Capítulo I - Mario
"Sobre a mulher," Mario fechou o último botão do colete e passou as mãos pelos cabelos, ajeitando-os para trás. "Ela é bonita ou parece com Alaudi?"
Seu interlocutor sorriu discretamente e meneou a cabeça em negativo, como sempre fazia quando ele dizia aquele tipo de coisa. Giulio desencostou-se da cadeira e ficou em pé após afivelar o cinto. Sua sala na sede de polícia era de tamanho médio, menor do que a do Inspetor-Chefe, mas o suficiente para comportar uma mesa, três cadeiras e dois armários. Naquele final de manhã, Mario deixou a mansão para entregar uma mensagem ao louro, apenas para descobrir que ele faria um trabalho externo naquele dia. A mensagem foi deixada sobre sua mesa e Giulio o convidou para degustarem uma xícara de café em sua sala, o que, como esperado, não se resumiu a uma conversa amigável entre dois conhecidos.
Sexo estava fora de cogitação, pois alguém poderia aparecer mais do que de repente e todos aqueles anos de discrição voariam pela janela. No entanto, o ruivo jamais desperdiçaria uma oportunidade como aquela e pelos últimos dez minutos seus joelhos estiveram dobrados sobre o chão da sala enquanto seu rosto manteve-se escondido no baixo ventre do amante, mimando-o com o que ele sabia fazer de melhor e sorrindo vitorioso ao colher os frutos daquela traquinagem.
"Allegra é uma bela mulher, alguns anos mais nova do que Alaudi." Giulio havia se recostado à mesa e fez sinal para que ele se aproximasse. "Ela deve ser da idade de Giuseppe."
"O que ela faz fora da Itália?" Ele aproximou-se após colocar o sobretudo, mas deixou que o moreno se encarregasse dos botões. "Ivan está em um estado de nervos absurdo e eu não o via desse jeito desde o nascimento de Francesco. Quando Alaudi deixou a mansão no final de semana ele foi até minha casa com os olhos cheios de lágrimas."
Mario riu, lembrando-se vivamente de ter sido acordado pelo irmão que dizia com a voz trêmula que Ivan estava na biblioteca. Ele teve tempo apenas de jogar uma água no rosto, vestir um roupão e passar na cozinha para pegar duas xícaras de café. Como Giuseppe havia dito, o Chefe dos Cavallone realmente estava em sua casa, andando de um lado para o outro da biblioteca, uma das mãos na cintura e a outra tamborilando em seus lábios. Avistar Mario sonolento, desarrumado e descabelado pareceu ter sido a melhor visão do dia para Ivan, que se aproximou pálido e murmurando que uma grave crise havia pairado sobre ele.
Inicialmente, o ruivo pensou que alguma coisa havia acontecido aos herdeiros, mas assim que ouviu a história suas preocupações desapareceram. Ivan precisou de duas xícaras de café e um pão com geleia para conseguir contar exatamente o que o levara a deixar a mansão e dirigir, ele mesmo, até a casa de Mario.
"Então você está me dizendo que a irmã de Alaudi, que você nunca viu e apenas sabia que existia, está retornando para passar alguns dias, e que ela quer especificamente lhe conhecer?" As palavras foram ditas devagar e de maneira bem monótona.
"S-Sim," Ivan olhava nervosamente para a porta da biblioteca como se a mulher pudesse surgir a qualquer momento.
"E você está alterado por qual motivo?"
"Por qual motivo?" O moreno se virou como se houvesse sido insultado. "Você ao menos sabe o que isso significa?"
"Que você vai conhecer a irmã de Alaudi? Perdão, Ivan, mas eu não vejo razão para esse nervosismo. É só uma mulher."
Mario arrependeu-se imediatamente daquela escolha de palavras.
Seu Chefe, e melhor amigo, deixou-se cair sobre a poltrona, afundando-se em uma atitude digna de Francesco. Eu me esqueci que Ivan sempre teve talento para o drama. O ruivo suspirou, percebendo que aquele assunto não poderia ser tratado a base de café e que certamente Ivan estaria mais propenso a racionalizações se tivesse como companhia uma garrafa de vinho. Para dispensá-lo, Mario afirmou que eles voltariam a conversar à noite, porém, por hora ele precisaria retornar aos seus afazeres.
Sua promessa foi cumprida e naquela noite os dois conversaram por horas sobre a irmã de Alaudi. A mansão dormia profundamente enquanto os dois viravam garrafa atrás de garrafa, como costumavam fazer no tempo de juventude. Ao final, o Chefe dos Cavallone chegou à conclusão de que nada poderia ser feito além de encarar a realidade e que havia quase dois meses até a chegada da moça. Ambos concordaram que a melhor opção seria dizer a verdade sobre sua posição na sociedade, já que ela sabia do relacionamento do irmão com outro homem. Mario sugeriu que a convidassem para um jantar em família, para que qualquer dúvida fosse sanada e ela partisse com boas impressões.
Uma semana havia se passado desde a mencionada conversa e, embora Ivan houvesse aceitado suas sugestões, o ar ao seu redor estava pesado e sua paciência no limite. O trabalho estava arrastado, contendo erros e omissões que não costumavam ser tão regulares. Por esse motivo, o Braço Direito decidiu que levaria a mensagem pessoalmente a Alaudi, e que tentaria incentivá-lo indiretamente a ir para a mansão com mais frequência. Tal atitude não era de seu feitio, visto que aquela pessoa estava em sua lista particular de inimigos declarados, mas pela saúde mental de seu amigo ele faria qualquer coisa.
Giulio riu baixo ao terminar de ouvir ao relato, meneando a cabeça em negativo.
"Allegra não é um monstro e Ivan está exagerando. A semelhança com Alaudi é limitada à aparência física. Eles têm os mesmos cabelos louros e olhos azuis. Fora isso, ela é uma pessoa totalmente diferente."
"Isso pode ser bom ou ruim, Giulio, você precisa elaborar melhor." Mario juntou as sobrancelhas como se estivesse com dor.
"Aparentemente, Ivan não é o único com medo da moça," o moreno riu e o trouxe para perto pela cintura, "Allegra é gentil e atenciosa. Eu a conheço desde criança. Seu amor pelo irmão é genuíno e essa é a chave para seu Chefe conquistá-la completamente. Como eu disse, não há nada para se preocupar."
"E como ela acabou saindo da Itália? É muito raro ver uma mulher deixando o país sozinha. Ivan só mencionou que ela mora no estrangeiro há anos."
"Sim, no Japão." O Vice-Inspetor desviou os olhos por um momento, como se juntasse todas as informações antes de continuar. "Eu também não sei toda história, apenas que Allegra foi para o Japão a convite de um dos Guardiões dos Vongola. Um ano depois de sua ida Alaudi recebeu uma carta dizendo que a irmã havia se casado. O que aconteceu nesse meio tempo eu não sei, só que o marido dela é amigo do Guardião japonês."
"Ugetsu, eu suponho." Mario ponderou. Sua relação com aquela Família era de regular para boa, com exceção do Braço Direito de Giotto. As pessoas dizem que somos parecidos e que poderíamos ter sido irmãos, como se eu fosse ter um irmão como aquele! Giuseppe é infinitamente superior!
"Esse mesmo. Alaudi disse que ele virá acompanhar a irmã e que devem chegar pelas próximas semanas."
"As coisas ficarão difíceis. A chegada dessa moça e a festa de Natal acontecerão com algumas semanas de diferença. Só de imaginar o trabalho que terei já fico cansado." A Festa de Natal dos Cavallone era um dos eventos mais aguardados do ano pelas Famílias mafiosas. "Eu estou começando a compartilhar os sentimentos de Catarina sobre essas festividades. Uma pena que não poderei me trancar no quarto." O ruivo estava prestes a suspirar quando percebeu o que havia dito. "Talvez este ano você possa ir. Alaudi estará lá."
"Acho pouco provável. Se ele estiver na festa eu precisarei estar aqui." Giulio ponderou. As costas de suas mãos tocaram a face salpicada por sardas em um gesto de carinho. "Mas se eu puder ir não perderei a oportunidade, você sabe disso."
Mario fechou os olhos, permitindo aquela agradável carícia, e pensando que seria perfeito para uma noite de Natal compartilhá-la ao lado de Giulio e depois seguir com o amante até sua casa, onde passariam o restante do tempo mais privativamente. Eu sei que é quase impossível. Giulio tem seu trabalho e eu tenho o meu. Quando os olhos verdes se abriram, ele deu um passo à frente, passando os braços ao redor do pescoço do amante.
"Vejo você no final de semana?"
"Parece tão longe," as mãos apertaram sua cintura.
"E está," Mario sorriu, "não farei promessas, mas tentarei deixar a mansão na sexta à tarde."
"Eu ficarei esperando..."
A despedida consistiu em um longo beijo que só terminou porque o senso de responsabilidade de Mario gritou em seus ouvidos que se ele permanecesse mais um minuto naquela sala acabaria não indo embora. Giulio o acompanhou até o carro, oferecendo um triste olhar antes de se desencostar da janela. O ruivo sentiu o coração apertado, indagando quando despedir-se daquele homem havia se tornado tão penoso. Antigamente, o tempo não parecia passar tão rápido e normalmente ele tinha um largo sorriso ao retornar para casa, sabendo que o veria na próxima semana. Eu sei que nos encontraremos em alguns dias, mas ficar longe está se tornando cada vez mais difícil. Eu mudei.
Mario teria pouco tempo para sentir falta de Giulio, pelo menos naquele dia.
A visita a Roma atrasou um pouco seus planos, contudo, o evento principal ficaria para a noite, então tudo o que ele precisou foi chegar e ir direto à biblioteca, somente para encontrar Ivan debruçado sobre a mesa e tirando um cochilo enquanto recebia a rara luz do sol de final de outono e que entrava por uma das janelas. O Chefe dos Cavallone foi acordado com uma pesada mão em seu ombro e imediatamente endireitou-se, fingindo que nada havia acontecido. Ele é pior do que Francesco!
O humor do moreno piorou ao ouvir que sua mensagem não havia sido entregue a Alaudi diretamente. Mario reafirmou que Giulio a entregaria no final do dia se ele não retornasse à sede de polícia e que Ivan tinha assuntos mais importantes para se preocupar.
"Suas roupas foram entregues e eu pedi que fossem colocadas em seu quarto. Nós iremos no carro que usei esta manhã e estou pensando em levar Niccolò conosco. Ele não vai gostar, mas não quero tirar Giuseppe da casa."
"Acho que você está exagerando um pouco. Não estaremos sozinhos. Giotto estará lá também."
"Eu não me importo com ninguém além de você, Ivan." O ruivo sentou-se na poltrona e revirou os olhos ao ver a expressão de deboche do amigo à sua não-intencional-declaração-de-amor. "Giotto tem seus próprios homens para protegê-lo e eu ficaria mais aliviado se Niccolò ficasse do lado de fora durante o jantar."
"Faça o que achar melhor, eu confio minha segurança a você." Ivan ofereceu uma piscadela e riu. "Embora eu acredite que será apenas um amigável jantar, nada mais."
"Você sabe melhor do que eu que não será assim tão simples. Aquela mulher está tentando te empurrar a filha há anos. Seu pai ainda era vivo quando ela sugeriu que unissem as Famílias."
"Não me lembre disso." O moreno colocou as mãos na cabeça e ficou sério. "Eu tento não comentar nada sobre trabalho, mas se Alaudi ouvir uma coisa dessas eu estarei perdido."
"Eu acho que ele sabe. Seria um tolo se não desconfiasse que você recebe esse tipo de oferta. Além do mais, eu sei que ele teve sua cota de recusas, ainda que eu custe a acreditar que alguma mulher nesse mundo seja estúpida o bastante para querer casar-se com alguém como ele... sem ofensas, claro."
O sorriso irônico foi proposital e Ivan apertou os olhos como resposta.
"Ele nunca falou sobre isso e eu também não quero saber." O Chefe dos Cavallone espreguiçou-se e encarou os papéis sobre a mesa. "O acordo foi que eu estaria livre se terminasse de ler e assinar tudo isso, não?"
"E responder às mensagens que estão dentro da segunda gaveta," o ruivo meneou a cabeça em positivo. "Você está liberado para ir a Roma amanhã, desde que leve pelo menos três subordinados ou este que vos fala."
Mario havia se acostumado a fazer pequenos acordos para motivá-lo a trabalhar. Ser Chefe de uma Família como os Cavallone não era sempre um mar de rosas. Jantares, reuniões e missões arriscadas faziam parte de um lado obscuro que Ivan se esforçava para se distanciar e que havia melhorado desde que assumira a Família. O outro lado envolvia trabalhos de mesa, que eram maçantes e cansativos, portanto era preciso incentivá-lo a passar horas prostrado na biblioteca, lendo e assinando papéis. Deixá-lo se encontrar com Alaudi sempre funcionava e enquanto tivesse aquela carta na manga o ruivo a utilizaria sem pensar duas vezes.
Niccolò fora notificado do evento daquela noite no meio da tarde. A reação, ou falta dela, não o surpreendeu, e a resposta recebida foi um baixo "Entendido" e nada mais. Há alguns dias ele notou que o homem não lançava tantos olhares pesados e os momentos de interação se tornaram menos raivosos e mais indiferentes. Alguma coisa aconteceu. Niccolò parece pensativo a maior parte do tempo. A aversão por parte do outro o impedia de questionar mais fundo, logo, tudo o que restava era observar de longe. A princípio ele achou que tivesse alguma relação com Giuseppe, entretanto, o irmão não havia mudado e a ideia facilmente afastada.
O que Mario não esquecia, porém, era a desconfiança de que o chefe da segurança e seu irmão eram mais do que colegas de trabalho. Até o momento nenhuma prova havia surgido, porém, ele conhecia Giuseppe o suficiente para saber que ele escondia algo. Nos últimos meses ele passou a ficar mais tempo na mansão e em algumas noites sequer volta para casa. Esses dias coincidem com as noites que Niccolò faz a patrulha da mansão.
As desconfianças do ruivo, todavia, eram somente suas. A única pessoa para quem ele havia confidenciado suas dúvidas não compartilhava de suas paranoias. Giulio acha que estou exagerando, mas eu discordo. Eu não me importo em Giuseppe ter ou não um amante, apenas não entendo por que ele não me disse nada. O silêncio do irmão era a parte central daquele assunto e Mario sentia-se um pouco triste ao pensar que Giuseppe não havia mencionado nada por não confiar nele.
A temperatura havia caído quando os dois carros deixaram a mansão. Aquela seria uma noite gelada e sem estrelas. O céu estava pintado com um profundo azul escuro e a estrada que cortava a propriedade foi cruzada no mais absoluto silêncio. Desde o nascimento de Francesco Ivan passou a não apreciar tanto jantares a trabalho. Ele não gostava de não estar à mesa com o filho e esse sentimento tornou-se mais forte com a chegada de Catarina. Com a ida da garotinha à escola, o passatempo preferido do Chefe dos Cavallone era ouvi-la durante o jantar relatar suas peripécias e elogiar suas aulas, principalmente as de Arte.
"Eu estou curioso sobre esse professor novo de Catarina. Nas últimas semanas ela não fala de outra coisa." O silêncio foi quebrado assim que pegaram a estrada principal. O jantar daquela noite não seria no centro, mas em uma mansão que ficava localizada no meio do caminho.
"Eu ainda não o vi. Desde que Catarina começou a estudar eu não tive a oportunidade de buscá-la, mas se quiser posso investigá-lo."
"Hm, não, nada oficial." O moreno fez um gesto com a mão como se a ideia precisasse ser dissipada. "Mas eu gostaria de conhecer a pessoa que finalmente conseguiu fazer minha filha se interessar por alguma coisa específica. Catarina sempre foi dispersa e gosta de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Eu não esperava esse amor todo pela pintura."
"Ela envia uma cópia dos seus melhores desenhos para Giulio. Ele emoldura e pendura na sala de estar." O ruivo sorriu ao lembrar-se dos desenhos nas paredes.
"Alaudi me disse," Ivan suspirou, "não entendo porque ela não faz uma cópia para mim. Eu adoraria tê-los nas paredes da biblioteca."
"Você deveria dizer isso a ela, Ivan. Talvez Catarina ache que seus desenhos não são dignos da sua biblioteca."
Pelo retrovisor Mario viu quando o amigo ergueu as sobrancelhas. A sugestão pareceu agradá-lo, pois Ivan meneou a cabeça em positivo e voltou a olhar a paisagem pela janela com um sorriso nos lábios. Sua atenção retornou à estrada e ele decidiu que assim que tivesse uma chance faria uma visita à escola dos herdeiros para conhecer o novo professor. A fascinação de Catarina também havia chamado sua atenção e como Braço Direito do Chefe da Família era seu dever zelar pelo bem-estar de todos os seus membros.
Os dois carros entraram na propriedade através de um discreto portão guardado por dois subordinados. Mario colocou um dos braços para fora da janela, deixando à mostra o brasão dos Cavallone e somente dessa forma sua passagem foi permitida. No veículo de trás Niccolò fez a mesma coisa e ambos seguiram o restante do caminho sem empecilhos ou paradas desnecessárias. Ao contrário da mansão da Família, que ficava cerca de vinte minutos do portão principal, não foi preciso muito até que os carros fossem estacionados. Ali havia vários membros dos De Franco espalhados, alguns guiavam os convidados enquanto outros cuidavam da segurança.
Ele foi o primeiro a descer, dando a volta no carro e abrindo a porta para Ivan. O moreno ajeitou o lenço em seu pescoço, passando a dar atenção ao botão de ouro do terno. Naquela noite o Chefe dos Cavallone vestia um conjunto azul escuro, que destacava seus cabelos negros e olhos cor de mel. O ruivo aproximou-se de Niccolò, que havia acabado de sair do veículo, e avisou que levaria um dos subordinados com ele. O homem consentiu com a cabeça, escolhendo entre os quatro que estavam no carro e apontando um rapaz de cabelos cor de areia. Um dos subordinados da Família anfitriã os guiou até a entrada da mansão e assim que a porta foi aberta o semblante de Mario mudou completamente. Seus olhos se tornaram atentos, seus ouvidos aguçados e sua atenção se fixou totalmente em Ivan.
Os rostos conhecidos não demoraram a surgir, a maioria fazia uma reverência em demonstração de respeito, mas nenhum deles se aproximava. Ivan assumia uma perigosa posição naquele mundo e, embora os Cavallone fossem uma das mais poderosas Famílias da Itália, isso significava que também eram uma das mais invejadas e odiadas. Somente outros Chefes de igual importância ousariam se aproximar, o que seria difícil naquela noite, uma vez que a maioria dos presentes eram Famílias aliadas e pequenas.
Difícil, mas não impossível...
"Boa Noite, Ivan."
A voz veio de uma parte do salão e mesmo estando do lado oposto Mario não se deu ao trabalho de mudar de posição. O homem aproximou-se devagar, um gentil sorriso e os mesmos olhos serenos e brilhantes.
"Giotto, boa noite."
Os dois trocaram um rápido abraço e se cumprimentaram com educação e carinho. O ruivo deixou que seus olhos saíssem da figura do Chefe dos Vongola para aquele que estava um pouco atrás e que o fitava com uma expressão de indiferença e desdém. G. estava exatamente como da última vez que eles se encontraram: desarrumado e parecendo extremamente aborrecido por estar ali. Ambos os Braços Direitos não se davam muito bem e a natureza daquela antipatia vinha da concepção que as pessoas tinham de que eles eram parecidos. Mario se recusava a ser comparado a uma pessoa tão descuidada e irritável, embora não quisesse saber qual a opinião de G. sobre ele.
"Boa noite, G.," Ivan sorriu na direção do outro ruivo presente e recebeu apenas um menear de cabeça como resposta. "Você trouxe somente seu Braço Direito, Giotto?"
Raramente Chefes como os Vongola frequentavam qualquer ambiente sem pelo menos dois ou três subordinados. Mario também havia percebido, mas jamais se intrometeria no trabalho de outra Família. O seu trabalho era proteger Ivan.
"Oh, não, eu trouxe mais alguém comigo, ele deve chegar a qualquer momento." Giotto ofereceu um de seus enigmáticos meio sorrisos, "Ugetsu está no Japão, então precisei de um substituto."
A menção do Guardião japonês soou displicente, no entanto, não para alguém como Mario. Ivan não havia notado, mas para ele foi impossível ignorar a sutil reação de G. ao nome de Ugetsu. O homem desviou os olhos quase de imediato, o que fez Mario juntar as sobrancelhas para aquela estranha e inesperada reação. E-Ele está... corando?! Sua atenção foi completamente roubada e talvez por esse motivo ele não houvesse percebido quando mais alguém se aproximou, ainda que, futuramente, achasse que a pessoa simplesmente aproximou-se daquela maneira de propósito.
"Ah, minha segunda companhia!"
O homem entrou com passos lentos e arrumando a manga do sobretudo negro, alheio ao ambiente e sem se importar de vestir terno e gravata por baixo do casaco, embora aquele fosse um jantar formal. Mario revirou os olhos enquanto aquele ao seu lado não conseguiu esconder a expressão de pura felicidade. Os olhos cor de mel brilharam, os lábios se repuxaram em um tolo sorriso e o ruivo teve certeza de que Ivan usou cada fibra de seu corpo para não correr até a entrada. Meu Deus, por quê?!
"Boa noite."
Alaudi vestia a mesma expressão entediada de todos os dias e Mario sabia que naquela noite ele realmente estava ali por pura obrigação, já que raramente fazia sua parte como Guardião dos Vongola, título este que ele procurava negar em todas as oportunidades.
"Eu sabia que viria, Alaudi." Giotto sorriu. "Obrigado."
"Você não precisa agradecer," G. abriu a boca pela primeira vez, lançando um olhar de puro descaso na direção do louro, "ele não faz mais do que a sua obrigação."
"Eu não tenho obrigação nenhuma com os Vongola," Alaudi respondeu sem emoção, "eu tenho meus motivos para estar aqui e eles não lhe dizem respeito."
"Como é?"
Giotto colocou-se entre seus Guardiões, rindo baixo como se nada daquilo fosse um real problema. Mario intimamente desejou que o jantar já houvesse terminado e que a qualquer momento pudesse estar de volta à sua casa, passando o restante da noite em sua cama quentinha e solitária. Pensar que haviam acabado de chegar e que a noite estava apenas começando colocou um peso em seus ombros, que piorou ao reparar a mudança de humor de Ivan, que pareceu adorar estar ali, ainda que soubesse que não poderia fazer ou dizer nada que desse qualquer margem a desconfianças da verdadeira relação entre ele e Alaudi.
"Acredito que já conheça meu Guardião." Giotto falou um pouco mais alto propositalmente. Os olhos de quase todos os presentes estavam no encontro entre aqueles dois homens distintos.
"É sempre um prazer vê-lo." O Chefe dos Cavallone meneou a cabeça e sorriu. Suas mãos estavam para trás e daquele ângulo Mario percebeu como foi difícil para ele mantê-las afastadas.
Alaudi respondeu com um aceno discreto e, ao contrário do amante, não pareceu se esforçar em conter seus sentimentos. Mas que sentimentos? Como você pode amar alguém tão frio, Ivan? Eu nunca entenderei! Os dois Chefes voltaram a conversar, dessa vez assuntos banais e aleatórios até a anfitriã do jantar entrar por um dos corredores, escoltada por meia dúzia de subordinados. A Família De Franco era chefiada por uma senhora de nome Rosa, a esposa do falecido Chefe. Apesar de ser uma Família antiga, os De Franco nunca conseguiram poder suficiente para colocá-los em evidência. O dinheiro que possuíam, no entanto, era outra história.
O pai de Ivan e o falecido marido de Rosa nunca estiveram em bons termos, o que mudou quando o filho assumiu os negócios.
"Ivan Cavallone, Giotto Vongola, mas que visão para olhos tão cansados!"
Rosa era uma mulher de mais de sessenta anos e que carregava as características da beleza da juventude. Os olhos negros combinavam perfeitamente com a pele morena e era impossível não vê-la e imaginar que nos tempos de mocidade aquela mulher era o centro de qualquer festa ou jantar. Atrás, e quase escondida, vinha um jovem não muito mais velha do que Francesco. Suas características físicas não deixavam dúvida de seu parentesco, mas sua timidez contrastava totalmente com a vivacidade de Rosa.
"Rosa, boa noite." Ivan a cumprimentou com beijos.
"Boa noite." Giotto pareceu um pouco tímido com os abraços.
"Uma excelente noite para um excelente jantar, não acham?" A mulher vestia um longo vestido vinho. Suas joias eram vistosas e ela não fazia questão de esconder o poder aquisitivo de sua Família. "Mas que bela combinação..." Mario notou que aquela parte fora direcionada a ele. "Vocês por acaso são irmãos?"
"Não!"
A resposta soou em uníssono e mesmo sem virar o rosto ele sabia a quem ela se referia. G. soltou um audível "tsk" que arrancou uma alta gargalhada de Rosa. Mario fingiu não perceber, contudo, notou quando Alaudi levou uma das mãos aos lábios para esconder um sorriso de deboche.
"E quem é essa bela jovem ao seu lado, Rosa?" Ivan sorriu na direção da moça quase escondida. "Acredito que ainda não fomos apresentados."
"Esta é minha neta, Laura. Venha cá, querida." A moça aproximou-se devagar e fez uma polida reverência.
O ruivo ergueu uma das sobrancelhas, esperando pelo que viria em seguida. O Chefe dos Cavallone levou a mão direita ao peito e retribuiu a reverência, afirmando que era um prazer conhecê-la. Mario não ficou surpreso. Normalmente, Ivan teria beijado a mão da moça ao se apresentar, exibindo uma galante piscadela. Ele jamais faria isso com o amante ao lado, mas eu adoraria ver a expressão de Alaudi. O cumprimento de Giotto foi semelhante e não demorou a que as primeiras impressões fossem deixadas para trás. Rosa permaneceu alguns minutos com eles antes de avisar que poderiam seguir para o cômodo principal.
A sala de jantar era grande o suficiente para comportar uma mesa retangular que acomodava confortavelmente mais de vinte pessoas. Somente os Chefes e seus Braços Direitos tinham a honra de jantar com a anfitriã na mesa. Os demais subordinados eram levados para a sala ao lado, o que causou a Mario um grande alívio. A indiferença de Ivan com relação a Alaudi começava a vacilar e seria uma questão de tempo até que ele dissesse alguma coisa suspeita.
"Giulio comentou sobre isso?" O moreno sussurrou assim que se sentaram à mesa.
"Não, eu não sabia de nada." Mario passou o olhar ao redor. Giotto era o Chefe mais próximo e os demais estavam ocupados se acomodando para prestarem atenção no que diziam. "Eu não fazia ideia de que Alaudi estaria aqui esta noite."
A conversa cessou quando Rosa e a neta entraram, o que também marcou o início do jantar. Durante a refeição geralmente não havia conversas, então qualquer assunto tratado aconteceria após a sobremesa. O cozinheiro dos De Franco não era tão bom quanto Lorenzo, mas todos os pratos servidos naquela noite foram excelentes. A sopa, em especial, estava encorpada e com reais pedaços de carne, o que serviu para esquentá-lo completamente, assim como o molho apimentado do milho assado. A sobremesa consistiu em um pudim de frutas cuja cobertura era uma geleia quente e que derretia na boca. Mario limpou os lábios com o guardanapo pela última vez, sentindo-se plenamente satisfeito e chegando à conclusão de que a comida já havia legitimado a viagem e o encontro com Alaudi.
Quando os pratos foram retirados, a anfitriã convidou a todos a seguirem para a sala de estar para degustarem uma xícara de café. Os demais subordinados já se encontravam no cômodo, e não foi surpreendente ver que Ivan e Giotto passariam aquela noite formando um único grupo. E, ao contrário do que o ruivo esperou, nada de importante foi dito durante o café. Rosa perambulou por toda a sala, aproximando-se dos pequenos Chefes e dos importantes Chefes com o mesmo sorriso e respeito. Entretanto, ao chegar próximo a Ivan a senhora mencionou que gostaria que ele permanecesse um pouco mais. O convite se estendeu a Giotto e Mario sentiu a expressão se tornar séria e pesada.
Uma hora após o término do jantar eles foram levados a outro cômodo, dessa vez uma aconchegante e aquecida biblioteca, bem menor do que as salas que visitaram anteriormente. Mario sentou-se ao lado de Ivan, tendo Giotto, G. e Alaudi à frente. Independente do assunto que os levaram àquele jantar, seu trabalho ali não era prestar atenção ou opinar. Como Braço Direito, ele deveria entrar mudo e sair calado, garantindo unicamente que nada acontecesse ao seu Chefe. Há seis homens da Família De Franco. Nenhum deles atrás de mim.
Os olhos verdes estudaram o local e em segundos Mario fez uma rota de fuga mental no caso de alguma coisa acontecer. Eles estavam no térreo, e não havia andares na casa, logo, não haveria a preocupação com a altura se usassem a janela. Quando sua atenção pousou sobre aqueles à frente, o modo como G. o encarou o fez apertar os olhos. Ele está fazendo a mesma coisa, tsk! As poucas similaridades o irritavam, mas serviram para que seus ouvidos pegassem uma parte da conversa que havia se iniciado enquanto ele estava perdido em seus pensamentos.
"O jantar estava maravilhoso como sempre, Rosa," Ivan resumiu o que basicamente todos ali sentiam.
"Você pegou o melhor cozinheiro do país, Cavallone, mas meu Diego não deixa a desejar." Ela sorriu com orgulho.
"Embora eu duvide que tenha nos chamado aqui unicamente para nos apresentar seu cozinheiro."
Os olhos negros da anfitriã brilharam e G. moveu-se na cadeira. Mario tinha os olhos fixos em Rosa, porém, sentia como se estivesse sendo observado. Eu senti a mesma coisa durante o jantar, mas não há ninguém atrás de mim. Os homens da Família De Franco estavam atrás de Rosa e foi ali que sua atenção foi depositada. Os seis subordinados estavam parados, em pé e com as mãos para trás, sem nenhuma posição ou gesto que pudesse levar a outras interpretações. Talvez eu esteja imaginando coisas. A única pessoa que não parecia observar Rosa era a neta, cujos olhos se desviaram quando Mario se lembrou de sua existência e ofereceu um rápido olhar em sua direção.
"Eu queria agradecer pessoalmente a Giotto por me indicar o cozinheiro. Eu serei eternamente grata por ter transformado meus jantares em momentos tão prazerosos." Rosa corou.
Giotto respondeu com um menear de cabeça e um meio sorriso.
"Tê-lo como convidado para o jantar era obrigatório, então decidi expandir o convite para as Famílias amigas, ainda que este não seja o motivo principal que me fez trazê-lo aqui, Ivan."
O Braço Direito sentiu a tensão emanar do corpo de seu Chefe. O moreno dificilmente agia daquela forma, o que o fez deduzir que o motivo fosse o homem sentado do outro lado e que mantinha uma expressão aborrecida. Ele está com medo que algo possa acontecer a Alaudi.
"Então a que devo a honra de tão deliciosa refeição?" Ivan conseguia esconder perfeitamente seu nervosismo para aqueles que não o conheciam bem.
"Eu estou procurando um marido para minha querida Laura."
Rosa foi sucinta, o que chamou a atenção de todos os presentes. Frequentemente, esses assuntos eram tratados em salas menores e entre sussurros e entrelinhas, e não abertamente e com a pessoa, de fato, presente. O ruivo sentiu-se mais aliviado ao saber que não era uma emboscada direta. Sua linguagem corporal mudou e ele relaxou quando uma jovem moça entrou discretamente para servir taças de vinho para os convidados. Aquele assunto era velho conhecido para Ivan Cavallone, embora há alguns anos Mario não participasse de um evento como aquele. Quando seu Chefe era mais novo, basicamente todas as Famílias italianas haviam oferecido suas filhas. Oh... espere...
A realização fez seus olhos se desviarem para o lado e um sorriso de pura satisfação cruzou os lábios, que estavam escondidos atrás da taça. Ao contrário da total falta de reação anterior, dessa vez Alaudi havia entendido o que estava acontecendo. Sua expressão era severa e seus olhos azuis estavam apertados, fitando Rosa como se pudesse fazê-la desaparecer com o poder da mente.
Mas que delícia de visão. O ruivo acomodou-se melhor na poltrona, ouvindo a anfitriã elogiar a neta e apontar suas qualidades como futura esposa. Seus olhos, no entanto, estavam no Inspetor de polícia, que demorou a notar que estava sendo observado e, quando percebeu, pareceu ainda mais furioso quando Mario piscou em sua direção e fez um mudo brinde à felicidade dos futuros noivos. Eu vivi por esse momento!
"Eu não tenho dúvidas de que Laura é uma ótima mulher e será uma excelente esposa, mas não vejo como posso ter relação com isso." O Chefe dos Cavallone foi o mais direto possível e Mario não se surpreendeu. Seu melhor amigo estava acostumado a ouvir aquele tipo de proposta.
"Mas é claro que tem relação com o assunto, já que o casamento não poderá acontecer sem o seu consentimento," Rosa sorriu.
"Eu agradeço a honra, mas não tenho interesse em casamento." Ivan passou a mão na nuca e o ruivo teria gargalhado se pudesse. O olhar de Alaudi era tão penetrante que ele não sabia como não havia feito um buraco na parede.
"Eu sei disso," Rosa riu e fez um gesto com a mão, "por isso eu quero casar Laura com seu Braço Direito. Eu tenho certeza de que ele será um ótimo marido!"
Mario engasgou tão forte com o vinho que achou que morreria afogado.
Continua...
