II.

Walter Bishop e as convidadas estavam sentados no pequeno roseiral que a mãe cultivara em sua infância. Elizabeth Bishop amava flores, as rosas em especial. O jardim de rosas ficava na parte lateral da casa, perto de uma varanda. Quem o viu primeiro foi o pai. Levantou-se de seu lugar, emocionado. Ficou olhando Peter se aproximar sem perder um único movimento. Mas parecia não ter forças ou coragem de dar o primeiro passo.

Peter chegou perto o suficiente para um aperto de mão. Fitou o pai atentamente: não parecia doente e nem envelhecido como o imaginara. Aparentava saúde e boa disposição de espírito. Aquilo era meio indecente aos olhos do filho, que intimamente esperara um ar mais contrito.

-Como tem passado...Walter?

-Filho...

A expressão de Nina Sharp deixava entrever seu desagrado. Uma sobrancelha ligeiramente alçada. Mas ela não disse nada. Estava envelhecida. Usava um vestido de seda cor de vinho que combinava com o tom artificial de seu cabelo, preso num complicado penteado onde estavam misturados bandós postiços. A expressão era grave, bem na linha da carta que ela lhe enviara.

Walter Bishop ignorou a frieza educada do filho e atraiu-o para um caloroso abraço. Nunca tinha sido um homem convencional. Peter não teve outro remédio senão se deixar envolver pelos braços do pai. Retribuiu com um tapinha desanimado nas costas, mas Walter não pareceu tomar conhecimento. Estava muito feliz.

Quando se separaram, afagou a face de Peter, como fazia em sua infância. Foi aí que Peter olhou por cima do ombro do pai e notou a moça. Era bem jovem, não devia ter mais que vinte anos. Usava um vestido branco de verão. Apesar de ser muito bonita, Peter imaginara coisa muito diferente. Era só uma jovenzinha.

Nina Sharp aguardava, impávida.

-Senhora Sharp, como está?

Ele beijou a mão que ela lhe estendia. O outro braço tinha uma aparência estranha, parecia meio inerte. Ela inclinou a cabeça.

-Muito bem, Peter. E você?

Os olhos dele cintilaram, ele mentiu com muita facilidade.

-Perfeitamente. –seus olhos estavam detidos na garota.

Nina Sharp percebeu e fez as apresentações.

-Peter, esta é Rachel Dunham. Rachel, este é Peter, o filho único do Doutor Bishop.

Peter se adiantou e apertou a mão que ela lhe estendia. Ela baixou os olhos. Pensando melhor, não devia passar dos dezoito anos. Era loura, não muito alta, mas tinha um corpo perfeito que não podia ser disfarçado pelas rendas e babados do traje que usava. O corpo já tinha curvas e ela sabia bem disso. Presa ao cinto, uma rosa chá. Toda ela evocava uma atmosfera primaveril, cheia de uma ingenuidade picante. Não era exatamente o tipo que atraía Peter. Ela era do tipo que levava os incautos a se meterem em confusões. Mas por outro lado, ele não era nenhum tolo e sempre era uma distração naquela cidade tão conservadora.

-Senhorita Dunham, é um prazer conhecê-la.-a voz saiu grave, sedutora; acompanhada de um sorriso cativante.

Ela corou novamente, com maior intensidade. Mantinha os olhos baixos, mas não perdia um único movimento dele.

Walter estava deliciado com o efeito que o filho causara na garota. Foi logo explicando:

-Rachel é irmã da minha pupila, Olivia. Você irá conhecê-la em breve. Trata-se de uma jovem extraordinária. Possui habilidades notáveis e uma mente brilhante. Que memória surpreendente! Sem falar no interesse pelas ciências...

Partridge se equivocara, aquela era a irmã. Peter mal disfarçou o seu enfado. A tal Olivia devia ser feia como a pobreza. Quem iria se prestar a ser discípula de Walter se não fosse tão esquisita como ele mesmo? Errara em suas conjecturas. Era quase certo que Walter não iria se casar com nenhuma das moças Dunham. O interesse na jovem era mais uma de suas extravagâncias. Aliás, esse tipo de gente não significava muita coisa para a alta sociedade bostoniana, tão apegada às tradições e, consequentemente, tão cheia de preconceitos. Mas Walter era o avesso de tudo isso, por isso era apenas tolerado e não bem quisto.

Nina Sharp olhava para ele com severidade. O olhar abarcava a garota também, que tomava o seu chá mas não o perdia de vista. Esses olhares de esguelha geralmente eram sinal de dissimulação. Era preciso tomar cuidado, não queria se meter em escândalos com donzelas precoces. Casamento não fazia parte do seu estilo de vida. Ainda mais com moças pobres. Peter não era do tipo que perdia a cabeça com facilidade.

O pai o contemplava, embevecido. Com a mesma expressão orgulhosa que sempre tivera ao olhar para ele. Agia como se nada tivesse acontecido, como se os oito anos de exílio voluntário do filho nada significassem. Peter estava ali, era só o que importava. O jovem não se sentia animado. A permanência em Boston prometia ser um tormento. Walter tentou motivá-lo:

-Espere só para conhecer Olivia. Tenho certeza que ficará impressionado com seus dotes intelectuais. Vai adorá-la. Tenho absoluta certeza...

Peter nunca se deixara entusiasmar por dotes intelectuais de mulheres. Preferiu não responder para ver ser Walter esquecia o assunto. Bebeu um grande gole do chá que a menina Dunham lhe servira e fingiu estar entretido com a visão do roseiral.