Capítulo II
Uma Passagem de Ano Terrestre em Omega
Brilliance aterrou em Omega na véspera de ano novo. Mal a nave pousou, Kaidan chamou John e Doris à parte e informou-os de que iriam os três falar com Aria, a manda-chuva do planeta. Saíram e foram directos ao Afterlife, o clube mais in de Omega. Ao aproximarem-se da entrada da zona VIP, John fez uma das suas piadas:
- Comandante, podia ter avisado que era para vir para a farra, nesse caso tinha posto um perfume mais cheiroso.
Kaidan deitou-lhe um olhar de "agora não" e dirigiu-se ao mercenário que guardava a entrada, um Krogan com uma cicatriz que lhe atravessava a face duma ponta à outra.
- Avisa a Aria que o Comandante Kaidan Alenko está aqui para falar com ela.
O Krogan fez um ar de aborrecido, mas, mesmo assim, afastou-se um pouco para perguntar alguma coisa pelo transmissor. 30 segundos depois voltou a aproximar-se com a resposta.
- Só entra o Alenko.
Kaidan chamou os outros à parte antes de entrar.
- Não me parece boa ideia que vá sozinho, comandante.
- Não te preocupes, Jacobs. A Aria não vai tentar nada contra um oficial da Aliança, não é parva nenhuma.
Doris torceu o nariz sardento a esta resposta, mas Kaidan era o comandante e ela só tinha que seguir as suas ordens.
- Entrem pelo andar de baixo e estejam atentos.
Kaidan passou pelo guarda e entrou no clube. A primeira coisa que reparou foi na música que tocava alto, coisa que ele pouco apreciava. Aproximou-se de uma mesa cheia de guarda-costas, onde Aria o olhava com um ar desafiador, mesmo estando ele bem armado.
- Finalmente conheço o segundo dos heróis da cidadela. Só falta mesmo a Shepard.
Kaidan sentiu um arrepio na espinha ao ouvi-la mencionar Valquíria, mas tentou não parecer afectado quando respondeu.
- Para uma mulher tão bem informada como tu, devias saber que não é possível conhecer alguém que está morto.
Aria fez um sorriso irónico e não respondeu logo. Por fim disse:
- Claro. Então, o que te traz por cá, Alenko?
- Ouvi dizer que tens informações para negociar.
- Senta-te e diz-me o quão valiosas para ti são informações sobre as colónias terrestres e talvez possamos chegar a um acordo.
Kaidan sentou-se e ela aproximou-se dele, olhando-o de cima a baixo com um sorriso no canto da boca.
- A Shepard andava muito bem acompanhada, estou a ver. Já a Liara era bastante boa e tu também não és nada de deitar fora.
Kaidan olhou-a friamente, não estava ali para flirtar com ninguém, muito menos quando essa pessoa estava sempre a fazer reparos sobre Valquíria.
- Vai directa ao assunto, por favor. - respondeu friamente. Aria deu uma gargalhadinha.
- Estou-te a incomodar a falar dela? Não te preocupes, vamos já ao que interessa, ainda é cedo para falar dela, de qualquer das formas.
Kaidan arqueou a sobrancelha levemente. Aria só podia estar a fazer jogos mentais com ele.
- Tens ou não alguma informação? - perguntou, já a perder a paciência.
- Se tenho informações? - Aria deu mais uma gargalhadinha. - Querido, eu sei tudo o que se passa em Omega e fora de Omega se me interessar e este assunto pode não me interessar directamente mas interessa-te a ti e isso convém-me.
Pegou num datapad e mostrou-lhe a imagem de outra asari parecida com ela, mas mais nova.
- Esta é a minha sobrinha, Diana. Está neste momento em Gargarin Station e o que se passa é que a quero fora dali. Se ma trouxeres sã e salva, dou-te toda a informação que tenho sobre as colónias.
Kaidan já sabia que Aria não ia entregar as informações de mão beijada, mas voltar a Gargarin?
- Porque não mandas os teus mercenários?
Aria pareceu chocada com a pergunta.
- Porque são mercenários! - bufou, impaciente, e continuou. - Eu explico-te. A Diana não é uma asari qualquer, ela tem poderes bióticos extraordinários e não quero imaginar o que lhe aconteceria se caísse nas mãos erradas. E os mercenários só respondem a uma coisa: créditos. Fora de Omega não os posso controlar.
Kaidan reflectiu naquilo por uns momentos. Não queria nada ter que voltar a Gargarin Station. Quando era criança tinha passado bastante tempo lá, a treinar os seus poderes bióticos. O turian que estava encarregue dos estudantes não tinha a mínima piedade deles e fora em Gargarin que Kaidan perdera o controlo pela primeira vez na vida e isso tinha-o afectado para sempre. Mas a estação não era agora o que fora anteriormente.
- Ok. - Kaidan respondeu com um suspiro. - Mas é bom que não me estejas a enganar.
Levantou-se e Aria seguiu-o com os olhos, exibindo um sorriso de triunfo nos lábios. Olhou-o novamente de cima a baixo e despediu-se.
- Até breve, Alenko.
Kaidan ainda sentia os olhos da asari pregados nas suas costas enquanto descia as escadas e passava pelos guardas, directo ao andar de baixo do clube. Viu Doris e John perto do bar e aproximou-se.
- Alen... Comandante! - exclamou Doris ao vê-lo. Sentiu as faces arder com aquele lapso e baixou os olhos, tentando disfarçar. John estava tão divertido a piscar o olho a uma asari que nem reparou em Kaidan, então a colega deu-lhe uma cotovelada.
- Comandante, conseguiu alguma coisa? - perguntou John ainda a olhar a asari que se afastava indiferente.
- Falamos quando estivermos a bordo, vamos.
E saíram apressados do clube.
De volta à nave, Kaidan reuniu a sua tripulação para actualizar a missão. Explicou-lhes qual era o passo seguinte e depois deu-lhes autorização para festejar a passagem de ano. Mesmo estando longe da Terra e da família, podiam sempre confortar-se com aquelas pequenas coisas. Até Akihiko parecia satisfeito.
Após a reunião, Kaidan retornou ao seu quarto. Não se conseguia libertar da estranha sensação de que algo não estava certo. A maneira como Aria se referiu a Valquíria... Será que sabia de alguma coisa? Será que havia alguma ligação entre ela e a mensagem que ele recebera? Ela tinha mencionado Liara e, agora que ele pensava nisso, a antiga companheira ficara bastante abalada com a morte de Shepard. Além de ter perdido a mãe há pouco tempo, Kaidan sabia perfeitamente dos sentimentos fortes que Liara tinha por Valquíria. Será que a asari sabia alguma coisa e o transmitiu a Aria? Podia nem ser nada, afinal de contas cada um dos antigos companheiros da Normandy se tinham separado e ele nem sequer se tinha incomodado a despedir-se ou a manter contacto. Aliás, durante o primeiro mês após a morte de Valquíria, ele esteve completamente morto para o mundo. A única coisa que sabia era que Tali tinha voltado para a Flotilla e assumira um cargo importante na sociedade quarian. De Liara, no entanto, não sabia nada. Neste momento, o melhor era mesmo continuar com aquele plano. Salvar Diana e tentar saber o máximo possível que Aria soubesse.
De repente os seus pensamentos foram interrompidos por uma voz que veio do lado de fora do quarto.
- Comandante? - alguém chamou timidamente. Kaidan abriu a porta e do outro lado estava Doris com o seu cabelo ruivo solto e um vestido azul-escuro com um decote simples e bonito. - Estamos de saída para o Afterlife. Não se junta a nós?
- Não sei... Estou um pouco cansado...
- Oh, claro. - Doris pareceu um pouco decepcionada. Kaidan olhou-a por uns segundos, sem dizer nada, suspirou e acabou por aceitar o convite.
- Vou só mudar de roupa. Esperem por mim.
Doris afastou-se com um sorriso radioso e ele voltou para o quarto para se arranjar. Olhou-se ao espelho, enquanto se vestia, e reparou como tinha algumas olheiras e os olhos pesados. "Que se lixe.", pensou e saiu do quarto para ir ao encontro dos seus companheiros.
Passado umas horas Kaidan estava sentado, sozinho, a observar Doris, Susy e Danielle na pista de dança do Afterlife. Simon também se encontrava no clube, sentado com um salarian, a conversar com as cabeças muito chegadas. Passados uns minutos, quando uma das músicas mais mexidas acabou, Doris aproximou-se.
- Uff, estou mesmo cansada. - disse, enquanto se sentava. Tinha as faces coradas e a franja molhada do suor. Kaidan deu um gole na sua bebida antes de responder.
- Ainda bem que se estão a divertir.
- O Comandante é que ainda não veio experimentar a pista de dança!
- Não sei dançar e não precisas de ser tão formal nos nossos tempos livres, Doris.
A rapariga sorriu, mas, antes que pudesse continuar a conversa, John apareceu a praguejar e com a silhueta duma mão marcada a vermelho na face.
- John! A tua cara!
- Não te preocupes, querida, foi apenas um mal-entendido. - respondeu com a voz a arrastar. Claramente já tinha bebido uns copos a mais.
- Mas conta lá o que se passou. - pediu Kaidan, com um ar divertido.
- É pá... Sabes como eu sou sempre um cavalheiro com as mulheres, enfim, não gosto de as ver sozinhas, alguém se pode tentar aproveitar... - Doris revirou os olhos e John continuou, sem dar importância. - Então, estava uma asari (muito jeitosa, Alenko, devias ter visto, ias-te babar) e eu meti conversa com ela, e tal, e posso, eventualmente, ter oferecido a minha companhia para ela passar a noite.
- E ela esbofeteou-te. Foi bem merecido! - interrompeu Doris, mas John ainda não tinha acabado.
- Achas? O problema é que ela já estava comprometida e quem me esbofeteou foi a outra asari, a companheira dela. Enfim, não gostou que eu tivesse dito que ela se podia juntar.
Kaidan e Doris desataram a rir.
- O quê? Era uma proposta séria e legítima!
- Ninguém duvida disso, Johnny. - respondeu Doris, num tom irónico. John deixou sair um arroto que chamou a atenção de dois salarians que estavam na mesa ao lado.
- Estou um pouco indisposto... Acho que a noite acabou para mim.
Dito isto, John levantou-se e dirigiu-se rapidamente à saída. Então, Kaidan reatou a conversa.
- Espero que o John não faça disparates também quando está de serviço. Já tinhas servido com ele?
- Não, na realidade nunca estive embarcada, é a primeira vez.
Doris pareceu um bocado envergonhada com a sua inexperiência, mas Kaidan continuou a questioná-la, interessado.
- E onde estiveste colocada antes?
- Horizon. Está sempre lá uma guarnição e eu estive lá uns dois anos, desde que saí da academia até agora.
- Espero que gostes desta nova experiência.
- Sim, espero que sim. Afinal de contas é uma grande honra servir com um dos heróis da Cidadela.
Kaidan deitou um olhar vazio à pista de dança, onde Susy dançava agora com um jovem Drell. O rapaz parecia maravilhado, com uma expressão que lembrava a de alguém a quem tinha acabado de sair a lotaria. Doris continuou a conversa, apesar do silêncio de Kaidan.
- Como era trabalhar com a Shepard? Desculpa as perguntas, mas eu sempre a admirei, desde o que aconteceu em Akuze. Uau, ela devia ter uma força de espírito brutal para não desistir e conseguir sobreviver apesar da sua unidade ter sido dizimada. Tenho pena que nunca a possa vir a conhecer...
Normalmente, Kaidan evitava todo o tipo de conversas sobre Valquíria, mas naquele momento, talvez por já ter bebido um pouco, as palavras saíram-lhe livremente.
- Sim, ela era muito determinada e persistente.
Doris estava excitadíssima por saber mais sobre Valquíria e não parou por aí as suas perguntas.
- É verdade que a Aliança e o Concelho proibiram a Normandy de voar e mesmo assim vocês roubaram a nave para perseguir o Saren?
- Sim. Servir com a Shepard era sempre uma aventura. Ela nunca desistia do que sabia que era o correcto e não tinha medo do imprevisível. Sempre me tentou mostrar que às vezes na vida é preciso arriscar. Nessa noite valeu a pena... - Doris reparou que a expressão de Kaidan se tornara amarga, mas o que ela não sabia é que ele não se estava a referir especificamente ao que fizeram com a nave, mas sim ao que se passou entre os dois nessa noite. Kaidan prosseguiu.
- Ela era dura e rígida quando tinha que ser, mas lembrava-se sempre de que é normal as pessoas errarem e que merecem sempre uma segunda oportunidade. Mesmo Saren... E sempre que alguém precisava lá estava ela para ajudar e apoiar em tudo.
Kaidan baixou os olhos para as suas mãos que brincavam com um papel, em cima da mesa. Doris estava só calada e com um ar constrangido, tinha-se apercebido claramente da maneira carinhosa como o seu superior tinha falado de Shepard e como a conversa o tinha afectado. Por fim, quebrou o silêncio.
- Alenko, desculpa, não devia ter mencionado este assunto.
- É normal quereres saber mais sobre a Comandante Shepard, ela é o raio duma heroína, afinal de contas.
Kaidan tentou parecer casual com esta resposta, mas Doris continuava a ver a tristeza a transparecer dos olhos dele e, num impulso, pôs a mão levemente no seu braço. Kaidan afastou-se bruscamente e levantou-se.
- Doris, desculpa, já está a ficar tarde, vou-me embora.
A rapariga ficou ainda sentada, sem se mexer, a vê-lo deslizar em direcção à saída, passando pelo meio das pessoas que dançavam e saltavam divertidas.
Quando saiu do clube, Kaidan sentiu-se tonto, provavelmente por causa da bebida. Parou um pouco para tentar recuperar o fôlego, quando sentiu uma mão no ombro e uma voz familiar.
- Não aguentas a bebida ou quê?
- Garrus?
- Ok, estou a ver que te lembras de mim e só vês um Garrus, por isso não estás tão mal como pensei.
Kaidan sorriu e cumprimentou o turian que outrora partilhara Normandy com ele.
- E então, Alenko? Eu convidava-te para uma bebida, mas parece que já te encharcaste, o que, se bem me recordo, não é muito normal em ti.
- Eu não bebi assim tanto. Acho... Mas e então? Que fazes por aqui? - perguntou Kaidan, tentando compor-se e não se fazer passar por um bêbedo.
- Estou em... negócios. Tu continuas pela Aliança, presumo?
- Sim e tu? Sempre voltaste para o C-Sec?
- Na... Já estava cansado das burocracias do C-Sec mesmo antes de ter embarcado convosco. - com esta resposta assumiu uma postura mais séria para a próxima pergunta. - Como tens andado? Eu sei que foi duro perder a Shepard, até para mim, mas...
- Está tudo bem, Garrus. - Kaidan interrompeu-o friamente e o turian não insistiu mais.
- Foi bom ver-te, Kaidan. Tem cuidado contigo.
- Até mais ver, Garrus.
Despediram-se e cada um foi para o seu lado. Kaidan já tinha ouvido mais vezes falar de Shepard nestes últimos dias do que durante os dois meses seguintes ao acidente, provavelmente também porque os passara metido em casa. Mas já chegara à conclusão que ia ser sempre assim, afinal Shepard e a sua tripulação eram considerados os heróis que salvaram a Cidadela.
Já dentro de Brilliance, entrou no seu quarto e sentou-se na cama. Não se estava a sentir muito bem, mas pelo menos não lhe doía a cabeça. Só conseguia pensar em como o passado teimava em assombrá-lo. Primeiro Liara e agora Garrus em Omega? Suspirou e tirou um datapad de uma das gavetas. Quando o ligou, apareceu uma imagem de uma notícia em que o cabeçalho dizia "Primeira Humana Spectre: Valquíria Shepard". Continuou a passar pelas imagens que tinha guardado, quase todas eram notícias de Valquíria e as restantes eram fotografias tiradas na Normandy. Parou numa em que apareciam os dois e que fora tirada por Ashley, que insistiu que Shepard tirasse fotografias com toda a gente no seu aniversário, em Abril. Nessa altura, ainda não se passava nada entre os dois, mas mesmo assim, sempre parecera a Kaidan que essa era a foto em que Valquíria mais sorria.
Desligou, finalmente, o datapad e voltou a guardá-lo na gaveta. Por mais que quisesse mergulhar naquelas memórias e nunca mais voltar, sabia perfeitamente que isso era impossível e que agora o que lhe restava era focar-se em voltar a Gargarin Station, ou como lhe era mais familiar, Brain Camp.
