II
Vamos até um aposento, a despeito de todos os brados e comemorações dos demais, e lá nos fechamos. Depois, tomo assento em uma cadeira e indico a outra para que se sente.
- Temos muito o que falar. Me conte, o que ocorreu nesse meio tempo?
Mairon me fita por alguns segundos, certamente sem saber o que dizer. A minha vinda repentina o surpreendeu. Ele ainda não estava pronto para entregar a regência, certamente, e nem para dar conta do que se passou por aqui. Mas sua mente ágil logo encontra o fio da meada e ele começa.
A seguir, vejo todo um panorama de guerras, destruição, mas também de contenção, de reconstrução. Pelo que diz, Mairon trabalhou muito nestes anos. No começo teve de fingir que nada havia aqui, para que os intendentes dos valar não o pegassem. Depois, ele se juntou aos outros e simplesmente trabalhou. Reergueu Angband e pelo que vi ao aqui entrar, a fortaleza está maior do que antes.
Ao final do relato, sorrio.
- Mairon, você parece ter evoluído muito no decorrer desses anos, não?
E é verdade. O brilho dos olhos dele está mais límpido, seu poder pessoal aumentou grandemente. E eu só decaí...! Como isso é possível? Ele sempre foi muito mais prudente do que eu...
Continuo:
- Você está um pouco... quieto. O que tem?
- É que depois de todos estes anos... mesmo para um ainu como eu... é como se meu senhor Melkor houvesse voltado dos mortos. É como se uma lenda se transformasse em realidade.
- Não esperava mais a minha volta?
- Esperava...! Todos os dias tal esperança me acalentava. Mas... vê-lo, agora, aqui... é bem diferente.
Mairon estende a mão para meu rosto e o toca, quase com assombro. Em seguida, sorri. Como se fosse quase um sonho muito bom ao me ver aqui.
- Se me permite saber, senhor... o que ocorreu consigo em Valinor?
- Ah, só aborrecimento. Na prisão, só desprezo, chicotada. Só! Depois de quase enlouquecer sozinho naquele inferno, Varda e Manwë me deram perdão. Vivi um tempo no meio dos eldar de Valinor. Povo tedioso! E aquele Fëanor então? Um porre. Fechou a porta de casa na minha cara, acredita?
- Hun? Sério? Mas que desaforo!
- Um imbecil, ele e aquela cambada de filhos dele. Não sei como a esposa o aguenta.
"Até aquele filho da puta casou e eu não", penso em meu íntimo, mas não revelo o pensamento a Mairon. Se ele souber que no íntimo sempre desejei me casar e agora somente não peço mais ninguém em casamento por medo da rejeição, pode usar isso pra me manipular. Sim, nem nele confio plenamente. Ele, que a mim é o mais confiável.
- O que fez lá?
- Ah, tentei conviver com os imbecis dos eldar. Mas não consegui. Detestei aquela raça de merda. Acredita que depois que os filhos nascem eles param de trepar? Acho que quem os ensinou assim foi Varda, que pela cara insossa não deve trepar há um bom tempo com o imbecil do meu irmão...
Mairon sorri discretamente ao me ouvir falar assim. Repentinamente eu lembro que em minha prisão não trepei com ninguém, pois jamais me dariam essa regalia. Em Valinor tampouco, não tenho o mínimo tesão em eldar aborrecidos e sem sal. Mas nele...
...nele, em Mairon, sempre tive muito tesão. Sem que ele espere, levanto e o tomo pelos cabelos. Não pra machucar, mas pra demonstrar controle.
- Por falar em trepada... sabe há quanto tempo não dou uma?
- Oh... meu senhor...!
- Você deve ter se esbaldado na minha ausência, hein?
- Mas é claro que não!
- Como não, sua puta? Gostando de trepar como gostava, ia deixar de se aproveitar só porque eu estava longe!
- Era diferente! Meu senhor estava ausente, eu precisava reerguer a fortaleza, não teria cabimento eu ficar ao desfrute com outrem enquanto havia tanto trabalho a fazer!
- Em mais de dois mil anos deve ter havido um intervalinho pra você dar umazinha por aí...
- Mas o meu senhor me disse, há muito tempo, ainda em Utumno, que caso eu fosse de outrem na cama, teria meu "fána" despido e seria enviado nu a Valinor...
Sim, é verdade. Ele lembra. E realmente, nu ou vestido, seria um castigo horrível voltar pra Valinor. Um local totalmente aborrecido, aquele!
- Mas Mairon, aquilo era pra quando estava comigo! Quando tinha alguém pra satisfazer as suas vontades!
- Não é justo. Não seria justo, uma vez que meu senhor não havia me dispensado formalmente das obrigações. Nem da fortaleza, e nem do dever para consigo... pois o que havia dito não se referia apenas a meu senhor Melkor em presença, mas também quando estivesse ausente; fosse um dia, um ano, mil anos, ou mesmo dois mil e novecentos anos do Sol, ou ainda trezentos anos das árvores.
- Já não há mais árvores.
- Não?!
- Não. Mas essa história vou contar daqui há pouco. Veja, meu bem.
Ele sorri novamente, e eu retribuo. Sempre gostava quando eu o chamava de "meu bem" antes de eu ir preso.
- Veja, meu bem - continuo - Fico feliz que tenha sido fiel aos meus desígnios. Mas não exigiria que ficasse quase três mil anos do sol sem ninguém. Você teria feito diferente caso soubesse que eu o dispensaria da obrigação?
- Não. Eu só tenho olhos para o senhor Melkor!
Não acredito muito nisso, machucado e repisado que está meu coração. Acho que ele diz isso apenas pra me agradar. Acho até que deu umas trepadas avulsas mas não quer me contar. Enfim, deixa. Ao menos ele cuidou da fortaleza.
- De qualquer forma, pensei que não estaria mais aqui.
- Claro que estaria! Como dito antes, não fui dispensado de meus deveres...
- Podia ter mentido, ido pra longe e ter feito família fora... na Terra Média, com todos esses eldar, há gente que nunca ouviu falar de mim, nem de sua corrupção, meu bem. Melian se casou com Thingol.
- Casar com um elda! Preferiria de fato perder o "fána"!
- Mas poderia ter ido...
- Não. Não fui dispensado das obrigações, como disse antes. E além disso... onde teria mais servos a minha disposição que aqui?
- É verdade. Você foi o manda-chuva enquanto eu estive fora.
- E além do mais, já estou casado com o dever de Angband. Com a Escuridão. E - por que não dizer? - me sinto... de certa forma... casado com o senhor Melkor também.
Observo-o com certa surpresa. Isso foi uma "indireta-super-direta"? Ora, sua puta loira! Quer dar uma de "esposa" agora, depois de ter sido amante?
Mas é verdade. A devoção de Mairon é quase a de um consorte, e não de um amante qualquer. Ele se devota a mim quase como se eu fosse seu deus. Mas após ter dito o que disse, abaixa os olhos, um tanto quanto vexado. Como podem dizer que o corrompi, se ele foi tão leal por todo esse tempo? De fato, perto das hostes de eldar que vivem a brigar em Valinor, ele é praticamente incorrupto.
Sem mais resistir, tomo-o, sento-o em meu colo e o beijo na boca. Essa boca...! Há quanto tempo não a beijava! Mas logo me lembro de como é. Ele também. É como se nunca houvéssemos nos separados. Nos beijamos por muito tempo, como para matar mais uma sede da alma que do corpo.
- Mairon...!
- Meu senhor!
- Tá, você estava sem ninguém. O dever falou mais alto. Mas agora o seu senhor voltou. Além de me entregar as chaves de Angband, como fez, deve entregar também o que é meu por direito. Dê-me seu corpo, Mairon. Vamos trepar, sua vadia!
Ele sorri, os olhos dourados faiscando. Tomo-o pelo braço e vamos até a banheira, onde tomarei um banho e mitigarei um pouco dessas feridas e enfim... a sede antiga de minha luxúria insatisfeita.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Essa dos elfos pararem de trepar após o nascimento dos filhos, quem declarou foi o próprio Tolkien. Também, sem anticoncepcional, como que ia fazer pra evitar filhos? Por isso o Fëanor tinha tantos.
Beijos a todos e todas!
