- Oh, você é o novo empregado? Por aqui, meu jovem.
Um dos guardas dirigiu a palavra ao menino. Mal sabia ele que estava tratando do filho do rei...
Uma pena isso. Lance só sentira ódio da madrasta... Mas logo passou assim que entrou no gigantesco castelo.
- Qual o seu nome, garoto? – perguntou o guarda que o levara até seu novo quarto.
- Meu nome? L-Lance...
- Lance? Hm... belo nome.
- Por um momento pensei que ele iria reconhecer – pensou o Kuroboshi.
- Hm... senhor... Posso lhe fazer uma pergunta?
- Sim, meu jovem?
- Quanto aos herdeiros do trono... A Yami-sama, ela é filha única?
- Ah, quanto a isso... Yami teve um irmão, acho... porém ele desapareceu anos atrás e deram-no como...
- E-eu entendi... – Lance cortou a conversa imediatamente. Sua mente fervera mais uma vez.
Como tiveram a coragem de mentir sobre o herdeiro? A verdade era que a madrasta, atual rainha, quem os expulsara do castelo por achá-lo incapaz. Dando apenas amor à sua irmã gêmea, que não tinha culpa alguma naquela história toda.
Outra vez sentiu raiva. Queria fugir dali e voltar a viver com aqueles que o acolheram e o trataram com carinho – Yaku e Saigo.
Mas por outro lado desejava rever sua irmã e permanecer ao lado dela. Lembrou que estava fazendo aquilo por ela e não pela mulher com quem seu pai havia se casado.
Aliás, ele não compreendeu tão bem assim...
Como ele conseguiu aquele emprego? Sua nova "mãe" acha que não descobririam a verdade? Ou ela acha que para servir uma pessoa do seu próprio sangue, sua irmã e seu pai, era o seu merecido lugar?
- Aqui, garoto. Seu quarto. – disse o homem, abrindo uma porta simples que dava em um quarto simples.
- Ah, obrigado senhor. – reverenciou ao cavaleiro, entrou no quarto e colocou sua mala em cima da cama.
- O jantar dos empregados é por volta das seis da tarde. Nunca trate a família real de forma informal. E mais...
- Hm?
- Nunca entre nos aposentos reais sem permissão. A Rainha não permite.
- Ah claro. Obrigado, prometo que não irei quebrar as regras.
- Disponha. – e saiu do quarto, fechando a porta.
Ele arrumou seu quarto, e ficou observando a janela. Admirando o jardim onde antes ele corria, pulava e brincava com sua adorável irmã.
Via as flores, aquelas mesmas flores que eles colhiam para levar até a sua querida e amada mãe, a melhor rainha que governou aquele país.
Como sua família era feliz... Ele tinha de tudo. Mas quando ela morreu... não perdeu só o amor materno que estava acostumado como foi mandado para rua! A vagar como um mendigo, tendo uma vida dura!
Não, ele por um lado agradeceu por saber o que o povo passava. Dessa forma, caso ele fosse o novo rei de Kuroboshi, saberia o que fazer e as primeiras medidas a tomar.
Começou a pensar sobre o verdadeiro motivo de a madastra ter expulsado-o do castelo.
"Será que não foi com a intenção de aprender mais com os habitantes e se eu me tornar o próximo rei de Kuroboshi saber o como administrar o reino..?"
Pensou. Repensou e pensou mais e mais uma vez.
Talvez ela não fosse tão má assim. Mas isso não explicava o motivo por terem anunciado que o outro filho do rei havia morrido.
Se fosse para ser um teste, teriam inventado OUTRA desculpa para isso.
Voltou a lembrar dos olhos daquela mulher, aquela que estava ao lado do seu pai. Ela parecia não gostar dele, nem um pouco. Sempre que estava a brincar com Yami, a madastra a tirava de perto de si, como se ele pudesse fazer algum mal a menina.
- Não... Aquela mulher, me recuso a aceitá-la como rainha e como madastra. – disse ele, olhando ainda pela janela.
- Ela sempre me olhou com aqueles olhos, cheios de rancor... Não permitia que Yami e eu ficássemos juntos. Era como se eu fosse machucar minha própria irmã! Não teria como fazer isso! Eu amo a Yami-chan! Ela e eu somos irmãos, nós nos amamos! E prometemos que não iríamos mudar nossa relação quando fosse à hora de um de nós subir ao trono!
Segurou com força as grades da janela, encostou a cabeça e continuou fitando o lado de fora.
- O que eles pensam sobre isso? Ela e eu... Será porque... Yami-chan e eu éramos muito próximos?
- E eles pensaram que... Isso interferiria nossa preparação para assumir ao trono? Ou tem outro motivo aparente?
Soltou-se das grades e atirou-se na cama, olhou para o teto e continuou pensando no assunto. Até adormecer.
Dormiu por alguns minutos, até ouvir passos no corredor. Ficou um tanto curioso saiu.
Viu uma pessoa a correr pelo corredor, passos apressados.
Como sempre, Lance saiu atrás, pensando no que poderia ser. E se a pessoa tiver algum problema... Poderia ajudá-la.
E esse individuo correu diretamente para um dos quartos. Enquanto o jovem parou no vasto corredor onde se localizava umas oito portas, todas gigantescas e na cor branca. Aliás, o corredor tinha paredes brancas e o piso também.
Seu coração acelerou, conseguia ouvir e sentir seus batimentos perfeitamente. Estava diante do corredor... onde eram os quartos da realeza.
Andou até a porta por onde havia visto a sombra entrar e parou diante dela.
Tensão... O que fazer? Abrir a porta, quebrar uma das regras logo no primeiro dia de seu serviço...
... Ou ignorar tudo isso e averiguar se quem corria estava com algum problema?
- O que fazer..? – pensou.
- Entrar assim seria uma grosseria... Acho melhor eu bater na porta... – disse a si mesmo, em voz baixa.
Levou seu punho esquerdo até a porta branca, um pouco trêmulo, e bateu suavemente.
Até ouvir uma voz, permitindo que entrasse.
Pelo timbre, parecia que aquele que estava do outro lado da porta estava calmo. Era uma entonação mais doce.
O que fez com que seu nervosismo passasse. Respirou fundo e com delicadeza empurrou a maçaneta de ouro para baixo, abrindo a porta.
E lá estava aquela que ele não a via por dois anos seguidos. Seus olhos se cruzaram no rápido silêncio que aquela cena causara.
Olhar. O mesmo olhar que eles tinham. Os mesmos olhos. A mesma face.
Eram idênticos... Tirando o jeito que seus cabelos eram penteados e presos.
Ficaram ali, trocando olhares.
Até que ela quebrou o silêncio:
- Oniichan? É você?
Nada disse, apenas entrou no quarto silenciosamente e fechou a porta.
Segundos depois os dois correram um ao outro, acabando em um abraço forte, com algumas lágrimas escorrendo de seus rostos.
- Oniichan... E-eu achei que você...
- Não, Yami-chan. E-eu estou vivo. Aquela mulher me expulsou de casa durante à noite, enquanto o papai havia ido tratar de assuntos em Gakushoku...
Sim. Fora no 4º dia que o rei de Kuroboshi foi tratar de assuntos com o rei de Gakushoku, deixando a madrasta cuidando do reino e de seus filhos.
Naquela noite, a "rainha" expulsou Lance depois que Yami e os demais empregados foram dormir.
O disse que era incapaz de comandar Kuroboshi, e em seguida o empurrou contra o chão, para fora do portão branco que era a entrada para o glorioso palácio.
E para completar...
No dia seguinte informou ao rei, quando este mandara uma carta para saber como estavam os filhos. Escreveu que o pequeno havia desaparecido e que não o encontraram.
O rei retornou dias depois, abismado com a notícia. E com aquela sensação que o seu filho querido poderia estar morto após meses e meses de busca, pediu que ninguém proferisse o nome "Lance Kuroboshi" naquele castelo.
Mal sabe ele a verdade. Mal sabe que aquele menino que abraçava sua filha era o irmão dela.
- E-ela... ela sempre está me obrigando. N-não posso parar um segundo para descansar que já sou pressionada a continuar... Não agüento mais!
- Tenha calma, Yami-chan... Eu estou aqui, ao teu lado. Vamos continuar juntos, não importa o que ela faça.
- M-Mas... O papai... ele ficará em feliz em te ver! E ele pode puni-la por isso!
- Não, Yami... Ela pode ter feito isso pra se livrar de mim, mas...
- Mas...?
- Eu vi o mundo com outros olhos. As pessoas são felizes, nossa família prega várias coisas boas, mas... Nem todos seguem. Nem todos são felizes.
- C-como assim?
- Ainda há miséria e discriminação nas ruas. Eu vivi com umas pessoas estes dois anos e presenciei o que é passar fome e o que é ter algo na mesa para comer. Vivi nas ruas e fui acolhido por uma jovem cidadã e por um dos empregados deste castelo.
- Ah... Espera, conhece algum empregado do castelo?
- Sim...
- E o nome dele?
- Uh... Pra que deseja saber, irmã? Ah, desculpe se pareço estar escondendo coisas...
- Não, não... Só foi por curiosidade! Talvez ele nem saiba que você era o meu irmão.
- Hm...
- E eu gostaria de agradecê-lo.
- Yami... Deixemos isso de lado. Outra hora irei apresentá-lo a você.
- Ok... Eu gostaria de retribuir... Sabe que... eu sempre te amei, não é?
- Claro que sim! Você é a minha única irmã! E saiba que eu sempre estarei ao teu lado, nos bons momentos, nos péssimos dias... Sempre poderá contar comigo, minha princesa.
- Mas, Lance... Devemos contar ao papai imediatamente essa história! Não quero que aquela mulher...
- Não, Yami-chan... não quero trazer problemas ao nosso pai. Agora devo chamá-lo por "vosso rei"... idem a você.
- E-eu não admito que me trates como os serviçais! És um Kuroboshi também! E prometemos anos atrás que não mudaríamos nossa forma de tratar um ao outro!
- Ela pensa que eu não sou capaz de me tornar um bom rei. Talvez tenha até alguma razão...
- Me recuso a me tornar rainha!
- Yami, escuta! Você não pode deixar que o reino fique nas mãos daquela mulher!
- Sim, também concordo... Ah! Mas... até lá o papai já deve ter descoberto a verdade!
- Não... Yami-chan, quero que continue assim. Não quero que meus amigos sejam injustamente culpados por isso. Papai pensaria que eles me raptaram! Aquela nossa madrasta arranjaria alguma desculpa para se safar!
- Mas...
- Quando for sua hora de assumir o trono, eu continuarei te servindo. E se não for mais seu servo, continuarei ao teu lado de qualquer jeito!
- Sim, mas... Mas quando isto acontecer eu quero... Quero que nós dois cuidemos de Kuroboshi! Os dois lados... Você me ajudará com a sua experiência e eu irei dar um jeito de satisfazer todos os nossos súditos! Quero que todos sejam felizes, e combater a pobreza e a discriminação!
Lance sorriu, aquele discurso era igual ao de sua mãe. Era igual ao de seu pai.
E era de se esperar isso de sua irmã, uma pessoa tão doce e adorável.
O sorriso dele a fez devolver o gesto, com um carinhoso beijo em seu rosto. Yami estava feliz. Feliz por ter seu irmão de volta, por ele estar ao seu lado.
E ficou por assim mesmo a história sobre a verdadeira identidade do menino. Apenas sua irmã sabia quem era e mais ninguém.
Nem mesmo Saigo, melhor amigo de Lance.
...
Passaram alguns anos, e é chegado o dia do 10º aniversário das crianças. Eles comemoraram a manhã toda com a família.
Ninguém dava muita importância ao aniversário do servo, só alguns colegas de trabalho.
E a pequena Kuroboshi, claro. Ela não quis deixá-lo de fora e até havia brigado com a sua madrasta quando esta vinha expulsar o garoto das comemorações.
À tarde...
- Yami? Yami-chan?
- Onde você está?
Desta vez quem sumira foi ela. Disse ao irmão que iria dar uma volta, mas já passara horas. Decidiu ir procurá-la, pois a essa altura já estava bem preocupado.
- Yami-chan!
- Aonde você foi?
- Yami! Ah não faz isso comigo!
- Seus pais vão ficar preocupados conosco se não voltarmos antes do pôr-do-sol!
- Yami- - algo o agarrou pelo pulso e o puxou.
Diferente daquela vez foi ela quem fez aquilo. O susto foi rápido, e se transformou num alívio. Ele ao contrário dela, não se assustava tanto assim.
- Yami! Onde você estava? Deixou-me preocupa- - a menina colocou o dedo indicador direito na boca ele, e com a outra mão fez o sinal de silêncio.
- Shh, não diga nada! Apenas feche os olhos e venha.
O garoto atendeu ao pedido de sua irmã, que segundos depois o guiou até o canto secreto dos dois, onde havia no centro do "salão-natural" uma toalha estendida, com uma pequena cesta cheia de doces e uma caixa ao lado dela.
Ela se sentou na toalha, e fez o menino fazer o mesmo. Deu um pequeno risinho enquanto olhava ele franzir a cara e forçar a manter seus olhos fechados, para não estragar o que a menina tinha preparado.
- Yami-chan... Por que está rindo? – perguntou, ainda segurando-se para não olhar. Mas a curiosidade já batera nele.
- Pode abrir agora, oniichan. – riu outra vez.
Abriu os olhos, olhou a sua volta. Reconheceu aquele lugar rapidamente. Claro, eles sempre iam passar as tardes lá, lendo algum livro, conversando, ou simplesmente admirando o cenário.
Mas aquele dia foi diferente. Algo o chamava a atenção. O Kuroboshi acabou desligando-se do mundo quando fixou seus olhos cor-de-mel num dos cantos do local.
Yami oferecia os doces, perguntava-o sobre alguma coisa... mas ele continuava distraído.
Até que acordou do seu transe:
- Lance! Tá me ouvindo? – falou ela com uma voz doce, olhando-o.
- Ahn? Creio que eu... Eu tenha me distraído, Yami-chan.
- Hoje... Hoje é um dia especial, sabe por quê?
- Se não soubesse, por que estaríamos aqui?
- Este lugar é perfeito pra lhe entregar algo neste dia – sorriu.
A menina lhe entregou uma caixinha pequena.
O menino abriu o pequeno pacote e de lá tirou um pingente de uma estrela feita de cristal.
Ele observou o presente por alguns momentos, depois fitou na menina.
- Feliz aniversário, Lance-oniichan! – sorri.
- Ei, é seu aniversário também.
- Eu sei, mas você é mais velho que eu. Portanto merece.
- Obrigado, Yami-chan. – devolveu o sorriso.
- Combina contigo! Lance... você é como um anjo da guarda para mim.
Levantou-se do gramado e o ajudou a colocar o pingente.
Logo depois sentou de novo, observando o jardim.
- Lance-oniichan... Esse lugar é bonito, não é?
- ... Lance?
- O que foi irmãozinho?
Ele voltou-se a ela e explicou:
- Yami-chan... Eu acho que vi algo ali...
- Ali? Ali aonde?
- Ali, passando aquelas árvores...
- Mas ali começa a floresta que liga o outro reino... E nós não podemos sair de Kuroboshi sem o consentimento do nosso pai!
- Não, está ali perto. – o jovem se levantou da grama e saiu correndo até lá.
- Lance! Lance-oniichan! Ah não, lá foi ele... *sigh* Por que ele não me ouve, hein?
Ela saiu atrás dele, e o viu parado. Parado na frente de uma estranha mulher, sentada debaixo de uma árvore morta, acorrentada nela.
Mas aquela árvore era diferente. Estava longe das outras, em um canto cinza. Aquele local onde ela se encontrava era totalmente monocromático.
A estranha possuía um longo cabelo castanho, preso em uma fita negra, e os dividia uma mecha para cada lado. Vestia roupas negras e tinha um olhar diferente, olhos roxos que pareciam envenenar quem os olhasse.
Tinha, em suas mãos uma estranha caixa negra, com um pentagrama na tampa.
A menina não sabia o que fazia, pois aquela imagem não era um tanto agradável para se olhar... E o seu irmão estava justo fazendo isto.
Então o chamou a atenção:
- Lance?
- Uh? – o garoto se virou, vendo a irmã. Parecia que antes se encontrava num transe daquela figura misteriosa – Yami-chan, você não devia ter me seguido!
- Quem... Quem é ela? – perguntou ela.
- Ela?
- Essa mulher.
- Não a conheço... mas parece estar um tanto... triste.
- Por que ela está acorrentada? Quem faria uma maldade dessas?
- Não sei...
- Ah...
- Ajudem-me... Por favor...
- Ouviu isso? – perguntaram um ao outro.
- Ouviu alguma coisa, Lance-oniichan?
- Também ouviu? Pensei que tinha sido só impressão...
- Ajudem-me... Por favor...
- Não... Não foi impressão sua. Eu também ouvi. – confirmou a princesa.
- Foi ela. Foi aquela moça!
- Não tem mais ninguém aqui, então foi ela mesmo.
- Deveríamos ir ajudá-la?
- E se for perigoso? E se tiver alguma coisa ruim lá?
- Deveríamos abandoná-la? Logo agora que ela pediu por nossa ajuda?
- Lance... Acho que deveríamos pensar um pouco antes. Talvez chamar alguém ou...
- Ajudem-me... Por favor...
- E se acontecer algo a ela? Ela não pode sair de lá, está acorrentada!
- Mas... Mas e se acontecer algo conosco?
- Não vai! Nós temos que ajudá-la antes que algum animal a mate ou coisa do tipo.
- Aquele lugar me dá arrepios... É... é sinistro, deprimente...
- Imagina ela então! Está ali e não pode escapar!
- Ok... Ok, Lance. Você tem razão... Aquela mulher está triste, e está presa naquele lugar.
Os jovens entraram naquele lugar sombrio, que era, na verdade, um portal para o mundo das trevas que foi aberto pela estranha figura.
Entraram de mãos dadas. Yami começara a tremer de frio, sentia medo e desânimo. Quanto ao seu irmão nada daquilo o afetava, continuava o mesmo. A mão dela ficara gélida, demonstrando aqueles sintomas já ditos.
- Yami-chan, não tenha medo! – animou-a, tirando o colete e colocando na Kuroboshi – aquela moça está tão triste, se nós a ajudarmos ela irá ficar feliz e nos agradecer.
- O-ok... Você... Você sempre está ajudando os outros... n-não é, irmãozinho?
- É isso que nos faz pessoas boas, Yami-chan. E é isso que pregam na nossa família: Sempre ajudar ao próximo. – sorriu.
Chegaram perto dela.
- Ei, moça! – falou o menino – Como nós podemos abrir o cadeado? Sabe onde está a chave?
- Lance... – Yami continuava tremendo de frio. Aquele lugar a agonizava.
A mulher não falou nada, apenas apontou para os dois, olhando-os nos olhos.
Com aqueles seus olhos roxos amedrontadores.
O menino, apesar de atrapalhado e distraído, era inteligente e logo entendeu a mensagem passada por aqueles olhos.
- Ah! Então... nós somos a chave?
- Lance...
Em seguida a mulher apontou para a caixa, e deu dois toques com a palma da mão livre.
Sem tirar os olhos daquelas doces crianças.
- Tudo que temos que fazer para te soltar é abrir a caixa e pegar a chave?
- Lance-oniichan...
A mulher acenou positivamente com a cabeça.
Ainda envenenando-os com seus olhos sinistros.
Lance não pensou duas vezes, sendo que quando se trata de ajudar alguma pessoa, ele é o primeiro a se oferecer, aproximou mais da mulher e abriu a caixa antes mesmo de ouvir Yami dizer para não fazer aquilo.
Eis que a estranha mulher abre um sorriso assustador, que não é visto pelos jovens, e sai algo da caixa. Uma aura rodeia os gêmeos, uma aura sombria e aterrorizante, fria e cruel...
Estava feito... As trevas tomaram aquele lugar.
Porém aquilo tudo dura apenas pouquíssimos segundos.
Assim que acaba, os dois jovens se olham, um tanto confusos.
- Oniichan... – começou a princesa – você.. você...
- Hm? O que foi? Tive uma sensação que... Que vi alguma coisa passar por nós...
- ... Eu também... Ah, quanto a moça?
- A moça? – O menino volta sua atenção na árvore e nota que a misteriosa mulher havia desaparecido – Y-Yami-chan! E-ela...!
- SUMIU! – exclamaram juntos.
- Como... como ela passou por nós sem a termos visto?
- sei lá... Só sei que ela... não nos agradeceu...
- Está se importando com isso, irmãozinho?
- Não, não... Pelo menos ela deve estar feliz agora, livre. – sorriu.
- ah, v-você está certo... – tentou disfarçar aquela sensação que sentia antes e continuava pairando em sua mente – Vamos... Vamos voltar?
- Claro, minha princesa – riu, dando a mão à garota.
No caminho, ela pensava no que tinha acontecido.
No que realmente tinha acontecido.
Sentia que devia ter dito a ele para não abrir a caixa. Mas não teve forças.
A intenção do irmão era mais forte, seu desejo de querer ajudar uma pobre alma venceu todas as hipóteses que poderia formular.
No entanto, a pequena Kuroboshi sentia que alguma coisa estava de errado.
Alguma coisa, mas não sabia ao certo o que era.
E assim que voltaram para o lugar onde estavam antes, depois de se sentarem na toalha e continuar aquela pequena cerimônia íntima...
Yami pegou na mão de seu adorável servo:
- Lance... Poderia me realizar um pedido? – perguntou-a.
- Claro. – sorriu, admirando sua irmã.
- Não vá embora. Nunca, por favor.
- Não se preocupe, minha princesa... Não irei te abandonar.
O abraçou fortemente, não o querendo soltar nunca.
De certa forma, o seu irmão se tornaria a pessoa mais importante a ela...
Nos próximos três anos.
