Lois caminhava perplexa em meio aos destroços de uma Metropolis dizimada com os braços cruzados e apertados contra o peito como se sentisse frio, embora fosse aquele o entardecer de um dia quente de verão. De fato, o que ela sentia era um misto de pavor, confusão e exaustão, na medida em que olhava para tudo à sua volta, e tentava compreender o que havia acontecido. Arranha-céus eram apenas esqueletos condenados com suas vidraças estilhaçadas e paredes repletas de fissuras. As ruas estavam desertas, e muitos prédios pequenos, e mesmo edifícios imponentes, não passavam de pilhas de aço e concreto amontoados por toda parte. Carros destruídos, e mesmo carbonizados estavam abandonados e revirados no meio das principais vias de acesso e das calçadas. Postes de energia cruzavam caídos às esquinas. E o mais aterrador, além das ossadas humanas que Lois encontrou pelo caminho e que a deixaram mortificada, era a vasta vegetação que crescia íngreme pelas fendas entre as calçadas, praças e jardins, algo que não poderia simplesmente acontecer do dia para a noite, e a ação do tempo existente por toda a parte. Tudo parecia não ser muito recente. Os carros destruídos e expostos às ruas estavam enferrujados, as edificações em ruínas pareciam construções antigas expostas aos efeitos dos ventos e da chuva por longos anos.
A repórter simplesmente não conseguia acreditar que tudo aquilo podia ser real. Havia mais de vinte minutos que caminhava sem destino, e não havia encontrado um mísero sinal de vida, exceto escombros de uma metrópole outrora conhecida como a Cidade do Amanhã. Estava completamente só, ao mesmo tempo em que entorpecida com o mundo à sua volta, o qual não podia ser outro senão uma Metropolis emergida de um pesadelo.
"Sinto-me como num episódio de Além da Imaginação" murmurou para si mesma, como se aquilo ainda lhe pudesse conferir algum senso de realidade.
Foi então que, ao identificar a rua na qual se encontrava como sendo a do Planeta Diário, Lois procurou ansiosa pelo edifício onde trabalhava. Tomada por um súbito torpor, ela caiu sobre seus próprios joelhos ao avistar a instalação do maior jornal de Metropolis igualmente em ruínas, e seu imponente globo dourado pendurado ao topo do edifício apenas por cabos.
Lois fechou com firmeza os olhos, e depois os abriu, na esperança de que toda aquela visão assombrosa desaparecesse. Mas ainda estava lá. Uma cidade em ruínas, e apenas ela como testemunha. A repórter engoliu em seco, suspirou e se levantou. Olhou novamente ao redor, onde nada havia, exceto o resultado do que parecia ter sido uma devastadora guerra. Imaginou então que talvez alguma tecnologia pudesse ainda estar funcionando de modo a permiti-la se comunicar com alguém ou mesmo descobrir o que havia acontecido. Uma ponta de esperança a animou em meio a toda aquela visão aterradora, e Lois correu em direção ao Planeta Diário.
O porão do jornal onde trabalhava era agora um labirinto de ruínas. Havia móveis revirados e paredes destruídas por toda a parte. Lois caminhou hesitante, imaginando que aquelas paredes poderiam desabar sobre ela a qualquer momento, e olhou para tudo aquilo, ainda incrédula. Mal podia acreditar que instantes antes esteve ali mesmo, e fora agredida por Tess Mercer. Procurou sinais da luta, mas em meio ao caos, era impossível. Definitivamente, não parecia o mesmo lugar.
Ao identificar sua mesa em meio aos entulhos, Lois sorriu, e tentou ver se o computador tomado uma camada espessa de poeira funcionava. Mas tal como imaginava, não havia energia. Procurou pelo telefone, que estava debaixo da mesa, mas também estava inutilizado. Para seu desespero, nada mais havia a fazer, quando então identificou ao pé da sua mesa revirada o que parecia ser o seu pendrive, o mesmo no qual salvou os arquivos do computador de Tess, entre eles, aquele no qual ela torturava o antigo assistente de Lex Luthor, indagando-o sobre a órbita. Lois se abaixou e o pegou, não tão surpresa por encontrá-lo ali, já que o enfiou discretamente no bolso pouco antes de Tess aparecer e obrigá-la a admitir que havia roubado a tal órbita. Provavelmente deve ter caído enquanto lutavam. Abriu-o e notou que não parecia danificado. Imaginou então que talvez pudesse encontrar algumas respostas em meio àqueles arquivos, e procurou em sua última gaveta o laptop que guardava numa pequena valise para emergências caso ficasse sem energia no jornal. Lois puxou e ajeitou uma cadeira, sentou-se e ligou o laptop, ao que notou que a bateria estava fraca, mas mesmo assim tentou.
Entre os arquivos de vídeo no seu pendrive, identificou um em especial, que constava como sendo o mais recente, que não estava ali antes, e cujo nome era simplesmente "Zod". Notou então a data da sua criação, ao que ficou ainda mais estarrecida: registrava o dia de amanhã.
"Isso é impossível!" exclamou ela, perplexa.
Lois enrugou a testa, e hesitou, porém, não o bastante, e acessou o documento. O vídeo mostrava aquela mesma sala, porém, não aos escombros, em específico, a mesa à sua frente, e que pertencia a Clark, e parecia ter sido registrado pela câmera de seu próprio computador. De repente, um homem se sentou à mesa, na cadeira de Clark.
"Davis?" identificou ela, não o reconhecendo de imediato por causa do cavanhaque e da postura austera.
"Quero que o mundo todo me veja" disse ele no vídeo, com sua voz áspera e autoritária.
"Não pode ser Davis" murmurou ela, confusa.
"Não se preocupe... é só olhar para essa luzinha vermelha, e todos irão ver o monstro arrogante que é" disse a pessoa do outro lado da câmera.
"Só pode ser brincadeira!" exclamou ela, em choque, ao imediatamente reconhecer a sua própria voz no vídeo.
De repente, Lois escutou ela mesma engasgar na gravação. O homem que era filmado olhava para além da câmera, e depois de algum tempo ordenou para o que parecia ser uma terceira pessoa:
"Deixe-a!" e ele então se voltou para a câmera. "Ela ainda nos vai ser muito útil"
Atormentada com o sucedido na gravação, Lois continuou a assistir ao vídeo:
"Podemos começar" prosseguiu ele.
Não houve qualquer oposição, e o homem olhou firme para a câmera:
"Meu nome é Zod"
"Zod?" murmurou Lois, confusa.
"Muitos de vocês já viram o que eu sou capaz de fazer com esse seu planeta miserável" continuou ele, na gravação. "Posso esmagá-los facilmente, mas também posso poupar aqueles que se submeterem a mim. Portanto, a partir de hoje, quem não se ajoelhar diante de Zod, irá morrer"
Houve então um silêncio, enquanto Zod continuava a olhar fixamente para a câmera. Subitamente, uma terceira voz o interrompeu na gravação:
"Existe alguém nesse planeta que não irá se ajoelhar diante de você" disse uma voz grave e firme que Lois acreditou reconhecer, mas não tinha certeza.
"Você???!!!" gritou Lois na gravação, ao que engasgou novamente, e ficou calada.
Zod, no vídeo, levantou-se furioso, momento em que seu rosto sumiu do campo de visão da câmera, e o laptop de Lois desligou por falta de bateria.
"Não!" protestou ela, tentando fazê-lo funcionar, porém, em vão. "Não faça isso comigo... não agora!"
De pé, apoiada à mesa, depois de inúmeras vezes tentar fazer com que o laptop voltasse a funcionar, Lois emitiu um suspiro e lágrimas correram por suas faces.
"Meu Deus!" exclamou.
"Na verdade, é Zod" disse uma voz.
Lois se virou em sobressalto, e viu um homem alto emergir da escuridão entre os escombros do Planeta Diário. Só agora havia notado que o sol se punha.
"Quem é você?" perguntou ela, ríspida e desconfiada.
O homem não respondeu, Lois olhou ao redor, e pegou uma liga de metal entre os escombros, levantando-a ao alto, pronta para se defender.
"Não vou machucá-la" disse ele, revelando-se como um homem de feições gentis, vestido como um andarilho e coberto por um manto.
"Responda a minha pergunta!" ordenou ela.
"Eu me chamo Mon-El" disse ele. "E fico feliz em revê-la, Lois Lane"
Lois manteve o pedaço de metal firme nas mãos.
"Gostaria de dizer o mesmo, mas como você não faz parte dos meus amigos no Twitter, sinto dizer que não o conheço" devolveu ela.
"Você partiu antes de tudo acontecer" disse ele, enigmático, porém com um sorriso amigável, aproximando-se. "Por isso está confusa"
"Mantenha a distância!" ordenou ela.
"E assustada" completou ele.
"Não o suficiente para saber usar esse pedaço de metal na sua cabeça" devolveu ela, embora procurasse desesperadamente controlar o tremor de suas mãos enquanto mantinha firme a liga de metal que se prestava como eventual arma de defesa.
"Não precisa se preocupar comigo, Lois" disse ele. "O nome do perigo por aqui, é Zod"
Lois frizou a testa.
"Chega dessa baboseira toda" disse ela. "Onde diabos estou?"
"Metropolis" respondeu ele, sério.
"Espertinho, não? Conta outra!"
"Bom, no seu caso, a pergunta correta é 'quando' exatamente estamos" disse ele, com denotada tranquilidade.
"Sabe, podemos fazer isso a noite toda, e ainda sou eu que irei acertá-lo com essa liga"
Mon-El sorriu.
"Vejo que continua a mesma, Lois"
Lois ignorou seu comentário, e ele continuou:
"Estamos no ano de 3015" disse ele, finalmente.
Ela riu.
"Claro!" exclamou. "Tudo bem que lá fora parece o cenário de um romance do Richard Matheson onde só falta sairem zumbis da escuridão, mas 3015? Isso é impossível!"
"É a verdade, Lois" disse ele, deixando-a irritada a cada vez que a chamava pelo nome, como se realmente a conhecesse. "Ele chegou de repente, e acabou com tudo" completou, apontando para o laptop sobre a mesa.
"Ele quem?" perguntou ela, embora soubesse a quem o estranho se referia, principalmente ao notar que ele parecia se referir ao homem da gravação que ela acabara de conferir, provando que estava ali há algum tempo, enquanto Lois ainda assistia ao vídeo, deixando-a desconfortável.
"Zod" respondeu ele.
Houve um pequeno silêncio entre os dois, e um ruído estrondoso do lado de fora do prédio chamou a atenção de ambos.
"E você tem razão" disse ele.
Lois frisou a testa, confusa, tentando identificar o ruído.
"Ao escurecer, coisas acontecem por aqui" disse ele. "E é melhor irmos para o meu esconderijo, onde estaremos em segurança"
Mas enquanto Mon-El lhe dava as costas e começava a trilhar o mesmo caminho de volta à saída, Lois não se moveu. Ao perceber que ela não o acompanhava, ele parou, e se virou para vê-la:
"Para seu próprio bem, não podemos ficar aqui" pediu ele.
"Ainda não" disse ela.
"Tudo bem" devolveu ele, resignado. "Você ainda não confia em mim. Faz sentido"
"Digamos que você fala a verdade" interrompeu ela, nervosa, e ainda mantendo firme em suas mãos a arma provisionada. "Como então eu vim parar aqui?" perguntou, ainda em tom autoritário.
"Não faço a menor ideia" respondeu ele.
"Ótimo!" exclamou ela, com os pensamentos cada vez mais desordenados.
"Na verdade, eu tinha esperanças de que uma outra pessoa aparecesse no seu lugar" disse Mon-el, ao que Lois ficou alarmada, pois sabia agora que estava sendo espionada por aquele sujeito desde que apareceu naquela Metropolis apocalíptica. "Mas pelo visto os garotos tinham razão" completou ele.
"Garotos? Que garotos?" indagou Lois.
"Os legionários" respondeu Mon-El, evasivo.
"Isso está ficando cada vez mais divertido" disse ela, nervosa. "Pois saiba que vou ficar a noite toda aqui se for preciso, até que me prove que posso acreditar em você"
Mon-El suspirou.
"Eles me pediram para estar exatamente onde você apareceu, no lugar e horário programado pelo anel da Legião" explicou.
"O anel?" indagou Lois, soltando uma mão do pedaço de metal para tocar o bolso do casaco, onde o havia guardado.
"É... o anel cuja tecnologia eu mesmo ajudei a construir. Foi provavelmente assim que veio parar aqui" revelou ele. "A pessoa que eu esperava encontrar é Kal-El" e antes que Lois o interrompesse novamente, completou: "Ele deveria vir com Doomsday, mas o futuro mudou... e ao mesmo tempo não. Ainda assim, acreditávamos que Kal-El usaria o anel e apareceria conforme o combinado"
"Kal-El? Doomsday?" repetiu ela, cada vez mais confusa. "Tem certeza de que estamos no planeta Terra?"
Mon-El a observou por um instante.
"Aparentemente, você é a única esperança que nos resta" disse ele.
"Tá... e agora você vai me entregar o sabre de luz que pertencia ao meu pai, certo?"
Mon-El enrugou a testa, confuso, e Lois abaixou a liga de metal, como se finalmente começasse a considerar parte daquilo tudo que ele dizia, em especial o concernente ao anel, já que foi a partir do momento em que o atravessou no dedo que foi parar naquele lugar.
"Olha, a única coisa que eu quero é sair desse pesadelo, e não importa como" disse ela, e tirando do bolso o anel da Legião, completou: "E se me disser agora que colocando-o de volta no dedo posso voltar para onde eu estava, faço isso nesse exato momento"
"Você ainda não entendeu, não é mesmo?" devolveu Mon-El, alterado ao ver que ela se preparava para vestir o anel no dedo. "Precisamos de você para salvar Kal-El... mais conhecido no seu tempo como o 'borrão vermelho e azul'!".
Lois afastou o anel do dedo e engoliu em seco. Seu coração bateu mais forte no peito ao escutar as últimas palavras ditas por aquele desconhecido. Nada mais poderia ser pior para ela. Estava num lugar inóspito, com um tal de Zod que mais parecia uma versão melhorada de Davis Bloome como o algoz da humanidade, e o "borrão vermelho e azul" parecia ser o único capaz de salvar a tudo e a todos, mas precisava de ajuda, de modo que não teve mais dúvidas de que deveria passar a confiar naquele homem.
