Capítulo 2


Medo

Todos que estavam na casa de Matias pararam pra escutar o que Adilsom dizia. Um estranho silêncio se fazia presente logo depois que o jovem terminou de fazer seu breve comentário. O pessoal estava assustado. A fala do jovem não ajudou muito quanto a isso. Depois de alguns segundos uma série de cochichos começou. Alguns ficaram ainda mais assustados, pois viam sentido no que o rapaz disse, outros achavam que tudo o que Adilsom dizia não passava de insensatez. - A paranóia do velho Tião deve ser contagiosa. – Comentou em voz baixa um barbudo que, apesar da situação adversa, continuava a beber despreocupado sua latinha de cerveja.

As pessoas não sabiam o que fazer. Estava muito escuro dentro da casa, mas a rua estava em situação pior. Temerosos, nenhum dos convidados teve coragem de sair para a rua e voltarem pra suas residências. Preferiram ficar ali. Todos estavam se cagando de medo.

POW!

- Uaaaa! – Um estranho barulho veio de longe fazendo com que alguns dos apavorados convidados gritassem. Os que possuíam a curiosidade mais forte que o medo correram para as janelas na frustrada tentativa de ver o que fazia aquele estranho som. Um esforço inútil. O breu da rua impossibilitava a visão de qualquer coisa.

POW! POW! POW! Os fortes sons de pancada retornaram, no entanto agora eram ritmados. Uma imaginação mais apurada acharia aqueles barulhos parecidos com o som feito pelo caminhar de um gigante. Seguindo esse raciocínio, o gigante deveria estar se aproximando, pois o som das pisadas ficava mais forte. Todos ficaram paralisados. O medo reinava. Alias, todos não. Uma pessoa teve coragem para reagir.

- Credo em cruz! Saiam daí!

Clovis correu em direção das janelas da frente da casa para fechar todas as duas. Também fechou a porta da frente. Queria fazer com que parecesse que a casa estava vazia.

POW! POW! POW! As poucas pessoas que estavam na varanda desceram correndo as escadas e foram parar na sala. Nem o mais curioso deles tinha a coragem de ficar exposto frente ao estranho som.

POW! POW! POW! O barulho estava mais forte do que nunca. Ninguém sabia que coisa era aquela, mas dava pra perceber claramente que ela estava na frente da casa, pois o barulho agora era muito mais alto e mais próximo. O medo fez com que todos ficassem quietos. 17 pessoas, todos os convidados para a festa, estavam se apertando na sala. POW! POW! POW! Não demorou muito para que o ritmado som de pancada fosse se afastando até sumir por completo. O que mais demorou foi para que o estado de choque das pessoas passasse. Somente um minuto depois é que começaram a ter alguma reação. Uma reação extrema.

- É o fim do mundo! O Apocalipse chegou!!

- Cala boca, maluca!

PLAFT! O medo faz as pessoas agirem sem pensar. Isso às vezes é bom, mas não neste caso. Pra conter o pânico da beata, o barbudo que antes expressava tranqüilidade se descontrola e dá um tapa na velha.

- Mas que... – Um dos outros convidados não gostou nada da truculenta reação do barbudo e tomou as dores da beata. Uma boa briga estava para começar. Com direito a socos e chutes bem dados. O caos reinava na casa. Duas pessoas se engalfinhavam, outras choravam, alguns rezavam e ainda tinha aqueles que berravam criativas profecias pessimistas criadas na última hora.

PEM! PEM! PEM! Outro barulho apareceu, mas este vinha de dentro da casa. Todos olharam em pânico para a cozinha, mas logo depois relaxaram (só um pouco), pois notaram que não passava do velho Tião batendo duas tampas de panela com força uma na outra.

- Façam silêncio, cambada de porra! Se quiserem sobreviver até amanhã é melhor ficarem quietos. Pelo jeito já temos perigo de sobra em Villa Verde. Se começarmos a brigar entre nós não teremos a mínima chance de... – Enquanto as pessoas ficavam distraídas com o sermão dado pelo velho Tião, Mateus aproveita para ir até a porta da frente da casa sem ser percebido.

Em um ímpeto de insensata coragem, Mateus abre a porta e vai pra rua. A única coisa que permitia a ele enxergar algo naquele breu era a luz da lanterna de seu celular. Levando-se em conta que a lanterna era de um celular, até que ela era forte. Mesmo assim a iluminação proporcionada por ela ainda era bem fraca pra se ter uma clara visão do que acontecia na rua.

Mateus, com a ajuda do seu celular, tenta olhar para os dois lados da rua. Infelizmente a luz só permitia uma clara visão do que estava a poucos metros a sua frente. Se ele quisesse descobrir o que estava acontecendo ele teria que enfrentar seu medo e adentrar na escuridão. Apesar de nada sensato, Mateus decide continuar sua investigação. Fazendo com que a casa de Matias ficasse cada vez mais distante. Estava tentado em descobrir o que estava acontecendo, pois seu lado jornalista o impelia sempre a isso.

Tem um pessoal que quando chega em determinada idade desata a ter certo prazer em reclamar das coisas. O sermão do velho Tião durou quase dez minutos. Iria durar muito mais, no entanto o pessoal ficou de saco cheio e, de maneira ríspida, o mandaram fechar a matraca. O velho acatou a ordem, mas sob protesto.

As horas foram passando. Agora era três da noite. A casa estava silenciosa. Todos estavam ansiosos para que o amanhecer chegasse logo trazendo com ele a luz do sol que levaria embora aquela tenebrosa escuridão. Infelizmente os minutos demoravam em passar, pois quando estamos assustados costumamos sentir até a passagem dos segundos.

- Cadê Mateus? – Demorou bastante pra alguém se dar conta da ausência do estudante de jornalismo. Esse alguém foi o dono da casa, Matias.

- Sei lá. Não o vejo já tem algum tempo. – Respondeu Clovis. – Mas também nessa escuridão.

- Mateus! Mateus! – Matias começou a gritar alto pra ver se o jovem respondia. Revelando assim sua localização.

- Fala baixo, porra! Quer que aquela coisa volte pra nos pegar? – Diz Rivailtom.

- Ele não ta aqui não. – Diz Ana.

- Como não está aqui? Ninguém some do nada. – Diz Clovis, tentando parecer sensato. No entanto a noite estava tão esquisita que agora o jovem começava a não duvidar de nada. Chegando a conclusão de que, talvez, Mateus pudesse muito bem ter "evaporado".

- Pô, gente. Raciocinem. Se ele sumiu é porque saiu da casa. – Diz Adilsom.

- Mas pra que diabos ele sairia? Nem sabemos que perigos se escondem lá fora. Ele é louco?

- Não. Pior. Ele é jornalista.


Anjos e demônios

O medo era tamanho que Mateus tremia mais do que vara verde. Mesmo assim ele tentava manter o controle de suas emoções. O estudante de jornalismo andava pelas escuras ruas de Villa Verde esperando encontrar respostas para o que estava acontecendo. Ele sabia que a tarefa seria difícil, talvez até impossível. As ruas estavam desertas. Todo mundo parecia que havia se trancado em suas casas. Nem os soldados, que no último mês infestavam as ruas da cidade, estavam à vista. Os únicos seres vivos que andavam nas ruas eram os animais. – Miauuuu – Um simples miado de gato fez com que Mateus tivesse que se segurar pra não berrar de susto. Após raciocinar um pouco e descobrir qual a origem daquele barulho, Mateus ficou bastante irritado e amaldiçoou aquele bicho estúpido.

- Uai! – Os pés de Mateus se chocam em alguma coisa fazendo com que ele fosse de cara ao encontro do chão. O seu celular, sua única fonte de luz, desligou quando caiu longe dele. O jovem ficou bastante temeroso, pois, se a lâmpada quebrasse, ele estaria perdido naquela escuridão. Sem chances de voltar ou seguir em frente.

Mateus começou a tatear o chão com dificuldade, pois ele estava cheio de objetos estranhos. Naquela escuridão não dava pra ver o que era, mas pelo toque dava pra deduzir que eram escombros. Coisas como pedaços de madeira, tijolos e cacos de vidro (o estudante quase fere sua mão em um destes inclusive). Demorou quase cinco minutos para que jovem descobrisse o paradeiro do seu celular. Alivio. Ele estava inteiro. Mateus conseguiu ligar a lâmpada, no entanto ela estava rachada. A luz que já não era lá grande coisa agora estava ainda mais fraca.

- Mais isso agora.

O chão irregular chamou a atenção do jovem. Abaixando o celular, ele conseguiu ver o que era que estava espalhado assim na rua. Tijolos e pedaços de sofás, mesas, eletrônicos... O que ele havia deduzido anteriormente estava correto. A rua estava cheia de escombros. A péssima iluminação dificultava a investigação. Demorou três minutos para Mateus perceber que aquele entulho todo já fora uma casa antes. O medo de Mateus que já não era pouco agora estava ainda maior. – Que tipo de monstro é capaz de fazer algo assim? – A imaginação do jovem começou a ir longe. Coisas que antes eram impensadas, como o fim do mundo ou gigantes, invadiam sua cabeça e se transformavam em teorias. Mateus começa a suar frio, uma forte tontura invade seu ser. Mesmo assim ele persiste adentrando ainda mais nos escombros. O processo é demorado, pois estava quase cego.

Um vulto aparece agachado no meio daquela destruição. Mateus segura a boca para não gritar. Seria um demônio? Um vampiro? Uma assombração? Mateus não duvidava de mais nada. Nem mesmo da existência dos monstros que povoavam seus pesadelos de infância.

- Q-quem está aí? – Aquela voz tremula e assustada relaxou Mateus, pois ele conhecia o dono dela. A "assombração" que estava em cima daqueles entulhos era na verdade Bentinho. O vidente da cidade. Os escombros deveriam ter sido a casa dele.

- Bentinho! Calma, sou eu. Mateus!

- Graças a Deus!

Bentinho correu na direção do estudante de jornalismo com a rapidez de um desesperado. Apesar de já conhecer aquele homem, Mateus se assustou bastante com aquele movimento, pois, devido a péssima iluminação, parecia que uma sombra estava correndo atrás dele para puxá-lo pro inferno. Nessas situações de medo, a imaginação das pessoas costuma voar longe.

- O que aconteceu aqui? – Perguntou Mateus ao vidente. Que estava todo sujo, ferido e bastante ofegante.

- Eu desrespeitei Deus! Não é permitido aos homens utilizar dons não naturais. Magia.

- O quê? – Mateus sempre achou que Bentinho fosse um charlatão, agora já começava a achar que ele sofria das faculdades mentais. O homem enlouquecera de vez.

- O demônio veio me buscar. Ele é gigante. Um forte som metálico anuncia sua chegada. Seus olhos brilham como dois pequenos sóis.

- Bento. Sei que você está com medo, mas...

POW!

A dupla fica em estado de alerta. Já haviam ouvido aquele som antes. POW! POW! POW! POW! Pra piorar o som agora era ritmado. Seria um gigante a caminhar? Bentinho tinha certeza disso, já Mateus não. Mesmo assim ele não queria mais pagar pra ver.

- Corre, caralho, corre! – Apesar de bem debilitado, o velho conseguia correr mais rápido do que Mateus. Isso se devia a grande quantidade de adrenalina que corria em seu sangue. Ele estava em pânico, acreditava mesmo que o demônio tinha vindo à pacata Villa Verde só para apanhá-lo.

POW! POW! POW! POW! O ritmo dos barulhos estava cada vez mais rápido. Se aquilo fosse feito pelo caminhar de um gigante ele deveria estar correndo agora.

- AAAAHH!! – Mateus olhou para trás assustado. Não tinha certeza, mas podia jurar que viu uma enorme mão apanhar o vidente. Estava escuro demais para ter certeza de qualquer coisa. SCKROCKT! Um som de algo esmagado se fez presente. Mateus imaginou que a mão gigante que havia capturado Bento tinha acabado de esmagar o velho.

Eis que duas bolas amarelas, que pareciam dois olhos brilhantes, apareceram na escuridão. Elas estavam uma ao lado da outra, em uma altura enorme. Agora para Mateus a história maluca que o velho acabou de contar parecia ter sentido. Aquilo era demais para ele. Puft! Mateus cai novamente no frio chão da rua. Mas desta vez ele não levanta. Acabou de desmaiar.