Capítulo 2- "A tragédia"
Claire olhava no relógio de minuto em minuto, enfurecida. Sentada ao lado do marido, Charlie, no banco estofado de uma modesta lanchonete ela se perguntava porque ainda insistia em procurá-lo. Ele definitivamente não era mais o mesmo.
Charlie tocou carinhosamente sua mão, dando-lhe apoio, em seguida tocou-lhe o ventre grávido de quase sete meses, o segundo filho dos dois. Aaron já estava com seis anos. Não era filho biológico de Charlie, mesmo assim havia sido registrado como se fosse. Seu verdadeiro pai provavelmente não o teria amado tanto quanto Charlie vinha fazendo.
- Não fique se culpando por dar uma segunda chance a ele. Jack é a sua única família. Sua tia Lindsay, como eu detesto aquela megera, não conta!
Claire respirou fundo ao ouvir Charlie se referir a Jack Shephard como sua única família. De fato ele tinha razão. Sua mãe estava morta, e seu pai também. Jamais se dera bem com Lindsay, a irmã de sua mãe, logo só restava Jack, seu único irmão. Há alguns anos nem passava por sua cabeça que aquele parentesco existisse. Viviam isolados da civilização na ilha onde foram obrigados a viver por meses e Jack era apenas o líder médico que cuidava de todos. Porém, depois de serem milagrosamente resgatados, Claire foi chamada a Los Angeles para receber o inventário que o pai lhe deixara. Ela sequer sabia que ele estava morto. Nessa época, ainda vivia em Sidney e estava noiva de Charlie Pace, o homem mais carinhoso que conhecera em toda a sua vida, o qual seu filho Aaron havia se apegado como a um pai.
Ela não queria nada que o pai tivesse lhe deixado, mas por insistência de Charlie que dizia a ela todos os dias que aquilo ainda era pouco para o que merecia, pegou um avião com ele e o filho e desembarcou em Los Angeles. Qual não foi sua surpresa ao reencontrar Jack durante a leitura do inventário e descobrir que ele era o filho mais velho de Cristian Shephard, seu pai?
A princípio, aquela fora uma notícia espantosa e maravilhosa ao mesmo tempo. Inevitavelmente se uniram, o tempo na ilha havia sido providencial para que isto se tornasse mais fácil. Porém, com o tempo, Jack começou a assumir uma personalidade completamente diferente. Tornou-se arredio, irresponsável e desligado. Claire jamais entendeu o motivo de tão repentina mudança. Charlie continuou falando:
- As coisas estão bem agora Claire, mas confesso que sinto saudades de algumas coisas da época da ilha. Não estou dizendo que sinto falta de viver com medo, de ter que fugir dos Outros, de comer qualquer coisa ou fazer xixi no mato. Mas sim das amizades que fiz por lá. Das caminhadas na floresta, do ar puro, de ficar sozinho com você e sentir que éramos os últimos sobreviventes da humanidade.
Claire sorriu e beijou os lábios dele levemente. De repente, ouviram um pigarro atrás de si, seguido de uma voz agradável e familiar.
- Interrompo?
- Jack!- exclamou Claire, esquecendo completamente que tinha se zangado com ele ainda àquela noite. Correu para abraçá-lo.
- Oi irmãzinha, que saudades!- disse ele, apertando-a junto de si. – Você está linda, muito linda mesmo!- observou Jack acariciando a barriga dela.
Ela fitou os olhos castanho-esverdeados dele e tocou seu rosto.
- Você está ótimo!
Jack parecia radiante usando camiseta branca por baixo do casaco escuro e calça jeans. No rosto a barba por fazer como costumava usar quando viviam na ilha. A grande diferença era o cabelo, liso, caído no rosto. Há algum tempo abandonara o corte de cabelo estilo militar.
- Hey, não se incomodem comigo!- gracejou Charlie, rindo ao ver os dois tão emocionados por se reencontrarem e esquecerem da presença dele ali.
- Cunhadinho!- debochou Jack.
Os dois se abraçaram.
- E como está a banda?- indagou Jack se sentando no banco estofado junto a eles.
- A todo vapor.- respondeu Charlie. – Estamos preparando um novo single para o verão britânico.
- E o Aaron?
- Está com a babá no hotel.- disse Claire. – Ele estava cansado e nós não queríamos ficar te esperando na porta da sua casa.
- Me desculpe!
Claire franziu o cenho: - Jack, o que quis dizer pra mim ao telefone sobre querer estar morto?
Jack ficou embaraçado com a pergunta dela. Charlie percebeu que estava sobrando ali.
- Eu vou ao banheiro, volto logo.
Assim que Charlie se afastou, Jack disse a Claire, tocando-lhe uma mecha dos cabelos loiros e cacheados que caíam sobre o seu belo rosto.
- Por favor, esqueça o que eu falei, esqueça tudo. Estou feliz que tenha vindo de tão longe me visitar. Você tem sua vida em Londres e mesmo assim ainda lembra de mim. Sei que não tenho sido um bom irmão e que quando você precisa de mim eu nunca estou disponível pra você e...
- Mas já esteve, e isso é o que importa. Você cuidou de mim na ilha quando eu mais precisei e nem sabia que éramos irmãos. Vamos deixar pra lá!
Jack sorriu e eles se abraçaram mais uma vez. Charlie ficou tocado ao ver a cena quando saía do banheiro.
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- Não vai me dizer nada?
Kate voltou os olhos verdes para o marido momentaneamente e continuou em silêncio. Em seguida voltou a concentrar-se no forno de microondas digitando rapidamente os minutos que o assado deveria ser aquecido. James irritou-se, odiava quando ela escondia alguma coisa dele.
- Kate!- chamou.
- O que é?- indagou ela, ainda de costas para ele.
- Não vai me dizer o que queriam com você no telefone?
- Não.- ela respondeu determinada.
James revirou os olhos e foi até ela, segurando-a com força, porém sem machucá-la, fazendo com que se virasse de frente para ele.
- Pois eu acho melhor você me contar!
- E se eu não contar? Vai fazer o quê? Me bater?- provocou ela.
- Não seja estúpida!- ele rebateu. – Não entendo porque não quer dizer nada pra mim, sei que é uma coisa séria, eu vi o seu olhar enquanto falava ao telefone. O que aconteceu com sua mãe?
- Não é da sua conta!- ela gritou.
- Ah não? Pois bem, eu vou te dar vários motivos pelo qual esse assunto é do meu interesse. Nós somos amigos, parceiros, amantes, marido e mulher e você em alguns meses será a mãe do meu filho. Então por que eu não tenho o direito de saber?
Kate tocou o ventre que ainda não mostrava sinais claros da gravidez e caiu em prantos. James arregalou os olhos e de repente sentiu-se culpado:
- Olha, sardenta, me desculpe, eu não queria fazer você chorar, eu...
Ela se atirou nos braços dele, aninhando a cabeça em seu peito. James a abraçou.
- Eu sei que deve ser uma coisa muito difícil, mas eu preciso saber, baby. Para que eu possa te ajudar.
Ele ergueu a cabeça dela, segurando em seu queixo carinhosamente. Com os olhos lacrimejantes, Kate respondeu: - O câncer da minha mãe voltou, ela não vai viver mais do que alguns dias e a sua última vontade é me ver.
- E você pretende ir vê-la?
- Eu tenho medo.- ela confessou. – Minha mãe me desprezou todas as vezes em que quis me entender com ela. Mesmo no dia em que fui absolvida por ter matado meu pai ela ainda me olhava com aquela expressão condenadora. Como posso ir vê-la agora James? Me diz como?
James acariciou a face dela ternamente e disse:
- Talvez esse seja o seu momento de redenção. Eu acho que devíamos ir a Talahassee para você falar com ela e fazer sua última vontade.
- Ela não está em Talahassee. Está em Los Angeles.
- Certo.- concordou James. – Vamos até Los Angeles então. Eu tiro uma licença do trabalho, você pede a Beatriz que assuma a loja por uns dois dias.
Kate assentiu, talvez James tivesse razão quando falava que ela precisava de redenção.
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- Boa noite Cortez, vai pela sombra!- gracejou Fernandez quando Ana-Lucia se despediu dele no estacionamento da delegacia.
- Pode deixar!- ela respondeu sorrindo enquanto destrancava a porta de seu carro. Ajeitou-se no volante e antes de ligar o motor tirou o celular do bolso e discou. O número para qual ligava não atendia, chamava, chamava e caía na caixa-postal. Ana-Lucia franziu o cenho: - Droga Danny, onde você está?
Tirou o carro do estacionamento e seguiu seu caminho. Pousou o celular em cima do porta luvas e apertou rapidamente o botão do viva-voz a medida em que o aparelho realizava discagem direta para sua casa. Ao terceiro toque uma mulher atendeu.
- Lupita, sou eu!- disse Ana-Lucia.
- Hola, señora!- respondeu a mulher.
- Está tudo bem em casa?
- Está sim, señora. Èrica acabou de jantar.
- Coloque ela na linha, por favor.
- Èrica, es tu madre!
- Mamãe! Mamãe!- soou a voz de uma garotinha ao telefone.
- Oi meu amor. Está tudo bem? Jantou direitinho?
- Tudo bem.- respondeu a menina. – Você já vem pra casa mamãe?
- Eu já estou indo sim.
- E o papai?
- Ele também já deve estar chegando.
- Ainda vamos terminar de montar o quebra-cabeças hoje?
- Vamos sim, querida.
- Então tá bom! Lembra que a última peça é do papai!
- Sí, por supuesto. Até logo, mi amor. Yo te amo. Obedeça a Lupita.
- Sí mamãe, yo te amo tambien!
Ana-Lucia desligou o telefone e virou na próxima avenida. Tentou falar com o marido mais uma vez, mas ele continuava sem atender o celular. Será que ele ainda estaria patrulhando e deixara o celular dentro do carro? Estava pensando nisso quando chegou a uma rua próxima à ponte principal e viu um aglomerado de pessoas em volta de dois carros pegando fogo ao mesmo tempo. Havia um carro de polícia parado no local também e uma ambulância.
Desceu do carro com seu distintivo em mãos e correu para ver o que estava acontecendo. Saiu abrindo caminho em meio às pessoas, dizendo:
- Polícia de Los Angeles, me deixem passar!
Viu um policial com uma cara assustada berrando ao celular sobre onde estariam os bombeiros. Reconheceu-o de imediato, era o parceiro de seu marido, Gregory Hanson.
- Hanson, Hanson! O que aconteceu aqui? Onde está o Danny?
Ele voltou os olhos escuros para ela e balbuciou as palavras: - Sinto muito.
- Sente muito pelo o quê?- questionou ela, temerosa.
- Ele foi um herói Ana, um herói!
- De que merda está falando?
- Estávamos perseguindo um cara que havia participado de um "pega" na ponte esta noite, ele estava dirigindo como um louco, deu de frente com o carro de uma mulher que vinha sozinha com a filha pequena. O homem morreu na hora, mas a mãe e a garotinha estavam vivas, presas entre os escombros.- Hanson soluçou. – O Danny viu o combustível se espalhar rapidamente e correu para salvar as duas, mas só teve tempo de salvar a menina. Quando voltou para salvar a mãe, os carros explodiram logo depois e ele...
Ana-Lucia sentiu um aperto no peito e o ar faltou-lhe. Olhou para a ambulância, uma garotinha muito branca e de cabelos loiros estava sendo atendida pelos paramédicos. Voltou a olhar para os carros em chamas e inevitavelmente imaginou o corpo do marido queimando lá dentro.
- Nãoooooooooooo!- gritou histérica.
Hanson a amparou enquanto a vista dela escurecia e ela perdia completamente os sentidos.
Continua...
