Capítulo 2

-Isso são modos de cumprimentar sua tia, Dikyi? – Kia se levantou bruscamente da mesa e foi até a sua filha.

-Eu disse que é pra ela não ir tocar amanhã à noite.

-Minha filha, se acalme... – Mu também se levantou, bastante constrangido.

-A luz, papai. A luz...

Anisah olhou curiosa para a sobrinha. Eu também fiquei assustado. Dikyi falava de modo bastante autoritário para uma garota de apenas 5 anos.

-Cumprimente seus tios e sua prima direito! – Kia disse de forma enérgica.

-Oi. – Ela se limitou a dizer.

Marrie sorriu para a prima. Dikyi não retribuiu o gesto de carinho de minha filha.

Kia e Mu estavam muito envergonhados, provavelmente imaginando o que estaríamos pensando sobre aquela cena. Anisah, que sempre foi uma ótima anfitriã, convidou a garotinha para se sentar. Ela se acomodou na cadeira e olhou para os pratos em cima da mesa.

-O que é isso?

-Sauerkraut com joelho de porco! – Respondeu Marrie orgulhosa.

-Não gosto disso. Odeio carne de porco!

-Dikyi! – Kia já estava corada de vergonha – Vai comer o que tem!

-Eu não gosto de carne de porco!

-Não interessa se gosta ou não! Vai comer o que tem!

-Não vou!

-Mu, faça alguma coisa!

-Dikyi, estamos na casa da tia Anisah e do tio Kamus, você não está em casa, então precisa comer o que tem aqui, querida.

A pequena tibetana olhou novamente para o prato principal e fechou a cara. Começou a gritar e chorar de forma estridente. Marrie observava aquilo tudo de olhos arregalados.

-Você não faz nada, Mu!

-Não sou eu que a mimo, Kia!

Era o que eu mais queria. Mu e Kia discutindo a educação que não haviam passado para a filha na minha frente e de Anisah. Marrie saiu de seu lugar correndo e veio me pedir colo, assustada. Mas Anisah, como sempre, conseguiu por um fim na discussão e de forma dócil.

-Dikyi... – Ela caminhou até a sobrinha – Sua mãe não me contou que você não comia carne de porco.

-Eu odeio! – Cruzou os braços e permaneceu em posição de desafio.

-Você gosta de ovo frito?

No mesmo instante Dikyi parou de chorar.

-Gosto...

-Então, quer ir comigo até a cozinha? A gente faz um bem gostoso pra você!

-Claro! – Nisso, a garota já estava sorrindo.

-Vamos junto, Marrie? Quer um também?

-Quero!

Marrie saltou do meu colo e as três saíram de mãos dadas para a cozinha.

O casal estava desconsertado. Se sentaram novamente à mesa e Kia suspirou. Mu se sentiu obrigado a se justificar.

-Queira nos desculpar, Kamus. Dikyi sempre foi difícil de lidar... Tem um gênio forte e...

-Não precisa se explicar, Mu. Acontece. Quando vim para cá, também não estava acostumado com o cardápio alemão.

-Marrie parece ser bastante educada, se comporta bem e...

-Ela é filha de um ditador! – Interrompeu Kia.

Dessa vez quem suspirou foi Mu.

-Não leve a mal os comentários da Kia, Kamus... Ela fica nervosa quando Dikyi dá esses "shows".

-Eu compreendo.

-Eu disse a verdade, Mu!

-Kia, quer parar, por favor?

-Você não tem pulso firme e depois joga a culpa em mim!

Santo Deus, por que aquilo estava acontecendo? Não queria que mais uma nova discussão iniciasse. Já me bastava ter brigado com Anisah, não queria de maneira nenhuma presenciar mais uma.

-Escutem... – Disse sem levantar a voz – O problema já foi resolvido, não precisamos criar mais essa situação constrangedora.

-Me desculpe, mais uma vez. – Se desculpou Mu ainda envergonhado.

Kia se calou.

Anisah voltou com as duas pequenas para a sala, sorrindo. Admirava isso nela. Sabia como cativar as pessoas com o olhar, com o sorriso e adorava crianças. Marrie sempre teve problemas para pegar no sono. Eu tentava contar uma história, às vezes até me deitava junto dela em sua cama, mas custava a dormir. Bastava Anisah tocar uma melodia em seu violino que Marrie adormecia tranqüilamente.

-Ela até fez carinha no ovo! Com maionese! – Dikyi mostrava o prato para Mu.

-Ficou lindo! – Mu acariciava os cabelos de sua filha com carinho.

-Agora sente-se e coma quieta! – Kia disse novamente em tom enérgico.

Anisah olhou para a irmã com reprovação.

-Já que estamos todos presentes, vamos orar? – Disse ela pegando em minha mão. Sem me olhar.

-Não quero rezar! Estou com fome!

-Dikyi!

-Kia... – Anisah se virou calmamente para a sobrinha – Olha, a Marrie tem 2 anos e já reza junto com a gente. Você não quer mostrar que é tão inteligente quanto ela?

-Por que? – Disse ela novamente emburrada.

Anisah foi até o ouvido de Dikyi e sussurrou: "Você é mais velha, vai servir de exemplo pra ela."

Brilhante. A garotinha se levantou e segurou na mão de Mu. Começamos a rezar.

"Graças Vos dou, meu Deus,
por me teres dado de comer e de beber, sem eu o merecer.
Dai-me o Céu quando eu morrer."

Apesar de termos estudado na Grécia, Anisah nunca deixou de acreditar em apenas um único Deus. Não era adepta ao islamismo como Kia ou ao judaísmo, religiões que eram parte de seu país natal. Como disse, nunca acreditei muito no mundo espiritual e Anisah as vezes dizia que eu era vazio por não acreditar em Deus ou em algum Ser Superior.

"-Como assim, Kamus, não acredita em Deus?

-Não acredito em nenhum velho, sentado em um trono de ouro, coberto com pedras preciosas com um cajado em mãos brincando com os humanos de xadrez.

-Mas quem foi que disse que Deus é assim, Kamus? Sua família é religiosa?

-Meu pai foi seminarista, largou porque conheceu minha mãe. Ela é Ministra da Eucaristia e faz parte de vários grupos da igreja.

-Católicos...

-Ponha católicos nisso.

-Você freqüentava a igreja?

-Sim, mas parei por me sentir um hipócrita.

-Mas Kamus, é claro que Deus existe! É difícil explicar, mas eu tive provas de que Ele existe!

-Eu vejo mesmo como ele existe todos os dias em que volto para casa. O mendigo da Rua Vulcano me prova isso. As crianças da Somália passando fome me provam isso. A Ciência também me prova isso. A situação mundial prova também. É só olhar pela janela e constatar a existência dele.

-Isso não é culpa dele! É culpa da humanidade!

-Então, Deus é o ser mais incompetente de que já ouvi falar.

-Como pode dizer isso de um Ser tão magnífico?

-Tão magnífico que deixa o mundo em chamas. Me admira você, ter vindo da Faixa de Gaza, do meio da guerra e ainda dar ouvidos a essas besteiras.

-Kamus... Deus é o ser mais piedoso que existe...

-Anisah, ele é burro.

-Não questione a inteligência dele!

-Claro que eu questiono! Entenda a minha lógica: Seu Deus cria um mundo lindo, harmonioso, com criaturas fantásticas, água potável, natureza. Depois cria o ser humano. E este, o que faz? Destrói, mata, queima, cria guerra. É óbvio que o ser humano evoluiu do macaco, um animal irracional.

-Deus nos deu o livre-arbítrio, Kamus. Ele acredita no coração, na alma humana.

-Acredita nas pessoas que fazem guerra em seu nome, que se vestem com bombas e matam milhares de inocentes em sua volta. Não há sentido nisso, Anisah.

-Então, no que é que você acredita?

-Em mim. No que posso ver e pegar.

-É uma pena que pense assim, Kamus... Porque eu sei que Ele acredita muito em você.

-Em mim? Ora, não diga bobagens! Como é que sabe disso?

-Ele acredita na humanidade. Se ainda estamos aqui é porque ainda resta esperança.

-Já disse que não vai me convencer.

-Kamus... – Anisah começou a ficar com os olhos cheios de lágrimas – Sabe qual a maior provação que passei para saber que Ele existe?

-Qual?

-Foi quando Ele te colocou em meu caminho."

E agora eu podia ver que em alguns pontos ela estava certa. Nada acontecia por acaso. Nada acontece.

Almoçamos normalmente e desfrutamos da sobremesa. Fazia alguns anos que eu não cozinhava mais. O trabalho não deixava, mas Anisah pediu que eu fizesse o meu famoso Petit Gateau. Dizia que era fantástico.

-Vejo que aprendeu com o marido a cozinhar muito bem, Anisah!

-A sobremesa foi ele mesmo quem fez, Kia. – Ainda havia rancor em sua voz.

-Parabéns, Kamus. Continua um ótimo cozinheiro.

-Obrigado, Mu. Faço o que eu posso.

-Sempre modesto.

Após o desjejum, Kia foi ajudar Anisah com a louça. Colocamos Dikyi e Marrie para brincar na sala enquanto Mu e eu conversávamos. O assunto? Adivinhe. Trabalho.

-Então, sua tese é em Física do Estado Sólido?

-Sim, mas ainda quero juntar um pouco do meu conhecimento sobre Física das Partículas. Participei de uma palestra muito interessante em Frankfürt. Tem uma hora que esses dois assuntos se encontram.

-Espero que seus projetos dêem certo, Kamus. Você é muito estudioso e empenhado.

-Obrigado, Mu. E o seu trabalho? Anisah disse que você também trabalha muito.

-E como... Estava ultimamente trabalhando com a Hipnose e regressão, mas notei que meus pacientes estavam sofrendo muito com a regressão. Passavam mal após a sessão, resolvi parar, afinal, fiz medicina psiquiátrica para ajudar as pessoas e não para vê-las sofrer.

-Mas as vezes é necessário sofrer para se curar, não é mesmo?

-Claro, Kamus, mas eu preferi deixar isso nas mãos de outros médicos. Aí, parti para a área da medicina alternativa, tratamento com florais e ervas. Viajo muito para Hong Kong e Tókio. Os orientais têm muito conhecimento nessas áreas.

-Mas será que não cansam de falar sobre trabalho? – Kia foi para a sala, seguida por Anisah.

-Kamus está me contando sobre a tese dele.

Péssimo comentário. Anisah me olhou furiosa. Me senti péssimo. Mas Mu provavelmente não sabia que a minha discussão com Anisah era por causa disso. Ao contrário de Kia. Com toda a certeza, minha esposa já tinha relatado para ela o acontecimento da noite anterior.

-Mu, falei com a Anisah e ela aprovou a idéia. Vamos dar uma volta numa galeria agora à tarde?

Mu olhou para Dikyi no chão brincando com Marrie e depois para a esposa, indeciso.

-Ai Kia... Não é melhor ficarmos sem ir dessa vez?

-Puxa vida, Mu! Estamos na Alemanha! Quero conhecer o lugar! Além do mais, Dikyi vai se divertir também! Ela adora lojas!

-Nós vamos comprar o quê? – A garotinha se levantou do chão animada. Seus olhos brilhavam.

-Nada! – Se apressou a dizer Mu com a expressão de pânico já conhecida por mim desde os tempos de escola – Melhor não, Kia!

-Ah, papai! Eu adoro shopping! Vamos vai!

Dikyi começou a pular e puxar o sobretudo de Mu.

-Eu acho melhor nós irmos... – Disse isso me recordando do escândalo do almoço. Mais uma daquelas, eu não ia agüentar.

-Ué... Kamus, você não tinha que trabalhar?

-Não é sempre que nós recebemos visita em casa, ainda mais se tratando de Mu e Kia.

-OBA!! – Vibraram Marrie e Dikyi juntas.

-Vou pegar um casado e já vamos.

Sim. Era o melhor a se fazer. Em algum momento poderia ficar a sós com Anisah e pedir-lhe desculpas. Vesti o meu sobretudo, peguei o celular e as chaves do carro. Estavam todos me esperando na sala.

Mu completamente desgostoso com a idéia. Dikyi e Marrie pulavam ansiosas. Kia e Anisah conversavam entre si.

-Estava conversando agora com a Anisah, Kamus. O que acha de depois do passeio, nós irmos até um restaurante bem gostoso e animado para comemorar?

-O Kamus precisa trabalhar, Kia. Já está fazendo muito de ir agora conosco.

-De maneira nenhuma, Anisah. Vamos sim. Faço questão de os levar em um dos melhores restaurantes de Berlim após a tarde na galeria.

Enquanto elas colocavam as meninas no banco de trás da perua, Mu me chamou em particular.

-Kamus... Cuidado com as sugestões de Kia. Ela é compulsiva por compras e também Dikyi é mestra em nos fazer passar por vexames em restaurantes... Já tirei o cartão de crédito dela...

-Pode ficar tranqüilo, Mu. Eu sei bem o que eu estou fazendo.

-x-

Sauerkraut com joelho de porco – ou Chucrute com joelho de porco:

Chucrute é repolho fermentado naturalmente, com condimentos, muito saudável. Joelho de porco com Chucrute, salsicha com Chucrute; Kassler (carré) com Chucrute. Estas combinações são comuns e conhecidas da culinária tipicamente germânica.