algo inevitável. Você terá sua sessão tediosa de duas horas, depois voltará para casa reclamando que seus pés estão doloridos por andar tanto'. E a outra parte articulando dezenas de suposições: 'Talvez quando você chegar seu horário já terá passado e outra pessoa estará em seu lugar, então você voltará para casa reclamando que seus pés estão doloridos por andar tanto, mas que pelo menos não passou duas horas em uma sessão tediosa'.
Ela sempre optava por ir andando, vagarosamente, crendo e torcendo sempre para a segunda parte de sua razão estar correta. Entretanto, como sempre, ela não estava. E quando Ino chegou ainda nem mesmo era sua vez e ela, além de ter que esperar por uma sessão tediosa, também esperou tediosamente por ela.
[...]
Não é como se Ino odiasse o Dr. Hatake. Não. Apenas achava extremamente aborrecível ter que ficar duas mil quinhentas e vinte horas, equivalentes a todas as últimas semanas dos meses de um ano completo, de frente para uma pessoa a ouvindo dizer que você está acabando com sua própria vida e ela ainda cobrar por isso.
Era muito injusto.
E para piorar a situação, ainda tinha aquela maldita máscara hospitalar que ele usava quase que diariamente devido seu problema que envolvia algo que ela sequer demonstrou interesse em saber quando ele contou o motivo de usá-la. A máscara ocultava quase que totalmente o rosto do homem, e ela tinha que ler suas expressões através de seus olhos, algo que era extremamente difícil.
[...]
Já era noite e Ino estava novamente onde, segundo suas observações, ela passou a maior parte de sua vida: detrais do balcão da recepção da pensão de sua mãe. Com os cotovelos sobre o tampo e o rosto seguro pelas mãos, a típica posição que demonstra o quanto você está enfadado, olhava para nada em especial.
Os moradores passavam novamente sem exata nitidez, o que ela considerava desnecessário uma olhadela. Entretanto, um chamou-lhe atenção. Não por beldade ou qualquer coisa relativamente anatômica. O que lhe fez grudar os olhos nele foi o fato do mesmo estar portando um objeto singular, que parecia direcionado especificamente para ela.
Era um rapaz ruivo sentado no sofá gasto da recepção, ele segurava uma câmera filmadora e apesar de Ino o olhar de forma repreensiva por estar, possivelmente, sendo filmada sem sua permissão ele continuava da mesma forma, a filmando.
Ela continuava a olhá-lo de cenho franzido esperando que o mesmo tivesse o mínimo de bom-senso e redirecionasse a filmadora para outro lugar que não fosse sua pessoa, mas ele não o fez. Na verdade, o que ele fez com relação aos olhares indagadores de Ino foi sorrir e acenar. Este gesto apenas aumentou a indignação da loira e ela, em um gesto típico do calor do momento, lhe mostrou o dedo do meio.
Ao captar o ato o rapaz ruivo crispou os lábios e fez menção de levantar-se. Ao vê-lo vindo em sua direção um pensamento ocorreu-lhe: Meu Deus! Acabei de ser grosseira com um hospede! Apesar de não ter a plena certeza de que ele fosse mesmo um hospede, ela não se sentiu muito bem com o que fizera. Ino tinha um senso de conduta quase que inabalável.
O rapaz parou à frente do balcão ainda com a câmera apontada para ela. A Yamanaka nunca se sentira acanhada diante de uma pessoa do sexo oposto ao seu... até ter que ficar frente a frente com uma. Nunca se sentira tão insegura como naquele momento, talvez fosse pelo fato de ele ainda estar a filmando ou por também estar a encarando com demasiada seriedade.
— Desculpa pelo... — Ela começou, pois ele não parecia disposto a iniciar um diálogo.
— Qual o seu nome? — Entretanto, ele a interrompeu.
Foi o cúmulo! Ino crispou as sobrancelhas e apontou para a filmadora.
— Será que dá pra parar com isso?
Ele fechou-a e a colocou no bolso. Depois voltou a encará-la descaradamente.
Ela já estava se sentido mais que tímida, estava assustada! O rapaz à sua frente deveria ter uns quatro anos a mais que ela, teria possivelmente a idade de Sasuke. E além de estar a filmando sem permissão agora a encarava densamente. Por um momento a palavra "pedofilia" passou por sua mente, mas então ele voltou a sorrir de forma tímida e a palavra "louco" acompanhou a anterior.
— Sou Gaara. Aluguei o quarto oito. — Sim, ele era um hospede e com certeza se mudara enquanto ela estava fora.
O quarto de número oito era o único ainda vago. A pensão dispunha de dez quartos, mas somente oito estavam à disposição, pois um era usado por sua mãe e o outro por ela. E por ironia do acaso o dela era o quarto de número nove, ao lado do de Sasuke e agora também do de Gaara: o rapaz curioso que filma garotas entediadas.
Ela olhou por cima do ombro de Gaara e viu sua mãe chegando. Droga! Ino rapidamente ajeitou a pose ficando ereta, abriu um grandioso sorriso e disse polidamente o slogan do estabelecimento como se aquela fosse a noite mais feliz da sua vida:
— Seja bem-vindo à Pousada Paraíso! Aqui você se sente no céu! Sou Ino. — O sorriso dela era tão forçado que seu queixo quase tremia.
Por Deus! Aquele slogan doía só de falar, aquela frase foi dita por ela quando tinha sete anos e leu o nome da pensão e então seu pai resolveu colocar no toldo de entrada! Se as autoridades levassem os casos de propaganda enganosa a sério sua mãe já teria sido presa, porque, só para começo de conversa, aquele lugar não passava nem perto de uma pousada quem dirá um paraíso!
Enquanto ela sorria estranhamente e estendia a mão para o ruivo, sua mãe entrou na sala, tirou o casaco e sorriu cumprimentando-os, depois desapareceu numa esquina. Foi só a mulher se retirar que Ino desfez a atitude e suspirou voltando à posição de tédio. Já não bastava ter que ir andando para o consultório de Kakashi e estar com os pés latejando? Claro que não, ela ainda tinha que agir da forma que não queria.
Gaara continuou parado no mesmo lugar. Ele começou a tamborilar os dedos na borda do tampo do balcão.
— Então...
Ao ouvir a voz do rapaz, Ino deu um pulo de susto. Já tinha até esquecido da existência dele.
— Meu Deus! Você ainda está aqui? — A pergunta saiu de forma mais grossa do que ela desejava.
— Desculpe. — Gaara deu uma última batidinha no balcão e subiu as escadas rapidamente.
Ino o acompanhou com os olhos se repreendendo mentalmente. 'Idiota! O que diabos que deu em você? Ele não tem nada a ver com seus problemas! Mas quem mandou ser bizarro? Será que ele vai reclamar pra minha mãe sobre o dedo? Droga. Acho que estou mesmo louca!'.
