Depois de meses em um país estranho, vivendo uma guerra que não tinha sentido pra mim, matando e vendo morrer pessoas que também não viam significado naquilo, já havia me acostumado com os olhos de súplica. Duas fotos de família estavam no meu bolso – a primeira família do antigo comandante morto durante combate e na segunda fotografia exibia-se somente um garoto e o seu gato de estimação.

Novo demais para construir uma família -Conclui.

Era novato na equipe e não teve agilidade pra desviar de uma bala – calibre 47 lhe acertando o peito.

Após mais uma série de tiroteios eu e a minha equipe estávamos exaustos e com fome. O sol forte dava os primeiros minutos de folga iniciando o fim de tarde. A bola brilhante no alto do céu transformava toda a paisagem em um coral digno de admiração.

Aposto que muitos fotógrafos gostariam de fotografar isso.

Uma bela cena, a mistura do laranja e o vermelho.

O fim de tarde alaranjado caindo sobre a cidade manchada de sangue.

Nos sentamos onde um dia as ruínas funcionaram como casa para alguma família. As paredes parcialmente quebradas não nos ofereciam muita proteção, mas era o que tínhamos. A fome era tamanha que sentia meu estômago revirando-se, olhei para meus colegas e vi que todos tinham a mesma sensação que eu. A comida fria e amassada se tornara deliciosa e não me importei de devorá-la sem muita educação. Foi então que no meio daquela cidade cinza, vi um par de olhos. Ao contrário de tudo que estava acostumado a ver, eram amigáveis. Havia súplica neles mas era diferente. Estava com fome, com tanta fome quanto eu.

O cão moribundo se aproximou de mim, seu pêlo parecia castanho mas uma camada de poeira o cobria. Descansou seu corpo magro ao meu lado, parecia cansado de tentar e nunca conseguir. Apesar de me ver com uma quentinha na mão não me lançou mais os olhos famintos, não querendo me incomodar como havia feito com os outros que lhe chutaram para longe. Manteve-se em silêncio, talvez só quisesse uma companhia, alguém que não o mandasse embora.

A visão daquele cão, tão faminto e tão sozinho como eu me cativou. Meus olhos percorrem ao redor e os demais se mantinham alheio á presença do animal, como se nem mesmo estivessem vendo-o. Alcancei a cabeça do cachorro que de inicio recuou com medo, meus olhos procuraram os dele e tentei demonstrar que não tinha a intenção de machucá-lo. No segundo seguinte minha mão suja de sangue e comida afagou-lhe os pêlos frágeis.

– Tempos difíceis, não é amigo? – Um sorriso brincou em meu rosto. Não me lembrava de sorrir nos últimos meses.

Apoiei a quentinha no chão, próximo ao cão. O mesmo levantou os olhos e me fitou por instantes. Mantive a comida lá até que enfim o animal a comeu, com tanta vontade quanto eu antes fazia. Eu sorria feito um abobalhado, a sensação de tranqüilidade por estar perto de alguém que não tinha uma arma em mãos.