Um Baile de Pecados Inocentes

Por Padfoot

A folha ressecada teve seu último suspiro de vida, perecendo ao leito do vento diante de seus ofuscantes olhos pueris. O anil que sobrepujava o céu eternizou a queda daquele castanho escuro livre, tornou-a ilustração de sua inocência ainda intocada; o brilho ávido da cobiça já preencheu o fulgor de sua alma, também emoldurando-se à criança pela eternidade de sua existência. Espiou despretensiosa para os lados: a esguia mulher à sua direita punha-se a conversar com o homem de meia idade o qual trocara alianças, enquanto o marmóreo rapazote entretinha-se com seus botões. Mais uma vez a cobiça apontou e, ela soube, não seria repreendida se a seguisse. Suas enluvadas e pequeninas mãos já pulsavam de incontrolável desejo de realizar sua peripécia particular, bem como o frágil, e ainda leve, coração estava descompassado de adrenalina.

O negrume instantâneo capturou o singelo e seco pedaço de árvore esvoaçante, aprisionou-o em sua tez macia e suave, livre de marcas do labor ou da idade. Minúsculos fragmentos caíram no mar leitoso aos seus pés adornados de sapatos vermelhos. E este mar a engoliria por completo não fosse os outros tons rubros de seu vestido rodado, caído e molhado nas sobras do tecido grosso. A luz tornou a aparecer, dizendo adeus às grades vãs da folha, a qual já não existia: era uma ínfima e perecível raiz em sua palma infantil e guardada do frio. Frio este, sentido por todo o corpo, sem, contudo, abalar o calor do sorriso extasiado com a novidade. Deliciosa e intrigante novidade naquele novo mundo, pois não era mais velha que a sétima primavera, tampouco mais madura que a maçã na mão livre de seu irmão, ao seu lado. Um pequeno e precioso broto dos Nott, valorosa e cândida semente de Augustus e Sollertia, princesa da alta aristocracia e eleita de impecável educação.

— Acompanhe-nos, Megaira. — fora a ordem direta de sua mãe, seu exemplo de beleza e compostura que se afastava a passos precisos e elegantes. Sem, contudo, perder o sorriso da descoberta extasiante que fizera, seguiu o recomendado, estendendo a mão direita para o rapazote. Olhou-a por meio segundo de desconfiança, mas a pequenina era persistente e não desistiria de ser guiada, tampouco de participar da estranha caminhada. Tomou-a para si, como fazia desde que ela nascera, destruindo os resquícios da adorável folha.

— Não a quero próxima dos outros fedelhos, Meg. — sua voz era forte, taciturna e denotava a posse exemplificada pelo aperto das mãos. Sua preciosidade não seria de mais nenhum, segundo sua enciumada alma de rapazote. Pois, aos quinze anos, ele sabia o quanto as pessoas eram vãs e cruéis. Experimentara os prazeres da maleficência e escárnio, corrompera-se em meio aos anseios juvenis de seu círculo. O sorriso imaculado da festiva infância de sua irmã não poderia deixar de sê-lo.

— Tudo o que desejar. — era sua musical resposta para tudo o que a aconselhavam. Sua voz de sino tilintou a calmaria para o coração do jovem, mas a curiosidade dentro de sua inexperiente alma foi aguçada. Crescia um comichão inconveniente que espalhava por todas as suas extremidades simétricas e perfeitamente encobertas de seu corpo: o que teriam os outros fedelhos? Eles eram errados? Sua intacta memória repetiu aquilo que sua mãe dissera dias atrás sobre uma senhora que atravessava a calçada da rua: Seriam os fedelhos mudbloods? Deveria precaver-se com feitiços desconhecidos, ou sua imaginária bolha de proteção? Afinal, o que eram "fedelhos"? Quis perguntar ao seu irmão, mas ele estava ocupado demais em prosseguir ao pé dos pais.

Os quatro andavam alinhados pelo curvilíneo e largo caminho que se estendia dos portões, às suas costas, à frente da majestosa mansão. Sua construção impressionava mesmo os poucos apreciadores da arquitetura, pois a singularidade do modelo gótico antigo de grandes palacetes preservava-se nas paredes de pedra, nos vastos jardins de tulipas, margaridas e rosas espalhadas pelos arredores. Um estremecimento acometeu o saudoso corpo da bela mulher enquanto seu marido entrelaçava suas alianças num dar de mãos: sua antiga morada permanecia inalterada e espetacular. Conseguia o efeito de tirar-lhe o ar com sua paisagem outonal da grama, árvores despidas e flores magicamente preservadas até o último segundo de intempérie.

A minúscula e extasiada estátua fitou boquiaberta o inegável ar clássico de seus antepassados maternos. Seu sangue correu mais rápido e sentiu seus olhos anis lacrimejarem de decorosa emoção: como sua mãe insistia dizer-lhe todas as manhãs, nascera no âmago da boa-aventurança, na mais fina e preciosa jóia da coleção mais casta. Apesar de não saber metade do que aquelas sílabas unidas significavam, tinha, agora, a consciência de fazer parte do discurso de sua mãe. Em sua mimosa inocência pueril tinha a ilusão de tornar-se importante. Seu sorriso transpareceu sua maravilhada sensação de satisfação e orgulho; finalmente pincelou-se dos sentidos mais valorizados em seu futuro meio. Aqueles traços jamais deixariam de ser seus.

— Boa tarde! — surpreendeu-se com a voz desconhecida que a tirara de suas impressões embasbacadas. Não havia percebido o homem estancado que bloqueava o caminho para dentro da mansão, convidando-os a permanecer em meio ao tempo, de fato, agradável para os padrões de final de setembro. Observou-o com desmedido interesse, pois tinha traços semelhantes aos de outrem. Seus lábios rosados ao natural formaram um coração gracioso: perguntava-se com quem se parecia aquele desconhecido, mas suas habilidades eram limitadas pela idade.

— Boa tarde, Reginald! — houve uma troca de meneios de cabeça entre o estranho e o seu pai, o qual apertava a mão de sua esposa com desnecessária posse. Já o pertencia de acordo com o tratado, honrado pelos filhos exibidos em sua seguinte apresentação: — Já conheces Locke... — o irmão apertou masculamente à mão ágil e esguia do homem de traços despreocupados e, segundo o que pareceu à pequena, entediados com as formalidades — Pedimos que se ausentasse da escola para presenciar o esperado momento. — a mínima estátua de hesitações mordeu o lábio inferior de dúvidas: seria sua vez de ser apresentada, mas será que despertaria o interesse do senhor de tão pouca vontade em considerar as boas impressões? Gostava de conquistar, independente do que fosse ou como fosse; com um sorriso, uma lágrima, uma palavra ou um gesto. Por isso apegava-se tanto às boas maneiras, as quais já eram ensinadas por sua ama.

— Esta deve ser nossa razão de estarmos reunidos, presumo. — encarou-a com a interrogação flexionada em seus olhos cor de chocolate acompanhada da inquestionável certeza de ter acertado. A única pergunta que se formou como resposta na singela cabeça da menina foi: eu sou a razão de quê? Passaram-se infindáveis filmes curtos de festas surpresas, aniversários, presentes, chás, bolos... O sorriso que se seguiu a estes agradáveis protótipos de realidade foi estarrecedor. Nenhum dos dois senhores estava preparado para aquela reação acalorada, a qual fascinou outros olhos mais distantes, mas não menos desconhecidos.

— Se esta é Megaira Nott, assegurar-lhe-ei, querido, que ficarei extremamente feliz em recebê-la como minha filha o mais depressa possível! — foi a voz de soprano da senhora chamada pelo sorriso da pequena que exprimiu todos os pensamentos daqueles que a assistiam. A senhora não tinha nenhuma similaridade com ninguém, mas seu porte era de mulher importante, determinada e, de certa forma, autoritária. Havia um intragável ar de presunção sob seu nariz arrebitado que incomodou o sorriso luminoso de Megaira. Ela não gostava da maneira como a desconhecida a encarava, tampouco de seus modos expansivos: a menina não pretendia ter outra mãe que não a sua. Sua distraída cabeça confundia-se com a atenção da senhora e das demais pessoas que a acompanharam para receber os recém-chegados.

— Vejamos o que ele acha disso... — foi a curta resposta que o senhor deu antes de afastar-se junto do pai de Megaira. A mãe tomou-a de seu irmão pela mão livre, e o menino sentiu-se à vontade para desaparecer do campo de visão das duas. A pequena, ainda procurando o irmão em meio aos rostos curiosos e também pequenos que a observavam, sentiu-se estranha. Por que estava exposta daquele jeito a desconhecidos? Sua mãe prometera que seria divertida a visita que faria a um primo, mas aquilo não parecia suprir a expectativa da promessa. Megaira sentia-se invadida e enganada, como nenhuma criança deveria sentir-se, pois elas sempre guardam as piores experiências para usá-las no futuro.

— Sejas amigável. — foi a ordem melodiosa que sua mãe deu, ajeitando-lhe os cachos largos e ébanos que emolduravam a face desconcertada da criança; seriam seus próprios cabelos, assim como tantos outros pontos em comum que a tornavam mais sua que qualquer outra coisa no mundo — Vais ser polida, lembrando-se que esta não é sua casa. Vais responder a todos os questionamentos com exatidão, conforme treinamos meses atrás. Misture-se às crianças, mas seja despretensiosamente mais afetuosa com seu primo. — era tantas recomendações para sua amedrontada mente guardar que temeu não se lembrar. Não sabia quem era o dito primo, tampouco reconhecia os outros para ser amistosa. Encarou a mãe enquanto coçava os olhos claros.

— Tudo o que desejar. — resignou-se feito adulta aos caprichos da autoridade materna, pois já haviam discutido sobre suas obrigações de filha: sua principal tarefa era obedecer sem hesitar. Sollertia afastou-se satisfeita, respirando profundamente enquanto os dois senhores retornavam acompanhados por um terceiro. Com efeito, ele era muito novo para ser tomado por Mister. Megaira levou a mão direita à boca emoldurando o quadro da doçura que, para seu maior desagrado, instigou a desconhecida mulher a falar:

— Finalmente! — Megaira fitou a senhora: ela tomava o menino pela mão para apressá-lo a juntar-se ao conjunto. Sua feição, porém, era tão desprovida de boa vontade e apreço quanto à do pai, como Megaira julgou que fosse o caso. Era uma criança, à primeira vista, sem qualquer beleza notória. Isso desmotivou o afeto que Sollertia pedira à filha para ter, pois a menina não viu nada de singular que realmente valesse sua atenção. Seus cabelos castanhos contrastavam com a pele pálida, suas mãos eram magras e pareciam tão ágeis quanto às do pai, tinha estatura mediana e não sorria; Megaira suspirou de desapontamento, pois esperara mais daquele que, pelo jeito, seria seu primo.

— Este é Master Rabastan Lestrange, meu filho. — regozijou-se a anfitriã, empurrando o jovenzinho para mais perto de sua prima. Encararam-se por obrigação, selando assim a impressão pouco favorável que a menina tivera dele. Não gostava da idéia de alguém ver como dever ter com ela, tampouco respeitava a decisão de Master Lestrange em cumprir esta obrigação com tal descaso. Irritou-se deveras quando, para cumprimentá-la, o menino desviou os olhos para baixo, não a deixando saber a cor de sua íris ao menos. Voltou-se para a mãe, a qual aguardava uma resposta a altura de seus ensinamentos. Megaira suspirou e, com um novo sorriso perturbador à face, aproximou-se de Master Lestrange.

— Muito prazer! — segurou a saia rodada de seu vestido rubro e fez uma reverência cortês. Aquilo, afinal, despertara o menino de seu tédio mortal para o projeto de figura feminil à sua frente. Então, veio-lhe o sorriso. Seus dentes eram brancos e quadrados, leitosos espelhos de elegância e polidez que, para a surpresa da prima, mostrou ter. Tomou-lhe a mão com cautela, descobriu-lhe da luva branca e depositou um sutil e fugaz beijo em sua tez marmórea macia. Foi um choque térmico cômico: os lábios inférteis de Master Lestrange traziam um calor inabalável, o qual fervilhou as maçãs do rosto de Miss Nott.

— Devo corrigir-lhe, — prosseguiu o menino com um sorriso que beirava o galanteador, recolocando a luva de Megaira em sua mão e, assim, guardando o beijo dado — pois o prazer em conhecê-la me pertence de todo. — notou que tinha mais tato com as palavras do que ela. Teve curiosidade de saber sua idade, mas, pelo o que tinha notado e guardado de suas conversas com Mrs. Nott, teriam a mesma. Agora sim notava algo de surpreendente e vivaz em Master Lestrange, o que o fazia desmerecer todas as más impressões que tivera de sua pessoa. Ainda estava ruborizada e aturdida quando ouviu as comemorações pouco veladas de seus pais àquele primeiro encontro. Envergonhou-se mais, porque não desejava ser vigiada tão de perto por adultos em seus embaraços. Desviou os olhos para as demais crianças presentes, todas sorridentes para a recém-adquirida peça.

— Quer conhecer os jardins conosco? — encarou o primo com o agradecimento estampado à face, meneando um sim satisfeito com a cabeça. Seria ótimo afastar-se dos mais velhos e brincar aquém dos limites da polidez daquele mundo que não era deles, mas que os faziam participar.

Master Lestrange ofereceu-lhe a mão e ela foi guiada para dentro da rodinha, a qual totalizava oito novos amigos. Havia poucas meninas, Miss Nott percebeu, mas não se intimidou com os números, pois sabia ter com os garotos. A menor de todas, a qual tinha tamanho de um menininho que aparentava ser o mais novo do grupo, adiantou-se para perto dela com um sorriso tão fascinante e genuíno quanto o que dera por ter feito sua descoberta com a folha. Ela tinha cabelos ondulados castanhos e olhos expressivos de mesmo tom, vestido rodado amarelo bem suave e luvas tons pastéis. Pegou Miss Nott pela mão, levando-a para o centro do círculo junto de Rabastan.

— Meu nome é Alecto Carrow! — sua voz era tão musical e graciosa quanto à de Megaira e seus modos pareciam passos de uma valsa. Fez um sinal sutil ao menino mais próximo de si que, para a surpresa de Miss Nott, tinha os mesmos traços bem delineados e singelos da pequena Carrow. Observou-o colocar-se à sua frente e oferecer um meio sorriso que, diferente do da irmã, não transmitia qualquer sinal de delicadeza.

— Sou o irmão gêmeo de Alecto, Amycus Carrow. — sua voz, apesar de fina como compete ser a voz de qualquer menino de cinco anos, era carregada. Parecia que Amycus Carrow tinha uma bruteza inerente à sua alma e trejeitos, mas aquilo não desagradou Megaira. Apenas fê-la notar que os gêmeos não tinham diferenças apenas no gênero, mas também em várias qualidades particulares. O que a desagradou, de fato, foi o fugaz pontapé que Amycus deu, gratuitamente, em Alecto quando voltava para seu lugar no círculo.

— Não se preocupe, eu sempre desconto. — assegurou-lhe Miss Carrow ao notar que Miss Nott vira a covardia de Master Carrow. Era uma situação completamente adversa à sua com Locke Nott, pois ambos respeitavam-se e tinham, segundo sua mãe, muito afeto um pelo o outro. O irmão ameaçara bater-lhe apenas uma vez em sua vida, quando ainda era tão pequena que não conseguia lembrar-se direito, mas não tornou a fazê-lo. Cuidava de sua caçula como se fosse um tesouro inestimável... E foi quando Megaira percebeu que o mais velho não estava a cercá-la como de praxe.

— Há um grupo de pessoas mais velhas reunidas próximas à charneca, Miss Nott. — explicou um menino que, ao que parecia, estava por demais ansioso para falar-lhe. Ele tinha o mesmo tom pálido que compunham a elite reunida ali, cabelos negros e lisos que esvoaçavam livremente ao passar do vento. Porém, o que chamou a atenção de Megaira foi o tom divertido que sua voz carregava, como se cada segundo gasto naquelas apresentações fosse engraçado e indispensável. Além disso, o sorriso leitoso do menino era agradabilíssimo, bem como seus olhos azuis — Se está procurando seu irmão, lá é onde deverá encontrá-lo. — Megaira achara que não se surpreenderia com mais ninguém ali, excluindo Alecto e seu primo. Mas encontrara alguém tão merecedor de afeto quanto os dois. Enrubesceu a essa mera observação, encorajando o pequeno a prosseguir: — Sou o Evan Rosier. E prefiro que me trate por Evan, pois Master Rosier parece-me muito senhoril. — ficou de olhos arregalados: tão novo e já com preferências bem definidas...

— E eu me chamo Ares Wilkes, Miss Nott. — se Evan e Master Wilkes não tivessem sobrenomes diferentes, seriam feito irmãos. Portavam-se da mesma forma cômica e despretensiosamente irônicas e determinadas. Porém, é claro, Master Wilkes era diferente no físico: tinha cabelos louro-escuros, olhos azuis e era um pouco mais alto. Na verdade, Ares aparentava ser muito mais observador e silencioso, além de mais ácido. Megaira sentiu que deveria ser mais comedida com aquele pequeno.

Os outros quatro apresentaram-se, mas rapidamente para que não perdessem mais tempo de diversão; os jardins pareciam chamá-los. Rabastan, como o dono da casa, liderou-os pelo terreno acidentado de sua propriedade, guiando-os para uma ruína do que seria um labirinto diminuto e simples. As trepadeiras habitavam suas paredes despedaçadas e gramíneas cresciam indiscriminadamente entre seus caminhos dúbios. Megaira não ficou feliz com a visão selvagem que tinha, afinal, destoava da majestade evidente da casa e da família em questão. Era o outro lado da realidade da beleza, como elucidou anos mais tarde, em seu quarto. Suspirou, apertando a mão gentil e familiar de Miss Carrow, a qual não a tinha abandonado desde o primeiro encontro. Aquele sinal de tranqüilidade e naturalidade entre as duas eram encarados pelos demais como falsidade: ora, como duas recém-conhecidas podem dar-se tão bem? O próprio Master Lestrange intrigou-se com aquela quase genuína interação entre as duas. Mas seus planos eram muito maiores e precisavam ser postos em prática.

— Vamos brincar de exploradores. — determinou, o que arrancou exclamações entusiasmadas de Masters Carrow, Jugson — de meros cinco anos — e Macnair, mas a desaprovação de Miss Macnair e escárnio de Ares e Evan. O único que não se manifestou, tampouco procurou relacionar-se abertamente com os outros, foi Erebus Selwyn. Megaira sentia-se intimidada por este misterioso menino de cabelos negros encaracolados. E, para sua sorte, não foi selecionada para fazer parte de seu grupo de exploradores, mas perdeu a oportunidade de jogar com Master Rosier, que junto de Masters Wilkes, Carrow e Macnair formavam o grupo de Selwyn.

— Não se preocupe, Miss Nott. — declarou Master Lestrange quando a pequena transpareceu seu desagrado com a idéia de adentrar aquele labirinto atrás de qualquer coisa que exploradores fossem iludidos a procurar. Megaira fitou o primo com interesse que beirava a confiança, mas era demasiado cedo para qualquer emoção se formar de todo em sua infantil cabecinha — Tratarei de protegê-la. — havia um tom de mistério na promessa de Master Lestrange que Megaira não conseguiu identificar, muito menos aprovar. Seu coração espremeu-se dentro do peito, pois pressentia que algo de muito errado estava preste a acontecer, mas preferiu arriscar-se. Acompanhou Masters Lestrange e Jugson para dentro do labirinto, seguida por Miss Macnair e a doce Alecto. As duas, aliás, continuavam de mãos dadas.

Não deram mais de vinte passos juntos, quando algo extraordinário aconteceu: uma ventania incessante, tempestiva e de origem desconhecida embaralhou as vistas dos exploradores. A mão de Alecto perdeu-se em meio aos ganhos e folhas que se revoltavam contra o corpo de Megaira. Para aumentar a surpresa das crianças, o vento cessou feito a risada de uma pessoa, a qual principia sem motivo aparente e termina no sossego inquieto da satisfação. Infelizmente, Miss Nott não compartilhava do riso do vento, pois viu-se sozinha pela primeira vez. Seu anil desesperou-se à procura de rostos, os ouvidos apuravam-se para captar vozes e seu coração acelerou tanto que seu peito chegou a doer. Arfava e engolia em seco sem saber o que fazer: devia andar atrás de pistas ou esperar que alguém a encontrasse? No caso da segunda opção, ela corria o risco de não ser encontrada tão logo, e temia não ser procurada. Era muita pressão para uma jovem dama em seus plenos sete anos. Afinal, o que ela sabia sobre estar perdida? Jamais estivera em situação parecida, nem fora instruída.

Observou com atenção o local onde estava. Não se lembrava de ter entrado por aquele lado do labirinto, não se lembrava sequer se tinha caminhado para longe da trilha dos companheiros. Havia uma trilha, aliás? O vazio acometeu seu pulmão como um soco que embriaga seus sentidos e torna-o vulnerável. Sentia-se... Sentia-se... Uma lufada de vento pareceu rir zombeteira de sua confusão e ela procurou, em vão, o que produzia aquela sensação desconfortável de ter alguém na brisa. Sua respiração prosseguia alta e beirava às lágrimas, mas lembrou-se o quanto sua mãe frisara a importância de manter-se sempre calma e distante de qualquer emoção. Mas a pergunta que surgiu em sua mente a seguir foi: de que adianta os conselhos de mamãe quando ela não está por perto para averiguar o cumprimento deles? Na verdade, a pequena perguntava-se se, algum dia, a teria por perto de novo. Seu coração espremeu-se em demasia, a boca mantinha-se seca e desprovida de movimentos ou ruídos capazes de denunciá-la, suas pernas pareciam feitas de chumbo e incapazes de movimentá-la até a saída ou socorro.

Buscou, mais uma vez, vozes ou vultos reconhecíveis, porém, parecia abandonada por todos. Perguntou-se se era possível nove crianças desaparecerem de imediato apenas por entrarem em um labirinto. Quis gritar por ajuda, por Alecto, por Rabastan! Aliás, teria ele sumido também? Será que sabia o caminho tanto quanto os outros? Desesperou-se por um segundo até lembrar-se com perfeição de sua promessa. Ele não a estava cumprindo, e isso ela já sabia, mas o que mais entendeu que foi o que a atormentou: ele tinha previsto uma situação de risco. E com ela mesma. A risada zombeteira da brisa perpassou seus ouvidos e ela teve o estranho reconhecimento daquela voz... Olhou para o céu morto de setembro e respirou profundamente apenas uma vez. Resolveu acalmar-se quanto aos temores da solidão para inquietar-se com a raiva de ter sido enganada. Sentiu-se... Traída? Feita de tola? Humilhada? Não... Sua inocência infantil foi assassinada pela sensação perigosa e deliciosa de estar sozinha. Sua mãe desaprovaria por completo aquele seu comportamento a favor da solidão, mas ela descobriu que não se importava com isso. Preocupava-se apenas em guardar a ofensa de Master Lestrange para vingar-se. O temor de Locke confirmara-se: Megaira aprendera a raciocinar feito os demais fedelhos.

— Tem alguém aí? — escutou um grito estridente de menino. Virou-se para o lado esquerdo, de onde vira o som choroso e desesperado, e decidiu averiguar. Controlou sua respiração, engoliu o coração palpitante em sua garganta e esfriou a ansiedade de ter encontrado alguém. Com efeito, calou o desejo de ter encontrado, na verdade, Master Lestrange para por em prática seu não planejado plano de vingança. Seus passos eram confiantes e, ela tinha consciência, transmitia serenidade.

— Alguém? — continuou a desesperada voz em sua busca, a qual teve gravetos pisados como resposta. Aquilo seria o suficiente para amedrontar qualquer criança perdida e sozinha, mas Megaira, ao encontrá-lo, viu que não se tratava de um "fedelho" normal. Morpheus Jugson estava sentado sobre um tronco de árvore caído e tinha os punhos cerrados à amostra, bem como uma carranca pouco convidativa. Megaira havia percebido o quanto Jugson era valente para sua idade, o que o tornava ainda mais tolo aos seus olhos. Ele não deveria estar brincando com os mais velhos, como eles eram. O pequenino pareceu aliviado de ser apenas Miss Nott e baixou a guarda com um sorriso de boas-vindas.

— Finalmente! Estive procurando por você por todo o lugar! — tomou-a pela mão para que se sentassem no tronco, mas a garota parou de andar quando raciocinou melhor: por que ele estava a sua procura se havia outras pessoas mais confiáveis para lidar? Fitou-o de soslaio, procurando esconder sua desconfiança para si. Soltou a mão do menor e olhou em volta. Estavam mesmo sozinhos.

— Encontrou Alecto ou Miss Macnair? — perguntou ainda observando as ruínas tampadas por musgos. Havia algo de errado com o lugar...

— Não. — ele deu de ombros e coçou os cabelos louros — Rabastan disse que eu devia procurar apenas por você.

— Ele disse? — os olhos estreitaram-se e Jugson confirmou com a cabeça. Então, Master Lestrange havia pensado nela... De fato, sabia que ela se perderia. Aquilo confirmava tudo o que Megaira julgou ser verdade — E onde ele está? — sua sobrancelha direita ergueu-se enquanto ela poupava sua rispidez para Master Lestrange, quando se vissem novamente. Precisava parecer ignorante aos fatos.

— Não sei. Falou-me para esperá-la aqui, mas correu em seguida. Disse-me que tinha de ver uma coisa.

— E o que seria?

— Eu não faço idéia. — e o seu dar de ombros pareceu sincero para Megaira, ou o suficiente para cessar as perguntas. Voltou sua atenção para a parede encoberta de musgos. Havia uma falha entre um pedaço de musgo e outro, como se algo tivesse passado por ali. Baixou seus olhos para o chão, o qual parecia ter sido levemente amassado e formado um caminho. Algo se arrastara por ali e não tinha muito tempo. Fechou o semblante e umedeceu os lábios. Estavam em um campo aberto, envolvidos por matos e vida selvagem. Era possível ela estar certa. Encarou Jugson com aparente calma.

— Vá atrás de Alecto ou qualquer um dos outros que julgue importante. Você não deve voltar aqui sozinho e, se o fizer, tratarei de me certificar de que você não falará uma palavra mais. — fez um compreensivo gesto de arrancar a língua do garoto para fora da boca. Ele não pareceu acreditar na ameaça, mas parecia cansado da brincadeira e decidiu obedecê-la. Correu para a direção oposta a que Megaira havia tomado para encontrá-lo e ela esperou que Jugson achasse logo ajuda; desconfiava de estar em companhia de uma cobra.

Sua certeza confirmou-se ao inconfundível barulho de sibilos do animal. Encarou de onde veio o som e encontrou-a deslizando para fora de uma moita, dirigindo-se para a menina com cautela. Megaira jamais havia enfrentado um animal como aquele — ou qualquer outro —, mas resolveu permanecer quieta e não demonstrar medo. Ela não podia dar o sabor da vitória a Rabastan, a qual a desafiara àquele ponto. Afastou-se com delicadeza para mais perto do tronco, observando os mínimos detalhes da feição da cobra. Ela se mantinha inalterada, quase era imperceptível a sua vontade de morder Miss Nott, e a menina viu-se ali. Por incontáveis segundos as duas se encararam e se avaliaram como adversárias ou cópias. O pacto silencioso entre elas apenas se rompeu quando um barulho de graveto partido se fez ouvir. A cobra sibilou alto e arremessou-se contra Megaira.

Sentiu, antes das presas ou da febre do veneno, o calor de uma mão tomando a sua com resolução. Apesar de manter os olhos abertos durante os segundos cruciais, não conseguia acreditar naquilo: a cobra havia sido repelida por alguma força sobrenatural que a envolveu. Não somente a ela, mas a Alecto Carrow, a qual segurava sua mão com força e determinação. As duas trocaram olhares confusos e surpresos. Tinham feito um feitiço juntas? Foram as mãos dadas que despertaram a magia ou o simples risco de morte? Megaira procurou compreender o que se passara na cabeça de Alecto para ter se agarrado a ela e, como conseqüência, ter se colocado em perigo. Não encontrou, porém, vestígios de arrependimento ou fraqueza, pois existia somente o alívio de terem se livrado. Megaira devolveu o aperto de Alecto e sorriu para sua figura singular: jamais se esqueceria daquela sensação de amparo. De fato, isso seria, no futuro, seu único elo com os sentimentos infantis.

— Aqui estão elas! — ouviram muitos passos apressados, e não tiveram tempo de detectar mais nada, pois já estavam envolvidas por braços. Amycus abraçava a irmã e ela retribuía, bem como Locke protegia Megaira de nenhum perigo.

— Você está bem? — ele quis saber enquanto a libertava e retirava folhas e galhos de seus cabelos atrapalhados pelo vento. Ela tinha duas feridas abertas acima da bochecha esquerda, mas só foi notá-las quando o irmão limpou o sangue e procurou outros arranhões ou fraturas pelo seu corpo.

— Estou. — respondeu com simplicidade e olhou de soslaio para Alecto. Ela estava ocupada em uma guerra de forças com o irmão; eles haviam estendido a preocupação para a agressão gratuita entre si.

Encarou os outros recém-chegados: Jugson estava no colo de uma bela jovem de dezenove anos, a qual o tratava por irmão e mimava-o por tê-los guiado até nós com tamanha precisão; havia um rapaz muito bonito de cabelo prateado segundo um bebê moreno de, mais ou menos, um ano de idade; outra pessoa loura, agora uma mulher, divertia-se em ignorar o bebê que lhe mexia os cabelos dourados, mas não se distanciava do louro; tinha uma morena de cabelos encaracolados bem cuidados que entregava um bebê ruivo a Selwyn, que o colocava ao chão e dava-lhe a mão; surpreendeu-se, e teve sua raiva reacendida, quando avistou um jovem com traços muito parecidos com os de Rabastan, mas que era mais bonito e entregava um bebê louro a Wilkes, dizendo que a mãe deles os procurava. Mais ao canto de sua visão periférica notou quem procurava com tanta avidez entre as pessoas: estava de braços cruzados sobre o peito magro, apoiava suas costas e a perna direita na parede ruída. Megaira inspirou e expirou. Inspirou e expirou. Inspirou. Expirou.

— Há algo de errado? — Locke perguntou confuso com a expressão reconciliadora que sua irmã tinha. Ela procurava ordenar os sentimentos e não ser movida puramente pela raiva. Aliás, não podia demonstrar sua vontade ferina de arrancar-lhe os olhos, pois aprendera a importância do orgulho ainda há pouco.

— Não, estava apenas me tranqüilizando. — foi a primeira vez que mentiu para o irmão. E a última, pois Locke logo percebeu as narinas da irmã se inflar. Daquela vez deixou passar a impressão que teve, porque a pequena tinha passado por estresse o bastante. Ofereceu-lhe a mão, mas Miss Nott a rejeitou e disse que fosse à frente, pois tinha de ter com Master Lestrange.

— O que vai falar com ele? — o ciúme perguntou por ele.

— Apenas quero agradecer a tarde que tive. Ele não tem culpa, afinal, da minha falta de sorte. — havia uma resolução tão profunda na voz de sino de Megaira que Locke assentiu com sua vontade. Acompanhou a irmã de Jugson e o próprio, o qual reclamava não querer brincar com Louise, Claire e Isabella, pois eram muito novas. Miss Nott aproximou-se do displicente Master Lestrange.

— Gostou da brincadeira?

— Sim. Admiro jogos temperados de adrenalina.

— Reconheço que foi muito mais entusiasmante que pensei.

— Devo agradecer-lhe o prazer?

— Não, eu devo a você.

— Digamos que ficaremos devendo um ao outro.

— E como pretende pagar-me?

— Pensarei em alguma coisa, no futuro. E quanto a você?

— Anotarei todas as possíveis formas de lhe pagar que me passarem pela cabeça.

— Vemo-nos.

— Espero que logo. Não costumo dever.

— Eu tampouco.

Megaira e Rabastan caminharam juntos para longe do labirinto, cada qual carregando sua parcela de devedor. Estaria tudo resolvido assim se a menina não se sentisse inclinada a perguntá-lo uma coisa:

— Foi um teste? — sua sobrancelha direita ergueu-se enquanto um sorriso irônico preencheu os lábios de seu primo.

— Acho que o maior teste seria para saber o quanto se considera importante e digna de testes meus. — a garota sorriu para a resposta dele, umedecendo os lábios.

— E eu acredito, Master Lestrange, que sabe medir seus atos e premeditar suas ações com singular esperteza. Isso sem mencionar a sua capacidade de usar sua magia a seu favor com tamanha naturalidade. — foi a vez de ele sorrir do comentário, mas sem a ironia de outrora. Ambos pararam de andar e fitaram-se demoradamente.

— Posso considerar seu elogio apaziguador e que denota seu agrado em ser minha prima? — a menina gargalhou e deu um passo a frente.

— Nunca. — abandonou-o com os pés presos à terra por um encantamento que nem ela mesma sabia existir, mas que funcionara. Estava satisfeita, porque agora tinha a resposta que ele negara, quando se conheceram, a dar-lhe: Rabastan tinha olhos castanhos como a folha que capturara.