Disclaimer: Naruto não me pertence.
Areia
Hinata fitou seu reflexo no espelho. O kimono de seda azul bebê e o obi azul royal abraçavam seu corpo com delicadeza e elegância. Carpas douradas e vermelhas pintadas a mão nadavam próximas à barra da vestimenta. Os peixes estavam sempre se movendo e nunca saindo do seu designado local.
Parecia uma boneca de porcelana muito bem trabalhada e finalizada trajando roupas tradicionais feitas de seda que fora comprada por algum homem rico com filhos de gostos excêntricos. Sentia-se, também, exatamente igual a essa boneca. Sentia-se como se sua vida fosse ser um lindo enfeite numa casa glamourosa, sempre presa a sua própria casinha de vidro. Sua claustrofóbica caixinha de vidro que a conservava.
Ela se sentia inútil em contraste com a própria família.
Hanabi é melhor que você.
Hanabi é mais adequada para fazer isso.
Hanabi.
Hanabi.
Hanabi.
Nunca Hinata.
Nunca a filha do Lorde Hyuuga Hiashi que nascera predestinada a casar-se com um monstro.
Afinal, por que alguém prestaria atenção nela? A única coisa preciosa que carregava eram os seus olhos.
Olhos esses que seu próprio pai declarou serem defeituosos.
Fechou os olhos e suspirou.
Conteve o próprio choro.
Tinha que continuar a resistir. Mandar os pensamentos negativos para fora da sua mente.
Não o podia se dar o luxo de tornar-se uma Corrompida.
Não podia. Não podia. Não podia.
Por que ela não podia mesmo? Ninguém se importaria. Ninguém perceberia.
Ela não existia para eles de qualquer forma. Que diferença fazia o estado em que sua alma se apresentaria?
Se tornaria um monstro a ser oferecido a outro monstro e ninguém notaria.
Ninguém.
Sabia que muitos acreditavam que o poderoso Hiashi só possuía dois filhos, Neji, o prodígio primogênito e seu herdeiro, e Hanabi, a caçula de modos elegantes e beleza etérea. Para todos Hinata é um nome estranho. Para muitos dentro de seu próprio clã, o nome só os lembrava de uma garota de aspecto frágil que vive trancada na mansão principal, onde o líder deles e seus herdeiros moravam.
Apenas uma menina sem identidade. Sem rosto. Sem voz.
Uma verdadeira fantasma na história do clã Hyuuga.
Ela fitou as malas acumuladas em um canto do quarto com melancolia. Eram três pretas e uma marrom. Todas os seus pertences necessários estavam naquelas malas. Do lado oposto às malas, três caixas com seus pertences se erguiam na direção do céu de forma pequena, porém intimidadora. Eram como monstros que se precipitam sobre uma criança medrosa. Monstros materiais estes que amedrontavam a garota parada na frente do espelho.
Dentro daquelas malas e caixa não havia nada mais que algumas roupas que seria obrigada a usar, produtos de higiene pessoal, livros e um espelho.
Não havia fotos porque ela fora impedida de participar de tudo que envolvia muita gente ou mesmo reuniões entre os herdeiros do clã, Hiashi e sua esposa. Nunca saíra do próprio quarto durante as festas de família. Nunca participou de uma festa de qualquer tipo. Nunca passeou com seu irmão, irmã e pai nos feriados ou foi a uma escola.
Só podia sair da ala da mansão onde ficava seu quarto para refugiar-se numa biblioteca pequena criada criada para ela e num minúsculo jardim abaixo do seu quarto. Passou a vida restrita a um espaço de 50 metros quadrados.
Só saía daquele espaço quando ficava muito doente e os médicos ordenavam que Hiashi a deixasse pegar sol e caminhar um pouco mais do que podia.
- Você está bonita vestida desta forma.- declarou uma voz masculina e grave quebrando seus devaneios.
Ela se virou na direção da voz e sorriu ao ver seu irmão mais velho apoiado no batente da porta. Neji era alto, algo por volta dos 1,80 metro de altura em contraste com os 1,57 metro dela, seus ombros eram amplos e seus músculos eram firmes devido ao tempo que dedicava as atividades físicas e a vida de soldado que ele havia escolhido seguir. Com olhos prateados e cabelos cor de chocolate amargo, fazia com que muitas moças suspirassem quando ele passava. Por trás de toda sua beleza e habilidade com tudo que tocava, havia um passado negro que ele carregava.
Quando o protetor dele, Hizashi, partira, Neji pensou que tivessem assassinado seu guarda-costas e acabou por construiu um grande rancor em relação ao pai e às irmãs. O homem era seu melhor amigo apesar da diferença de idade. Os olhos antes de um cinza tão claro que beirava o branco foram escurecendo até atingir um tom próximo ao chumbo. Quando o clã percebeu que ele se corrompia pouco a pouco teve como precaução selar parte de seus poderes espirituais. Afinal, uma criança Hyuuga que nasce com a linhagem mais próxima aos anjos e que pouco a pouco perde a cor branca dos olhos é um perigo em potencial. Um descendente de demônio em formação.
O primogênito e herdeiro Hyuuga pouco a pouco caia na escuridão.
Era um príncipe que se afogava nas amarguras do mundo.
Demorou muito tempo para que entendesse que seu protetor havia atingido o grau máximo de pureza e se tornado um anjo.
Soube muito tempo depois, também, que só não conseguia enxergar a forma espiritual do homem porque havia guardado tanto rancor e raiva que fora cegado. O byakugan, habilidade especial do seu clã, permitia que o usuário visse anjos, demônios, espíritos e a força espiritual de outras pessoas. Embora fosse um prodígio e pudesse ver a mais fina e oscilante linha de chakra a distancia, seus olhos não podiam alcançar o patamar necessário para ver um anjo.
Mas Hinata nasceu vendo os anjos e ele a invejara durante toda a infância por isso. Chegara a tentar mata-la para roubar seus puros olhos.
Neji tentou sorrir para a irmã. Sentia-se culpado por desgastar o tempo que a teve ao seu lado na luta com seus demônios internos. Se culpava até hoje pela cicatriz no seio dela onde acertara tentando mata-la.
Agora não teria outras chances de mostrar como se sentia culpado por maltrata-la.
Ela estava partindo.
Estava deixando seu lado para ir de encontro a outro monstro.
Estava deixando o irmão que carrega cicatrizes ainda rosadas de tão recentes na alma para curar outra pessoa.
- Está pronta?
Hinata suspirou e desviou seu olhar dos olhos tristes do irmão.
- Você conhece a resposta tão bem como eu, Nii-san.
Não.
Neji apertou a mão dela procurando transmitir conforto.
- Não tenha medo.- disse num sussurro trêmulo como se contasse um segredo.- Ele não é ruim como as pessoas dizem. A pior fase da vida dele já passou. E não é como se você fosse incapaz de amá-lo um dia. Você já amou Naruto.
Hinata o fitou. Olho no olho.
- Eu sei que ele carrega um demônio como o Naruto-kun. Sei também que Naruto é nove vezes mais poderoso que ele, mas Nii-san, o Naruto-kun nunca matou por maldade, porém esse garoto...
Neji sorriu de forma triste. As palavras não queriam sair da sua garganta, mas ele tinha que derrama-las.
- Eu conheço o Sabaku há algum tempo, mas nunca confiei muito nos meus instintos e fui perguntar ao Naruto o que pensava. O Uzumaki é o melhor amigo dele, Hinata, e quando perguntei sobre Gaara ele disse que a sede de sangue dele era um reflexo do ódio dos aldeões em relação a garoto. Quanto mais ódio e medo existirem ao seu redor mais instável se torna o portador do demônio e foi isso que aconteceu com ele. Mas ele está mais equilibrado agora, ele possui mais controle sobre a besta que o habita.
- Morar num castelo isolado do povo que protege não é autocontrole, nii-san.
- Hinata, Naruto cresceu com a Sakura ao lado dele, mas o Sabaku cresceu sem você! É justo que ele tenha enlouquecido um pouco com o passar dos anos. Mas ele precisa de você e já adiamos muito sua ida a Suna. Eu não quero que você vá e reconheço seu medo. Mas ele precisa de você. Naruto teve Sakura perto dele por toda a sua vida. Sempre que ele ia perder o controle ela o acalmava, ainda que de forma indireta. Mas e o Sabaku? Quem ele têm?
Hinata suspirou e mais uma vez se olhou no espelho.
As malas com suas roupas e coisas no canto do quarto pareciam gritar. As paredes pareciam querer esmaga-la.
- Tenho medo.
- Eu sei.
Ela fitou o rosto rígido do irmão. Ele a entendia.
- Estou pronta.
Gaara observou a Vila do alto da torre do castelo em que viveu por toda sua vida e continua a habitar. Do lado de fora a areia se estendia como um enorme tapete escaldante e o céu se desmanchava em cores quentes. Bagunçou um pouco seu cabelo ruivo e suspirou. Olhou para a armadura feita de ferro e chumbo com uma camada de ouro e prata que a embelezavam em um canto do quarto e grunhiu de irritação.
Ser o guardião de Sunagakure as vezes era um trabalho tão ingrato. Enquanto seu irmão mais velho liderava a aldeia sob o título de Kazekage, seu trabalho como Comandante Supremo do Exército era proteger o local de toda e qualquer ameaça. Esse cargo lhe custava longas noites vigiando os portões a espera de qualquer sinal de perigo para poder mobilizar o exército e proteger o principal coração da Nação do Vento.
Voltou a fitar a paisagem. Seus olhos aquamarine caíram na silhueta do imponente e único portão de entrada de Suna. Em uma semana uma dama atravessará aqueles portões. Entretanto, esta não será uma dama qualquer; será a garota que lhe fora prometida sete mil anos antes dele nascer.
Baki, que havia assumido o cargo de Kazekage quando o antigo líder e pai de Gaara falecera, havia lhe contado que ela realmente existia, mas que ele teria que esperar pela chegada dela por alguns anos. E ele esperou e esperou e esperou, até que desistiu de fazê-lo.
Mas finalmente ela estava a caminho. Estava a uma semana de por os pés em Suna.
Sentia medo.
Nascera um monstro e só aprendera a se tornar mais humano quando conheceu Naruto, seu melhor amigo. Saber que teria uma esposa que nascera predestinada a ser dele era um pouco difícil de assimilar.
Havia menosprezado a profecia por tantos anos... Havia se trancado no seu próprio mundinho egoísta, alheio aos sentimentos dos outros para proteger os seus por tanto tempo... Havia massacrado família inteiras, banhado-se no sangue do inimigo e feito muitas outras atrocidades. Quando foi escolhido pelo irmão para se tornar o Comandante Supremo ele se sentiu um lixo. Havia recebido um voto de confiança das pessoas do local no qual nasceu e prometeu protege-los. Contudo, uma coisa era liderar um exército e destruir seu inimigo em batalhas através de táticas de guerra e soldados bem treinados, e outra totalmente diferente era amar alguém.
Era particularmente difícil imaginar uma moça amando-o como ele é.
Alguém poderia ama-lo com tal histórico horrendo? Pior, conseguiria ele, alguém que desconhece o amor, amar uma completa estranha?
Foram tantos anos acostumado a ser o monstro que alegavam que ele era, sem receber afeto de qualquer tipo, que a perspectiva de se tornar um bom marido lhe dava medo.
- Como vou protege-la de todo o mal se eu sou o mal? Se eu sou o inimigo?
Fechou os olhos e deixou o corpo cair num baque surdo numa poltrona. Sua mente vagando entre memórias.
Desde que era pequeno vivia restrito a aquele castelo enorme feito de mármore. Seu falecido pai havia ignorado-o e tratado-o como uma simples arma de guerra, se recusando a aceita-lo como filho. O homem havia governado a vila a mãos de ferro enquanto mantinha o filho caçula isolado numa parte do castelo. Fora Yashamaru, seu tio que tentou assassina-lo quando ainda tinha cinco anos, apenas Baki o criou e lhe deu atenção.
Baki nunca ousou toca-lo.
Baki nunca o repreendeu da forma que deveria.
Baki nunca permitiu que ele se aproximasse dos irmãos.
Mas Baki acreditava na profecia mesmo quando todos já tinham desistido dela.
Quando um pergaminho com um belo selo chegou nas mãos de um Anbu de Konoha, os olhos de Baki brilharam pela primeira vez em anos.
O pergaminho mudava tudo.
Havia esperança no fim do túnel afinal.
" Minha filha já se encontra pronta para consolidar seu matrimonio com Sabaku no Gaara.
Espero que o casamento continue sendo válido, pois os Kages que oficializaram o contrato já se faleceram.
Sinto pela demora,
Hyuuga Hiashi."
Baki havia invadido seu quarto balançando o pergaminho nas mãos enquanto arfava.
"- Ela não desistiu, Gaara! Sua esposa está a caminho! Você poderá aprender a amar agora. Você será amado!" - o homem dissera com entusiasmo.
Naquele dia Kankuro passara o jantar falando de forma dramática sobre como seu puro irmão se casaria antes dele. Temari estava tão entusiasmada em ter outra mulher na família que não parou de comer para brigar com o discurso do irmão.
Durante o jantar daquele dia, Gaara permaneceu calado, assistindo toda a comoção que sua esposa estava causando antes mesmo de chegar a Vila.
Gaara suspirou e fechou as cortinas. As lembranças das semanas que se seguiram ao anúncio que sua esposa chegaria não lhe eram tão agradáveis. Em duas semanas seu melhor amigo viria junto a nova senhora Sabaku como seu guarda-costas. Em uma semana ele teria que parar de agir pensando somente em si ou como suas decisões afetariam seus irmãos mais velhos, Baki e seus soldados. Teria que começar a pensar no bem-estar da esposa e em ser um bom marido.
Não haveria um rito de passagem para anunciar a união deles. Tampouco havia a opção de recusarem o matrimônio.
Em pouco tempo seriam apenas ele e ela.
Ela.
O fato de sequer ter conhecimento do nome da própria esposa o acertara em cheio no peito.
Tudo que sabia sobre ela era através de cartas trocadas com Naruto. Sabia que ela era uma descendente de anjos e que sua pureza e doçura era inigualável. Sabia também que era a irmã mais nova de Hyuuga Neji, um garoto que conhecera durante suas estadias em Konoha.
Sentiu-se subitamente cansado como se tivesse lutado por dias numa sangrenta guerra.
- Ela é um anjo, Gaara.- Kankuro falou apoiado na parede próxima a porta. Observava o irmão já havia um tempo. - Essa garota conseguiu amar e admirar o Uzumaki mesmo quando todos o odiavam. Se ela pôde amar o portador da Kyuubi, porque não você?
- Ela ... O amava?
- Sim. Parece que o amou por um longo tempo, mas abriu mão para deixar Sakura tomar seu lugar ao lado dele. Naruto uma vez me disse que mesmo quando ela o amava, ela nunca se declarou. Quem contou pra ele foi o irmão dela. Neji havia dito pra ele que ela não conseguia se declarar porque sentia que era errado, que pertencia a outro homem e outro lugar.
- Ela só está seguindo a profecia.
- Ela não conhece a profecia inteira.
Gaara se virou para fitar o irmão.
- Tudo que ela sabe é que tem que se casar com você. Ninguém nunca contou nada além disso pra ela. Tomou conhecimento do Shukaku no ano passado por causa do Naruto. Antes disso sequer sabia seu nome.
Gaara fitou o irmão. O chapéu de Kazekage ocultava parte da cabeleira castanha de Kankuro.
- Tudo vai ficar bem. - disse o mais velho em tom paternal.
Ou pelo menos eram isso que ambos esperavam.
SEGUNDO CAPITULO UHUUUUUL. Eu até que fui rápida pra postar dessa vez. u.u sempre demoro vidas pra postar os capítulos das minhas fics.
Mel Itaik, continue acompanhando mesmo! *-* eu tenho um roteiro enorme pra essa fic e ela vai me render uns 20 capítulos no minimo, então vocÊ vai poder ler vários capítulos quentinhos e saídos do forno um atrás do outro conforme eu avançar ( eu já tenho seis deles digitados e a parte na qual a coisa realmente fica interessante ainda nem chegou T.T ). Obrigada pelo elogio e adiós. Volte sempre e mande review sempre que puder! ^^
BarbaraGava, gostou né? Você tem uma tara pelas minhas fics que Gzuis kkkkk, acho que vou por uma dedicatória pra você nessa fic, hehehe. E sim a Hina é descendente de anjinhos , legal né? *-*
