1. Dez Segundos à Porta do Inferno.

Recém passava das três horas da manhã. A cidade era tranquila, adormecida em diferentes etapas do sono profundo das pessoas que lá habitavam. Uma cidade inteira silenciosa como um gato. Ruas que passavam os dias movimentadas e estavam completamente desertas, por exceção de um ou outro carro que passava carregando aqueles para quem o dia ainda não havia acabado.

Harmonia era uma boa palavra para descrever aquela cena.

Todavia, aquilo tudo era a calmaria que escondia tamanha tormenta.

Pela rua que antes estava deserta, onde passavam carros tranquilos, um carro volumoso de cor branca e vermelha passava sem sua sirene soando incansavelmente, mas veloz como um raio, urgente e necessário, indo em direção à tormenta – o terror que estava escondido pela cidade calma e adormecida – um ponto da estrada há um pouco mais de 3 km ao norte da cidade.

Tudo havia acontecido muito rápido. No primeiro segundo, o carro estava rumando de volta à Seul tranquilamente. No segundo, o carro se descontrolava. No terceiro, um corpo tentou se livrar de um cinto de segurança sem êxito. No quarto, o carro começava a capotar. No quinto, o carro completava a primeira volta. No sexto, o pânico e a submissão à morte já havia se apossado das quatro pessoas no interior do automóvel. No sétimo, o carro já dava a terceira volta. No oitavo, o carro encerrava a última volta. No nono, parava de ponta-cabeça, completamente amassado, perda total. No décimo, a dor do acidente chegava atrasada para um dos que estava no banco de trás.

Ele não havia conseguido ser hábil o suficiente para tirar o cinto de segurança, que agora comprimia suas costelas com uma força que chegava a lhe causar súbitas náuseas. Procurava, com seus olhos tomados pelo pânico, sinal de movimento de algum de seus parentes; mas sequer os enxergava. Abriu a boca, tentou chamar... Mas no lugar de voz, saía apenas o ar quente de sua boca em um fino fio rouco e falho de sua respiração travada.

Manteve a boca aberta, tentando puxar o ar. As lágrimas escorriam de seus olhos livremente. Doía. Sentia o sangue escorrer de um machucado profundo em seu ventre. Sentia a dor no peito, não só a causada pelo cinto de segurança, mas também pelo medo. Medo por seus parentes. Medo de morrer.

Afinal, eram três da manhã. Madrugada fria do dia 25 de Agosto. A única coisa que havia naquela estrada, durante aquele momento, era o próprio carro da sua família, capotado, com seus passageiros à deriva. Tentava gritar por ajuda, mas sua voz não saía sequer para um sussurro. Os escombros e o estado em que o carro parava – de lado, quase de ponta-cabeça, achatado em todas as suas extremidades, fazendo a cabeça dele quase tocar o asfalto frio – impediam-no de se mover e sair daquela armadilha.

Estava fadado a morrer.

Era isso que pensava, até que, depois de indefinido tempo ocioso, sentia uma luz estranha que se aproximava da estrada. Ele tinha quase certeza de que sua hora havia chegado; mais lágrimas escorreram de seus olhos.

Todavia, o que estava enxergando pela janela com vidros espatifados, eram duas pernas de humanos correndo e se aproximando do seu próprio resto de carro.

- Eu tinha visto algo parecido com um rosto aqui! – uma voz soava como se estivesse muito distante. – Vocês, vão procurando nos outros lugares, tentarei ajudar aquele ali!

As pernas humanas voltaram a se aproximar de onde ele estava ali, pendurado. Mas ele não parecia estar tão feliz com tal fato. Não era como se alguma coisa importasse realmente; era o puro estado de choque. A boca entreaberta e o olhar que parecia tão distante...

À sua frente, agachava-se um homem de feições jovens e alarmadas – Ei, consegue me ouvir? Você está bem? – o seu possível salvador perguntava. Mas não tinha reação nem capacidade de respondê-lo. Então, o outro se virou para a rua novamente – Tragam uma maca aqui, rápido!

Com a ajuda de mais três colegas que haviam trazido a maca consigo, o jovem médico iniciava um trabalho lento e cuidadoso para tirar o garoto daquela prisão agonizante. Tudo precisava ser feito com muito cuidado; não sabiam se havia lesões na coluna do outro.

O resto, ninguém mais saberia dizer. A sensação de alívio para os pulmões do jovem ao se ver livre do cinto de segurança e ter seu corpo novamente esticado na maca era além do que um humano ileso poderia compreender ou sentir. Respirava fundo muitas vezes seguidas, como se tentasse reaver o ar perdido durante o tempo em que permanecera fixo à sua jaula.

Sentiu que seu pescoço havia sido imobilizado por alguma coisa; entrou em pânico novamente. Tentava olhar para os lados, encontrar alguém de sua família, mas tudo o que via eram diferentes ângulos da abóboda estrelada que iluminava aquela noite gélida.

Logo seus olhos já estavam cobertos novamente por lágrimas. Mesmo as estrelas que pontilhavam o céu negro já se misturaram umas às outras no seu campo de visão; até que sumissem completamente, quando sua maca era erguida para adentrar a ambulância que ali estava esperando pelos acidentados.

Notou que seu corpo parava de balançar e já não era mais carregado sob o teto da ambulância. Estava frio, imensamente frio. Doíam-lhe todas as partes possíveis e existentes em seu corpo frágil. E em seu peito, em seus olhos, em sua mente, apenas a imagem de sua família permanecia. Não sentia nada além de medo, ou uma sensação estranha e semelhante ao medo.

Pelos olhos completamente marejados, conseguia captar um vulto que debruçava-se sobre seu rosto, examinando-o de perto. Fechou as pálpebras trêmulas e sentiu as lágrimas transbordarem novamente. Todavia, desta vez, sentiu dois dedos a secar seu rosto.

Abriu os olhos novamente, encarando confuso aquele que estava perto de si. Pensou em seu pai ou sua mãe e, em casos mais extremos, em sua irmã mais nova. Mas à sua frente estava aquele médico de semblante jovem. Com a luz do interior da ambulância, pôde ver o seu salvador nitidamente; seus cabelos eram curtos, mas bagunçados de forma a fazer as pontas apontarem para todas as direções; seus olhos eram sinceros e preocupados.

- Consegue me ouvir? Me ver? – perguntou o médico, olhando fixamente nos olhos ônix do garoto que mais parecia um corpo sem vida sobre a maca. – Ou pelo menos consegue dar algum sinal de que consegue me entender?

O enfermo tremulou os lábios, abrindo-os com dificuldade. – C... Cons... – a voz saía rouca, rasgando na garganta. Não conseguiu continuar.

O médico entendeu aquilo como uma afirmativa. Sorriu de leve, aliviado.

Levou a mão para a testa do jovem, afastando seus cabelos castanho-escuros e meio pegajosos por conta do sangue de seu ferimento na cabeça. Pegou alguns anti-sépticos e algodão para limpar o ferimento leve em sua testa. Enquanto isso, as portas traseiras da ambulância eram fechadas e ela voltava a se locomover o mais rápido que era possível e necessário.

Uma espécie de cansaço parecia consumir o corpo do jovem. Seus olhos teimavam em querer fechar... Mas não podia. Ele tinha que encontrar a família; apenas isso estava presente em seus pensamentos, ainda.

O médico parecia entender o que se passava na mente do outro – Pode descansar. – disse suavemente, com um sorriso gentil na face. Mas seus olhos ainda eram um pouco tristes. – Todos estão sendo cuidados. Não se preocupe, está tudo bem agora...

Com aquelas palavras, os olhos de Kim Kibum se fecharam definitivamente naquela noite.