Capítulo 2
A perda dos pais, quando tinha apenas onze anos, fora um período sombrio para Isabella, mas Emmett estivera ao seu lado, confortando-a, animando-a e prometendo que tudo ficaria bem novamente. Emmett era oito anos mais velho que ela e, embora fosse filho do primeiro casamento de sua mãe, e portanto seu meio-irmão, Isabella o adorava e confiava nele desde que podia se lembrar. Seus pais viajavam com tanta frequência que mais pareciam adoráveis visitantes, entrando e saindo de sua vida três ou quatro vezes por ano, levando-lhe presentes e desaparecendo pouco tempo depois, numa nuvem de alegres adeusinhos.
Exceto pela morte dos pais, a infância de Isabella fora extremamente prazerosa. Seu espírito risonho a transformara na favorita de todos os empregados, que acabaram por adotá-la. O cozinheiro lhe dava doces; o mordomo ensinou-a a jogar xadrez;
Aaron, o cocheiro-chefe, ensinou-a a jogar cartas e, anos mais tarde, a usar uma pistola, para o caso de ocorrer uma situação em que precisasse se proteger.
Porém, entre todos os seus "amigos" em Havenhurst, aquele com quem Isabella passava mais tempo era Oliver, o jardineiro que ali fora trabalhar quando ela estava com onze anos. Um homem calado e de olhos bondosos, Oliver cuidava da estufa e dos canteiros de Havenhurst, conversando suavemente com suas mudas e plantas.
– As plantas precisam de carinho – ele explicou certa vez, quando Isabella o surpreendeu dizendo palavras encorajadoras a uma enfraquecida violeta, na estufa. – Exatamente como as pessoas. Experimente – convidou-a, meneando a cabeça na direção da planta. – Diga alguma coisa animadora para esta linda violeta.
Isabella sentira-se uma tola, mas seguira as instruções, pois a capacidade de Oliver como jardineiro era inquestionável – os jardins de Havenhurst haviam melhorado drasticamente nos poucos meses desde que ele começara a trabalhar. Então, inclinara-se para a violeta e, do fundo do coração, dissera:
– Espero que você recupere a linda aparência de sempre, o mais breve possível! – Afastara-se um pouco, esperando, ansiosa, que as folhas amareladas se erguessem para o sol.
– Já dei a ela uma dose do meu remédio especial – Oliver a informara, movendo com cuidado o vaso para a prateleira onde deixava todas as pacientes adoentadas. – Volte daqui a alguns dias e verá como ela estará ansiosa em lhe mostrar o quanto se sente melhor. – Oliver, como Isabella percebeu mais tarde, chamava as plantas que davam flores de "ela", e as demais de "ele".
No dia seguinte, Isabella fora à estufa, mas a violeta continuava tão triste como antes. Cinco dias depois, já esquecida da planta, voltara apenas para dividir algumas tortas com Oliver.
– Sua amiga está ali, esperando para vê-la, senhorita – dissera o jardineiro.
Ela aproximara-se da prateleira e encontrara a violeta com as delicadas flores erguendo-se rígidas nos frágeis caules, as folhas empertigadas.
– Oliver! – gritara, maravilhada. – Como conseguiu?
– Foram as suas palavras bondosas, e um pouco do meu remédio, que a salvaram – ele respondera e, porque pôde ver o brilho de genuína fascinação nos olhos dela, ou talvez porque quisesse distrair a garotinha órfã de suas tristezas, a levara para dar uma volta pela estufa, ensinando-lhe os nomes das plantas e mostrando-lhe os novos enxertos que estava fazendo.
Aquele dia marcou o início do duradouro caso de amor de Isabella com as plantas. Trabalhando ao lado de Oliver, com um avental amarrado na cintura para proteger o vestido, aprendeu tudo o que ele podia lhe ensinar sobre seus "remédios", adubos e tentativas de enxertar as plantas umas com as outras.
E quando Oliver lhe ensinou tudo o que sabia, Isabella passou a ensinar a ele, pois levava uma grande vantagem: ela sabia ler, e a biblioteca de Havenhurst havia sido o orgulho de seu avô. Assim, ela e Oliver sentavam-se lado Isabella lia em voz alta sobre novos e antigos métodos de ajudar as plantas a crescer mais fortes e vibrantes. Em cinco anos, o "pequeno" jardim de Elizabeth abrangia a maioria dos canteiros principais. E onde quer que se ajoelhasse, armada com sua pazinha, as flores pareciam vicejar em torno dela.
– Elas sabem que você gosta delas – disse Oliver certo dia, com um de seus raros sorrisos, quando Isabella ajoelhou-se num canteiro de coloridos amores-perfeitos. – E esta é a maneira de demonstrarem que também a amam: ficando lindas assim.
Quando a saúde de Oliver exigiu que ele se mudasse para um lugar de clima mais quente, Isabella sentiu imensamente sua falta e passava ainda mais tempo no jardim. Ali, dava asas à imaginação, desenhando novos arranjos e dando-lhes vida, recrutando lacaios e cavalariços para ajudá-la a aumentar os canteiros, até que cobrissem uma parte recém-aferrada que tomava toda a extensão dos fundos da casa.
Além da jardinagem e do companheirismo com os criados, uma das grandes alegrias de Isabella era sua amizade com Alice Lawrence. Alex era a vizinha mais próxima e, embora um pouco mais velha, compartilhava com Isabella da mesma alegria adolescente de passar horas, à noite, contando arrepiantes histórias de fantasmas até estivessem tremendo de medo, ou de ficar na "casa da árvore", confidenciando segredos e sonhos particulares.
Mesmo depois que Alice se casou e partiu, Isabella não se considerava solitária, pois possuía algo que amava e que ocupava todos os seus sonhos e a maior parte de seu tempo: Havenhurst. Tendo sido originalmente um castelo, completo com um fosso e altas torres cercadas de pedras, Havenhurst fora a moradia de uma das ancestrais de Isabella, uma viúva do século 12. O marido dessa avó específica havia tirado partido de sua influência sobre o rei e conseguira que várias cláusulas adicionais, pouco comuns na época, fossem anexadas ao legado de sucessão de Havenhurst. Tais cláusulas asseguravam que a propriedade pertenceria a sua esposa e aos seus sucessores, pelo tempo que quisessem mantê-la, fossem estes homens ou mulheres.
Como resultado, com a idade de onze anos, quando seu pai morreu, Isabella havia se tornado a condessa de Havenhurst e, embora o título em si significasse muito pouco para ela, Havenhurst, com sua história vívida, significava tudo. Quando chegou aos dezessete anos, estava tão familiarizada com essa história quanto com a de sua própria vida. Sabia tudo sobre os ataques que a propriedade sofrera, bem como os nomes dos agressores e as estratégias que os condes e condessas haviam empregado para mantê-la a salvo. Sabia tudo o que havia para saber sobre os primeiros proprietários, suas realizações e fraquezas – desde o primeiro conde, cuja coragem e habilidade no campo de batalha o transformaram numa lenda (mas que, secretamente, temia a esposa), até o filho deste, o jovem conde que viu o infeliz cavalo ser sacrificado por tê-lo derrubado quando praticava arremesso de lança no haras.
O fosso havia sido tapado séculos atrás, as paredes do castelo removidas, e a mansão fora alterada e aumentada até que, agora, tivesse a aparência pitoresca e desconexa de uma casa de campo, que se assemelhava muito pouco, ou quase nada, à construção original. Porém, mesmo assim, graças aos pergaminhos e pinturas guardados na biblioteca, Isabella sabia como tudo havia sido, incluindo o fosso, as paredes de pedra e talvez até o haras.
Em consequência de tudo isso, aos dezessete anos Isabella Swan era bastante diferente da maioria das jovens bem-nascidas. Extraordinariamente culta, equilibrada e dona de uma praticidade que se evidenciava a cada dia, ela já estava até aprendendo, com o intendente, a administrar sua propriedade com eficiência. Cercada por adultos confiáveis durante toda a sua vida, possuía um otimismo ingénuo, acreditando que todas as pessoas eram boas e dignas como ela própria e os outros moradores de Havenhurst.
Assim, não era de se admirar que, naquele dia fatal em que Emmett chegou inesperadamente e, depois de arrastá-la para longe das rosas que ela estava colhendo, informou-a, com um largo sorriso, de que ela iria fazer sua estreia na sociedade de Londres dali a seis meses, Elizabeth reagisse com prazer e sem nenhuma preocupação de enfrentar quaisquer dificuldades.
– Está tudo acertado – Emmett disse, animado. – Lady Eliza Hale concordou em ser sua madrinha, como um tributo à memória de nossa mãe. Esse negócio vai nos custar caro, mas valerá a pena.
Isabella o encarou, surpresa.
– Você nunca mencionou o preço de nada, antes. Não estamos com dificuldades financeiras, não é, Emmett?
– Não estamos mais – ele mentiu. – Temos uma fortuna, bem aqui em nossas mãos, só que eu ainda não havia percebido.
– Onde? – ela indagou, completamente confusa com tudo o que ouvia, além de ser invadida por uma sensação de dúvida.
Rindo, Emmett levou-a para a frente do espelho e, segurando-lhe o rosto entre as mãos, a fez encarar a própria imagem. Depois de lançar um olhar intrigado ao irmão, Isabella olhou-se no espelho e também riu.
– Por que não me avisou que estou com o rosto sujo de terra?
– perguntou, esfregando a mancha com a ponta do dedo.
– Isabella – ele disse, com um risinho -, isso é tudo o que você vê no espelho... uma mancha de terra na face?
– Não. Estou vendo meu rosto, também – ela respondeu.
– E o que lhe parece?
– Parece meu rosto – ela retrucou, com divertida exasperação.
– Elizabeth, agora este seu rosto é a nossa fortuna! – Emmett exclamou. – Eu nunca havia pensado nisso, até ontem, quando Bertie Krandell me falou sobre a esplêndida oferta que sua irmã acabara de receber de Lord Cheverley.
Isabella estava atónita.
– Sobre o que você está falando?
– Sobre seu casamento – ele explicou, com seu sorriso inconsequente. – Você é duas vezes mais bonita do que a irmã de Bertie. Com este rosto, mais Havenhurst como dote, poderá fazer um casamento capaz de alvoroçar toda a Inglaterra. O casamento que lhe dará jóias, vestidos e belas casas, e a mim, contatos que serão mais valiosos do que o dinheiro. Além disso brincou -, se por acaso eu estiver com alguma dificuldade, de vez em quando, sei que você não me deixará faltar dinheiro... poderá tirar de sua mesada.
– Nós estamos com problemas financeiros, não é? – Isabella insistiu, preocupada demais com isso para pensar em seu debut em Londres.
Emmett desviou o olhar e, com um suspiro cansado, fez um gesto para que fossem sentar no sofá.
– Estamos numa situação um pouco crítica – admitiu. Isabella podia ter apenas dezessete anos, mas sabia quando ele a estava enganando. E, pela maneira como a olhou, suspeitava que era exatamente isso que ele estava fazendo.
– Na verdade – ele corrigiu-se, relutante -, nossa situação é muito crítica. Muito, mesmo.
– Mas, como? – ela perguntou, e apesar de sentir uma onda de temor invadi-la, conseguiu manter-se calma.
O rosto de Emmett tingiu-se com o rubor causado pelo embaraço.
– Em primeiro lugar, nosso pai deixou uma quantidade assombrosa de dívidas, algumas delas de jogo. Eu próprio acumulei mais do que umas poucas dívidas do mesmo tipo. Nestes últimos anos, consegui segurar os credores, tanto os dele como os meus, da melhor maneira que pude, mas estão se tornando impacientes, agora. E não é só isso. Havenhurst nos custa uma fortuna, Isabella. Há muito tempo que nossa renda não bate com as despesas, se é que algum dia isso aconteceu. O resultado
final é que estamos mergulhados em dívidas até o pescoço, você e eu. E teremos de hipotecar até objetos da casa para pagar algumas dessas dívidas, ou nenhum de nós poderá mostrar a cara em Londres novamente. Mas isso não é o pior. Havenhurst pertence a você, não a mim, mas se você não fizer um bom casamento, muito em breve acabará perdendo-a para os credores.
A voz dela soou apenas um pouco vacilante, ocultando a torrente de medo e incredulidade que tomava conta de Isabella:
– Você acabou de dizer que uma temporada em Londres custa uma fortuna, e é óbvio que não temos nada para gastar – chamou-o ao bom senso.
– Os credores nos darão uma trégua no instante em que souberem que você está noiva de um homem de posses e importante na sociedade. E, eu lhe prometo, não terá dificuldade em encontrar um assim.
Isabella achou todo o plano frio e mercenário demais, porém Emmett balançou a cabeça. Dessa vez era ele quem se mostrava mais prático.
– Você é mulher, minha querida, e sabe que terá de se casar... Todas as mulheres precisam casar. Mas não vai encontrar ninguém aceitável, se continuar trancada aqui em Havenhurst. Não estou sugerindo que concordemos com qualquer oferta: você irá escolher alguém por quem sinta uma forte afeição. Só depois eu negociarei um noivado longo, levando em conta sua pouca idade
– ele prometeu, sincero. – Nenhum homem respeitável empurrará uma jovem de dezessete anos para o matrimónio antes de ela estar pronta para esse passo. É o único jeito, Isabella acrescentou ao vê-la disposta a argumentar.
Embora tivesse sido sempre protegida, Isabella sabia que a expectativa de Emmett em relação a seu casamento era algo correto. Antes de seus pais morrerem, haviam deixado bem claro a obrigação da filha de casar-se de acordo com os desejos da família. Nesse caso, seu meio-irmão tinha agora a missão de selecionar o candidato, e sua confiança nele era irrestrita.
– Ora, anime-se! – disse Emmett. – Será que nunca sonhou em usar lindos vestidos e ser cortejada por belos rapazes?
– Algumas vezes, talvez – ela admitiu, com um sorrisinho encabulado, mas era uma
jovem normal, saudável e cheia de vontade de dar e receber afeto. E também lera sua cota de histórias românticas. As últimas palavras de Emmett eram bem interessantes. – Pois muito bem disse, com uma risadinha. – Vamos tentar.
– Temos de fazer mais do que tentar, Isabella. Temos de conseguir, do contrário você terminará como uma pobre governanta dos filhos de alguém, em vez de condessa, ou em alguma posição melhor, quem sabe, com seus próprios filhos. Quanto a mim, posso acabar numa cadeia, por causa das dívidas.
A imagem do irmão numa cela escura e a dela sem Havenhurst eram suficientes para fazê-la concordar com qualquer coisa.
– Deixe tudo por minha conta – ele finalizou, e foi o que ela fez.
Nos seis meses seguintes, Isabella se dedicou a superar todos os obstáculos que poderiam evitar que Isabella fizesse uma aparição espetacular no cenário londrino. Uma certa Sra. Porter foi contratada para treiná-la naquelas intrincadas habilidades sociais que não haviam sido ensinadas nem por sua mãe nem por sua governanta. Com a Sra. Porter, Elizabeth aprendeu que jamais deveria demonstrar que era inteligente, culta ou que nutria o mais vago interesse pela horticultura.
