- Bem-vinda a casa – disse.
- Soa muito bem – respondeu-me ofegante.
Coloquei-a gentilmente no chão mas ela abraçou-me recusando-se a largar-me. Agradou-me imenso e o sentimento era mútuo.
- Tenho uma coisa para ti - disse-lhe nu tom casual.
- Oh?!
Pela sua expressão pude ver que ela ainda se sentia relutante em aceitá-la.
- A tua herança, lembras-te? Disseste que era aceitável. – disse numa tentativa de a acalmar, sem grande sucesso.
- Ah, já sei. Sim, acho que disse...
Não pude deixar de me rir perante a sua relutância.
- Está no meu quarto. Queres que vá buscar?
- Claro – respondeu mais animada, por alguma razão o presente não me pareceu ser a causa do repentino entusiasmo. Pegou-me pela mão e encaminhou-nos para a escada.
Estava tão ansioso por isso que a peguei ao colo e praticamente voei pelas escadas acima.
Chegando ao meu quarto, pousei-a no chão e fui ao roupeiro. O pingente estava na caixa juntamente com as outras jóias da minha mãe. Não pude deixar de olhar para a caixa de veludo que continha o mesmo anel que o meu pai deu à minha mãe a mais de um século atrás. Mais tarde ou mais cedo, pertencerá a minha Bella.
Não tinha passado nem dois segundos e eu já estava de volta ao meu amor. Ela estava a sentar-se no meio da cama, enroscou-se numa bola com os braços à volta dos joelhos.
- Muito bem – resmungou – Dá-me lá o presente.
Ri-me mais uma vez.
Subi para a nossa cama juntando a ela. O seu coração começou a bater descompassadamente. Parecia que ainda tinha relutância em aceitar.
- É uma peça herdade – assegurei-a. Peguei-lhe o pulso esquerdo e coloquei o pingente na pulseira de prata.
Assim que lhe devolvi o pulso fitei-a, enquanto esta examinava o novo "adereço".
Era da minha mãe – disse encolhendo os ombros. – Herdei umas quantas ninharias destas. Já dei algumas à Alice e à Esme. Por isso, isto não é, claramente, nada demasiado sério. – menti. Sentia-me mal por lhe mentir assim, mas essa era a única forma de ela aceitar. Jamais aceitaria um diamante em forma de coração com mais de 4 quilates.
Ela sorriu.
- Mas achei que me representava bem. É duro e frio – ri-me outra vez. – E ao sol produz inúmeros arco-íris.
- Esqueceste-te da semelhança mais importante – disse-me ela – É lindo.
Ainda não consigo perceber como ela consegue não ter medo do monstro que sou.
- O meu coração é igualmente silencioso – disse-lhe – e ele também é teu…
Ela rodou o pulso fazendo com que o coração brilhasse.
- Obrigado, por ambos.
- Não, quem agradece sou eu. É um alívio ver que aceitas um presente meu com tanta facilidade. Foi um gesto bonito da tua parte, também.
Ela encostou-se a mim e, instintivamente, rodeei-lhe o corpo com os braços puxando-a para mais perto de mim.
- Podemos conversar sobre um assunto? Gostava que mantivesses um espírito aberto.
Fiquei surpreendido e imensamente curioso. Sobre o que quereria conversar?
- Vou tentar fazer o melhor que puder – assegurei-lhe cautelosamente.
- Não estou a quebrar regras nenhumas – prometeu – este assunto diz respeito apenas a nós os dois. Fiquei impressionada com a forma como conseguimos chegar a um compromisso na outra noite. Estava a pensar que gostaria de aplicar o mesmo princípio, mas a uma situação diferente.
- O que gostarias de negociar? – Perguntei-lhe. A forma hesitante como ela abordava a questão, deixava-me ainda mais curioso.
Ela hesitou por momentos e o seu coração começou a bater descontroladamente.
- Olha só para o teu coração a voar! Está a bater tão depressa como as asas de um colibri. Sentes-te bem?
Agora estava a ficar assustado. Que assunto a faria ficar assim?
- Estou óptima.
- Então por favor continua. – Encorajei-a
- Acho que primeiro preciso de falar contigo acerca daquela condição ridícula sobre o casamento.
Consegui pedir algo, inacreditavelmente, tão difícil quanto o que ela me pedia a mim. Mas ainda assim não tinha lógica nenhuma quer ser um monstro para a eternidade irreversivelmente e ter medo de uma simples união conjugal reversível.
- Só é ridícula para ti. Mas o que tem?
- Estou aqui a questionar-me… se estás aberto a negociações?
Ah! Nem penses que consegues fazer-me mudar de ideias.
- Já fiz a maior concessão de todas, concordei, embora contra a minha vontade, em retirar-te a vida. Isso devia dar-me direito a alguns compromissos da tua parte… - comecei
- Não! – Exclamou ela sobressaltada. – Isso já está decidido. Neste momento não estamos a discutir a minha… renovação. Quero discutir outros detalhes.
Agora ela tinha-me apanhado. Que mais queria ela?
- A que detalhes te referes, exactamente?
- Antes de mais queria clarificar as tuas condições.
- Sabes perfeitamente o que quero.
- Matrimónio – ela disse essa palavra de uma forma tão desdenhosa que me fez rir.
- Sem. Para começar.
O choque que lhe desenhou as feições tornou-a mais bela que nunca.
- Há mais?
- Bem - comecei pensativo – se vais ser minha mulher, então o que é meu é teu… como o dinheiro para pagar as propinas. Por isso não havia problema algum em irmos para Dartmouth.
- Não queres mais nada? Já que estás numa onda de absurdo…
- Não me importava de ter mais tempo!
- Não tempo não! Esse ponto é absolutamente indiscutível.
Suspirei profundamente. Ela está tão ansiosa por se juntar a mim…
Apesar de ser magnífico para mim, não conseguia deixar de me sentir culpado por macular assim um anjo.
- Um ano ou dois?
- Passa para o próximo – disse ela abanando a cabeça.
- Não há mais nada. A não ser que queiras falar de carros… disse sem esperança. Ela fez-me uma careta e eu ri-me.
- Não me tinha apercebido de que havia mais qualquer coisa que querias, além de seres transformada num monstro. Estou extremamente curioso. – e estava mesmo. Frustrado era a palavra mais correcta. Não conseguir ouvir os seus pensamentos punha-me fora de mim.
De repente senti o seu sangue a subir-lhe à cara. Porque estaria a corar?
- Estás a corar? – Surpreendeu-me mesmo. - Por favor, Bella, esta expectativa e dolorosa.
Ela mordeu o lábio, fazia-o sempre que estava nervosa. Provavelmente estava a exagerar, mas saber que ela ocultava-me algo levava-me à loucura. O que eu não dava para lhe ler os pensamentos.
