Hello!
Aqui está um novo capítulo, ficou meio cutinho mas achei que acabou onde deveria.
Agradecendo sempre à adorável SadieSil pela revisão, e a todas as pessoa que leram o 1º capítulo. Para os que gostaram o suficiente para continuar, espero não decepcionar.
Itálico simboliza lembranças/ pensamentos/ alucinações. E colocarei o sumário no final pois tem uma frase relativamente grande em Sindarin que está bem no final do texto e fui alertada que isso poderia causar problemas.
Espero que gostem e comentem, caso não gostem comentem também.
Beijos e Queijos,
9O.
Não era de todo surpreendente o fato de ter acordado em uma cama ao invés de estar no chão imundo de sua cela, nem foi absurdo saber que o hoje não era o amanhã do ontem, pois o sol havia cruzado o céu sete vezes desde seu último "ontem" consciente. Interessante mesmo era perceber que depois de todo aquele tempo e artimanhas utilizadas, haviam sido os apelos pouco confiáveis de uma suposta criança que o fizeram ceder à vontade do Lorde das Trevas. Ora, mesmo que tudo isso houvesse sido planejado – e provavelmente fora – ainda assim era muito irônico.
Já nem conseguia se lembrar claramente do porquê de ter tomado aquela decisão. Era apenas mais uma decisão impensada para a sua longa lista de atitudes pouco inteligentes da sua vida.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo soar de duas leves batidas na porta.
"Agora eles batem na porta! Aí está algo surpreendente." Maglor refletiu em voz alta, mas não havia o humor esperado em suas palavras. "Entre."
Uma mulher passou pela porta, fechando-a em seguida e fazendo uma reverência exagerada. Ela era magra e pequena, sua pele tinha uma cor que se assemelhava ao cobre, os olhos eram negros e fundos conferindo-lhe um ar sombrio e cansado. Suas roupas denotavam o grau de servente de alta patente, porém não escondiam por completo as marcas em seus pulsos que revelavam sua condição de escrava.
Maglor continuou parcialmente deitado na cama, a observar a mortal à sua frente que, por sua vez, também não se manifestou, continuava parada junto à porta, braços cruzados atrás do corpo, olhos pregados no chão. Um retrato da escravidão, um símbolo da vitória do Mal.
"Diga o que quer de uma vez."
O elfo não conseguiu conter a nota de irritação em sua voz, como resultado a moça finalmente levantou os olhos redondos de pavor, toda a cor deixou seu rosto. O filho de Feanör conhecia bem aquela expressão, incontável fora o número de vezes nas quais aquele olhar havia sido direcionado a ele, era a face de quem vê a própria morte.
Um amargor terrível invadiu a alma do elfo, foi a vez dele de abaixar o rosto, apertando o maxilar e fechando os punhos com força. Ele não devia ter deixado a masmorra, até aquele lugar nefasto parecia bom demais para ele.
A criada que interpretou aquelas ações como mais um sinal de raiva, foi ao chão de joelhos.
"Perdoe-me, senhor, por favor. Não falharei desta forma novamente." Sua voz estava embargada pelo choro, mas seus olhos estavam secos. Quase tudo havia sido tirado dela, até as lágrimas, restou-lhe apenas o medo como eterno companheiro.
A imagem da moça ajoelhada com olhar suplicante só conseguia irritar mais Maglor.
"Está tudo bem."
Foi o melhor que ele conseguiu cuspir. Quando havia desaprendido as palavras de consolo, os gestos de acalanto?
"Muito grata por sua generosidade, meu senhor. Não acontecerá novamente."
O tom de alívio era perceptível em sua voz, mas o medo ainda estava ali, só neste momento Maglor reparou o quão jovem ela soava, apesar de sua postura disciplinada e sua pele maltratada contarem a história de uma vida longa demais.
Ao perceber que o lorde continuava a observá-la e não demonstrava intenção de comentar o incidente ou puni-la, a criada apressou-se em continuar suas obrigações.
"Lorde Mairon me enviou para ser sua criada pessoal, estou aqui para seguir as ordens do senhor, e ajudar nas tarefas diárias. Há um banho preparado para o senhor atrás da outra porta, se o senhor assim desejar vou ajudá-lo a se banhar e vestir, em seguida posso trazer a refeição, depois devo encaminhá-lo para o gabinete do lorde."
Maglor continuou a fitá-la com uma expressão vazia no rosto, a jovem chegou a questionar se ele havia ouvido, quando os olhos dele ganharam foco novamente.
"Imagino que a senhora não saiba o que ele deseja falar comigo?"
Senhora?! Aquele lorde era mesmo estranho.
A criada parou um instante, desconfiada do tratamento cortês, mas seguiu com o protocolo.
"Lorde Mairon pediu para informar que o senhor saberá assim que chegar lá."
"Claro." O elfo levantou-se da cama, mas se deteve ao perceber que a serviçal ainda observava-o a espera de ordens. "Eu não precisarei de ajuda, nem desejo comer e posso achar o caminho até o gabinete sozinho. Você está livre pelo resto do dia."
A jovem comprimiu os lábios, ao perceber que a impaciência já voltava a tomar conta de seu novo senhor
"Meu senhor, Lorde Mairon..."
"Achei que você fosse minha criada."
"Eu sou, meu senhor."
"Então, me dê licença. Ver-nos-emos amanhã."
A criada ainda passou alguns momentos perplexa, antes de se curvar em uma reverência desajeitada e se retirar.
As portas abriram-se sozinhas assim que Maglor as viu, fechando-se quando ele passou por elas. O senhor do escuro estava, como de costume, parado de frente para a única fonte de luz daquele gabinete, a sacada. O elfo já estava bastante acostumado com aquela situação, mesmo que desta vez tivesse vindo caminhando desacompanhado e por vontade própria, nada parecia ter mudado.
"Onde está a sua criada?" O maia questionou sem se voltar.
"Eu não preciso de uma."
Sauron sorriu desafiadoramente, porém sua voz continuava serena.
"Eu também não preciso dela."
Eles se encararam por um momento, já não havia emoção alguma no rosto esculpido de Sauron, mas seus olhos eram chama viva e o vazio neles era tão contagiante que o elfo não pode evitar desviar o olhar.
Maglor enrijeceu o corpo e engoliu a humilhação, conhecia as ameaças daquele maia muito bem, sabia também de suas práticas com aquilo que não apresentava utilidade.
"Talvez eu precise de uma criada."
"Se você insiste. Mas não te chamei aqui para falar sobre subalternos." Ele parou próximo à escrivaninha e serviu-se um cálice de vinho. "As aulas acontecerão todos os dias depois do desjejum e terminarão quando o Sol estiver no centro do céu, você terá o resto do dia livre. Como eu já expliquei, você será encarregado de ensinar à Lorde Vórimo os costumes e tradições de sua raça, além de todas as artes, também terá liberdade para testá-lo e avaliá-lo como bem entender e me entregará um relatório sobre progresso dele toda semana..."
"Estou aqui somente para saber o que foi feito de Eluréd e Elurín?" O tom de afronta e rebeldia na pergunta não pareceu abalar o maia, que simplesmente sentou-se em um confortável divã e continuou a saborear o vinho displicentemente.
"Eluréd e Elurín? Ah, está se referindo aos elfinhos que você e seu irmão abandonaram para morrer na floresta?"
"Exatamente. Não és o único aqui que sabe ser cruel." Maglor falou rispidamente, procurando manter sua expressão neutra.
"Ah, eu sou sim. Não és cruel, Kanafinwë. Falta-te inteligência e habilidade para tal e é por isso que teus atos cruéis vão sempre assombrar o seu sono."
Sauron parecia se divertir demais com toda a situação e isso enervava Maglor para além de palavras.
"Poupe-me do espetáculo, milorde. Onde eles estão?!"
Mais um sorriso sínico, era tudo que as afrontas costumavam do elfo costumavam render, pelo menos nos dias bons.
"Bom... Meus caçadores os resgataram, eles têm vivido aqui como meus pupilos desde então, são promissores, Elurín principalmente. A eles foram ensinadas as artes da cura, começaram o treinamento básico com armas só agora, mas o mesmo não irá além de defesa pessoal. Imaginei que seria melhor mantê-los comigo, já que seu povo teve sucesso em destruir a família deles."
Maglor apertava os punhos com tamanha força que as juntas dos dedos estavam esbranquiçadas.
"Diga-me que mentiras você contou a eles!"
"Mentiras?! Sabe o que eu gosto nos Eldar, Makalaurë? Não é preciso nada além da verdade para convencer qualquer um a odiar essa raça. Contudo, não acredito que os gêmeos odeiem a própria espécie, apenas que eles são nutridos de gratidão pelo meu misericordioso ser. Além do mais, você vai descobrir que essa terra tem muitos prazeres a oferecer àquele que obedecem ao seu mestre."
A face de Maglor se encheu de nojo e repugnância, ele se moveu pela primeira vez desde que entrara naquela sala, aproximando-se do Lorde do Escuro.
"Você se diverte aqui, Sauron? Em meio a promiscuidade, a violência e a sujeira, misturado com escravos, traidores e covardes? Você que já foi Mairon, que já viu beleza e luz?!"
Em um instante o maia estava na frente do elfo, tão próximos que os narizes quase se tocavam, seus olhos penetrando a alma do cativo.
"Você já esteve entre quase todos os povos, conheceu diversas terras. Diga-me, Makalaurë, existe algum lugar nesta terra ou no além-mar que seja diferente daqui? Não são todos os seres podres em seu intimo, negros em sua alma? Vocês, os primogênitos de tudo tiveram: perfeição, saúde, tempo, auxílio, e por cobiça e ignorância destruíram uns aos outro até o pó. Já os homens, esses se vendem pelo menor dos preços e fraquejam na primeira dificuldade, e os seus queridos Valar, o que eles têm feito para poupá-los, além de sentar inertes cercados da sua preciosa beleza e luz? Estamos todos mergulhados na escuridão, não há saída, ela a todos consome e preenche, existem apenas aqueles que podem sobreviver e os que não."
Maglor estava pálido, as palavras secas de Sauron ressoavam na sua cabeça sem parar e com elas vinham as imagens do mal que sua família havia causado.
Fogo.
Havia muito fogo.
Não só nas belas embarcações telerin, mas por toda parte.
Estava nos olhos de seu pai, estava nos corações ensandecidos de seus irmãos, consumia a alma do povo ao qual ele pertencia.
Maedhros tinha razão.
"Atar, isso é loucura! Nós vamos precisar de ajuda!"
"Tudo do que eu preciso são os meus filhos. Nada mais."
Maglor o segurou pelos ombros quando Fëanor tentou se afastar.
"Deste tua palavra! É o nosso povo, nossa família."
"É a família de Fingolfin e Finarfin! Não é nosso problema."
"Estás condenando-os à morte!"
"Já chega! Você acendeu as tochas assim como eu. Não estamos em um campo florido, não vamos cantar nem pintar. Isso é uma guerra, Kanafinwë. Existem apenas aqueles podem sobreviver e os que não."
Só então Maglor percebeu.
O fogo já destruirá tudo.
Sentia o mármore frio contra o seu corpo, estava no chão escondendo a face com as mãos, não conseguia parar as visões e aqueles malditos olhos pareciam queimar buracos em sua alma.
Não podia respirar... Estava dentro dele, estava em toda parte. Sauron tinha razão, eles estavam mergulhados nas trevas.
"Daro, saes. Leithio nîn."
E tudo parou. Viu-se de pé no centro da sala, como sempre, e seu anfitrião contemplava o horizonte da sacada. A reunião havia chegado ao fim.
SUMÁRIO:
Daro, saes. Leithio nîn = Pare, por favor. Me liberte.
