"Não se preocupe", Peter tentava convencer-se de que a situação não era tão ruim quanto parecia e que a entrevista de emprego que estava prestes a fazer seria a solução de todos os seus problemas. Tia May o ajudou o melhor que pode, tomou uma camisa social emprestada e fez-lhe os ajustes necessários para que lhe caísse mais ou menos bem. Entregou a ele uma das gravatas de Ben e o abençoou quando o garoto montou na bicicleta e saiu pedalando. Ela ainda não sabia que o sobrinho estava totalmente desempregado, mas o estava apoiando, uma vez que ele lhe disse que queria algo que pagasse melhor.

O escritório ficava no centro da cidade, relativamente perto de onde Peter morava, e ficava na cobertura de um enorme prédio. Quando subiu no elevador lotado e percebeu que ninguém estava saindo e que todos iam para o mesmo destino, o estômago de Peter entrou em queimação novamente. Era muita competição para um garoto inexperiente e mal vestido.

Talvez dar meia volta e ir embora evitasse um bocado de mal-estar e humilhação. Ele até tentou ficar no elevador e retornar para o térreo, mas ao chegar no andar indicado, ele acabou sendo empurrado pela massa que estava deixando o elevador e, tropeçando nos próprios pés, Peter caiu de joelhos no chão, do lado de dentro, agora sem a menor possibilidade de voltar atrás.

Primeiro porque todos já o tinham visto e seria vergonhoso sair correndo, segundo porque a porta já tinha fechado e ele precisava aceitar o seu destino e seguir em frente.

Peter deu uma boa olhada naquela quase centena de candidatos e se sentou ao lado um cara esquisito que havia se isolado do grupo e evitava fazer contato visual com os outros da sala. O rapaz tinha, claramente, problemas com autoestima. Estava todo encurvado e ficou nervoso quando Peter se aproximou.

Depois de uma rápida conversa ele disse chamar-se Bob e que tinha um estreito relacionamento com o administrador daquela firma e que sabia que tinha grande chances de ser o escolhido para o cargo de assistente pessoal. A conversa não convenceu Peter nem um pouco, aquele homem tinha pinta de mentiroso e logo que começou a ficar a vontade, Bob passou a gesticular muito e se gabar demais, mas o garoto aproveitou a situação para saciar a sua curiosidade em relação aquela empresa, cujo panfleto oferecendo o emprego era mais vago impossível.

Nele estava escrito: "Seja durão, seja esperto, seja o meu braço direito e receba muito bem." e só, embaixo havia o nome da companhia Wilson's e o endereço. Peter podia apostar que a aquela quantidade exorbitante de gente ali se dava por causa do lugar em questão, uma cobertura divina em um prédio elegante no centro da cidade. Somente alguém realmente rico conseguiria bancar aquilo e todo mundo queria tirar uma lasca disso. Quando perguntou do que exatamente o serviço se tratava, Bob apenas riu de lado e sentiu-se superior por ter uma informação que ele não tinha.

Peter, em dez minutos, desenvolveu um intenso sentimento de pena por Bob.

De qualquer modo, todos se distraíram e se voltaram para o escritório, de onde um dos candidatos estava saindo. Ele era um cara alto e de ombros estupidamente largos, ele com certeza se encaixava na parte do "durão" dos pré-requisitos, mas o estado dele ao se juntar aos outros era lamentável. Os cabelos estavam chamuscados e, se algum dia ele teve sobrancelhas, agora não tinha mais.

O ex-entregador ficou chocado, especialmente com a forma como todo mundo estava reagindo, como se aquilo fosse normal e não passasse de um simples inconveniente. Que espécie de entrevista era aquela?

Segundos depois quem saiu do escritório foi um homem maluco vestido com uma fantasia de super-herói. Sério. Ele tinha uma máscara vermelha com ovais pretas em torno dos olhos. A roupa era grossa e servia quase como uma segunda pele de tão justa, também seguindo o mesmo padrão de cor preto e vermelho, exceto pelo cinto de utilidades, o coldre na coxa e as alças do suporte para katanas, que eram beges. Ele usava um coturno realmente fantástico, que além de ser estiloso servia como caneleira ao mesmo tempo.

Peter nunca tinha visto aquele sujeito na vida, nem na televisão e nem em lugar algum e não tinha lá muita certeza se ele mesmo um super-herói, considerando as circunstâncias.

Mas então, de repente, o garoto notou que todos estavam olhando pra ele agora. Pior, o tal fantasiado estava olhando pra ele também. E Peter jura por tudo o que é mais sagrado que ele conseguia ver a expressão facial daquele homem através da máscara. Não, na verdade, era como se a máscara… mudasse e parecesse um rosto de verdade, tipo, os olhos se estreitando e a boca, quer dizer, nem tinha a boca nela, mas dava pra perceber. Oh! O cérebro de Peter estava dando um tilte ali.

E quanto mais confuso o garoto estava, mais divertido o mascarado soava. Ele, que era alto e forte pra caramba, foi decidido na direção do menor e o segurou pelos ombros, contente.

Mesmo encabulado e constrangido, Peter regozijou por dentro por saber que Bob tinha a cara no chão de inveja.

— Você veio! – ele disse, olhando direto nos seus olhos e descaradamente ignorando o resto do mundo que estava à sua volta. — Bom garoto!

Peter corou até as unhas dos pés com o elogio esquisito e fora de hora, especialmente porque o cara meteu a mão em sua cabeça e bagunçou o seu cabelo como se ele fosse um filhotinho de cachorro.

— Ahn… – o moreno queria pedir para que ele tirasse a mão e não o tratasse daquela maneira, mas ele estava com vergonha demais e isso o deixou sem palavras.

— É a sua vez agora. – ele estatizou e começou a puxá-lo pelo punho até o escritório de onde havia saído.

— Hey! Mas ele moleque acabou de chegar, ele não pode passar na frente de todo mundo desse jeito! – alguém se manifestou, irritado, e o resto dos rapazes entrou na onda e deu sinais de que concordavam com ele.

— O mané que disse isso pode ir tomar no rabo, e quem não estiver satisfeito pode pular da janela. – ele se limitou a responder, sem perder nem um pouquinho do bom humor que estava quando encontrou Peter. Os caras continuaram reclamando, mas foram silenciados pelo baque da porta se fechando atrás deles.

Os dois estavam agora sozinhos em uma sala a prova de som. Ops.

O homem se sentou atrás de uma enorme escrivaninha forrada com uma bagunça de papéis e um computador cuja tela era enorme, e de uma plaquinha que indicava que ele era o Wilson referente ao Wilson's. Ele era o chefe. Ele apontou para a cadeira em que Peter deveria se sentar e ficou parado igual um idiota olhando pro mais novo.

A imagem que Peter tinha de Wilson naquele momento era de um menino pequeno e ansioso por receber um brinquedo ou algo assim, ele estava quicante.

— Erm… Senhor Wilson, nós já nos encontramos em algum lugar? Porque eu tive uma impressão muito forte de que o senhor talvez me conheça, mas eu posso garantir que me lembraria se já tivesse te visto antes. — Peter falou com cuidado, mas garantindo que o seu estranhamento estava explícito na fala.

— Sim, sim, sim… sim. – Wilson levantou a parte debaixo da máscara e revelou seu queixo e a boca.

Peter ainda não tinha se sentado, mas depois do que viu, sentar-se foi realmente necessário.

— Wade? Wade Wilson? Wilson's de Wade Wilson? – ele estava chocado.

— Que bom saber que você consegue somar um mais um! Você é completamente apto para o trabalho. – Wade bateu palmas, fingindo seriedade, e encostou-se em sua poltrona de couro estupidamente grande, fazendo sua melhor cara de o poderoso chefão, incluindo aquela coisa de esfregar os dedos.

— Mas que trabalho? E por que você está vestido desse jeito? – agora que Peter sabia de quem se tratava ele estava se sentindo mais a vontade e também mais aborrecido. Lembrava-se bem do que aconteceu da última vez em que se encontraram.

— Sou eu quem faz as perguntas por aqui, meu jovem. – ele disse, mortalmente sério. Wade então levantou-se e começou a caminhar em torno de Peter com uma postura militar. Costas eretas e braços cruzados nas costas. — Quantos você já matou?

Peter engasgou com a saliva.

— O quê? Mas que diabos de pergunta é essa? É claro que eu nunca matei ninguém!

— Hm… – ele coçou o queixo, já coberto, é claro. — Sabe manejar armas de grande porte?

— Não.

— Sabe atirar?

— Não.

— Sabe algum tipo de defesa pessoal?

— Não.

— Já deu alguma bolacha na cara de alguém?

— Ahn… Não.

— Já pensou em dar uma bolacha na cara de alguém?

— Sim, isso sim, eu posso garantir que sim. – Peter respondeu deixando claro que dar um soco no rosto de Wade naquele exato momento era, definitivamente, uma coisa que estava passando por sua cabeça.

— Ótimo! Nós estamos avançando.

— Olha, senhor Wilson, ou Wade, ou sei lá como eu devo te chamar. Eu obviamente não estou apto para o trabalho, que eu até agora não sei do que se trata exatamente, mas que com certeza não se encaixa no meu perfil, então eu acho que é melhor eu ir embora e dar essa chance para alguém que mereça… alguém tipo o Bob.

— Bob Bobão… Ah, isso me dá boas lembranças da praia… – Wade saiu do ar totalmente e Peter, depois de ficar perplexo pela falta de concentração que aquele homem tinha, achou que aquela era uma boa oportunidade para escapar enquanto ainda era tempo.

— Ei! Paradinho aí, colega! – estava muito fácil para ser verdade. Peter murchou e virou-se. — Mais duas perguntas.

— Fala.

— Como você se chama?

— Peter… – ele ficou meio receoso de dizer seu sobrenome, mas acabou dizendo assim mesmo. — Parker.

Wade tampou a boca com a ponta dos dedos e começou a dar daquelas risadinhas que a gente tenta segurar com todo o esforço, mas fica claro que a pessoa tá morrendo de rir por dentro.

— O que é tão engraçado?

Petey. — depois de falar em voz alta Wade começou a gargalhar. — Pequeno Petey.

— É Peter!

— Então, Petey, como última pergunta: Você consegue fazer anotações?

— O quê?

— Amigo, você tem que me ajudar nessa… Perguntei se você consegue fazer anotações.

— É claro que eu consigo.

— Então você é perfeito para o cargo! – milhares de confetes coloridos pularam de sabe-se lá onde e Wade estava novamente bagunçando o cabelo de Peter.

Mas ele estava tão irritado. Não era assim que as coisas funcionavam.

— Não faz isso! E que cargo é esse? Braço direito? De quê? Que tipo de negócios a firma Wilson's faz?

— Assistente pessoal diz alguma coisa pra você? Quero minha agenda, meu telefonemas, horários, compromissos, e pagamentos organizados. Também quero que mantenha o controle da minha casa e das minhas coisas. Quero minhas meias limpas também. Tem que ser tolerante a sangue e partes internas do corpo. Tem que saber os usos para a água sanitária e usá-la. Quero que saiba como e onde esconder um cadáver e a fazer uma cobertura completa, incluindo álibi e ter grana para o habeas corpus caso necessário. – Peter estava boquiaberto. — E o que eu faço? Eu sou um mercenário. Mato pessoas em troca de dinheiro.

O garoto congelou onde estava.

— Mas eu vou pagar muito bem pelos seus serviços e, como eu disse, eu sou o mercenário e você é só o sidekick.

Peter só balançou a cabeça negativamente e saiu da sala. Dessa vez, Wade não impediu e ele ficou feliz por isso. Matar pessoas por dinheiro. Não mesmo.

Ele nem tinha que pensar duas vezes.