Capítulo I
Sonhos
Era uma noite escura, mesmo que não houvesse nuvens no céu noturno, talvez pela ausência da lua o manto escuro que cobria o céu parecesse mais escuro que o habitual, mas não se demorou analisando essa questão.
A brisa levemente quente que chegava a seu rosto indicava que ali perto havia uma fogueira, provavelmente um acampamento improvisado uma vez que naquela densa floresta poucas pessoas poderiam sobreviver sem auxilio de tal instrumento.
Lentamente seguiu o calor em direção a floresta que definitivamente não se parecia com nada que poderia lembrar, não era Índia, Brasil, nem nada que pudesse indicar África ou qualquer outro lugar. Isso preocupava, mas continuou a ignorar, afinal poderia se tratar apenas de um sonho louco.
Mais um dos que já estava tendo há algum tempo.
Ele sempre caminhava naquela floresta, mas estranhamente não conseguia sentir aquele calor das outras vezes, seria uma premonição? Alguma coisa que precisava ter o momento certo para aparecer? Ele não tinha certeza, mas estava determinado a descobrir o que era, e isso acabou o levando para cada vez mais dentro da floresta.
Não demorou muito tempo como de costume, afinal de conta o calor aumentava cada vez mais, o que significava pelo menos estava no caminho certo. O mais estranho era o fato de não ter visto nada, animal rasteiro ou voador, nada. O que o deixava um pouco desconfiado do que encontraria quando chegasse ao lugar certo. Mas com certeza nada o havia preparado para encontrar aquilo.
Uma jovem.
A jovem em especial dormia tranquilamente, os cabelos longos e lisos eram negros e caiam levemente sobre o rosto impossibilitando-o de vê-lo melhor, sua pele alva iluminada pela fogueira que acendeu para pernoite, contrastava violentamente com o cenário escuro e nebuloso da floresta ao seu redor. Isso o irritou.
Há quase duas semanas inteiras não dormia por causa daquele sonho, no escuro e completamente perdido em meio a uma floresta estranha e que nunca viu, poderia ter topado com todo tipo de perigo. Para finalmente encontrar-se com aquilo que provavelmente o levara até ali, para finalmente encontrar alguém que precisasse de sua ajuda, seu amparo e então ele encontra, uma jovem, completamente sozinha e completamente desprovida de proteção.
Aquilo o deixaria ainda mais fulo da vida se não soubesse que ainda era apenas um sonho, ou seja, ainda não havia acontecido, ou será que não? Tudo parecia tão real, tão vivo que ele realmente se perguntava se em algum lugar do mundo, aquela jovem não estaria em real perigo mandando-lhe uma mensagem de ajuda.
Pensando melhor era impossível, uma vez que ela parecia completamente inexperiente e frágil.
Um estalo, um galho que se parte bem próximo de si, um olhar violentamente brilhante que se abre para a escuridão, algo estava vindo e por sorte a havia despertado. Ele queria gritar para que ela corresse, se escondesse e qualquer coisa que pudesse a manter protegida enquanto ele cuidava de tudo, mas era apenas um sonho, ele não podia realmente protege-la.
Para seu desespero e ele realmente raramente ficava desesperado, a jovem começou a mexer em uma bolsa, deveria correr, se esconder ou qualquer coisa do tipo, mas como sempre mulheres são extremamente imprevisíveis e ela estava à procura de algo em sua bolsa. Que por um acaso era enorme, mas ele preferiu ignorar aquilo.
Ele tentou usar seu cosmo para encontrar a criatura, para seu terror ele não conseguiu captar nada, era como se seu poder não fizesse nada ali. Ficou irritado sonho ou não, ele queria fazer alguma coisa. Aquilo só não o deixou mais frustrado que o riso da jovem ao seu lado.
- Não se preocupe, olha vai ficar tudo bem. – Ela disse por fim erguendo-se com um escudo e o que parecia ser uma lança. Se realmente o fosse eram a maior arma que ele já havia visto em toda a sua vida. E com certeza a maior bolsa que ele já havia visto. - Eu sei que você deve estar confuso, mas eu vou resolver isso logo e depois nós conversamos.
Ele estava sem palavras, completamente aturdido com aquilo que ouvia, era impossível que aquela jovem pudesse guardar tanto poder dentro de si, ainda mais parecendo tão jovem e delicada. Até mesmo sua voz, baixa e gentil, melodiosa como o de um ser divino traçava em torno de si a certeza de se tratar de uma criatura completamente inocente e frágil.
De pé finalmente ele pode ter uma boa ideia de seu corpo, tamanho e de sua beleza. Não era maior que ele, na verdade deveria ser um pouco mais baixa ¹, esguia, seu cabelo era enorme chegando à cintura, não que fosse muito diferente do seu, mas o fato de ser escuro como aquela noite ou ainda pior deixava-o um pouco aturdido.
- Olha eu chamei você aqui para me ajudar e não para ficar me olhando desse jeito. – Ela corou levemente, raramente via-se junto de outra pessoa em campo de batalha e desde que comprara aquelas armas novas, com muita dificuldade por uma acaso, as pessoas realmente achavam-na um pouco estranha usando aquilo.
Não demorou muito para que ele finalmente entendesse o que estava acontecendo, eles estavam cercados, por todos os lados. Eram altos, grandes e estranhos extremamente feios para dizer a verdade, uma mistura de cachorro, homem e monstro, ele não sabia dizer o que era aquilo.
A jovem fez uma careta, não conhecia aquelas coisas, não que ela conhecesse muitas coisas de seu próprio mundo. As únicas criaturas que vira em sua vida foram aquelas que destruíram seu lar e sua montaria, as criaturas selvagens e grotescas como aquelas raramente chegavam a seu conhecimento exceto pelas figuras e pelas imagens nos livros do antigo lugar onde viveu.
Aquilo era um Orc e por sorte, a mamãe deles estava lá. Sorte, realmente ela deveria ter batido com a cabeça para ter chamado aquilo de sorte, não poderia estar mais enrascada.
A batalha começou com um forte urro vindo por parte da mamãe orc, ela carregava sua velha conhecida faca de cozinhar, afinal de contas monstros também precisam comer adequadamente, e a mamãe orc era a responsável por tal processo, fatiando seus alimentos para que seus filhotes pudessem comer mais facilmente ².
A jovem já era velha conhecida de batalhas, não que usar lanças fosse uma coisa nova para ela, mas ainda achava um pouco esquisito manejar aquelas coisas, afinal de contas não às usavam no lugar de onde viera. Tinha aprendido o pouco que sabia na peleja.
A monstra corria em sua direção, havia estudado uma vez seu costume: quando mamãe orc estivesse lutando seus filhotes esperassem-na fatiar sua vitima para poderem lutar uns com os outros a fim de escolherem o melhor pedaço, mas ela não tinha certeza de como eles reagiriam quando ela fosse morta por sua potente lança ³.
E realmente não demorou muito para que isso acontecesse, a lança em especial era uma arma de montaria e ela infelizmente havia deixado a seu peco-peco na estalagem, era uma missão simples a que tinha escolhido e próxima o suficiente para que não precisasse dela. Principalmente por causa de sua raridade. O peco-peco branco de nome Snowflake eram bem raros uma vez que em sua maioria era laranja rajados de vermelho.
A leve distração com a lembrança de sua doce montaria em segurança, fez o jovem a suas costas gritar, distraiu-se ainda mais levando uma pancada na armadura, o que não significava ela tivesse absorvido o dano, na verdade por causa da dupla distração havia conseguido um belo dano crítico.
O grito do jovem acabou estranhamente despertando o interesse dos outros orc's, ao que parecia sonho ou não, eles podiam vê-lo claramente e ataca-lo livremente.
Aquilo era impossível, um sonho louco e verdadeiramente maluco, o pior que já havia tido em toda sua vida, não podia usar o cosmo contra eles, naquele momento ele era completamente vulnerável, indefeso e sentiu-se momentaneamente humilhado.
Ela bufou indignada, conhecia bem aquela expressão de fracasso, às vezes fazia essa mesma cara, quando se lembrava de não ter conseguido proteger as pessoas que dependiam dela, com o tempo acabou percebendo que precisava superar isso para enfim conseguir enxergar sua própria força interior.
Os orc's aproximavam-se rapidamente, iriam pular em cima dele caindo com tudo sobre seu corpo indefeso e bonito, ela odiava perceber essas características nele, nunca havia as percebido antes em ninguém, mas sua missão era muito clara, deus estava acima de tudo, até mesmo de uma coisa boba como aquela.
Depois de ter finalmente decidido ir para a capital Izlude e finalmente corrigir sua inscrição de Espadachim para que pudesse seguir adiante sem mais segredos, que ela teve aquele sonho. Neste sonho sua deusa piedosa e amorosa lhe mostrava seu futuro, sua jornada, não seria nada fácil se tornar uma paladina de verdade. Não que em seu antigo lar não o fosse, pelo contrário, mas sendo uma paladina formada em Juno poderia difundir as verdades de sua deusa por todo o mundo, não apenas para uma cidade. Poderia proteger todo o mundo e conseguir dinheiro o suficiente e mais rápido para a construção do templo e outros reparos mais que a cidade necessitasse, além é claro de conseguir se sustentar.
Mas há alguns dias sua deusa havia enviado uma outra mensagem, essa enviada por uma de suas companheiras, sumo sacerdotisa de sua deusa a jovem lhe falava de um rapaz, estrangeiro de terras distantes e desconhecidas que poderia ajudar em um grande e muito próximo confronto contra forças antigas e escuras. Ela o descrevia como um rapaz de grandes virtudes e mistérios e que poderia ajudá-la a crescer em sua missão, se ela pudesse instruí-lo.
Claro que faria tudo para seguir os pedidos de sua deusa, mas confessava que estava ficando muito difícil encontrá-lo, tentou conectar-se a ele de todas as formas conhecidas a quase mês que estava tentando e nada. Mas justo agora, quando cerca de 20 bestas selvagens estavam cercando-os ele tinha de aparecer.
Estava cansada daquela situação perigosa, claro que não para si, mas sim para seu acompanhante ainda ignorante nas artes e mistérios da devoção aos deuses, definitivamente tinha de fazer algo e rápido.
Ela estava separada de suas amigas há um tempo, estavam juntas desde que chegou a Prontera, há quase quatro anos, era sua primeira missão sem suas amigas, como Paladina de Juno a pedido da escola de magia, conseguir um item especial e extremamente valioso guardado pelos inimigos, e os inimigos eram: orc's.
Para sua sorte, a carta senhora Orc estava com aquele monstro feioso e 'feminino' a sua frente.
Gloria Domini.
Era uma técnica poderosa e devastadora, por sorte havia conseguido proteger seu acompanhante momentaneamente abobalhado por causa de sua força secreta.
A batalha havia acabado.
