As gotas bateram em seu rosto com força, e ele não se importou. Atravessando a rua com pressa, fora pego desprevenido pelas núvens de verão. Não havia como lutar agora, e ele diminuiu o passo resignado.
A água escorria em seu rosto manchando sua identidade, e ele não tentou evitá-la. Continuou a caminhar devagar, as gotas se derramando sobre sua face como pranto. E ele próprio sentiu os olhos queimando com lágrimas quentes, algo de sanidade em cada partícula de sal se acumulando em seus olhos.
A água descia com força dos céus, lavando o verde em seus cabelos e o branco em sua face, pedaços de loucura escoando junto com a tinta vagabunda. Havia poças à seus pés, agora, mas ele as ignorou. Deixou-se encharcar, sentindo o peso da chuva forte. Era quase tão pesada quanto a insanidade em sua consciência oscilante e, em geral, inexistente.
Finalmente seus joelhos cederam sob o peso, e ele caiu contra o asfalto, esparramando ainda mais água ao seu redor. Ele não soluçava, ele não derramava lágrimas. E no entanto era isso o que fazia agora. As palmas viradas aos céus, ele sentiu o frio se espalhar por sua pele fervente de ódio e culpa.
Minutos mais tarde a súbita ira dos céus cedeu. O calor da terra evaporou os vestígios da chuva reconciliadora e, junto com a água, foi-se também a culpa inoportuna. Ele ergueu-se do chão refeito, mas não renovado. As lágrimas que limparam seus olhos esqueceram-se de levar consigo a insanidade enterrada mais fundo. E, ainda que sua pele não fosse mais branca, suas olheiras e cicatrizes não estivessem mais escondidas, a loucura doentia permaneceu através da chuva de verão, e ele logo esqueceu-se da consciência outra vez.
