N/a: Capítulo 2 online. Sei que os capítulos são curtos, mas achei que não ficaria tão bom colocá-los todos juntos. O próximo capítulo será da Catherine e, se receber um feedback, talvez saia mais cedo. Boa leitura.

2. Sara

Eu tinha 6 anos.

Mamãe precisou viajar, com minha avó, e eu fiquei na casa de Gil e Sara, como já havia ficado algumas vezes. Adorava dormir lá. Haviam coisas legais para mexer por todos os lados, vidros coloridos, besourinhos e borboletas nas paredes, casinhas em miniatura. Montes de livros e CDs, e meu sonho era conseguir contá-los todos algum dia. Sempre que eu ia lá, Sara fazia algo para me agradar. Uma torta de frutas, ou um bolo de chocolate. Lembro-me de sentar no sofá da sala, já sonolento, enquanto Gil assistia a um jogo de baseball. Ele sempre adorou baseball. Perguntei por que o nome do time era San Francisco Giants e ele começou a me contar histórias. Sobre a cidade de São Francisco, de como os Giants se formaram, e até mesmo dos jogos que ele assistiu na infância. Eu estava realmente interessado, e meu sono havia dado trégua. Foi quando o telefone tocou. Na hora senti algo no peito, algo estranho, quase uma conformação. Sara, que estava à escrivaninha lendo, levantou-se e atendeu. Depois de alguns segundos de silêncio, ela falou algumas poucas palavras, pedindo confirmação, perguntando quando foi. Vi quando ela se encaminhou para onde eu e Gil estávamos sentados, agora em silêncio. Ela me abraçou, e eu soube que algo não estava bem. Ela não me disse o que acontecera, mas quando sentou-se ao meu lado, tinha lágrimas nos olhos.

-Eli, preciso te contar uma coisa.

-O quê? O que aconteceu com a mamãe?

Eu sabia. Eu havia pressentido.

O que eu disse fez mais lágrimas brotarem dos olhos de Sara. Gil também a olhava, preocupado.

-Um acidente na estrada, querido. Ela desceu para ajudar algumas pessoas...

-Ela morreu! Ela morreu, não foi?

De repente senti raiva. Raiva do fato dela ter viajado, raiva do fato dela ser médica. Senti raiva até mesmo de Sara, por ter me contado.

Ela confirmou silenciosamente, e eu senti que não conseguiria ficar ali mais tempo.

Corri. Corri para me esconder, e acabei embaixo da bancada da cozinha. Não sabia o que fazer, só queria que me deixassem em paz.

Lembro que fiquei lá por muito tempo, e lembro que ninguém veio atrás de mim até que eu saísse de meu esconderijo por conta própria. Lembro que depois de um longo tempo de silêncio, Gil e Sara começaram a conversar em um tom baixo. Uma das poucas coisas da conversa que me lembro, é Sara murmurando:

-Isso é tão injusto com ele, Gil. Por quê?