A escuridão da madrugada já havia tomado conta das ruas de Ballycastle quando Gustavo chegou à casa de sua mãe, que ficava num pequeno vilarejo de pescadores na costa norte da Irlanda do Norte. O silêncio da noite só era interrompido pelo farfalhar de asas e pelo pio de duas ou três corujas que haviam saído para caçar. Sem anunciar sua presença, ele entrou na casa e encontrou tudo, como tudo o mais na distante vizinhança, escuro e silencioso.

Não quis chamar atenção; sabia que, em seus quartos, sua mãe e irmã dormiam tranquilamente sem esperar pela chegada do terceiro membro da família. Silenciosamente se acomodou no sofá da sala de visitas e custou a pegar no sono. Ficou relembrando a última vez que estivera ali; trouxera os Clearwater para conhecer a sua família, e, depois que eles foram embora, tivera uma discussão horrível com a mãe.

Gustavo não havia mais conversado com a sra. Branstone desde então. Ele tampouco tinha seguido o seu conselho; ela o havia mandado falar com o Sr. Clearwater sobre a sua licantropia na próxima vez que o encontrasse, e Gustavo, lógico, não havia ainda encontrado o momento certo. O único motivo que o fez voltar àquele lugar era a aproximação da lua cheia; sem dinheiro e sem ter onde se esconder, a casa de sua mãe era o único lugar no mundo onde ele podia se transformar em lobisomem sem levantar suspeitas.

Ele se despertou com os primeiros raios do sol; sabia que a Sra. Branstone acordava cedo e não queria que ela desse de cara com o filho desordeiro dormindo no sofá.

Tinha acabado de lavar o rosto e enxugá-lo com uma toalha quando se deparou com a sua mãe em pé na porta do banheiro, de braços cruzados e uma cara nada agradável.

- Precisamos conversar.

Gustavo respirou fundo e a encarou, já imaginando o que vinha pela frente; estava realmente disposto a fazer as pazes com a sra. Branstone, mas por algum motivo lhe pareceu que ela não compartilhava dos mesmos pensamentos.

- Você não pode mais voltar para Londres – prosseguiu a sra. Branstone, ao que Gustavo revirou os olhos. – Esse emprego não está lhe fazendo bem, de uma hora para outra você começou a achar que pode se envolver com quem não pode...

- Já conversamos sobre isso, mãe...

- Será que você não entende? Essa moça pode dizer que não se importa agora porque não assimilou as coisas ainda, mas um dia ela vai se dar conta de tudo e o que vai acontecer? Eu só estou tentando lhe abrir os olhos para que você não sofra no futuro.

- Eu estou condenado a sofrer de qualquer jeito, não é mesmo? Que diferença vai fazer se eu sofrer um pouco a mais?

O barulho da discussão acordou Léa, a irmã de Gustavo, dez anos mais nova do que ele, e ela veio andando até a sala de meias e pijamas, reprimindo um bocejo e afastando os cabelos do rosto.

- Ela chorou o dia inteiro ontem – Léa disse baixinho, quando a Sra. Branstone foi preparar o café da manhã. – Achou que você nunca mais fosse aparecer.

Gustavo não pôde responder; sabia que a sua mãe também estava sofrendo e isso o incomodava. Porém a sua sensação de culpa se esgotou algumas horas mais tarde; à hora do almoço, os mimos exagerados da Sra. Branstone já começavam a tirá-lo do sério:

- Tem certeza de que está tudo bem? Está se alimentando direito? Tão magrinho... Está tomando o seu matacão?

- Ainda não preparei – respondeu Gustavo num tom levemente irritado.

- Tem que tomar a poção todas as noites antes da lua cheia! Você sabe que sexta-feira está se aproximando!

- Obrigado por me lembrar – ele retrucou secamente.

Ele não queria discutir novamente, mas o irritava o fato da Sra. Branstone falar como se ele fosse capaz de esquecer uma coisa dessas.

Apesar de tudo, ele não podia reclamar. Sentia falta de um lar, um lugar onde ele não precisasse se esconder dos outros... Além disso, estava um pouco receoso de voltar a Londres. Já não se sentia tão confiante de conseguir um emprego com Bagman no Ministério da Magia e, quando pensava em seu emprego como fotógrafo no Profeta Diário, tudo o que lhe vinha à mente era uma série de dúvidas e incertezas.

Sem vontade de falar com mais ninguém, Gustavo disse que não estava se sentindo bem e se trancou no antigo quarto, que agora a sua irmã ocupava sozinha.

Ele não estava mentindo. A febre era inevitável, ele imediatamente era acometido pela insônia, náuseas e dor de cabeça todas as vezes que tomava a poção do acônito. Não havia nada que pudesse fazer para evitar isso, como também não podia evitar o fato de transformar-se em lobisomem quando a lua cheia estivesse alta e branca no céu.


O dia seguinte amanheceu e Gustavo ainda não havia pegado no sono. Ele somente conseguiu dormir quando os primeiros raios do sol começaram a iluminar o quarto, mostrando que aquele dia, novamente, seria de muito sol e calor. Gustavo, no entanto, sabia que para ele seria apenas mais um dia completamente improdutivo; apenas um dia a menos para a chegada da lua cheia...

Ele acordou, de repente, no meio da tarde. Percebeu que Léa estava sentada em sua cama o observando; aliás, a garota já devia tê-lo chamado várias vezes, porque ele acordou com um sacolejo e o som da sua voz.

- Gustavo!

Ele acordou e se sentou depressa, esfregando os olhos.

- O que aconteceu? Léa? Está tudo bem?

- Sim, mas acho que vou precisar da sua ajuda.

O rapaz se endireitou para ouvir, achando que alguma coisa muito grave tinha acontecido. Porém Léa não lhe explicou imediatamente; estava demorando todo o tempo do mundo observando uma rachadura na parede. Então falou, meio sem jeito:

- A mamãe não quer que eu volte para Hogwarts.

- Quê? – exclamou Gustavo, apertando os olhos como se isso fosse ajudá-lo a entender melhor. – Como assim? Por quê?

- Bom – disse Léa, medindo as palavras. – Suponho que... porque ela ficou apavorada quando eu contei que Harry Potter voltou à escola agarrado ao corpo de um colega morto e dizendo que Você-Sabe-Quem voltou...

Gustavo contraiu o rosto: ele devia ter previsto isso. Naturalmente que a Sra. Branstone iria assumir aquela atitude, ela era capaz de fazer qualquer coisa para proteger os filhos...

- Mas como ela acha que isso pode ajudar a te proteger de Você-Sabe-Quem? Impedindo você de voltar a Hogwarts?

- Não é bem por causa de Você-Sabe-Quem... você sabe que a mamãe leva o Profeta Diário a sério; ela acha que Harry é perturbado e está espalhando uma onda de terror na escola...

Gustavo passou a mão pela cabeça, desarrumando ainda mais os cabelos. O último artigo de Rita devia ter causado um estrago realmente grande na comunidade bruxa... Quantas pessoas mais teriam acreditado naquele monte de baboseiras que ela escreveu? E, para piorar, ele teve a sensação de que era parcialmente culpado por tudo de ruim que o artigo causou...

- Só você pode me ajudar – insistiu Léa.

- E o que você quer que eu faça?

- Já que você pode usar magia, eu pensei que você podia dar um jeito de apagar a memória dela...

Gustavo lançou um olhar repreensivo e impaciente a Léa.

- Não é assim que se resolvem as coisas!

- E o que mais a gente pode fazer?

- Eu vou… pensar em alguma coisa – sentenciou Gustavo.

A garota saiu do quarto, emburrada. A única coisa que Gustavo podia fazer a respeito disso era conversar com a Sra. Branstone para tentar fazê-la entender; mas até mesmo a pequena Léa sabia que era mais fácil alterar a memória da mãe do que convencê-la a mudar de ideia.

Os dias que se seguiram foram igualmente perturbados. Gustavo não sabia como falar com a Sra. Branstone e Léa não parava de olhar para ele com uma cara de "de que adianta ter um irmão mais velho se ele não pode obliviar a mamãe quando a gente precisa".

Um dia antes da lua cheia, a garota voltou a procurar o irmão, desta vez em tom de cobrança.

- Você não vai fazer nada?

- Vou falar com ela; só estou esperando o momento certo.

- E quanto tempo isso vai demorar?

- Estou esperando ela tocar no assunto – justificou-se o rapaz.

- Até parece que você não conhece a mamãe – resmungou a garota. – Você sabe que ela não vai vir aqui pedir a sua opinião.

- E até parece que ela vai querer me ouvir, não é mesmo? Para que você quer que eu fale com ela, então?

- Eu não pedi para você falar com ela; eu pedi para você apagar a memória dela, esqueceu?

- Léa! Temos que resolver as coisas do jeito certo, nem tudo é tão fácil assim como você quer! Em breve os jornais vão começar a falar nesse assunto, então não adianta a gente tentar enganá-la agora.

- É, mas, enquanto isso, eu fico proibida de voltar para Hogwarts, e eu quero voltar!

- Está bom – disse Gustavo –; eu vou conversar com ela hoje sem falta.

A porta do quarto se abriu e Léa se levantou sobressaltada. Era a hora de Gustavo tomar a poção e a Sra. Branstone tinha vindo servi-lo; ela só estranhou o fato de encontrar os dois filhos atipicamente reunidos.

- Minha filha, o que você está fazendo aqui sozinha com o seu irmão?

Como se conversar sozinha com o irmão fosse algum tipo de crime.

- A Léa estava me contando – disse Gustavo, estudando as palavras para não reascender uma discussão – que ela não quer, digamos assim, abandonar a educação dela em Hogwarts...

- Mas eu não falei que ela iria abandonar a educação – defendeu-se a Sra. Branstone. – Eu só falei que, se Hogwarts continuar do jeito que está eu prefiro educá-la em casa.

- Mãe, o problema não está em Hogwarts – Gustavo tentou explicar.

- A Léa é muito nova para entender – retorquiu a Sra. Branstone. – Ela chegou aqui falando de umas coisas que eu considero completamente inadequadas para uma criança de onze anos!

- Eu já fiz doze – corrigiu Léa.

- Mãe, fechar os olhos para o que está acontecendo não vai ajudar em nada – interpôs Gustavo.

- Não há nada acontecendo – garantiu a Sra. Branstone. – Eu tenho acompanhado o Profeta Diário todos os dias. Não vou admitir que um garoto que fala com cobras comece uma onda de pânico no meio das crianças; além disso, acho que o Ministério saberia se toda essa história com Você-Sabe-Quem fosse mesmo verdade. Léa, você é muito nova para entender. Venha me ajudar a pôr a mesa; e Gustavo, tome a poção antes do jantar.

A Sra. Branstone deixou o quarto com um tom de "e não se fala mais nisso". Gustavo ainda ouviu Léa resmungar, antes de sair, que a ideia dela parecia muito interessante agora.


A hora do jantar foi desagradavelmente silenciosa; ninguém tocou mais no assunto naquela noite, e nem no dia seguinte, quando Léa foi arrumar as malas para ir passar a noite na casa da avó. O seu semblante não era o de uma pessoa satisfeita; tinha depositado em Gustavo a sua última esperança, e ele não conseguira fazer nada para ajudar. Se muito mais pessoas seguissem o mesmo raciocínio de sua mãe, Hogwarts teria menos alunos neste ano.

- Léa, não se preocupe; acho que ainda posso fazer alguma coisa – disse Gustavo, depois de receber da irmã um olhar decepcionado, porém cortante.

- Vai pensar melhor na minha ideia?

- Não; acho que posso fazer melhor. Ela acredita no Profeta Diário, não? Pois bem, por acaso é lá que eu trabalho... Posso dar um jeito de fazê-la perceber que você vai estar mais segura em Hogwarts do que em casa.

Léa se animou um pouquinho, mas, pela sua expressão, Gustavo sabia o que ela estava pensando: ela já o conhecia, e sabia que ele não iria conseguir coisa alguma...

Mas Gustavo foi tomado por uma vontade súbita de fazer a coisa certa. A própria Léa lhe dissera que só ele era capaz de ajudar. Pois bem; ele não iria decepcioná-la desta vez. Afinal, agora que não trabalhava mais com Rita Skeeter, estava mesmo precisando de uma nova diretriz para seguir.

- Olha, eu tenho uma coisa aqui que pode te animar – ele disse, procurando algo dentro da mochila enquanto sua irmã o olhava. – A Penny me deu este porta-retratos no dia do meu aniversário, e eu disse que ia colocá-lo em cima da minha mesa de cabeceira que, a propósito, fica aqui neste quarto...

Ele depositou o porta-retratos em cima do criado-mudo ao lado da cama de Léa; a garota arregalou os olhos como se tivesse acabado de ganhar um saco cheio de moedas de ouro.

- Não acredito! Por que está me dando isso?

- Eu pensei em tirar uma foto sua para a gente colocar aí.

- Certo – respondeu Léa discreta, mas Gustavo viu a hora em que ela retirou a foto de Ben do porta-retratos e colocou no bolso antes de sair do quarto.

Gustavo sacudiu a cabeça e olhou para o alto, ciente de sua nova responsabilidade: ajudar não somente a sua irmã, mas todos os alunos que estivessem enfrentando dificuldades, a poderem voltar a Hogwarts.