HELSINKI
Quase ninguém sabia, mas o verão finlandês era tão magnífico quanto o inverno. Como os próprios nativos do país diziam: era uma explosão de verde. Todas as árvores renasciam, os arbustos, as flores, era como se toda a vida morta pelo inverno, revidasse da maneira mais bonita que conseguia. A cada ano, não importava há quantos anos se morasse lá, era possível continuar se deslumbrando a cada verão.
Pip ficou na capital finlandesa durante os meses de junho e julho – para sua sorte, pois eram considerados os meses mais bonitos do ano em Helsinki. Estava abrindo sua galeria de arte no centro da cidade, estava animado pelo fato de ter conseguido uma sala de exposição próxima ao Museu de Arte Moderna da Finlândia.
Ele estava mais do que no auge de sua carreira, vendia quadros a preços inacreditáveis e a crítica especializada não fazia outra coisa que não fosse elogiá-lo. Por ter se formado na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, em Paris, ele pintava quadros com forte influência renascentista, vinda da Grécia e de Roma. Era exigente com seu próprio trabalho e, com exceção de alguns assistentes que teve, nunca realmente admitia, mas eram raras as vezes em que ele estava 100% satisfeito com o que tinha feito. Ele sempre achava que poderia fazer melhor.
Ele estava prestes a inaugurar sua galeria. Em alguns minutos, pessoas começariam a chegar, repórteres e muitos críticos foram convidados. Sua mãe viria também e alguns amigos parisienses, cidade onde atualmente tinha comprado sua casa.
O loiro bonito e extremamente bem vestido respirou fundo e autorizou que a entrada fosse liberada aos convidados. Os garçons começaram a servir champanhe, canapés, uísque e alguns tipos de vinho branco. Em uma sala separada haviam mariscos e outras bebidas, como vodca finlandesa e russa, riisipiirakat – um pequeno bolo feito com arroz, típico da culinária finlandesa.
Ele tentava dar atenção a todos os convidados, sempre muito educado e prestativo, calava os grupos quando começava a falar das inspirações para suas obras, geralmente as pessoas ficavam bastante admiradas em saber que um homem como ele, tão jovem, pudesse ser tão inteligente, possuir tanto conhecimento, sem falar em seu talento inquestionável. Bastava uma olhada para sua principal obra-prima, que ele chamava de "Ses Yeux" - um quadro grande com dois olhos negros enormes, exibindo chamas vermelhas e alaranjadas dentro. Ainda não tinha sido avaliado, pois ele relutava em vender, tinha um apreço especial por aquele quadro. Ricaços excêntricos do mundo inteiro já haviam oferecido verdadeiras fortunas por aquele quadro, mas Phillip sequer titubeava: era sempre "não está à venda".
Ele agora encarava o quadro acompanhado de Eloah, sua melhor amiga da faculdade. Chegaram a dividir um apartamento quando ele descobriu que ela estava passando dificuldades financeiras. Ela só aceitou porque sabia que Pip passa há uns bons quilômetros de ser heterossexual.
- Vai me contar um dia sobre ele? - Ela perguntou tomando um gole de sua champanhe. Tinha um coque simples, mas muito elegante nos cabelos castanhos claros. Um vestido preto básico, justo até o joelho, com decote quadrado e alças grossas. A corrente de prata fina segurava um pequeno rubi em corte diamante.
- Não tem nada pra contar. - Pip sorria de canto olhando para o quadro, não querendo exatamente falar a respeito. Gostava de deixar as pessoas pensando, imaginando o mistério que rondava ali. A única coisa que tinham certeza é que não era um par de olhos qualquer.
- Philip, qual é! - Ela sorriu e Pip já tinha perdido a conta de quantas vezes ela já tinha tentado fazê-lo falar, e ele sempre mudava de assunto.
- É sério, acho que as pessoas gostam de ver quadros e criar uma história sobre eles. - Pip respondeu com um sorriso tímido, quase contido. - Tive apenas uma boa inspiração. E saiu algo... bonito. - Ele falou pausadamente e Eloah teve certeza que não se tratava somente daquilo. O olhar do loiro alto era apaixonado demais para ser apenas uma "boa inspiração". - Vou pegar uma bebida. Pra ser sincero, estou louco para experimentar a vodca daqui. - Ele não tratou apenas de mudar de assunto rápido, mas também de sair de fininho. Eloah apenas riu assentindo com a cabeça. Estava quase conformada em entender que não saberia exatamente do que aquela obra se tratava nunca.
- É o melhor amigo dele de infância. - Aurelia dizia se aproximando de Eloah. Havia escutado a conversa. - Esses olhos são de Damien.
- É mesmo? - Agora eram os olhos de Eloah que brilhavam. Era a sensação de mistério resolvido. - Ele te contou?
- Não. - Aurelia riu discretamente e agora também olhava o quadro com mais cuidado. - Mas eu reconheceria esses olhos em qualquer lugar. - Ela disse num tom maternal, carinhoso, lembrando do menino que havia acolhido seu filho como amigo quando ninguém mais o fez. Não tinha certeza, mas aquele quadro definitivamente lhe dizia que Phillip sentia algo especial, mais do que amizade, por Damien.
- Eu sempre admirei Pip pelo profissional que ele é, mas ele é a pessoa mais encantadora que conheço! - Eloah dizia orgulhosa do amigo. - Me sinto muito honrada em saber que ele tem apreço por esse quadro porque o faz lembrar alguém de sua infância. Isso é lindo. - Ela disse quase emocionada. - E onde está esse Damien? Ele viu o quadro?
- Eles se afastaram quando Phillip mudou para a Suíça. - Aurelia não conseguia conter sua parcela de culpa. - Acho que nunca mais se viram. E olha que sou casada com o pai de Damien. - Ela riu de um jeito triste e Eloah ficou surpresa, sentia-se envolvida numa novela, numa trama dramática.
- Mas isso não está certo! Damien precisa ver esse quadro! - Ela dizia empolgada. - Aposto que vai ficar muito feliz e honrado, eu ficaria! - Ela falava rápido demais, estava quase bolando algum tipo de plano. - Quem sabe podemos ajudar eles a se aproximarem!
- Não, não conte ao Pip que lhe falei sobre esse quadro. - Aurelia pedia, preocupada. - Se ele não quer falar a sobre isso, devemos respeitar. Ele teve oportunidades. E não é como se Damien fosse a pessoa mais fácil do mundo.
- Tudo bem. - Ela disse mais calma, suspirando. - Mas ainda acho que eles deveriam se reencontrar.
Aurelia não poderia concordar mais! Não disse nada, mas tinha uma boa ideia de como poderia fazer isso acontecer e certamente usaria chantagens emocionais se fosse preciso. Já tinha mesmo passado da hora de Phillip e Damien se reencontrarem.
A inauguração da galeira de Pip em Helsinki havia sido um verdadeiro sucesso, como já esperado. Ele agora estava no aeroporto e Vantaa, seguia para casa, de volta em Paris. Iria ficar um tempo descansando e aproveitando o outono europeu que chegava. Agosto havia trazido consigo aquele vento frio anunciando que logo aquele verde bonito iria amarelar e cair.
Andava pelo terminal levando sua mala pequena e preparava-se para fazer o check in. Havia uma movimentação significativa em um dos portões de desembarque, parecia ser vários adolescentes chamando por nomes, com seus celulares a postos, algumas meninas sorridentes e com roupas um tanto quanto provocativas. O que tinham em comum era justamente o fato de vestirem preto. Pip ficou curioso, seria alguma celebridade? Alguma banda? Provavelmente.
Ele deu alguns passos para trás e observou uma das meninas passando por ele com ligeira pressa para chegar ao outro lado. Pip sentiu seu coração falhar uma batida quando percebeu que ela segurava uma foto de Damien, um pôster. Na outra mão, tinha uma caneta prata.
Não pode ser. Era muita coincidência.
- Com licença. - Ele saiu da fila onde estava e seguiu a garota. - Ei, menina. - Ele chamou por ela que virou-se sem parar de andar. - O que está acontecendo?
- Praise Satan está no aqui para o show de hoje a noite! - Ela disse sorrindo, andando de costas muito rápido. Phillip mal conseguia acompanhar. - Preciso correr, quero muito tentar ver o vocalista!
- Damien? - Ele arriscou não querendo parecer muito íntimo.
- Sim! - Ela sorriu em resposta mas não ficou para a conversa. Pip desacelerou, ficou inseguro. Queria vê-lo mas não queria.
Obviamente que conhecia a banda, sabia o que Damien fazia. Havia escutado duas ou três músicas apenas por consideração, mas nem de longe era seu estilo. Não sabia o que fazer. Estava no meio do caminho entre o check in e o desembarque do aeroporto, precisava tomar uma decisão rápida sobre o que faria. A última vez que havia visto Damien tinha sido no casamento de seus pais, há cinco anos atrás e o moreno alto mal falou com ele. Não sabia bem o porque, mas conhecia Damien o suficiente para saber que ele não precisava sequer de um motivo para estar irritado. Era quase que seu estado constante.
Respirou fundo e tirou o celular do bolso. Eloah estava ainda na cidade ajudando-o a escolher quem cuidaria de sua galeria em Helsinki. Ele ligou pra ela logo de uma vez antes que mudasse de ideia.
- Ei, pode ligar pro meu hotel de volta? Vou ficar mais uma noite. - Ele disse assim que ela atendeu o telefone. - Depois eu explico, certo? - Ele ouviu ela responder confirmando que não haveria problemas e imediatamente entrou em qualquer site de busca em seu celular procurando por ingressos para o show daquela noite. Torcia para que ainda tivesse algum disponível.
Nem que ele se esforçasse, poderia estar mais inadequadamente vestido naquela noite. Em frente ao Helsinki Areena, ele tinha que admitir que estava um pouco assustado com a quantidade de pessoas vestindo preto, alguns com a cara pintada de um jeito esquisito, muitos gestos com as mãos e muitos olhares de pessoas que certamente pensavam "coitado, deve estar perdido" quando passavam por ele. Ele não tinha ideia do que vestir, apesar de ter tentado ser o mais casual possível, não achou que estaria tão por fora ao usar um terno azul escuro, camisa preta, jeans também preto e sapatos combinando. Mas eram sapatos Moschino. Não estavam com muita coragem de enfrentar uma multidão pisando em seus sapatos caros.
Não sabia muito bem como se comportar mas o lugar estava cheio. Dois telões, um de cada lado do palco, tinham acabado de ser ligados, mostrando a foto da banda. Damien estava mo meio deles todos formando uma espécie de "V". Ele estava longe, jamais conseguiria chegar na frente, viu alguns caras completamente maníacos atropelando todos para ficarem na grade. Pip jamais faria aquilo.
Ficou perto de um dos seguranças do show só pra se assegurar mesmo.
O show durou cerca de uma hora e, apesar de não ter sido gentil com seu ouvido, ficou muito orgulhoso de Damien. Ele tinha uma performance espetacular no palco, interagia com o público, com os outros músicos e era possível ver toda aquela paixão em sua música, tudo que ele fazia, procurava se divertir como se fosse a primeira vez. Pip estava impressionado com a naturalidade com que o amigo de infância conduzia o show, era um verdadeiro frontman.
- Hyvää yötä, Helsinki! - Ele disse após o fim da última música. "Boa noite, Helsinki". Pip achou graça e extremamente encantador que ele tenha se dado ao trabalho de aprender uma frase em finlandês, para delírio total do público. - Kiitos paljon! - Sorrindo, o seu "muito obrigado" em finlandês pode não ter sido numa pronúncia perfeita, mas era tão raro o ver sorrir, como se estivesse orgulhoso de si mesmo, que Pip quase furou a multidão para tentar subir no palco e abraçá-lo.
A verdade é que ele já nem estava mais ligando para os sapatos.
- Existe alguma possibilidade de falar com a banda? - Ele perguntou ao segurança. O homem alto, gigantesco, olhou de cima pra ele, com cara feia. Não respondeu, apenas fez que "não" com a cabeça. - É porque Damien é meu amigo de escola, adoraria vê-lo! - Ele insistiu, achando que seria uma excelente razão.
- Amigo, sabe quantas pessoas vêm aos shows dizendo que são amigos, parentes ou até mesmo esposas deles? - O segurança respondeu percebendo uma certa ingenuidade real em Pip. - Não podemos permitir esse tipo de coisa, se eu fizer isso pra você, terei que fazer para todos.
- Certo, eu entendo. - Ele pôs as mãos nos bolsos e conformou-se. Estava frustrado, na verdade não tinha a intenção de ver Damien, mas só pelo fato de ser totalmente impossibilitado, o fez sentir que ao menos queria ter a escolha.
Por algum motivo o segurança olhou novamente para ele. Achou estranho, se fosse qualquer outra pessoa ou repórter, um fã ou alguém tentando tirar algum proveito, teria insistido. "Eu entendo" não era exatamente o que aquele pessoal dizia. Ofereciam dinheiro, bebidas, as mulheres – e até alguns homens – ofereciam "algo mais". Sem perceber, o próprio segurança já estava rindo olhando um Phillip que parecia uma criança que tinha acabado de descobrir que Papai Noel não existia.
- Olha... Está vendo aquele cara ali atrás daquela parafernalha de som? - O segurança voltou a falar com Pip apontando para o equipamento que fazia o retorno do som para o palco, assim os músicos podiam "se ouvirem".
- Sim, estou. - Pip respondeu mirando um homem sério, de cabelos compridos e barba, parecia Jesus Cristo. Vestia uma camiseta de uma banda sueca chamada Amon Amarth.
- Ele se chama Luke, é um dos produtores da banda. Pode fala com ele, de repente ele deixe você ter acesso ao camarim. - O segurança disse e viu Phillip sorrir e agradecer, quase correndo de encontro ao tal produtor. Ao voltar a mirar o público, viu que a banda voltava para o "bis".
Pip andou a passos largos para onde havia sido informado que deveria ir. Não entendia exatamente porque estava se dando ao trabalho de fazer aquilo, nem sabia se queria ver Damien e, se o visse, nem saberia o que dizer. E, mais ainda, não tinha certeza se Damien iria querer vê-lo.
- Olá, boa noite. - Ele disse, educado, quase formal. O produtor notou uma certa estranheza no jeito de falar dele, no sotaque britânico e, principalmente nas roupas.
- E aí. - Ele respondeu, meio desconfiado.
- Eu me chamo Phillip. - Pip dizia, quase alegre, recebendo olhares do outro homem que estava ajudando a mexer nos retornos. - Gostaria de saber se eu poderia ir falar com a banda. Eu sei que você pode não acreditar, mas sou amigo de infância de Damien. - Ele dizia, modesto, era até engraçado.
- Claro que é. - Luke ironizou, não tinha como levá-lo a sério.
- Eu estou falando a verdade. - Pip dizia com o tom de voz mais calmo do mundo, quase infantil. - Estudamos juntos em South Park.
- Qualquer pessoa com acesso a internet pode ter várias informações sobre a infância de Damien. Não ache que outras pessoas não tentaram isso. - Luke continuou. - E Damien sempre fica irritado quando acreditamos.
Phillip suspirou, sabia que não adiantaria tentar convencer ninguém. Por mais que fosse verdade, realmente se colocou no lugar daquelas pessoas e provavelmente não acreditaria também. Ele realmente ficou com um pé atrás no momento em que Luke disse que Damien ficava irritado, isso ele sabia que era provavelmente verdade. De fato, não conseguia imaginar como Damien poderia ser adorado pelo fãs ao mesmo tempo que, pelo que Pip conhecia, deveria passar longe de ser "um cara legal" com um bando de desconhecidos.
- Obrigada mesmo assim. - Pip agradeceu e voltou a prestar atenção no show. Os produtores voltaram a se concentrar em seu trabalho ao ver que Damien voltou sozinho ao palco para o bis. Tinha um violão acústico em mãos e sentou-se num banco colocado para ele em frente ao microfone.
- Quem sabe mais uma...? - Ele perguntou ao microfone sorrindo de canto. O público delirou, respondendo com gritos e aplausos.
Damien começou a tocar a versão acústica de uma música que Pip conhecia muito bem. Chamava-se "Journeyman" e Damien tinha escrito aos quatorze anos, era sua primeira composição. Era especial. Ele havia mostrado a Phillip um dia antes dele embarcar para a Suíça.
Flashback
- Mas tem que prometer que não vai rir. - Damien dizia com o velho violão em mãos quando os dois estavam no porão da casa de Eric Cartman. Era aniversário de Eric e todo mundo estava comemorando na casa. Damien precisava fumar e, como o fazia escondido, foi até o porão acompanhado por Pip.
Pip sinalizou dizendo algo como "vai, toca logo" e Damien começou a tocar a introdução da música. Não estava pronta, mas ele cantou até a parte do refrão, que era até onde tinha escrito.
In your life you may choose desolation
(Em sua vida, você pode escolher a tristeza)
And the shadows you build with your hands
(E as sombras você constrói com suas mãos)
If you turn to the light
(Se você virar-se para a luz)
That is burning in the night
(Que está queimando na noite)
Then the Journeyman's day has begun
(Então seu dia de viajante começou)
I know what I want
(Sei o que quero)
And I say what I want
(E digo o que quero)
And no one can take it away
(E ninguém pode tirar isso de mim)
- Não terminei ainda... - Damien disse inseguro.
- Está incrível. - Pip respondeu sincero, não só porque eram amigos. - Parece que é você mesmo nessa música.
- Acho que... - Ele hesitou antes de continuar, não gostava de se abrir muito, de se explicar, mesmo que fosse para Phillip. - Penso que é isso que acontece comigo, quer dizer... Se você quer se livrar de algo... Precisa se esforçar, ninguém vai tirar as coisas ruins de dentro de você.
Phillip entendia bem do que Damien estava falando, estava se libertando. Estava decidido a buscar o que queria, queria ser "o viajante".
No momento em que Damien deixou o violão de lado, Phillip se inclinou na direção do moreno e, sem medo, o beijou como se o mundo fosse acabar a qualquer momento. Não sentiu-se nenhum pouco surpreso quando Damien correspondeu. Era o primeiro beijo para ambos, por isso não foi nenhuma perfeição, mas serviu para mostrar todo aquele sentimento envolvido, uma mistura de amizade, cumplicidade e paixão, que ninguém precisava saber, somente eles. Nem que aquilo durasse por alguns minutos. Nem que aquilo fosse uma despedida.
Fim do Flashback
Quando Damien terminou a música, seguiu-se aplausos e o refrão continuado, cantado apenas pela multidão de fãs. Ele se despediu e agradeceu novamente a presença de todos e dessa vez o show realmente tinha acabado. O palco voltava a ter as luzes desligadas, mas as pessoas ainda permaneciam. Ainda demoraria um bom tempo para aquilo tudo acalmar e esvaziar.
- Ele sempre toca essa música nos shows? - Phillip perguntou curioso antes que Luke se afastasse, como fez o outro homem que estava com ele.
- Sim, geralmente no final, os fãs pedem. - Luke respondeu enquanto retirava alguns fios e cabeamentos de luz do caminho. - É a primeira vez que vem num show?
- Sim. Não é exatamente o meu tipo de música. - Ele sorriu em resposta e ouviu um sussurro de Luke dizendo "percebe-se" olhando-o dos pés a cabeça. - Mas essa música eu conheço, de anos atrás. - Ele riu e Luke passou a prestar atenção. - Damien deu seu primeiro beijo por causa dela.
Luke parou o que estava fazendo. Damien nunca havia contado aquilo pra ninguém, com exceção de Luke. Nenhuma revista sabia, nenhum repórter, ninguém sabia, era um detalhe extremamente íntimo que Damien jamais deixaria vazar. Se tinha uma coisa que Luke tinha certeza era que ninguém sabia daquele detalhe sobre a música. Até hoje, Luke ainda sentia-se privilegiado por saber de algo tão íntimo de Damien, mas sabia que tinha falado apenas porque estava muito bêbado mesmo, na noite em que seu pai havia se casado.
- Como é que você sabe disso? - Luke perguntou de uma maneira nada sutil que Pip chegou a se assustar por um momento, como se soubesse algum segredo da CIA que não deveria saber.
- Como eu disse, sou amigo de infância dele. - Pip disse, não revelando o real motivo pelo qual sabia: ele estava lá. - Temos a mesma idade, estudamos juntos. Realmente o conheço. - Pip dizia da forma mais verdadeira que conseguia e, nesse momento, Luke soube que aquele nerd engomadinho estava falando a verdade.
- Não conte isso a ninguém. - Ele pediu agora de um jeito menos estarrecedor para Pip.
- Tudo bem, não tinha a intenção de fazer isso, foi apenas um comentário. - O artista plástico respirou fundo, ainda não conseguindo evitar as lembranças. - Gosto da música.
- Olha... - Luke começou um pouco receoso. - Ele deve ter ido para o camarim agora, mas posso te mostrar onde é. Não fale com ninguém, não diga onde está indo, vou pedir para um dos seguranças lhe acompanhar. Não olhe para os lados, comporte-se como se fosse alguém da staff. Se alguém desconfiar que você é algum tipo de fã com privilégios, metade dessa gente vai vir atrás de mim pra me matar só pra ter acesso aos caras. - Luke falou sério e Pip concordou com a cabeça como um soldado que havia entendido as instruções.
Luke chamou um dos seguranças e pediu que ele levasse Pip até Damien. Ficaram alguns longos segundos conversando ao pé do ouvido e o segurança parecia passar informações pelo rádio, perguntando onde Damien estava e se ainda se encontrava na Areena, ou já estava no carro indo para o hotel. Ao receber a informação de que Damien estava ainda em seu camarim, o segurança agradeceu e fez um sinal para que Phillip o seguisse.
Pip sentiu que seus pés pesavam uma tonelada e estava muito inseguro. Mais inseguro que em sua dissertação sobre História da Arte quando fez seu trabalho de conclusão para poder se formar.
Ele tinha que admitir que o fato de ter ouvido aquela música naquela noite havia mexido com ele, com seu coração, com seus sentimentos. Não sabia exatamente onde ele e Damien haviam "se perdido" no caminho, mas achava que no fundo, bem no fundo, o moreno alto nunca o havia perdoado completamente por ter ido embora, por tê-lo deixado sozinho quando poderia ter lutado para ficar em South Park, para que dessem continuidade ao que aquele beijo tinha significado. Aquilo sim havia seriamente mexido com Phillip e o deixava muito mais apreensivo agora para vê-lo do que no início da noite.
Ao chegar em seu destino com o segurança, o homem grande apontou uma escada atrás do palco. Pip deveria descer e lá encontraria o empresário da banda que já sabia que Phillip estava chegando. Assim o loiro o fez, desceu as escadas e o empresário apontou a porta do trailer improvisado com os camarins dos músicos. O empresário disse a Pip que precisava atender uma ligação, mas que o camarim de Damien estava longo atrás e tinha as letras "D.T." na porta, seria fácil para ele identificar.
Pip tentava não sorrir pois se sentia idiota andando pelos corredores escuros para fora do palco com um sorriso na cara de quem estava indo conhecer o Mickey Mouse.
Ele avistou a porta de Damien e bateu educadamente.
Nada.
Novamente, duas batidas na porta.
Nada.
Olhou ao redor e pensou que ele poderia estar em outro lugar. Andou mais a frente a fim de dar a volta pelo trailer para ver se havia outra entrada ou se ele estava em algum outro lugar.
E o moreno alto estava. Estava atrás de seu próprio trailer, num canto mais escuro e solitário abraçado a um garoto de cabelos claros que não tinha mais que 20 anos. Damien o beijava de uma maneira animalesca, Pip percebeu que o garoto estava quase gozando só de ser tocado por Damien. Ele tinha os cabeços bagunçados e e não sabia exatamente o que fazer, era como se Damien fosse um parque de diversões e o garoto mal soubesse em qual brinquedo queria ir primeiro. Ele escalava o corpo do músico – por ser bem mais baixo que ele – beijava seu pescoço e agora preparava-se para ajoelhar-se e abrir as calças do vocalista.
Pip não conseguia continuar assistindo aquilo.
Se policiou para fechar a boca pois nem tinha percebido que seu queixo estava caído e seus olhos ardiam porque ele havia esquecido de piscar.
Não sabia o que pensar. A sensação era de que tinha deixado cair um copo de cristal no chão e agora só conseguia ouvir os cacos se quebrando num azulejo frio. Copo esse que jamais poderia ser consertado. Estava chocado e a culpa era dele mesmo. Se deixou levar e criou expectativas para acontecimentos que nunca existiriam. Se deixou levar por uma lembrança antiga, uma música que provavelmente não significava mais nada para Damien, apenas o momento do "bis" do público ou um dinheiro a mais pelos royalties que ela poderia proporcionar.
Onde ele estava com a cabeça? Vir a um show de heavy metal para ver uma pessoa que jamais fez qualquer esforço para pegar o telefone e ligar pra ele, saber como estava?
Phillip respirou fundo, tentando esquecer o que havia visto e tomou o rumo de volta de onde tinha vindo. Quando chegou até as escadas, deu de cara com Luke, que agora parecia menos carrancudo e mais simpático.
- E aí, falou com ele? - O produtor perguntou, bloqueando a passagem de Pip. - Aposto que ele ficou em choque quando te viu!
- Ele está... ocupado. - Pip respondeu com uma serenidade conformada. Fazendo o possível para não demonstrar o quão idiota estava se sentido. - Não quis interromper.
- Ele está com alguém. - Luke obviamente percebeu o que Pip quis dizer com "ocupado". - Eu não sabia, desculpe. Se quiser, eu falo com ele, digo que você está aqui.
- Não. - O loiro quase o interrompeu. - Por favor, não diga a ele que estive aqui. - Phillip queria se manter educado, mas Luke percebeu o constrangimento. - Não diga nada.
- Como você se chama? - Luke disse um pouco desconfiado.
- Desculpe, eu nem me apresentei quando conversamos. - Pip sorriu discreto oferecendo a mão direito. - Me chamo Phillip. E foi um prazer conhecê-lo, agradeço por ter permitido a minha presença aqui. - Pip agora agradecia como se o homem tivesse comprado um de seus quadros. - Desculpe se lhe causei algum tipo de transtorno.
- Não, está tudo bem. - Luke, se não tivesse acabado de se dar conta de com quem estava falando, diria que estava sendo muito formal. - Foi um prazer conhecê-lo também e asseguro que Damien iria gostar de saber que veio.
- Não, não. Eu faço questão que ele não saiba. Acho que estou sendo inconveniente. - Pip disse e agora finalmente conseguia passar pelo homem rumando para o topo das escadas, querendo sair daquele lugar o mais rápido possível. - Mas novamente muito obrigado e boa noite.
- Boa noite. - Luke respondeu com um sorriso fraco enquanto o homem se afastava a passos largos e as mãos nos bolsos.
O produtor e um dos homens de confiança de Damien fechou a cara e andou até o trailer de Damien. Agora ele andava até a porta, ainda abraçado com o fã que estava antes. Dizia a ele coisas como "entra que eu já vou". Ele viu o produtor se aproximando e não se importou de estar sem camisa e com as calças abertas.
- Luke. - Ele disse ao ver o homem se aproximando. - Está tudo bem?
- Você é tão idiota que nem consigo verbalizar. - Luke disse sério, e Damien franziu o cenho obviamente sem entender. O produtor suspirou. - Esse garoto pelo menos é maior de idade?
- Claro que é! - Damien estava quase ofendido. - Qual é o seu problema?
Mas Luke não respondeu, lembrou-se com pena do semblante de Pip, sabia quem ele era, Damien já havia falado dele.
- Tem pessoas que vêm ao show realmente para ouvir o que você tem pra cantar. Que realmente se importam com sua música, pessoas que apreciam você por seu talento e suas composições. E você continua escolhendo as que vem aqui pra chupar seu pau. - Luke disse naquela típica sinceridade de amigo que precisava, de vez em quando, dar uns puxões de orelha para o bem do outro.
- De que porra você está falando? - Damien estava tão confuso que Luke chegou a achar injusto o que tinha acabado de dizer. Não poderia, nem em mil anos, querer que Damien entendesse do que estava falando e, por uma questão de manter a palavra independente de quem lhe pedisse segredo, não disse nada sobre Pip.
- Vê se come esse moleque do caralho logo e vai pro hotel. Você precisa dormir. - Bronqueou o produtor em resposta e Damien, se não estivesse com mais tesão do que raiva, teria provavelmente começado uma discussão homérica com seu produtor e amigo, que agora se afastava já alcançando as escadas.
Mas Damien não poderia se importar menos naquela hora. Entrou em seu trailer e o garoto com quem estava já havia tirado as roupas, estava completamente duro acariciando seu membro, esperando por Damien que, naquele momento, não queria pensar em mais nada que não fosse transar com aquele garoto.
E não se arrependeu. A lembrança que ele tinha até hoje de Helsinki era justamente aquela: uma das melhores noites de sexo da sua vida.
