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Apenas parei de tremer quando sentei-me à mesa e cerrei os olhos pensando: "Estou na Grifinória". Eu havia cambaleado até o Chapéu Seletor, e dele até a imensa mesa, abarrotada de estudantes trajando vestes vermelho-douradas e outros primeiranistas, de vestes apenas negras, muito nervosos, talvez não tanto quanto eu. "Estou em Hogwarts", pensei comigo, aliviado por ficar alguns anos longe da pobreza em que eu vivera até então. Lá era bonito, eu podia andar bem vestido enquanto usasse o uniforme, e havia muita comida. Além disso, havia livros, muitos deles à minha disposição na biblioteca. Realmente não podia haver lugar melhor do que Hogwarts, e eu estava apenas perto de descobrir o real motivo dessa minha afirmativa.

Demorei um bom tempo em frente ao espelho na manhã seguinte. Sentia-me bem apresentável e até bonito trajando o uniforme de Hogwarts. Saí para o meu primeiro café da manhã no castelo, sentindo a minha auto-estima elevada como nunca tivera. Bastou vislumbrar rapidamente os outros garotos para que ela fosse reduzida a zero. Todos eles me pareciam extremamente elegantes, possuíam uma expressão de criança bem cuidada, que nunca sofrera metade das coisas que eu havia sofrido. Eu tinha consciência de que era um garoto franzino e lânguido, que crescera em condições precárias, sendo, aos oito anos, mordido por um lobisomem, o que me acarretou uma infância conturbada, com transformações às luas cheias e cicatrizes permanentes. Eu era desajeitado e muito distraído, o que me tornava tolo frente às pessoas. Por esses e outros motivos que na época passavam por minha cabeça, mas que já hoje não me recordo, exilei-me a um canto da mesa, concentrando-me na variedade de meu café da manhã, que de repente, eu não sentia vontade alguma de tomar. Arrisquei um olhar de esguelha para o meu lado esquerdo, para dois garotos que riam e tagarelavam sem parar. Eles, pela aparência e pela conversa, também eram primeiranistas, e eu pensava, com uma pontinha de inveja, em como haviam conseguido uma amizade, que já parecia tão íntima, em menos de vinte e quatro horas. Senti vontade de estar junto deles e rir também, mas achei melhor abster-me dessa ideia. Ambos pareciam ricos e bem cuidados, como os meninos e meninas que eu vira há pouco, e não haviam de querer amizade com alguém como eu. Porém, continuei a observá-los, e vi quando o sorriso sumiu do rosto do mais animado dos dois, para ser substituído por uma expressão de desagrado, ao receber o correio. Ele cochichou alguma coisa com o amigo e se retirou. Percebi um negativo menear de cabeça do que ficou, seguido por uma expressão de desdém. Então voltei-me para meu café da manhã, sentindo a fome surgir subitamente.

Recordo-me apenas que a primeira aula que tive em Hogwarts foi Feitiços, e mais nenhuma daquele dia. No dia seguinte sim, a primeira foi Aula de Voo. Lembro-me que eu tremia só de pensar em como era desajeitado para exercer bem aquela tarefa. Quando a professora ordenou que levantássemos voo a um metro do chão, senti desespero, meu coração acelerou, e o suor começou a escorrer por minhas faces. Eu gostaria de dizer que não queria voar, que não levava jeito, mas temi ser motivo de chacota, então, assim que soou o apito da professora, eu levantei voo, muito mais dificilmente que os outros, o que felizmente passou despercebido. Entretanto, um aluno que parecia do quinto ou sexto ano, chamou a professora, e ela pediu que continuássemos em nossas vassouras, mantendo o equilíbrio até que ela voltasse. O desespero que me deixara por alguns segundos, voltou com toda a intensidade. O que parecia uma tarefa fácil para os outros alunos, para mim era terrível. Manter o equilíbrio, apenas precisava manter o equilíbrio. Vendo que a professora se afastava cada vez mais, fechei os olhos e tentei mentalizar que eu estava equilibrado, que eu não cairia... Mas foi em vão. Senti o coração disparar quando percebi que a queda era iminente, e logo eu estava caído ao chão, sobre o braço direito, que doía a ponto de enlouquecer. Todavia, o que mais me doía eram as risadas dos colegas, a humilhação. Em questão de segundos, entretanto, alguém me ergueu do chão, e já prestes a chorar, eu reconheci o garoto do café da manhã anterior, o que recebera a correspondência.

— Você está bem? — ele me perguntou, aflito.

— Acho que eu quebrei o braço — respondi tentando evitar as risadas dos colegas.

Logo, o amigo dele estava correndo, chamando pela professora que não tardou a chegar. Sei que ela me levou para a ala hospitalar e Madame Pomfrey consertou o meu braço com uma poção, mas deixou-o enfaixado, para que os ossos voltassem ao lugar.

Quando voltei para o salão comunal naquela noite, fui recebido com uma torrente de vaias, de meus colegas e de tantos outros grifinórios mais velhos.

— Ei, não é o garoto que caiu da vassoura?

— Esqueceu seu equilíbrio em casa?

— Devia estar bêbado.

Decidi ignorar as provocações, sentindo uma vontade amarga e pouco convencional de me tornar um lobo, ali, naquele exato momento.

— Parem! — ordenou uma garota de cabelos acaju, que eu reconheci como minha colega de classe — Não sejam ridículos!

Ela não era ouvida. Quem ouviria uma garotinha do primeiro ano, de aparência tão frágil? Ela, portanto, resolveu esquecer suas queixas e se voltou a mim.

— Não se importe — havia caridade e compreensão em seus olhos — eles são idiotas, todos eles.

— Está tudo bem — eu disse corando ligeiramente — obrigado, de qualquer forma.

Fui para o dormitório lisonjeado por uma garota bonita ter-me defendido. Dei-me conta, então, que eu jamais havia conversado com uma garota que não fosse da família. Na escola elementar, eu conversara raríssimas vezes com um ou outro garoto. Ao abrir a porta do dormitório, ouvi as vozes animadas de meus três companheiros de quarto (um outro garoto chamado Anthony Dipper também usava o mesmo quarto, mas só entrava lá de madrugada, gostava de ficar até tarde lendo no salão comunal) que eu acabava de reparar, dois deles eram os que haviam me ajudado pela manhã.

— Como está o braço? — perguntou o que me erguera do chão.

— Melhorando — respondi, novamente corando, mas pela lembrança da humilhação na aula de voo — obrigado por terem me ajudado.

— Não por isso — responderam os dois amigos em uníssono, o que causou um novo acesso de gargalhadas.

O outro garoto também ria, mais por obrigação que por vontade. Era evidente que ele queria se entrosar, e não sabia bem como fazer isso. Vi-me naquele garoto louro e gordinho, de dentes salientes, que evidentemente era excluído, e queria desesperadamente fazer amizade. Resolvi que me apresentar e entrar para a conversa, poderia ajudá-lo, e também a mim.

— Sou Remus Lupin — eu disse sentando-me à cama do garoto gordinho, frente à cama ocupada pelos dois amigos, jogados de qualquer jeito.

— Sirius Black — estendeu-me a mão direita o meu salvador, e riu desconcertado ao perceber que eu só podia cumprimentá-lo com a esquerda, trocando imediatamente de mãos.

— James Potter — disse o outro garoto, limitando-se a acenar — mas estou com preguiça de ir até aí apertar a sua mão.

Irromperam novamente as risadas, e dessa vez eu participei.

— E você? — perguntei ao garoto que ocupava o meu lado esquerdo, o qual eu havia esquecido por alguns segundos.

— Peter Pettigrew — sua voz era fina e engraçada, mas não me passava pela cabeça rir, já que também sabia o que era ser humilhado.

— Estavam falando de você no salão comunal — disse James — aquele bando de idiotas.

— Falaram também quando entrei — eu disse desanimado — uma garotinha de cabelos acaju até me defendeu, mas...

— Lily Evans? — James parecia ter evidente interesse pela garota.

— Mas você já sabe o nome da garota? — indagou Sirius incrédulo.

— É aquela do Expresso — reprimiu outra risada — a que estava junto do sonserinozinho ousado, de cabelo sujo.

— Ah, está certo — Sirius também riu — quer mesmo procurar briga com o garoto, não é?

— Pois ele que venha, se for homem.

Pettigrew olhava de Sirius para James, com inegável devoção. Era certo que ele os admirava tanto que mal podia ocultar. Eu começava a ficar constrangido, mas Sirius se voltou a mim antes que eu quisesse fugir para minha cama.

— Está gostando de ter entrado para a Grifinória?

— Estou — eu disse um tanto quanto desconcertado — apesar de não ter sido muito bem recebido pelos colegas.

— Relaxe, meu amigo — no jeito de Sirius falar, havia qualquer coisa que parecia torná-lo muito mais velho que nós todos — depois esses babacas esquecem o incidente. Ao menos você não foi repudiado por sua família por entrar na Grifinória.

James soltou um gemido de desdém e desagrado. Eu queria perguntar o que Sirius queria dizer com aquilo, mas temia ser demasiadamente intruso. Enfim, ele respondeu, de qualquer forma.

— Sabe como é — ele tentava demonstrar indiferença, mas um brilho estranho, que denotava tristeza brincava em seus olhos — família inteira sonserina. Aqueles idiotas não entendem que eu não sou igual a eles.

— Você respondeu a carta? — indagou James.

Percebi então o motivo pelo qual Sirius abandonara a mesa no café da manhã anterior com uma expressão aborrecida, após receber a correspondência.

— Respondi — agora se ocupava em fazer pequenos fachos de luz saírem da ponta de sua varinha — disse que me esquecessem, se eu não era um Black digno. Mas basta-me ter idade suficiente, que vou morar bem longe daquela gente. Por enquanto, terei de aturar os sermões durante as férias, mas isso passa logo.

Permaneci calado, não era oportuno dizer qualquer coisa, embora eu quisesse mesmo saber mais sobre a família daquele garoto. Black. Eu já ouvira esse nome antes, mas não conseguia lembrar quando e em que ocasião. Em respeito às meditações dos dois garotos, embarquei com Peter em uma conversa sobre quadribol. O garoto parecia excitado demais com a oportunidade de conversar, de mostrar um pouco o que pensava, o que sentia a respeito de algo pequeno como quadribol, tencionando chegar ao que pensava e sentia sobre sua própria vida e o mundo que o cercava. Entretanto, não o fez, e a conversa morreu no quadribol. Ao percebermos a hora avançada, Sirius e eu encaminhamo-nos para nossas respectivas camas, e Peter e James continuaram nas suas.