Capitulo 02
Kevin abriu os olhos e espreguiçou-se devagar. Afinal, seu plano em fugir da cadeia tinha dado certo. Tinha todo o tempo do mundo pela frente, uma vida inteira ainda pra aproveitar.
Sorriu ao pensar que enganou direitinho o Grão-Mestre dos Encanadores. Desde quando se concede a permissão de liberdade condicional para um detento com nível máximo de periculosidade?
Ainda deitado, ele olhou ao redor. Já tinha anoitecido e o luar entrava pela janela da varanda, iluminando a sala. O apartamento de Ben era muito bem decorado, cheio de aparelhos modernos, com móveis de qualidade em cores mais básicas, como marrom, preto e creme, contrastando com a pintura sempre muito viva nos ambientes.
Kevin levantou do sofá, que seria sua cama indefinidamente. Foi para o banheiro se aliviar e depois que usou o vaso, encarou-se no espelho. Seu rosto possuía linhas duras e bem definidas, o nariz quebrado dava certo charme e algumas mechas insistiam em cair sobre a face, afinal seu cabelo estava enorme, indo até o meio das costas.
Jogou um pouco de água no rosto para acordar, e saiu do banheiro. Ainda não havia decorado a disposição das portas no corredor, por isso ficou parado alguns segundos tentando se lembrar onde ficava a cozinha, quando escutou voz do Ben saindo de um dos quartos.
-Não sei se vou agüentar isso Gwen! –ele disse, sua voz parecida cansada. –Acho que vou mandar uma mensagem pro Grão-Mestre pedindo para que outro Encanador seja o Avaliador dele.
-Quer parar com esse pessimismo? –a prima de Ben respondeu, de maneira autoritária. –Já parou pra pensar que essa missão pode te ajudar a finalmente se livrar dos fantasmas do passado?
Kevin andou lentamente, tomando cuidado para não fazer barulho. Aproximou-se do quarto e viu que a porta estava entreaberta. Ele viu que lá dentro, Ben tinha uma espécie de escritório.
Várias telas estavam presas à parede, mostrando cenas de noticiários terráqueos e de outros planetas que faziam parte da Sessão 15, que correspondia à Via Láctea. Do outro lado das telas, havia uma grande mesa, na qual Ben estava sentado, conversando com Gwen por um computador muito luxuoso, provavelmente tecnologia de fora do planeta.
-Não tenho certeza disso. –ele disse, passando a mão pelos cabelos. –Você tem noção de que ele tem que ficar aqui em casa?!
-Eu entendo a sua situação primo, mas já fazem 15 anos! –Gwen aproximou o rosto da tela. –Quem sabe ele não mudou nesse tempo?
-Enfim, eu tenho que desligar. Preciso trabalhar... –Ben sorriu ao olhar para a prima. –Obrigado pelo apoio...
-É pra isso que a família serve, querido. E veja se pode dar uma passada aqui em Anodyne, eu e vóvó estamos com saudades.
Ele se despediram e Ben encerrou a ligação. Arrumou-se na cadeira e começou a trabalhar, digitando no teclado e falando em voz altas algumas ordens para os Encanadores que estavam sob sua jurisdição.
Kevin ficou ali parado mais alguns segundos e depois voltou a deitar no sofá. Estava cansado, então fechou os olhos e deixou o cansaço dominar. Quando estava quase conseguindo dormir de novo, vou acordado com um sacolejo.
-Levanta, temos uma missão. –Ben disse, fechando o macacão que vestia.
-O que? –ele gemeu, afundando o rosto no travesseiro. –Pode ir, vou continuar dormindo.
-Olha, isso é um saco pra mim também, ter você por perto. –o outro foi sincero. –Então não vamos tornar isso ainda mais difícil, ok?
Kevin levantou e vestiu os tênis. Eles subiram uma escada que levou ao terraço do prédio, já que o apartamento ficava na cobertura. Ben apertou um botão no controle e o sistema de camuflagem da nave desligou, eles entraram.
Minutos depois já estavam fora da Terra, viajando pelo espaço. Ben havia recebido uma mensagem pedindo por ajuda de uma nave, que havia sido vitima de ataques de piratas espaciais.
Ele apertou alguns botões no painel e deixou a nave em piloto automático, com a rota programada.
-Quando chegarmos lá, você vai ficar perto de mim e obedecer as minhas ordens. –Ben encarou o outro. –Estamos claros?
Kevin apenas deu de ombros, olhando para o outro lado. Pouco se interessava com o que iria acontecer, sua cabeça estava em outro lugar. Precisava continuar se fazendo de bom moço para conseguir sua liberdade, sua preciosidade liberdade. E para isso deveria seguir as ordens de Ben, afinal ele era seu Avaliador da condicional.
Após algum tempo vagando, encontraram a nave, parcialmente destruída. Antes de saírem, ambos colocaram capacetes com oxigênio e pegaram algumas armas. Ben ligou seu comunicador para conseguir rastrear qualquer sinal de outros Encanadores, mas até o momento não surgia nada na tela.
Eles aproveitaram um rombo na estrutura externa e entraram. Estava escuro e foram andando com cautela, por causa dos fios expostos e soltando faíscas. O silêncio reinava absoluto, fazendo-os pensar que estavam sozinhos.
Continuaram seguindo, descendo o corredor. Viraram à esquerda e encontraram uma porta fechada, que dava para a sala de comando. Mal Ben abriu-a e uma criatura voou em cima dele.
Assemelhava-se a um réptil gigante bípede e possuía uma cicatriz de triangulo no braço, que era sinal do grupo de piratas ao qual pertencia. Atacou o Mestre Encanador sem piedade, rasgando o macacão com suas garras, arrancando sangue. Ben puxou um de seus bastões do cinto e bateu no agressor, liberando uma descarga elétrica do objeto. O alien soltou o humano e cambaleou para trás, um pouco confuso pelo choque.
Ele soltou um berro enfurecido e voltou sua atenção para Kevin, que estava do outro lado. Correu em sua direção com as mãos esticadas, prontas para atacá-lo. Kevin por sua vez, jogou a arma para Ben e encostou-se à parede atrás dele. De repente, todo o seu corpo estava da mesma cor da parede, cinza-chumbo. Ele levantou uma das mãos, que agora tinha a forma de uma imensa espada e cravou-a na barriga do alien, com força.
O réptil caiu no chão de joelhos, agonizando. Ele se aproximou do outro e cortou sua cabeça fora com um golpe seco.
-Antes que diga alguma coisa, o matei por legítima defesa. –Kevin disse, sua mão voltando a forma original.
Ben levantou-se e sua barriga doeu com o esforço. Olhou para o rasgo no macacão e viu que tinha atingido os músculos, o sangue escorria abundante.
-Temos que terminar de vasculhar a nave. –disse, pressionando o corte.
-Se você não receber tratamento, vai morrer por hemorragia. –Kevin aproximou-se.
-Mas existem pessoas que precisam de mim!
-Peça reforços, você não vai conseguir nada sangrando desse jeito.
O moreno passou o braço de Ben por cima de seu ombro e o levou para a nave deles. Kevin o deitou no chão, depois de retirar os capacetes. Achou a caixa de primeiros socorros e começou a cuidar da ferida.
Teve que abrir o macacão do outro e surpreendeu com o que viu. Afinal, nunca pensaria que Ben poderia ter barriga tanquinho e ser todo definido. Balançou a cabeça e voltou a se concentrar no que realmente importava.
Então chegou à área da ferida, que era profunda. Com cuidado, limpou toda a área, usando um liquido bactericida, que arrancou gemidos de dor de Ben. Kevin terminou de limpar o local, pegou uma agulha e linha e encarou o outro.
-Vou precisar costurar, mas isso vai doer e não temos analgésicos. –sua expressão era séria e determinada. –Consegue suportar a dor?
-Anda logo e termina isso.
Ben fechou os olhos e sentiu a agulha transpassando a borda da ferida, de um lado ao outro, a linha costurando. A dor aumentava cada vez mais, conforme as bordas se aproximavam. No final, acabou apagando, exausto.
Kevin terminou de suturar e limpo a ferida, fazendo um curativo. Sabia que deveria ficar atento a qualquer sinal de infecção ou coisa parecida. Viver tantos anos sozinho e tendo que se virar quando se machucava, lhe trouxeram alguns conhecimentos úteis.
Vendo que o outro apagou, o moreno deu um tapa de leve no rosto de Ben, acordando-o.
-Já estamos em casa? –ele perguntou, ainda confuso.
-Ainda não, mas terminei com a sua ferida. –sentou-se ao lado do outro.
-Por que fez isso?
-Porque você é a minha passagem pra liberdade. –Kevin o encarou. –Até lá, nada de morrer.
Houve um silêncio sepulcral na nave, enquanto voltaram para a Terra. Assim que chegaram ao apartamento, Ben tirou a roupa, com certa dificuldade e deitou na cama, cansado. Já tinha recebido o relatório de que ninguém foi achado vivo na nave perdida e levantaram a suspeita de que poderia ser uma emboscada.
Fechou os olhos e deixou-se levar pelo torpor. Imagens de suas férias de verão no trailer com o vô Max surgiram, levando-o ao passado.
Ben passou a mão pela testa, enxugando o suor que escorria. Provavelmente aquele era um dos verões mais quentes que os Estados Unidos já havia enfrentado. Estavam na cidade de Nova York, andando pelo centro. Max precisava comprar peças para seu trailer, que havia quebrado. Enquanto isso, Ben e Gwen conversavam animadamente sobre os filmes que iriam em cartaz.
Foi quando Ben acabou esbarrando em alguém na sua frente. Ao levantar o rosto para pedir desculpas, viu que era um garoto um pouco mais velho que ele. Suas roupas estavam esfarrapadas e possuía olheiras fundas sob os olhos.
-Me desculpe. –Ben disse, esboçando um sorriso. –Te machuquei?
-Não, mas derrubou meu almoço. –ele se abaixou e pegou o que conseguiu do sanduíche, que estava em pedaços.
-Parabéns cabeção! –Gwen comentou, dando um tapa no primo. –Desculpe, meu primo é um idiota...
-Tudo bem. –o garoto deu de ombros e jogou o sanduíche fora.
Foi então que se seu estômago roncou bem alto e Ben encarou-o.
-Posso então te pagar outro? –ele perguntou, inquieto com a situação.
-Olha, não precisa...
-Claro que sim! –Ben sorriu e fez um movimento com a cabeça para que o seguisse. –Espero que goste de KFC.
Enquanto Max estava na loja de peças, os três foram para uma lanchonete na esquina, chamada KFC, que vendia frango frito em baldes de papel. Sentaram-se em uma mesa e pediram dois baldes, já que o garoto disse que iria apenas beliscar.
-Você não me disse seu nome. –Ben comentou, enquanto comia e se sujava com o molho.
-Me chamo Kevin. –ele respondeu, meio sem graça.
-Eu sou Gwen e esse é o estúpido do meu primo Ben. –a menina sorriu, estendendo a mão.
Claro que nenhum deles se importou que suas mãos estivessem engorduradas, eram crianças. Acabaram rindo enquanto comiam e faziam brincadeiras com as coxinhas de frango.
Depois que a comida acabou, Kevin ainda sentia fome, mas ficou quieto. Enquanto conversavam, seu olhar cruzou com os olhos de Ben e se fixaram neles por alguns segundos.
-Eu acho que quero mais um balde! –Ben exclamou, depois de arrotar. –Ainda estou com fome.
Assim que o balde chegou, ele comeu apenas duas coxinhas e deu o balde para Kevin, alegando que já se sentia satisfeito. Com um sorriso tímido no rosto, ele comeu tudo. Após a refeição, tomaram um milkshake e voltaram para frente da loja onde estava Max.
-Vem cabeção, temos que ir. –Gwen disse, andando na frente. –Foi um prazer te conhecer Kevin.
-Ei, onde você mora? –Ben perguntou, ainda parado no mesmo lugar. –Ainda vamos ficar na cidade por mais uns dias, posso te visitar!
-Eu... Eu fugi de casa. –Kevin disse, sentindo vergonha de si mesmo por admitir.
-O que?
-É, tive alguns problemas e fugi.
-Então vamos resolver isso hoje!
Ben segurou na mão do outro e o saiu arrastando pela calçada, apesar de mais novo e menor que outro. Encontraram Max e Gwen ali perto, entrando no estacionamento onde estava o trailer.
Claro que foi difícil convencer seu avô a deixar um menino de rua completamente estranho morar com ele durante alguns dias, mas Ben era conhecido por vencer pelo cansaço. Óbvio que teve de prometer que encontrariam um abrigo para ele quando fossem deixar a cidade.
Naquela noite, Ben e Kevin foram dormir tarde, conversando. E pela primeira vez na vida, eles não se sentiam sozinhos.
