Harry Potter e O Herói de Mil Faces
Capítulo 2: Em Busca do Tempo Perdido


Marcel Proust, Remembrance of Things Past


Rony achava que não tinha se sentido tão aterrorizado desde a noite que saíra para resgatar os amigos e ao invés disso fora cercado por Comensais da Morte encapuzados e levado para seu apartamento.

Não era só por ser arrastado e sacudido por Allegra pelos úmidos corredores de pedra que fediam à tortura medieval e pareciam suar o sangue dos prisioneiros que vieram antes dele. Era apenas pelo fato de estar fora de seu apartamento pela primeira vez depois de uma eternidade, algo que sempre achara que ia amar, não importando as circunstâncias. A hipótese de ele desenvolver uma pequena agorafobia devido a seu longo confinamento nunca lhe passou pela cabeça, mas devia ter passado... Leu sobre essas coisas. Tudo parecia grande demais, e com certeza havia pessoas demais por perto, mesmo sendo apenas ele, Allegra e dois outros bruxos do Círculo. –Aonde está me levando? –perguntou, sem esperar muito uma resposta.

-Vou te guardar num cantinho seguro – Allegra respondeu.

Rony olhou em volta. – Aqui é Lexa Kor, não é?

Ela olhou duro na direção dele. – Como sabe disso?

- Ah, é impressionante o que se pode descobrir de dentro de uma prisão.

Allegra pareceu pensar em fazer mais perguntas, mas deixou de lado. –Sim, bem... Se conheço Harry, vai desconfiar que te trouxe pra cá, mas ninguém sabe como chegar até aqui. Claro que temos que nos preocupar com a maldita Granger, nunca se sabe o que ela vai inventar.

Rony parou de caminhar. –Conhece Hermione também?

Allegra sorriu pra ele. –Meu querido Sr. Weasley, tenho um cantinho especial em minha mente onde mantenho um catálogo de maneiras como gostaria de matá-la. Visito esse canto regularmente. – ela puxou o braço de Rony, forçando-o a acompanhar o passo. Rony não sabia o que pensar. Ouvira Allegra mencionar Hary antes, mas nunca Hermione. Nem suspeitava que sua melhor amiga possuía qualquer histórico com sua captora. Nem sabia se Harry e Hermione ainda eram tão próximos quanto na escola ou mesmo se ainda eram amigos. Era algo que sempre se perguntava. Tinha esperanças deles ainda manterem contato, mas quem poderia saber como a suposta morte dele os tinha afetado? Só podia tentar adivinhar como o tempo deles em Hogwarts terminara, o que fizeram depois da formatura, onde moravam, que empregos tinham tomado. As pessoas mudam, seguem a vida, deixam pra trás as amizades da juventude.

Pensar que seus dois melhores amigos teriam se afastado o encheu com uma profunda tristeza e desejava ardorosamente que este não fosse o caso, mas não tinha como saber de verdade. Passara muitas horas imaginando os destinos deles. Algum dos dois estaria casado? Talvez um deles ou os dois tivesse filhos. Hermione fora monitora-chefe como todos previam? Harry jogava quadribol profissionalmente? Pelo jeito que Allegra falava nele, Rony suspeitava que na verdade trabalhava em alguma profissão de combate ao mal. Talvez fosse um Auror ou um Executor. Hermione estava na mesma linha de trabalho? Deve ter feito alguma coisa pra despertar a ira de Allegra. Talvez ajudasse Harry em suas cruzadas como sempre fazia... Como os dois faziam. Isso dera esperanças a Rony deles ainda serem amigos se estavam trabalhando juntos, como deviam estar... Era demais imaginar que os dois estavam lutando contra o mal independente um do outro.

Ele sempre soube que sua família e seus amigos acreditavam que ele estava morto. Allegra se certificou que ele soubesse disso, de modo que não se permitia nem ter esperança de um resgate para manter durante seu aprisionamento, que ela indicava que seria por tempo indefinido. Não tinha idéia do por que ela o mantinha. Ele encontrou outras formas para manter sua sanidade e se reconciliar com sua solidão infinita, mas em algum lugar no fundo de sua mente sempre se perguntou quanto tempo demoraria antes que enlouquecesse completamente.

Chegaram a uma câmara larga, vazia com vários corredores em direções diferentes. Allegra puxou a varinha e murmurou alguma coisa. Mais à frente, uma porta estreita apareceu na parede e se abriu. Ela o empurrou na direção da escuridão. Ele olhou lá dentro, seu coração afundando. –Isso não é uma prisão – disse. –É um maldito depósito de vassouras.

-E é todo seu – Allegra disse, empurrando-o lá dentro e tirando as correntes dele enquanto fazia isso. A cela escondida tinha menos de um metro quadrado, com espaço suficiente apenas para ficar em pé. Rony percebeu com um horror crescente que não poderia nem mesmo sentar. A porta fechou na cara dele e ele viu que uma boa parte era na verdade de tela, invisível pelo lado de fora, apesar dele poder ver a câmara e o rosto de Allegra.

Ele balançou a cabeça. –Não vou durar muito tempo aqui, sabe.

-Não vai precisar. Estou arrumando um pequeno subterfúgio para seus amigos. Vão te encontrar, com certeza, mas tragicamente, vão chegar tarde demais pra salvar sua vida.

Rony suspirou. – Preparando mais um pseudo-eu, não é?

- Este vai ser perfeito. Então nem imagine que está prestes a sentir o gosto da doce liberdade, Weasley.

- Não vai enganá-los.

- Bem, talvez não. Mas mesmo que não engane, quando perceberem a verdade você vai estar guardado em outro lugar, bem escondido.

- Algum dia vai me contar por que tem tanto trabalho pra me esconder? O que, quer um bichinho bruxo seu? Não que eu seja mais um bruxo, nem de longe.

- Não foi idéia minha. Se quiser minha opinião, você é dá mais trabalho do que vale a pena. Mas sei quando seguir ordens – ela suspirou, de repente parecendo muito exausta e sem ânimo. – Vou deixar um grupo de capangas trouxas aqui pra tomar conta de você.

- Se está tão preocupada com meu bem-estar podia ter me dado uma cela um pouco maior – ele disse amargo, sem querer imaginar como estaria depois de passar ali mesmo um dia só.

- Essa cela é pra armazenamento emergencial, temporário e seguro.

- É tudo o que sou? Um móvel pra ser colocado em um depósito?

- Como quiser. – Allegra virou e saiu sem dizer mais nada, o que era estranho. Ela geralmente partia dizendo uma ou duas frase bem-escolhidas.

Rony suspirou, olhando em volta de sua pequena prisão. Uma bela queda depois do conforto, e relativamente, luxo no qual vivera durante os últimos dez anos.

Bem, Harry, ele pensou, se está me procurando espero por Deus que seja rápido.


- Qual é o caso com os travesseiros?- Napoleon perguntou.

Sukesh olhou feio pra ele. – Quando Hermione estiver no transe induzido pelo feitiço, não estará ciente de si e de seus arredores. É melhor se ela ficar sentada ou deitada em alguma coisa macia para que não se machuque sem querer.

Harry olhou em volta para a pequena sala de exames que fora convertida numa câmara para que o feitiço Phenomorbius fosse realizado. Os móveis foram removidos e o chão coberto com almofadas e travesseiros. Os preparativos estavam sendo arranjados para a realização do feitiço, que Sukesh relutantemente concordou em administrar. Hermione passara a maior parte do dia anterior pesquisando tudo o que se sabia sobre o uso do feitiço.

- Quanto tempo vai demorar? – Lupin perguntou.

- Depois que o feitiço for feito, o estado de transe durará o suficiente para que ela acesse a memória de Rony. Pode levar horas, dias até.

Hermione perambulava nos perímetros da sala, os braços cruzados sobre o estômago, olhando em volta para tudo. Parecia calma, mas Harry a conhecia bem demais. Só por sua postura podia dizer que ela estava nervosa com a situação... Não que isso fosse impedi-la. Ele a observava silenciosamente enquanto os outros conferenciavam entre si. Ele aprendera mais sobre esse feitiço nas últimas vinte e quatro horas e nada do que descobrira o fazia sentir melhor por ter permitido que ela o fizesse. Ele queria proibir. Queria insistir. Era tão perigoso, tantas coisas podiam dar errado. Nunca diria isso a ela ou a ninguém, mas a segurança dela era mais importante que encontrar Rony. Não podia evitar essa sensação. Sentia falta de Rony e queria desesperadamente ajudá-lo, mas ao mesmo tempo amava Hermione com uma profundidade que às vezes o assustava e ela tinha que vir em primeiro lugar. Mesmo assim, não conseguia se obrigar a impedi-la. Não podia fazer isso com ela, não quando significava tanto. Mas havia uma coisa que podia fazer.

- Sukesh, mais de uma pessoa pode fazer esse feitiço? – ele perguntou.

- Sim, mas é mais perigoso. É... – ele parou quando percebeu as implicações da pergunta de Harry.

Hermione levantou os olhos e encontrou os dele. – Não – disse baixo.

- Eu vou com você. – respondeu.

- Harry, não. Pense nisso. Não faz nenhum sentido estratégico. Não se manda duas pessoas numa missão perigosa quando uma só pode fazer o mesmo trabalho. Não podemos arriscar nós dois.

- Somos mais fortes juntos, sabe disso.

- Você importante demais! – ela exclamou. –Pra DI, pra todos os bruxos, pra nosso mundo! Harry, eles precisam que você lute as batalhas deles e diminua seus pesadelos. Não precisam de mim.

-Mas eu preciso de você. Vou com você.

-O feitiço é mais arriscado com duas pessoas conjurando. Não vou deixar que arrisque sua vida. – ela disse, uma ponta de histeria aparecendo em sua voz.

-Talvez não – Sukesh disse. –Hermione, a afinidade mágica inerente a Mages dele pode amplificar o poder do feitiço.

-Ou pode tirar tudo de controle. – ela respondeu. – Ninguém pode prever como o fator Mage vai interferir em feitiços padrões. Nunca foi estudado.

-Já perguntei à Sociedade – Harry disse. –Eles acham que no caso deste feitiço, minhas habilidades vão aumentá-lo. Deixe-me ajudá-la nisso.

Ela balançou a cabeça, jogando as mãos pra frente num gesto de negação. Harry reconhecia os sinais; ela estava teimando e jogando a razão pela janela. Ele suspeitava que o estresse finalmente estava influenciando. Ela se jogara nesse feitiço como algo que podia fazer pra ajudar, algo concreto em que se concentrar. A sugestão dele de se juntar jogara a compostura dela fora e agora tudo o que ela conseguia pensar era em mantê-lo longe. – Não, Harry! Se eu não sair disso tenho que saber que pelo menos você estará bem, que ainda estará aqui pra achá-lo e seguir em frente! – Harry jogou a prancheta de lado e deu largos passos na direção dela. Em sua agitação, ela mal registrou sua aproximação. –Vou fazer isso sozinha, droga, e não vai mmmpphh...

As palavras de Hermione foram interrompidas quando Harry a alcançou, segurou seu rosto nas mãos e a beijou. Ela ficou tensa e largou suas anotações, seu lápis fazendo barulho quando alcançou o chão. Harry não desistiu, apenas a segurou com força pela cabeça, pressionando os lábios insistentemente contra os dela. De repente, o pescoço dela relaxou e sua boca abriu sob a dele, um suspiro escapando da garganta. Harry podia ouvir os outros se remexendo desconfortáveis. Apesar de não esconderem seus sentimentos, ele e Hermione não eram conhecidos por exibições desse tipo na frente dos outros. Eles ficavam de mãos dadas com alguma regularidade e um beijo rápido não era tão raro, mas algumas das pessoas que estavam ali mal tinham os visto se beijando de qualquer forma, muito menos um beijo desses, como se fosse a última vez.

Harry afastou o rosto e abriu os olhos e a viu olhando de volta confusa. –Não vou deixar você fazer isto sozinha – ele sussurrou, ainda segurando o rosto dela.

O rosto dela mudou, passando por várias expressões conflitantes. –Certo – ela finalmente disse. –Vamos juntos.

Ele balançou a cabeça que sim. – Ótimo – ele começou a se afastar, mas ela o segurou.

- Só não ache que pode ganhar qualquer discussão enfiando a língua em mim, gostosão.

Ele deu um sorriso. – Bem, em todo caso é uma boa distração.


Quando o feitiço ficou pronto, Harry e Hermione sentaram de costas um para o outro na câmara preparada. Os dois usavam uma quantidade mínima de roupas pra evitar qualquer restrição física; ele usava calça de corrida e uma camisa e ela leggins e um top. Sukesh estava sentado de pernas cruzadas, com uma fila de livros e papéis a sua frente. –Agora – ele disse – depois que eu fizer o feitiço em vocês, devem entrar em transe imediatamente. De acordo com relatos de outros que fizeram, parece com estar flutuando em um grande oceano onde é possível fazer contato de mente para mente. Como vocês são dois, a primeira tarefa é localizar a mente um do outro para que possam procurar Rony juntos.

- E como procuramos por Rony? – Hermione perguntou.

Sukesh piscou. – Não sei. Nunca fiz isso antes. Acho que simplesmente... Passeiam por aí até que o encontrem.

Harry suspirou. – Certo, estou entendendo agora porque esse feitiço pode demorar dias.

-Apenas segurem firme na mente um do outro – Sukesh disse. – Caso se percam, talvez não consigam voltar.

-Não vamos esquecer – Hermione disse. Ela virou o pescoço para procurar por Harry. –Está pronto?

Ele esticou a mão do lado para que ela pudesse entrelaçar os dedos nos seus. – Pronto.

Sukesh fez um sinal com a cabeça para Lupin e Napoleon, que deixaram a câmara e se juntaram aos outros na câmara de observação adjunta onde todos podiam olhar o procedimento através de um vidro. – Certo. Relaxem e respirem normalmente. – ele deu um momento para se prepararem e então disse as palavras do feitiço. - Phenomorbius incantatem, ad massonias et vitalae.

Um brilho roxo suave emanou da varinha de Sukesh e se partiu em dois fios que circularam os rostos deles e então afundaram na pele. Os dois amoleceram como se estivessem inconscientes, só ficando direitos por estarem apoiados um contra o outro. Sukesh levantou a mão. Apoiando a mão num grande cristal branco que começou a brilhar suavemente; flutuou de sua mão até o ar, mais ou menos um metro acima da cabeça deles. Sukesh levantou e foi para câmara de observação.

- Pra que o cristal? – Napoleon perguntou.

- Monitora o transe. – Enquanto estiver brilhando branco, estamos bem.

- E então... o que agora?

Sukesh sentou, cruzando os braços sobre o peito. – Agora, nós esperamos.


Segunda hora...

Quando Napoleon retornou para câmara de observação com os braços cheios de lanches, o grupo não tinha mudado muito. Sukesh estava sentado na mesma cadeira, os braços cruzados tensos. Lupin estava com os pés em cima da mesa e olhava o teto. Isobel não estava à vista e Henry estava esticado num sofá contra a parede. –Alguma mudança? – Napoleon perguntou, jogando pacotes de salgadinho e alguns sapos de chocolate.

Sukesh suspirou. – Bem, Hermione saiu do canto, o que parece um bom sinal Harry parou de estalar os dedos, o que com certeza é bom porque estava começando a me irritar. E então sentou reto e disse "bacia". O que foi assustador, posso te garantir.

A primeira coisa que os espectadores aprenderam sobre o feitiço Phenomorbius foi que o transe não era pacifico. Harry e Hermione não ficavam sentados quietos enquanto resolviam seus negócios. Eles levantaram, se mexeram, às vezes resmungaram, gemeram, falaram coisas incompreensíveis, e às vezes xingavam. Era no mínimo perturbador. Napoleon suspeitava que onde que estivessem, não estavam felizes. Todos mantinham um olho no cristal branco flutuando no ar, mas até então não tinha mudado.

Napoleon beliscava um sapo de chocolate, automaticamente puxando o cartão do pacote. Numa confluência estranha dos eventos, o bruxo do cartão era Harry. Ele virou o cartão, apesar de saber o que dizia. "Harry Potter, 1980 –" O cartão dizia ainda: "Também conhecido como o menino que sobreviveu, Potter ganhou fama ainda bebê, quando Lorde Voldemort não conseguiu matá-lo, colocando fim, assim, aos tempos obscuros. Ele é conhecido como co-campeão do Torneio Tribruxo de 1994 e por derrotar Voldermort em 1998. O apanhador mais novo num time das casas de Hogwarts do século, Potter quebrou três vezes o próprio recorde de captura mais rápida do pomo-de-ouro.O sr. Potter gosta de jardinagem, literatura e dança swing." Napoleon jogou o cartão no lixo. Já tinha uns três desse. Foi até a janela de observação e olhou na câmara de transe. Hermione estava deitada de bruços virada pro lado e Harry estava sentado com os joelhos contra o peito, balançando devagar pra frente e para trás.

- Talvez a gente deva fazer alguma coisa. – Napoleon disse. –Sinto como se estivéssemos perdendo tempo aqui, só sentados, olhando. Não podemos ajudá-los.

- Eu vou ficar – Sukesh disse. – Eles podem precisar de mim.

- Talvez nós possamos ficar com você, revezando os turnos – Lupin sugeriu.

Henry suspirou. – É, essa é uma boa idéia.

Ninguém se mexeu.


Quinta hora…
- Então eu disse "Não deixe esse relacionamento escorrer pelo ralo só porque não quer dar o braço torcer".

- Não fez isso.

- Fiz sim.

- Merda - o leve xingamento pareceu estranho no melódico sotaque indiano de Sukesh.

- Bem, eu já estava de saco cheio.

- Todos estávamos.

- Sinceramente, estou impressionado que funcionou.

- Não acho que possa levar todos os créditos por fazê-los voltar, Jones.

- Algum crédito?

-Talvez um pouco.

Napoleon riu. – Irônico, não é? Que eu ainda acabei tentando fazer esses dois voltarem.

Sukesh olhou pra ele com uma expressão especuladora. – Sente algo por ela, não é?

- Achei que todos soubessem disso.

- Ah, sempre sou o último a saber qualquer coisa. Fico preso aqui nessa masmorra médica.

- Bem, é mesmo.

- É bem clichê, não é mesmo? Se apaixonar pela noiva de seu chefe? Ficar sofrendo pela mulher que nunca poderá ter?

- Claro que sim. Mesmo assim, há algo de atraente no amor não retribuído. O sofrimento pode ser meio... Terapêutico. Nenhum cara devia passar a vida sem uma boa dose de sofrimento.

Sukesh deu de ombros. – Se você diz.

- Não me diga que nunca sofreu por uma mulher que não pudesse ter... ah, espere, não há nenhuma mulher que você não pudesse ter. Até a rainha provavelmente se ajoelharia diante de você só de você olhar pra ela.

Então Sukesh riu alto, algo que raramente fazer. – Imagem mental interessante, mas duvido muito. Além disso, não sofro por mulheres.

Napoleon piscou, alerta por algo no tom de voz dele. – Sukesh, você é gay?

O médico-chefe limpou a garganta. – Eu não anuncio por aí, mas sou sim.

- Minha nossa. Que perda para as mulheres do mundo. – ele piscou os olhos. – Posso te interessar com um corpinho magro, sotaque do leste e cabelos criativos?

Sukesh o empurrou. – Sai pra lá. Você não gosta de homens.

- Não, mas é bom saber que está lá. E mesmo assim, por você eu posso reconsiderar.

- Fico honrado.

- Você tem um namorado igualmente lindo escondido em algum lugar?

- Não, no momento estou extremamente solteiro. – ele olhou pra direita e pra esquerda e então falou num tom baixo e conspirador. – Confesso que quando comecei aqui me interessei pelo lobisomem residente.

- Lupin?

- Temos algum outro lobisomem trabalhando aqui?

- Deus, espero que não. Nossa. Lupin, hein? Acho que ele é bonito, de um jeito meio desgrenhado e peludo.

- Eu com certeza achei que sim.

- Diz parece muito interessada nele.

- Parece mesmo, não é? Bem, mais sorte pra ela. Nunca consegui reunir coragem de dizer mais do que "oi" pra ele.

- E quanto a Harry? Parece um ritual de passagem por aqui, se apaixonar por ele.

- Não, nunca me interessei. Não é meu tipo na verdade.

- Sorte sua. Ela pode dizer que não, mas Hermione é ciumenta. Ela te separaria com prazer de sua laringe.

Suresh suspirou. – Invejo o que eles têm.

Napoleon repousou a cabeça nos braços que estavam sobre a mesa. – É, todos invejamos.


Oitava hora...

- Como eles estão? – Argo perguntou, entrando na câmara de observação pela primeira vez. Sukesh e Lupin estavam vigiando.

- Até agora tudo bem – Sukesh disse. – O transe parece estável, até pacífico – ela se juntou a ele diante da janela. Na câmara do feitiço, os dois bruxos inconscientes estavam deitados entre travesseiros e almofadas. Durante as oito horas sob o feitiço Phenomorbius, variaram entre estar sentados, deitados, até em pé, mas alguns minutos antes se procuraram cegamente como se o corpo necessitasse do contato. Agora Hermione estava curvada de lado em posição fetal e Harry a segurava contra o peito, os braços em volta de todo corpo dela. O rosto dele estava pressionado contra as costas dela. De vez em quando um deles se remexia, gemia ou até dizia alguma palavra sem sentido.

- Esse feitiço... É assombroso – Lupin disse. – Se me permite a caracterização tão não-científica.

- Concordo – Argo disse, estremecendo um pouco. – E perigoso. Nunca teria permitido se... bem, se eles não estivessem tão determinados e a vida de um homem não estivesse em risco.

- Não acho que seja prazeroso o que eles estão fazendo agora.

- Não parece ser, não é?

Sukesh suspirou, balançando a cabeça. – Espero que ele valha tudo isso.

Lupin virou e olhou pra ele. – Vale pra eles. Ele vale muito, muito mais que isso. Iriam muito mais longe para salvá-lo.

Argo ficou olhando por um tempo mais e então virou para sair. – Me mantenham informada, senhores.


... Décima quinta hora
...
- Você devia dormir um pouco.

- Não – Sukesh disse, esvaziando sua oitava xícara de café desde o início da noite, umas seis horas atrás. – Vou passar a noite aqui – batia os dedos rapidamente sobre a mesa, imerso na vibração do excesso de cafeína.

Isobel olhou pra ele curiosa. – Sua devoção ao trabalho é admirável, Sukesh.

- Sou devotado aos meus pacientes. Meu trabalho não passa de mantê-los bem.

- Falou como um verdadeiro médico. – ela foi até a janela e ficou ao lado de Sukesh. Na câmara do feitiço, Harry estava deitado de costas, todo esticado, o corpo dele coberto por uma camada de suor. Seu peito subia e descia rapidamente, sua cabeça virava para um lado e para o outro como se estivesse no meio de um pesadelo. Hermione estava sentada de pernas cruzadas ao lado dele, segurando sua mão, a cabeça dela pendendo sobre o ombro e o suor se acumulando sobre suas sobrancelhas. – O quanto esse feitiço é perigoso? A verdade.

- Não quer saber.

- Isso é loucura. – ela disse entre os dentes cerrados. – Quanto mais podem agüentar desse jeito? Parece tão... Exaustivo.

- E é. E eles vão continuar pelo tempo que for necessário.

Isobel balançou a cabeça. – Não devíamos ter concordado com isso.

- Foi o que eu disse desde o começo.

- Então por que aceitou?

- Porque sim! – ele exclamou. – Eu os conheço! Teriam feito do mesmo jeito, e as chances deles são maiores com minha ajuda do que sem. Acho que eu... – ele parou de falar de repente. Isobel franziu a testa.

- Que foi?

Ele acenou na direção da câmara. – Olhe – o cristão flutuando acima deles ainda estava brilhando, mas a cor mudou de branco para vermelho.

- É muito ruim?

- Não, significa que eles estão saindo do feitiço. – ele olhou pra ela. – Vá buscar os outros, rápido! – Isobel correu da sala e Sukesh se apressou pra entrar na câmara do feitiço. O ar estava abafado com suor e um leve odor de ozônio. Ele se abaixou do lado deles, checando o pulso enquanto mantinha um olho no cristal e na cor vermelha que se avivava.

A porta da câmara se abriu e Lupin entrou, seguido alguns segundos depois por Napoleon e Henry. – O que aconteceu? – Napoleon perguntou.

Sukesh apontou para Hermione. – Deite ela, rápido.

Napoleon a deitou gentilmente sobre as almofadas. Todos os olhos se levantaram para o cristal, sua cor vermelha se intensificando e um pequeno zumbido começando a emanar dele. Flutuou suavemente até o chão. Sukesh esticou a mão para pegá-lo. O brilho dele pulou para um vermelho ofuscante e então com um pequeno ranger ficou repentinamente escuro.

Os olhos de Harry se abriram e ele respirou engasgado. Sentou reto, parecendo totalmente alerta e olhou em volta até que viu Hermione deitada ali do lado. Ela ainda parecia estar em transe. Ele se inclinou sobre ela, quase sem perceber os outros. – Me perdi dela no fim – ele disse, a voz apertada. – Ela se perdeu.

De repente, Hermione começou a convulsionar, seu corpo ficou rígido e sua cabeça ia de um lado para o outro. Sukesh empurrou Harry pro lado. - Pegue meu kit – disse por cima do ombro. Henry saiu correndo para pegar. Harry tentava abrir caminho de volta para onde estava ao lado de Hermione. – Harry, fique fora do meu caminho.

Harry levantou a mão e Sukesh se sentiu sendo empurrado para trás, por metade da sala. – Posso trazê-la de volta. – Harry disse, se inclinando sobre ela novamente. Ele colocou as mãos sobre o rosto dela, forçou para que os olhos dela se abrissem e olhou intensamente dentro deles, seu rosto a centímetros do dela. Uma intensa luz verde saiu dos olhos de Harry enquanto ele se concentrava no rosto dela, segurando sua cabeça para mantê-la quieta enquanto o resto de seu corpo se debatia.

Vagarosamente o ataque passou e o corpo dela relaxou. Ela ofegava e tremia, mas a consciência voltava ao olhar dela. Harry relaxou um pouco. Ela piscou e olhou pra ele, zonza. – Rony? – ela sussurrou e então caiu inconsciente antes que ele pudesse responder.

Sukesh se apressou pra lado dela. – Certo, vamos levá-la para ala médica – Harry a segurou e saiu apressado da câmara, o resto do time seguindo logo atrás.


Ele estava sentado ao lado da cama dela e segurava sua mão, esperando que acordasse. Ele não pensava na distinta possibilidade dela nunca acordar, que o feitiço pudesse ter lesionado seu cérebro irreparavelmente. Ela ficaria bem. Tinha certeza disso, principalmente porque era a única forma que podia pensar nisso.

Sukesh entrava periodicamente para checá-la, resmungando baixo sobre como o feitiço era insano e seus riscos terríveis e na idiotice geral de todos, incluindo ele próprio. Harry não respondeu a ele, apenas continuava sentado quieto até que ele saísse do quarto de novo. Sukesh era um homem bom, Harry agora começa a notar o quanto tinha de bondade, e se Hermione nunca mais acordasse ou ficasse com danos cerebrais o médico nunca se perdoaria por ter permitido que fizessem o feitiço.

Apesar de não estar considerando a possibilidade dela nunca se recuperar, Harry ainda podia ver um pouco da magnitude da própria culpa caso o impensável acontecesse. Se havia uma constante em sua vida, era a culpa. Ele carregava o peso de dezenas de culpas em seus ombros, algumas delas antigas e confortáveis, algumas ainda novas e irritantes. A culpa o levava anualmente até o túmulo de Cedrico pra deixar flores e pedir desculpas novamente por não ter sido forte ou bom o suficiente para salvá-lo. A culpa pela morte de Rony quase o deixara louco e por pouco não custara a própria vida, assim como a vida de outras pessoas, em sua busca por vingança de Voldemort. O fardo de culpa mais pesado até agora, entretanto, era que seus pais tiveram que pagar com as vidas por terem a falta de sorte de gerar um filho que era uma aberração, uma combinação rara de genes, e uma ameaça a todos aqueles contra quem poderia um dia lutar. Então foram executados sumariamente, e a aberração de sua natureza que causou a morte deles nem mesmo permitiu que morresse com eles.

Hermione brigaria com ele se soubesse que estava, como ela diria, se deprimindo. Não foi sua culpa, ela diria. Você sempre pensa que é tudo sobre você. Ela levantaria e iria até a porta. Se vai ficar se lamentando, não espere que fique aqui sentada te olhando... Mas os olhos delas estariam confortantes e eventualmente ela voltaria e colocaria os braços em volta dele e consolaria. Não deve lutar contra o passado, meu amor, ela diria. O que passou, passou. Tem que pensar no futuro, nosso futuro.

Ele levantou a mão dela até seus lábios e beijou suavemente, e então a segurou apertada contra o peito enquanto passava a outra mão pelo braço dela. Ela parecia menor deitada ali na cama. Hermione não era particularmente pequena, tinha um metro e setenta, com um corpo atlético, mas ele não estava acostumado a vê-la tão frágil. Ele geralmente pensava nela como a mais forte dos dois, sem contar os poderes Mage dele. Se estivessem em perigo, ela acharia uma saída. Se houvesse um problema, ela pensaria em uma solução. Se ele estivesse fraco, ela era forte o suficiente pelos dois. Se ele tropeçasse, ela estaria lá para segurá-lo. A vaga noção que na verdade ele dava o mesmo apoio a ela não importava no momento.

Harry sentiu um nó garganta e o engoliu. Ele uma vez dissera a ela, muito tempo atrás, que não sabia como ser Harry Potter sem ela. O que devia ter dito era que não sabia como ser sem ela.

Hermione se mexeu, os olhos viraram por trás das pálpebras. Harry sentou tenso, apertando mais a mão dela. Ela murmurou no sono enquanto acordava. – hummm... Rony?...

- Hermione? – Harry sussurrou, se inclinando sobre ela.

Os olhos dela se abriram e focalizaram no rosto dele. – Harry?

- Estou bem aqui, querida. – ele beijou a mão dela de novo, duas vezes. – Como se sente?

- Ohh – ela gemeu, a outra mão indo até sua testa. – Estou com uma dor de cabeça horrível.

Sukesh entrou apressado, sem dúvidas alertado por seus feitiços de monitoramento que ela havia acordado. Ele foi pro outro lado da cama e se ocupou checando seus sinais vitais. – Está bem? – ele perguntou a ela.

Ela piscou. –Acho que sim. – a mão dela de repente apertou a de Harry e ela virou pra olhar pra ele, alarmada. – O feitiço! Ele...

- Acabou – Harry disse. – Acabou tudo.

- O que aconteceu comigo?

- Não temos certeza. – Harry disse. – Perto do fim, quando estávamos saindo... Perdi você. Acordei, mas você teve um tipo de ataque.

- Eu lembro... Uma luz verde... Vi seus olhos.

- Eu voltei pra te buscar.

Ela franziu a testa. – Como fez isso?

- Eu... Não tenho certeza.

Sukesh falou a resposta. – Parece que ele usou um tipo primitivo de telepatia pra chamar sua mente de volta pra seu corpo.

Ela sorriu pra Harry. – Meu herói – ela disse.

Ele riu. – Foi você quem teve a coragem pra fazer esse feitiço pra começo de conversa. Eu só fui com a maré.

Ela ficou séria. – E... Funcionou?

- Boa pergunta – Sukesh disse, olhando pra Harry. Até agora tinha evitado discutir o que aconteceu de verdade durante o transe enquanto Hermione se recuperava. Os outros estavam, é claro, morrendo de curiosidade.

- Nós o encontramos – Hermione disse, se sentando. Ela olhou pra Harry. – Nós o encontramos, não foi?

Harry fez que sim. –Não foi fácil. Tantas mentes, e todas elas tão ocupadas, mas o encontramos. – ele pegou a outra mão dela, agora segurando as duas. – Pelo menos agora sabemos que ele está vivo.

A expressão dela mudou. – Não se lembra de nada, não é?

Ele balançou a cabeça que não. – Não. Não lembro de nada. E você?

Os olhos dela se encheram de lágrimas. – Então foi em vão. Eu toquei a mente dele, Harry – ela disse, puxando as mãos e colocando-as sobre o rosto. – Eu o senti, mas foi tão rápido. Tentei pegar as memórias dele, como o feitiço dizia, mas... ah droga. Achei que tivesse conseguido. Mas não lembro de nada.

Harry escorregou para frente e a abraçou, alisando os cabelos desgrenhados dela. Ele beijou a têmpora dela. – Está tudo bem, vamos encontrá-lo. Vamos achá-lo de outra forma.

Os braços de Hermione levantaram para abraçar os ombros dele e ele sentiu que ela relaxava de novo. – Sim vamos encontrá-lo – ela repetiu.

-Certo – Sukesh disse, sua voz firme de médico de volta. –Vocês dois estão sob ordem de tirar uma folga. Um dia inteiro descansando em casa. Não me importa o que vocês façam, só que não tenha nada a ver com isso. O feitiço tirou muito de você dois e não quero ver vocês aqui. Entendido?

Pra variar, Harry não discutiu. – Certo – ele disse. – Posso levá-la pra casa.

- Sim, leve ela pra casa. Deite e leia um livro ou qualquer coisa assim. Vamos continuar trabalhando nisso, não se preocupem – ele sorriu e saiu do quarto.

Hermione recuou, os olhos ainda cheios de lágrimas. – Lamento Harry. Eu falhei.

- Não se desculpe pra mim. Também estava lá, se lembra?

- Mas... Foi minha idéia... Tinha tanta certeza que ia funcionar...

- Não é importante.

- Não é importante? Mas Rony... e a gente...

- Shhh. A primeira coisa com que me preocupo é com você. Vamos encontrar Rony, prometo... Mas temos que cuidar um do outro primeiro, certo?

Ela concordou, colocando a mão no rosto dele. – Eu te amo – ela disse, se inclinando pra frente pra beijá-lo. Inclinou a cabeça pro lado e olhou pra ele. – Sabe que é a 764ª vez que te digo isso?

O queixo de Harry caiu. – Você está contando?

Ela deu de ombros. – Acho que é só como minha mente funciona.

- Sim, sua mente é um lugar esquisito e maravilhoso. – ele arqueou a sobrancelha. – Está contando pra mim também?

- Claro.

- E? estou na frente ou atrás?

- Acredite ou não, estamos empatados.

Ele pensou por um momento. –Acho que está do jeito que deve ser. Eu digo, você diz em resposta e vice-versa. – ele beijou a testa dela -765 – ela sorriu pra ele então, um sorriso doce e quente, e quase desviou os pensamentos dele do primeiro nome que ela disse quando acordou... Quase.


Harry estava lendo na biblioteca quando a casa caiu.

Tinham vindo direto do trabalho depois que Sukesh deu licença do trabalho a eles. Hermione estava quieta e retraída. Quando entraram em casa, ela o mandou se afastar irritada, provavelmente enjoada do tanto que ele tomou conta dela. Ela subira, dizendo que precisa de um cochilo. Harry ficou tentado a segui-la, mas pensou melhor. Ela não era exatamente introvertida, mas Hermione precisava de um tempo de vez em quando. Não era algo novo na personalidade dela, mas depois que o relacionamento deles mudou, Harry começou a tomar isso pessoalmente quando ela queria ficar longe dos outros, inclusive dele. Depois de algumas tentativas frustradas de se intrometer na solidão dela, aprendeu que não é que ela não queria que ele estivesse por perto, às vezes ela só não queria a companhia de ninguém além da própria. Além disso, essas rápidas jornadas solitárias geralmente terminavam com ela procurando por ele e se aninhando em seu colo ou se aconchegando a seu lado.

Então ele foi pra biblioteca ler. O prospecto de um tempo de paz sozinho parecendo melhor a cada segundo. Talvez ele estivesse pegando alguns dos hábitos dela. Ele riu para se enquanto olhava as filas de livros. Havia um pouco de dúvida nisso, na verdade. Ele não começara a vida como um leitor voraz, mas certamente virara um. Provavelmente não era possível passar tanto tempo com uma mulher e não ficar com alguns hábitos em comum.

Estava passando pelas ultimas obras de José Saramago, e ia começar uma nova depois de ter acabado "All the names". Ele pegou "Blindness" da estante e se ajeitou em umas das poltronas de couro.

Quase três horas depois, foi puxado da narrativa pelo barulho de uma porta batendo. Ele pulou, levantando os olhos pra ver Hermione na frente da porta da biblioteca, que ela acabara de fechar atrás de si. Parecia furiosa.

-O quê? – ele perguntou, marcando a página e colocando o livro de lado.

Ela mostrou um papel... Levou um momento pra que ele reconhecesse como um dos cartões de confirmação de presença no casamento. Ela vinha dizendo que queria dar uma olhada neles, mas ainda não o tinham feito. Parecia que tinha decidido fazer isso hoje. – Pode me explicar isso, por favor? – ela disse, sua voz uma leve camada de controle por cima da raiva que escondia. Ele ficava mais alarmado a cada segundo. Hermione era uma pessoa equilibrada, e era necessária alguma coisa séria pra deixá-la furiosa.

- Hã... posso tentar se você disser o que é.

Ela puxou o cartão de confirmação diante dos olhos e leu em voz alta. "Queridos Harry e Hermione, soube do noivado de vocês uns meses atrás e fiquei feliz de finalmente ter acontecido pra vocês. Devo dizer que fiquei surpresa, mas muito satisfeita de ter recebido um convite. Ficarei muito feliz de comparecer. Estou ansiosa para revê-los e dar os parabéns. Atenciosamente, Ronin Savage. – ela olhou duro pra ele. – Isso. É isso que é.

Harry estava num mato sem cachorro. – E? – ele disse, arrastando a palavra, esperando que isso comunicasse sua profunda confusão.

- Harry Tiago Potter! Você convidou a maldita Ronin pra nosso casamento?

- Bem, sim! Nós a convidamos! Ela estava na lista de convidados!

Hermione arregalou os olhos e ficou encarando ele. – Não estava não!

Ele levantou. – Estava sim! Eu a acrescentei na lista umas três versões atrás! Você não notou?

- Não! Se tivesse notado teria dito umas coisinhas! Não te passou pela cabeça que seria uma boa idéia mencionar que ia acrescentar ela?

- Você não mencionou quando acrescentou sua tia-avó Hortense e seus oito filhos!

- Tia Hortense é família!

- Bem, Ronin é uma velha amiga.

- Ela é sua ex-namorada! – o rosto de Hermione estava num alarmante tom roxo.

- Sim. E?

As mãos de Hermione fizeram gestos sem sentido no ar, como se estivesse tentando pegar as palavras perfeitas para dizer o tamanho da estupidez do que ele fez. – Você não pensou que eu poderia ter uma opinião sobre ela ser convidada?

- Pelo amor de Deus, Hermione! Duas de minhas ex-namoradas vão estar ao seu lado! – ele exclamou. – Como eu podia saber que há uma divisão sutil de aceitabilidade entre as mulheres com quem namorei?

- Porque há!

- Então tudo bem com Cho e Gina, mas não com Ronin? – os dois gritavam agora.

- Sim!

- Por quê?

- Porque sim! – Hermione gritou e então ficou em silêncio.

- Por que o que? – ele perguntou mais gentilmente.

Hermione colocou a mão sobre a testa como se tivesse com dor-de-cabeça e então suspirou fundo e foi adiante, falando rápido. – Porque ela é a única com quem ainda consigo te ver. – ela disse. – Não posso te imaginar mais tendo interesse em Cho ou Gina, mas posso imaginar que ainda se sinta atraído por Ronin. – Harry relaxou, percebendo que o ridículo dessa teoria não diminuía seu poder. Ele também conseguia simpatizar com a sensação. Ele tivera quase a mesma reação quando ela considerou brevemente convidar Abel Kilroy. Ele era o único dos ex-namorados que ainda parecia uma ameaça. Ele deu um passo na direção dela. Hermione deu de ombros, parecendo constrangida, mas ainda chateada. – Ela era tão exótica e misteriosa e sexy...

Ele a segurou pelos braços. – Ei – murmurou. – Não tenho nenhum interesse em Ronin, certo? – colocou um dedo sob o queixo dela e levantou seu rosto. Ela lutou, mas finalmente o olhou nos olhos. – Queria que ela estivesse aqui pela mesma razão que quero todos os outros. Vou me casar com você, e isso é meio que um milagre. – disse tocando o rosto dela gentilmente enquanto falava – e quero todo mundo que teve algum significado em minha vida esteja lá pra ver acontecer. Quero que o mundo inteiro saiba, sairia gritando nos telhados se pudesse. – Hermione suspirou e pareceu relaxar um pouco... pelo menos as linhas de preocupação em sua testa suavizaram. – Não vejo Ronin há um bom tempo. Tenho certeza que ela ainda é exótica e misteriosa e sexy, mas não importa se ela for Helena de Tróia, está no passado. A gente teve um namoro legal, mas não é nada comparado com o que nós dois temos.

Hermione desviou os olhos, ainda em dúvida... Mas parecia querer ser convencida. –Mesmo? – ela disse, olhando rápido pra ele. Harry estava perplexo que realmente existisse alguma dúvida, mas ao mesmo tempo o envaidecia um pouco. Era reconfortante para as próprias inseguranças saber que os sentimentos dela eram fortes o bastante pra despertar ciúmes.

- É claro. Você é a única pessoa com quem já considerei passar o resto da vida. Mesmo quando namorava Gina ou Ronin, nunca pensei nelas como possíveis companheiras, mas você... – ele sorriu. - Antes de finalmente acordar pro fato que te amava, ainda assim imaginava nós dois ficando velhos juntos. Morando em casas vizinhas a vida inteira, sentados na varanda quando tivéssemos noventa anos, lembrando os bons velhos tempos e reclamando como as crianças de hoje são erradas. – Hermione riu. –Você foi tudo que tive em minha vida. Ainda é. Certo?

Ela olhou pra ele por um momento e então corou e remexeu os pés. – Certo – ela olhou nos olhos dele rapidamente, constrangida. – Nossa, você deve achar que eu sou tão reclamona...

- Ah não – ele disse. – Vou te contar um segredo sobre os homens. Amamos quando as mulheres ficam com ciúmes. Faz-nos sentir mais masculinos... e amados.

- Bem, você deve estar se sentindo muito másculo agora.

- Na verdade, estou me sentindo um idiota. Devia ter dito que adicionei o nome de Ronin a lista de convidados. Quando você não fez nenhuma objeção, pensei que tinha visto e que estava tudo bem. Minha mente esperançosa, sem dúvidas. – ele olhou pra ela. – Se você quiser, posso desfazer o convite, se realmente não a quiser aqui.

Hermione pensou e então balançou a cabeça que não. –Não, não é necessário. Ela é bem-vinda. – ela olhou pra ele, uma expressão de alarme no rosto. –Ah, Harry... Eu realmente fui dura com você, não fui? Desculpe-me... Não sei o que há comigo...

Ela a abraçou com força. – Não se desculpe comigo pelo meu erro... Mas concordo que realmente foi dura comigo.

Ela enfiou a cabeça no ombro dele, a voz abafada. – Não sei o que deu em mim...

Os ombros dela começaram a tremer e Harry percebeu com uma preocupação crescente que ela estava chorando. – Ei... Tudo bem, de verdade... tudo...

Ela recuou abruptamente e balançou a cabeça. – Droga, aquele feitiço tinha que funcionar... Algo deve ter saído errado. Agora perdemos todo esse tempo, tempo que Rony pode não ter...

Harry franziu a testa, percebendo que a frustração pelo feitiço Phenomorbius fora a verdadeira causa da briga, mas preocupado dela estar se remoendo muito por isso. –Querida, por que não senta e...

- Não! – ela exclamou, empurrando as mãos dele e começando a andar de um lado para o outro. – Não consigo parar de pensar nisso! Falhamos com ele durante dez anos e continuamos a falhar! – Harry ficou olhando enquanto ela ia de um lado para o outro, cada vez mais rápido. – Não suporto pensar nele lá, sozinho... Sozinho naquele apartamento, sem ninguém pra conversar... – Harry olhou atento pra ela. Na distração, as palavras dela saíam sem que pensasse. - ... Nada pra fazer além de ler e olhar pras paredes e jogar xadrez e escrever, escrever... – ela de repente pareceu ouvir o que dizia e parou de repente. Abriu e fechou a boca algumas vezes.

- Hermione, do que... do que você lembra? – Harry perguntou gentilmente.

Ela tentou falar, tentou pegar o fio da meada, mas só encontrava o vazio em suas tentativas. – Eu... eu não sei – finalmente disse.

- Como sabe que ele estava em um apartamento? E escrevendo... Escrevendo o que?

Ela virou com uma expressão angustiada no rosto. – Eu não sei! – gritou. – Meu Deus, Harry... O que eu estava dizendo? De onde veio isso?

- Acho que talvez o feitiço não saiu tão errado assim – ele disse. Segurou a mão dela e a puxou pra fora da biblioteca. –Venha. Vamos ver Sukesh.


Sukesh franziu a testa enquanto olhava os olhos de Hermione com uma lanterninha. –E você realmente não lembra de nada?

- Não. – Hermione disse. – Mas parece que tenho alguma lembrança de... Alguma coisa.

- Hum. Bem, você pode ter recebido memórias de Rony num nível subconsciente. Isso já foi relatado, como você nos informou.

Harry estava próximo, olhando Sukesh examiná-la. – Então ela pode ter uma sensação instintiva das experiências de Rony.

- Sim, talvez.

- Como podemos acessar isso?

Hermione ficou atenta. – Pode me hipnotizar?

- Não, absolutamente não. – Sukesh disse. – Te submeter a um novo transe tão rápido depois de sua experiência com o feitiço Phenomorbius seria extremamente perigoso.

Harry deu a volta de trás dela e sentou. – Hermione, qual foi a primeira coisa que lembra de quando acordou do transe?

Ela deu um pequeno sorriso. – Você estava segurando minha mão.

- E quem mais estava lá?

- A principio ninguém, e então Sukesh entrou.

- O que ele te disse?

- Que eu devia ir pra casa e você também.

- E onde Rony está morando todo esse tempo?

- Em um apartamento, um bem grande, é... – ela parou de repente, arregalando os olhos. – Hã... eu... – ela esfregou a testa, sua expressão se enrugando de frustração. – Droga! Não consigo lembrar de nada!

Harry virou para Sukesh. – Viu? Quando ela pensa nisso, se perde. Não pode lembrar de nada diretamente, mas se você chegar pela portas dos fundos, meio que flui. – ele olhou pra Hermione, o rosto dela mostrando esperança pela primeira vez. – Eu te distraí com algumas perguntas simples e então te fiz sobre Rony quando não esperava.

- Faça de novo!

- Ei, espere. Temos que planejar isso. Podemos usar isso pra obter algumas informações, mas vai precisar de alguns preparos. Preciso escrever uma série de perguntas simples para fazer, pra que eu não precise parar pra pensar na hora.

- Bem? O que estão esperando? Vamos lá! – ela pulou de pé, mas Harry fez um gesto para que sentasse de novo.

- Calma aí. Você precisa estar bem relaxada, acho. Então... não pense muito.

Hermione fez uma careta. – Parar de pensar. Isso não é muito fácil pra mim.

- Exatamente meu ponto.

Sukesh se intrometeu. – Talvez um feitiço sedativo leve possa ajudar. Não o suficiente para afetar seu pensamento, apenas para tirar sua ansiedade e nervosismo. – ele olhou pra Harry. – Talvez a gente deva pedir a Johns pra fazer isso.

- Não, eu faço – Harry disse. – Eu a conheço melhor, e Rony também. Posso fazer perguntas melhores, ela conhece minha voz.

- Concordo – Hermione disse. – Vou ficar mais à vontade se Harry conduzir as perguntas.

Sukesh aquiesceu. – Certo então. Harry, vá fazer suas perguntas. Vou preparar um sedativo para Hermione.


-Então. Aqui estamos novamente. – Napoleon disse. Realmente, encontravam-se todos novamente na mesma câmara de observação em que haviam ficado durante a vigília do feitiço Phenomorbius, só que a câmara em si havia sido revertida ao seu estado original. Uma poltrona reclinável de couro, uma mesa e uma cadeira estavam arrumadas num circulo com iluminação suave. Hermione estava sentada na poltrona, Harry olhava alguns papéis sobre a mesa.

- A transcrição está pronta? – Sukesh perguntou quando entrou na sala.

- Tudo certo – Lupin disse, indicando uma pena pronta sobre um rolo de pergaminho, posicionada para anotar tudo que era dito dentro da câmara de exame.

Eles ficaram olhando quando Harry tirou a jaqueta, enrolou as mangas. Ele levantou e foi até a cadeira de Hermione. – Confortável? – ele perguntou.

Ela fez que sim. – Estou bem – ela olhou pra ele. – Isso vai dar certo.

- Espero que sim.

Ela esticou a mão e segurou o braço dele. -766 – ela sussurrou.

- É, eu também – ele sussurrou de volta, sorrindo, deixando a mão alisar o rosto dela enquanto se ajeitava. Os observadores se entreolharam.

- O que isso quer dizer? – Henry perguntou.

Napoleon deu de ombros. – Não tenho idéia.

Harry voltou para mesa. – Certo, vou começar as perguntas – ele disse. –Apenas relaxe, deixe sua mente limpa e responda o mais rápido possível. Não se preocupe se está certo... Sei que isso vai ser difícil, mas não é importante. Quando eu fizer uma pergunta sobre Rony, vai ter que lutar contra o impulso de parar e pensar sobre que disse. Não pense. Mantenha sua mente limpa, não pense em suas respostas. Se eu perceber que sua mente está se intrometendo, vou voltar pra perguntas fáceis e automáticas, certo?

Ela concordou, fechando os olhos. O feitiço sedativo de Suesh parecia ter deixado ela mais relaxada.

- Certo. Vamos lá.


As perguntas
...
Qual seu nome?

Hermione Anne Granger.

Quantos anos tem?

28.

Onde nos conhecemos?

No expresso de Hogwarts.

Como?

Eu estava ajudando Neville a procurar Trevor.

O que Rony estava tentando fazer?

Deixar perebas amarelo com um feitiço que Jorge tinha dito a ele.

Funcionou?

Claro que não.

Qual era o endereço de nosso primeiro apartamento?

Rua Denbigh, 18D, Shepherd Bush.

Quem eram os cinco garotos da Grifinória no nosso ano?

Você, Rony, Simas, Dino e Neville.

O que Dino faz agora?

Mora na Alemanha. Está treinando pra ser mestre em poções.

E Neville?

Um executor da lei. Detetive.

O que Simas faz?

Trabalha no Ministério. Esqueci qual divisão.

E eu?

Você é um espião.

Onde eu moro?

Em Bailicroft, comigo.

Dino é casado?

Não.

Neville?

Sim. A mulher dele se chama Amélia.

Simas?

Não.

E eu?

Ainda não.

O que Rony faz agora?

Ele lê.

O que ele lê?

Qualquer coisa que arranje.

O que mais ele faz?

Joga xadrez.

Com quem?

Eu...eu não...

Você tem algum animal?

Sim. Uma cadela chamada Lily.

Onde a conseguiu?

Foi um presente seu.

O nome dela é em homenagem a quem?

Sua mãe.

Quem é o mais velho dos irmãos Weasley?

Gui.

E depois?

Carlinhos.

Quem é caçula?

Gina.

Onde Rony mora?

Num apartamento, bem grande.

Onde é o apartamento?

No subsolo.

Ele está sozinho?

Sim.

Quem o mantém lá?

Allegra. E... Bob.

Quem é Bob?

Eu não sei.

Rony está doente?

Não.

Machucado?

Não.

Com raiva?

Não. Eu... não tenho certeza...

Qual o seu nome?

Hermione Anne Granger.

É solteira?

Não. Estou noiva.

De quem?

De você.

E quem sou eu?

Harry Potter.

Há quanto tempo estamos noivos?

Mais de um ano.

Quando fiz o pedido?

Agosto do ano passado.

Onde?

No baile de amigos e ex-alunos.

Você disse sim?

É claro.

Por que?

Porque eu te amo.

E onde está Rony?

No apartamento dele.

Sozinho?

Sempre.

Ele é prisioneiro?

Sim.

Ele é maltratado?

Não.

Ele pode ler?

Sim.

E escrever?

Sim.

O que mais?

Fazer exercícios. Jogar xadrez.

O que mais?

Ver filmes. Ouvir música.

Onde podemos encontrá-lo?

Não sei.

Quem sabe onde ele está?

Allegra. E Bob.

Ele está com a varinha?

Não. Sem magia.

Nenhuma?

Não.

[pausa

Ele sabe que achávamos que ele estava morto?

Sim.


Ficaram olhando enquanto Harry permanecia em silêncio, e então colocou a cabeça nas mãos. Hermione olhou em volta. – É tudo? – ela perguntou.

-É tudo que tenho. Você só sabe o que ele sabe e ele não parece saber muita coisa.

-O que eu disse? Eu lembro um pouco, mas...

-Vamos olhar a transcrição.

Os dois levantaram e foram até a sala de observação, se amontoando sobre a pena mágica de transcrição que estava lá. – Hum... – Hermione disse. –Um apartamento e Allegra... Não posso dizer que é uma surpresa. Quem é esse Bob?

Harry deu de ombros. – Eu não sei.

Ela suspirou. – Ele sabe que pensávamos que ele estava morto. – ela sorriu. – Fico feliz com isso. Ao menos não se preocupou por que não fomos a seu resgate.

Harry franziu a testa. – Você falou duas vezes em xadrez.

- E daí?

- Isso parece estranho. Com quem ele joga xadrez? Não ficaria satisfeito com um adversário que não fosse bom.

- Outro prisioneiro?

- Duvido que existam outros. Se ela queria mantê-lo tão escondido, Allegra não deixaria que mais ninguém chegasse perto dele.

- Talvez esteja jogando contra ele mesmo.

- O xadrez sempre instigou o lado competitivo de Rony. Ele ia precisar de um adversário à altura – Harry andava de um lado para o outro devagar, pensando. – Ele não tem magia, nem varinha. Tem um apartamento grande, confortável como prisão. Vive como um trouxa, ao que parece. E sozinho. Então como um trouxa que está sozinho joga xadrez?

Ele a olhou nos olhos e viu a resposta aparecendo na mente dela ao mesmo tempo que na dele. – Online – ela disse. – Ele deve jogar online.

- Isso... Parece certo pra você?

- Sim, parece extremamente certo.

Harry virou e saiu da sala apressado, chamando sua bolha. Podia ouvir os outros o seguindo. – Peyton! – ele rosnou para Bolha.

- O que? – respondeu uma voz irritada. Peyton era um tipo de pessoa diferente. Trabalhava para DI como um consultor e era um trouxa. Pelos conhecimentos de Harry, era o único trouxa no mundo empregado por uma instituição bruxa. Seu trabalho era saber tudo que havia pra se saber sobre os trouxas, ou ter meios de descobrir. Não era a pessoa mais sociável, mas era útil. Uma grande porcentagem de seu trabalho envolvia a Internet, um sistema que era totalmente estranho aos bruxos, mas com uma utilidade que não podiam negar. Uma das razões para ele ter sido contratado fora sua vida prévia como conhecido hacker.

- Estou levando um trabalhinho pra você. Largue todo resto.

- Mas que porra, Harry, estou no meio de uma busca por um registro genealógico para...

- Pode esperar. Quanto você sabe sobre competição de xadrez online?

- Até a hora que você chegar aqui embaixo, vou saber o suficiente.

De fato, quando Harry e o resto do time chegaram ao habitat parecido com uma masmorra que Peyton ocupava, ele tinha todos os três computadores na tarefa. – O que você tem? – Hermione perguntou, indo a frente. A tecnologia dos computadores trouxa a fascinavam apesar dela entender disso tanto quanto Harry.


- Bem, existe uma comunidade de xadrez bem ativa na rede – Peyton disse. – Já sabia disso. Mas aqui, veja, também existe uma série de torneios online organizados. Achei alguns nomes de jogadores famosos nesses sites. Parece que usam os torneios pra jogar um contra o outro mesmo que não tenham a chance de jogar na vida real – ele olhou pra eles. – O que estão procurando?

- Alguém misterioso, que ninguém mais conheça. Alguém que possa ser um bruxo.

- Certo, me dê um pouco de tempo. Pra trás.

O time se afastou para dar tempo de Peyton trabalhar. – O que está pensando, patrão? – Napoleon perguntou.

- Se ele está jogando xadrez na Internet... Bem, não sei muito sobre computadores, mas deve haver uma maneira de rastrear.

- Acho que permitiriam esse tipo de contato com o mundo exterior? – Henry disse. – Ele não poderia usar pra pedir ajuda? Alertar alguém de sua presença?

- Não tenho certeza. – Harry respondeu. – Vou repetir... Eu e os computadores não somos amigos, isso é apenas um instinto. Pode não levar a nada. Talvez seja uma caçada em vão. Mas confio nos instintos de Hermione.

- Harry, você tem algum instinto sobre Rony? – Hermione perguntou a ele, colocando a mão em seu braço. – Afinal, você estava comigo. Talvez tenha recebido alguma das lembranças dele também.

- Não sei. Acho que não. Não tive nenhuma sensação relacionada a memórias dele depois do feitiço – ele disse.

A porta da sala de Peyton abriu e Diz colocou a cabeça lá dentro. Todos ficaram em silêncio. – Aí está você – ela disse pra Harry. – Estive procurando por você em toda parte. – ela avançou, trazendo uma pilha de pergaminhos.

- O que foi? – ele perguntou, agradecido pela distração.

- Estou com os relatórios de campo que você pediu que eu pegasse. Preciso que você os assine. – ela entregou os documentos e a pena pra ele. Ele foi até uma mesa no canto e começou a assinar o nome na parte de baixo de cada pedido, ouvindo os outros se remexendo e murmurando atrás dele. Diz não era parte da investigação dele e não tinha como saber o que eles estavam fazendo, então se forçaram a agir naturalmente, como se todos tivessem aparecido na sala de Peyton sem nenhum motivo especial.

Diz pegou os pedidos assinados e virou pra Remo com um sorriso. – Como você está? – perguntou.

Ele sorriu em resposta. – Bem – olhou em volta para os rostos curiosos dos colegas. – Me diverti muito ontem a noite. – ele disse em voz baixa.

O sorriso de Diz se alargou. –Eu também. Te vejo mais tarde?

- Sim. Mais tarde.

Ela esticou a mão e deu um aperto sorrateiro na dele e depois saiu da sala. Remo virou novamente pros outros, todos olhavam pra ele com sorrisos cínicos de quem sabia alguma coisa e arqueou a sobrancelha. –Hoje? – Hermione disse, num tom interrogativo cheio de insinuações.

Remo se retraiu – O que? Nós… estamos meio que... saindo juntos, acho.

- Graças a Deus, boas notícias. – Harry disse.

- Verdade – Napoleon completou. – Não dá pra conseguir um peixão, assim como você conseguiu, enfiados num escritório empoeirado.

Remo corou. – Não é nada sério. Saímos juntos algumas vezes, só isso.

- O que fizeram na noite passada pra passarem um tempo tão maravilhoso? – Napoleon perguntou, não era alguém que deixava as coisas mais fáceis. Harry podia ver o desconforto de Remo, mas não interferiu. Ele próprio estava curioso, além disso, estava distraindo eles da investigação cada vez mais desesperadora e matando tempo enquanto Peyton fazia sua mágica trouxa.

- Bem.. Nós fomos ao zoológico.

Hermione suspirou. – Que adorável!

Remo fez uma careta. – Não é a palavra que eu escolheria.

- Você gosta dela então? – Isobel perguntou.

- Eu gosto dela, sim.

- Ah, qual é! Pára de enrolar, já estão fazendo neném ou não?

- Napoleon! – Harry falou, se segurando pra não rir. – Isso é completamente inapropriado para um local de trabalho!

Remo colocou a mão nos quadris e olhou feio para Napoleon. – Se eu estivesse, Jones, você seria a última pessoa a quem confessaria – ele limpou a garganta e casualmente olhou as unhas. – Além disso, um cavalheiro não beija e sai espalhando.

Entre os risos que seguiram a última declaração, Peyton não foi ouvido em sua primeira tentativa de chamar atenção. – Hei! – ele repetiu, gritando dessa vez. Todos pararam e viraram pra ele. – Acho que tenho algo – ele gesticulou para quem se aproximassem de seu computador. – Certo. Descobri algumas discussões nesses fóruns sobre uma pessoa misteriosa, do tipo que você pediu pra procurar. Fiz uma busca rápida dos registros de torneios online e tem um jogador freqüente, cujo perfil de usuário não inclui nome verdadeiro ou nenhuma informação pessoal. Acredita-se que o nome que ele usa é um apelido, e os outros jogadores se referem a ele, ironicamente, como o Bruxo.

- Por quê?

- Porque ele usa jogadas e estratégias originais que não fazem parte do arsenal de xadrez rotineiro de um jogador e porque ninguém parece saber quem ele é. Num mundo tão ligado como o do xadrez, isso é incomum. Eles poderiam nem ter notado se não fosse o fato que ele quase sempre ganha. Já derrotou alguns dos jogadores mais bem colocados no ranking do mundo. Só no mês passado, venceu Bruce Pandolfini numa partida online que durou cinco horas. Alguém com esse nível certamente deve ser conhecido no mundo real.

- Quem é ele na verdade?

- Acabei de dizer, eu não sei. Ele cedeu e começou a usar o nome "Bruxo" em algum ponto, mas seu nome de usuário originalmente era... – ele apertou algumas teclas e uma sucessão de telas abriu e fechou, a tela trocando e recarregando enquanto ele trabalhava. – Aqui. Esse era o login original dele.

Ver as palavras ali na tela fez alguma coisa no estômago de Harry que ele não conseguiria explicar. Ele esticou a mão cegamente na direção de Hermione, encontrando a mão dela no meio do caminho, pois ela também procurava por ele. Os dedos deles se encaixaram e apertaram com força. – Conferência – ele disse, gesticulando para que o resto do time se afastasse da mesa de Peyton. Eles se amontoaram em um canto e falaram e voz baixa. – É ele – Harry disse, mantendo a voz o mais firme possível.

Os outros trocaram olhares confusos. – Como você sabe?

- O nome – Hermione disse. – O login. Arthur James Douglas.

- O que tem?

Harry suspirou. – É o nome dos nossos pais. O dele, o meu e o de Hermione. – não parecia haver muito a se responder. Harry se endireitou e virou para Peyton.

- Então esse é seu cara ou não? – Peyton perguntou.

- É sim.

- Que bom. Quem quer que seja, está sendo vigiado de perto.

Harry franziu a testa. – Como sabe disso?

- Bem... o servidor dele é protegido por uma série bem complicada de firewalls e lockouts de segurança, e há um sinal alternativo o que significa que o acesso dele à Internet é extremamente limitado. Ele provavelmente não pode mandar absolutamente nada. Todas suas atividades são monitoradas remotamente.

- Como podemos encontrá-lo? – Podemos... Não sei... Rastreá-lo de alguma forma? Mandar algum tipo de sinal com retorno?

-Deve haver alguma maneira de rastrear o acesso dele – Henry disse. - Ou talvez possamos achar uma maneira mágica agora que temos mais informação.

Peyton limpou a garganta. – O endereço dele ajudaria? – Todos pararam e viraram para ele. Ele sorriu e segurou um papel que saiu da impressora. – Rastreei o isp dele. O cara de vocês tem acesso via satélite.

- Então o que é isso? – Harry disse olhando o papel que Peyton tinha lhe entregado.

- As coordenadas GPS do servidor.

Harry olhou para a impressão, atordoado. De repente, Hermione se inclinou para frente e segurou Peyton pelos ombros, e então deu um grande beijo em seu rosto barbudo. – Ahh, não foi nada, madame. – Peyton disse, mas parecia satisfeito.

Harry entregou o papel a Napoleon, que saiu correndo da sala com ele, seguido pelo resto do time. – Peyton, me lembre de te comprar um carro no seu aniversário – Harry disse, abraçando Hermione com um braço enquanto iam para porta.

- Espere um segundo – Peyton disse. Todos viraram. Ele hesitou por um momento e então falou num tom mais sério. – A primeira discussão online que achei sobre o cara de vocês falava sobre o fato de ninguém ter visto ele há um tempo. Ele entrava regularmente, aparecendo ao menos uma vez por dia, há anos. Eu chequei, ele não entrou nos últimos cinco dias.

Harry olhou para Hermione, a animação deixando o rosto dela e sendo substituída por preocupação. O estômago de Harry revirou. Ah não, ele pensou. Não deixe que estejamos atrasados.


O interior do pequeno chalé estava vazio, exceto por um pequeno banco de equipamentos de computador sofisticados e uma antena. Harry girou no meio da sala vazia como se uma resposta pudesse aparecer de repente na parede.

Hermione esmurrou o umbral da porta. – Não acredito que ele pudesse estar todo esse tempo tão perto – ela disse.

Harry balançou a cabeça em concordância. As coordenadas de GPS que Peyton conseguira, os levaram até uma localidade tão próxima que doía o coração, menos de 100km ao norte de Londres. Tudo o que encontraram foi esse chalé e o servidor que os levara até ali. –Você disse que o apartamento dele era no subsolo – Harry falou.

- Isso não quer dizer que seja aqui – ela respondeu. –Peyton disse que eles poderiam ligar este servidor a qualquer lugar do mundo através de linhas telefônicas.

- Não há linhas telefônicas – Henry disse, vindo do lado de fora. – Essa casa não está conectada. Por isso precisavam da antena.

- Então o computador de Rony devia ser ligado diretamente a esse servidor – Harry disse, se sentindo incerto dentro de um mundo tecnológico que ele não conhecia. Queria poder pedir a Peyton pra vir com eles. –Eu acho. Isso está certo? – perguntou a Hermione.

- Por que está me perguntando?

- Porque sim. Sempre pergunto a você.

- Bem, eu não sei. Mas parece sensato pra mim. Se o apartamento dele é no subsolo pode haver um acesso aqui pelo porão.

O time fez uma busca completa na casa e no telhado e não encontrou nada. Nenhuma porta escondida, nenhuma escada secreta. Finalmente Harry fez um feitiço localizador que revelaria qualquer coisa escondida deliberadamente. Encontraram um pote de moedas velhas enterrado no quintal por algum antigo morador, mas nada que pudesse levar ao apartamento no subsolo. Eles se reuniram na varanda, confusos e frustrados.

Harry começava a se sentir bastante fatalista em relação a situação toda. Levantou os olhos e viu Hermione encarando-o atentamente e sabia que ela lia seu rosto como um livro, como sempre fora capaz. – Não acha que ele ainda está lá embaixo, não é?

- Eu sei que ele não está lá embaixo.

- Como?

- Porque se ele estivesse, já teríamos algum confronto. Mesmo que o apartamento dele seja subterrâneo, pode ter certeza que esse prédio na superfície está sendo vigiado. Explica porque dele não ter entrado nos últimos cinco dias. Ele foi movido.

- Mas... isso implica que...

- Que eles descobriram que sabemos. – ele completou. Todos se entreolharam incertos. – De alguma forma, eles descobriram e o moveram antes que pudéssemos nos aproximar. Mesmo com todas nossas preocupações com segredos, todas nossas investigações cautelosas, eles descobriram. – ele balançou a cabeça. – Eu devia prever isso.

- Como? – Napoleon perguntou. – Como, pelo nome de Merlin, eles descobriram?

- Vamos ter que nos preocupar com isso depois. Ainda temos que descer até o apartamento dele. Quem sabe que tipo de evidência que podemos encontrar?

- O que nos leva de volta ao problema de chegar até lá – Remo disse.

- Vamos ter que aparatar – Hermione disse.

- Aparatar para o subsolo pode ser perigoso – Isobel resmingou. –Especialmente quando você não sabe pra onde vai. Se não pode visualizar sua localização-alvo, vai se separar em mil pedacinhos.

- Eu consigo – Hermione disse. – Tenho memórias do apartamento de Rony.

- Memórias que você não pode acessar diretamente.

Ela fez uma careta. – Talvez se eu apenas... pensar com vontade...

- Não – Harry disse. – Se você tentar pensar nisso, vai perder. Tem que não pensar sobre isso.

- Como vou conseguir isso? – ela gritou. –Não consigo pensar em outra coisa! – ela deu um passo na direção dele. – Podemos tentar as perguntas novamente? Alguma coisa, qualquer coisa!

- Certo – ele disse, levantando as mãos. – Vou te distrair, mas vai ter que aparatar depressa enquanto ainda tem a memória na cabeça. Então é melhor planejarmos isso. Presumindo que você chegue lá embaixo, como vamos seguir? – ele virou para Napoleon. –Está com o kit padrão de campo na mala do carro?

- Claro – Napoleon disse, correndo pra ir buscar.

- Harry, vai ter que me aparatar até lá – Hermione disse. – Não posso conseguir sozinha. No minuto que eu começar, vou ter que pensar aonde estou indo e vou me perder. Distraia-me, então me aparate. Com sorte, na hora que eu ouvir você falar a palavra, vou me lembrar instintivamente do apartamento de Rony e pra onde estou indo.

- Certo – Napoleon voltou segurando uma maleta de couro, que ele colocou no chão e abriu. Tinha uma variedade de feitiços, talismãs e livros úteis, uma varinha de reserva e algumas pulseiras anti-maldição de executores e vários frascos de poções padrão.

- Creio que é isso que quer – ele disse, puxando um saco de veludo.

Harry pegou e colocou os localizadores de aparatação na mão. Prendeu um na capa de Hermione. – Só temos mais três – ele disse, olhando em volta para os outros cinco membros do time. – Vamos ter que dividir – ele olhou pra Hermione. –Por favor, tente não se espalhar por aí, certo?

- Vou fazer meu melhor. Consegue me fazer perguntas rápido o suficiente sem uma lista?

- Vou fazer meu melhor. Só me dê um momento pra me preparar – Ele recuou um pouco e ficou pensando, mordendo o lábio inferior. Hermione se apoiava no peito dos pés, nervosa.

-Vamos lá – ela disse – vamos logo com...

Sem nenhum tipo de aviso, Harry de repente pulou sobre ela, fazendo um largo arco com o braço. Hermione respirou de vez e desviou, se posicionando bem a tempo de bloquear o golpe seguinte que veio do lado oposto. Harry não lhe deu tempo para recuperar, simplesmente começou a lançar golpe atrás de golpe numa rápida sucessão. Ele não estava tentando acertá-la, eram os golpes padrão, muito utilizados durante os treinos e ela conhecia muito bem. De fato, os braços dela se mexiam no ar, com ela defendendo cada golpe com um movimento rápido e ágil. Harry foi mais rápido, olhando o rosto dela enquanto as linhas de preocupação e ansiedade desapareciam numa onda de concentração. Não dava pra pensar enquanto lutava, tinha simplesmente que reagir, e era exatamente o que ele queria que ela fizesse enquanto a aparatava... Reagir.

Os outros ficaram olhando enquanto ele aumentava o ritmo ainda mais, empurrando-a ainda mais para o modo automático. Nessa velocidade não havia tempo para analisar, nenhum tempo para ponderar e prever. Ele continuou assim por pelo menos um minuto até que o rosto dela ficou quase completamente vazio de expressão. A mente dela tinha se desligado e com sorte isso permitiria que ela seguisse suas memórias instintivas dos últimos dez anos de Rony e aparatasse de volta pra onde ele estava... ou esteve.

De repente, sem se permitir nenhum tempo para hesitação, Harry a empurrou pra longe e puxou a varinha – Apparatium! Ele disse, apontando pra ela. Ela ficou tensa e fechou os olhos e então desapareceu no meio da luz vinda da varinha dele.

Por um momento nenhum deles se mexeu, mal parecia que havia alguém respirando. Harry parou completamente imóvel, os olhos fechados, implorando a qualquer entidade que pudesse estar ouvindo para se assegurara que ela estava bem. Sem abrir os olhos, ele chamou sua bolha, que ele ouviu aparecer com seu costumeiro "pop" – Hermione? – ele disse pra bolha.

- Sim, estou aqui. – ela respondeu imediatamente.

Harry respirou fundo e abriu os olhos a tempo de ver todos os outros relaxando. – Onde você está?

- Estou em um tipo de corredor. Não é um apartamento. É melhor virem aqui.

Os outros formaram pares e usaram os localizadores de aparatação para se juntar a ela lá embaixo. Harry olhou em volta do corredor, que parecia feito diretamente na pedra, com muita habilidade. As paredes eram suaves e curvadas e piscavam com pedaços brilhantes de mica natural. Sob os pés deles havia uma rede suspensa sobre o chão desigual, tochas estavam separadas a cada poucos metros, iluminando o longo corredor. Harry podia ver três portas saindo do hall onde estava, mas sua atenção foi logo atraída pra uma no lado oposto, a uns vinte metros de distância. Era maior que as outras, sólida e parecendo segura.

O time se aproximou com cuidado, as varinhas em punho, mantendo os olhos em todos os cantos. Enquanto Harry se aproximava, podia ver que a porta estava fechada com barras pesadas. Ele apontou a varinha na direção delas, mas a ponta não se aproximava mais do que alguns centímetros. – Está enfeitiçada – ele disse, dando um passo para trás.

Remo avançou. – Renuncio – ele disse, apontando sua varinha pelo ar na direção da porta. O feitiço para abrir foi refletido sem nenhum efeito. – Hunf – ele disse. – Feitiço forte.

Harry não agüentava mais. –Todos, pra trás – ele disse. Guardou a varinha e ficou a uns dois metros da porta. Concentrou-se como Lefty havia lhe ensinado, puxando o máximo de magia dentro de si que podia. Estava fazendo um treinamento informal de Mage com a sociedade desde o verão, e já podia ver um progresso notável. Sabia que só tinha acesso a uma pequena porção do poder que lhe estava disponível, mas mesmo essa pequena parte que ele podia alcançar às vezes o impressionava.

Agora, ele torcia que fosse o suficiente. Esticou os braços pra frente e a magia passou por seus ombros até seus braços e explodiu de suas mãos. A porta foi arrancada das dobradiças e caiu para trás, no meio de fumaça. Ele abaixou os braços, sentindo-se meio esgotado. Hermione veio para seu lado. – Esteve se metendo com os sinistros poderes Mage de novo, pelo que vejo – ela comentou secamente.

- Que bom, não acha? Passaríamos horas tirando esse feitiço.

- Ah, sim. O maior objetivo de qualquer Mage. Eficiência. – o sarcasmo dela era pra mascarar o desconforto, ele sabia disso. Essa não era a hora pra outra interação sobre esse tópico.

- Podemos deixar pra lá? – ele disse baixo. Hermione não respondeu, apenas olhou através da fumaça, que dispersava, para dentro do apartamento. Olhou para ele, sua irritação substituída por apreensão. Harry sentia também. Estavam prestes a entrar na prisão do melhor amigo. Ele respirou fundo e passou pela porta.

O apartamento não era o que ele esperava, um local de seqüestro útil com algumas amenidades. Na verdade, era grande e bem decorado, quase luxuoso. A entrada onde estavam era decorada com um cabide duplo para casacos e uma mesa de hall bem polida. Um vaso cheio de flores estava ali, algumas pétalas curvadas sobre a mesa brilhante sobre a qual caíram.

Depois vinha a sala. Móveis combinando, um sofá, várias cadeiras confortáveis e uma extensa parede de equipamentos eletrônicos. Uma área que combinava cozinha e sala de jantar se abriu de um lado da sala. Eletrodomésticos novos brilhavam, pratos coloridos estavam nos armários de porta de vidro.

Eles andaram pelo apartamento, em silêncio, pensando. Havia uma biblioteca maior do que a sala, cheia de livros do chão até o teto. Um escritório, quase cheio pela mesa coberta por material pra escrever e livros de referências. Uma sala de exercícios com luz artificial. Um grande quarto com um igualmente artístico banheiro feito de vidro e azulejos cintilantes.

O time se encontrou no quarto para comparar anotações. Harry se sentia apertado em um nó. Podia sentir a presença de Rony, era palpável, jurava que quase podia vê-lo. Um lado do sofá estava mais amassado que o outro... Ali era onde costumava sentar. Alguns pratos sujos estavam na pia da cozinha, esperando para serem lavados. Rascunhos em um caderno no escritório. Ele realmente esteve ali. Não era um sonho ou uma visão ou uma viagem boba em um pensamento desejoso. Os traços físicos do homem que ficara preso ali eram mais poderosos que cem feitiços phenomorbius ou pronunciamentos do oráculo. Pela primeira vez Harry sabia que se amigo estava vivo.

- Tudo o que ele poderia querer estava aqui – Remo disse. – Parece que ele estava bem confortável.

- Sim, tirando o pequeno detalhe dele não poder sair – Napoleon disse.

- Ele se manteve em forma. – Hermione disse.

- Como sabe disso? – Sukesh perguntou.

- A esteira estava gasta no centro – Harry respondeu.

- E alguns botões estavam usados também.

- Ele usava a luz artificial regularmente...

- Porque o carpete em volta da cadeira estava desbotado pela luz UV.

- Que bom também.

- Sem isso ele ficaria fraco por deficiência de vitamina D.

Harry viu os outros olhando dele para Hermione enquanto eles completavam essa troca num raro momento de objetividade pessoal, perceberam o que os outros deviam estar pensando deles. Era de se esperar que as pessoas perguntassem se podemos ler a mente um do outro, ele pensou. Às vezes me pergunto se realmente podemos.

Henry, que fora mandado para inspecionar o restante do corredor, voltou correndo nesse instante. – Harry, achei uma coisa. Um cara que mora no final do corredor. Parece que ele pode ser o carcereiro.

Harry balançou a cabeça que sim. – Segure-o. Vou fazer umas perguntas depois – ele olhou em volta do apartamento, ainda recuperando a compostura. Hermione se afastou do grupo, seus passos devagar e deliberados, parecendo impressionada e horrorizada. Ele a viu indo, sabendo que ela sentia o mesmo que ele. A presença física de Rony nesse apartamento era esmagadora. Fazia-o querer se curvar numa bola e chorar, e ao mesmo tempo sair correndo desta masmorra e bater em cada membro do Círculo que encontrasse até que dissesse onde poderia encontrar o amigo.

- Bom, ele não está mais aqui, isso é certo – Napoleon disse. – Parece que foi bem de repente. Nenhum sinal de malas prontas, chá numa xícara na cozinha e parece que foi interrompido enquanto escrevia alguma coisa.

Harry concordou. – Vá e fale com o carcereiro. Talvez a gente consiga alguma resposta dele. Vou pra lá daqui a pouco. – os outros saíram, ansiosos por algum progresso novamente, mas a atenção de Harry estava concentrada em Hermione. Ela foi até uma pequena estante e pegou uma foto emoldurada que estava ali. Agora olhava pra foto com uma expressão indescritível no rosto. Ela levantou os olhos e olhou nos dele então e ele viu que ela lutava contra lágrimas. Nos olhos dela estava tristeza de dez anos e uma quantidade igual de esperança.

Ele foi até o lado dela e olhou pra foto que ela segurava pra que ele pudesse ver. A respiração dele ficou presa na garganta ele instintivamente puxou Hermione pra mais perto, os braços dele envolvendo-a para apoiar ela, ou ele ou talvez os dois. Ele olhou sem forças pra a foto sem conseguir tirar os olhos dela.

Era Rony.

A foto parecia ter sido tirada com uma câmera trouxa, nesse apartamento. Um selo vermelho impresso com a data no canto dizia que o momento em que a foto fora tirada ocorrera há menos de um ano. Rony estava sentado na mesa que viram na biblioteca, olhando para câmera com uma sobrancelha arqueada e um sorriso um tanto irritado, um tanto divertido no rosto, como se tivesse sido interrompido no meio do trabalho. O cabelo dele estava cheio e vermelho brilhante, nem tão curto como costumava ser, mas ainda não chegando aos ombros. Estava de barba feita e seu rosto estampava o distinto selo da maturidade. Parecia muito com Gui, Harry percebeu, apesar de ter os olhos castanhos de Molly.

Nenhum dos dois falou enquanto olhavam para fotografia. As palavras eram inadequadas para o momento. Ali estava uma prova tangível da existência dele e pela primeira vez em dez anos, olharam o rosto dele, um rosto que só viam em suas memórias. Eles viram seu rosto adulto, que só podiam imaginar até agora. Hermione levantou os dedos tremendo e tocou a imagem, um suspiro instável escapando de seus lábios. Ela inclinou a cabeça contra a de Harry e eles seguraram a foto juntos, mais perto de Rony do que já estiveram desde a morte dele e ainda assim dolorosamente longe.

- Ah, Harry – ela sussurrou e então parou. Ele concordou, sem dar resposta. Não havia mais nada a dizer.


"E antes mesmo que minha mente, ainda considerando quando as coisas aconteceram e como elas parecuam, tivesse coletado impressões suficientes para que pudesse identificar o quarto, ele, meu corpo, se lembraria de cada auarto em sucessão de como era a cama, onde estavam as portas, como a luz do dia atravessava as janelas, se havia uma saída para fora, o que havia em minha mente na hora em que eu ia dormir e encontrava ali na hora que acordava."

Marcel Proust,


NT.: Sei que já virou rotina, mas não posso deixar de me desculpar pela demora... Combine capítulos grandes a serem traduzidos com uma tradutora sem tempo ou cansada quando havia tempo e você obtém capítulos que demoram uma eternidade pra ficarem prontos... Vou ter que dizer que continuo contando com a paciência de vocês daqui pra frente. Aproveitando... Meu muito obrigada a Maíra que betou esse capítulo. Do jeito que eu estava enjoada de ver a cara dele, ia demorar um monte pra consertar tudo que precisava ser consertado.

Ah! Ontem Lori deu uma notícia não muito legal no grupo... Ela colocou em dúvida a conclusão dessa fic. Pretendo traduzir a mensagem dela na integra e postar na comunidade do orkut (quem não faz parte, é só procurar "paradigm of uncertainty"), mas basicamente ela diz que está com pouco interesse em HP e que a coisa mais sensata a fazer é dizer que a possibilidade maior é não terminar essa fic, mas que não garante que esse realmente será o caso. Porém, mesmo que ela não complete, vai colocar um resumo do que aconteceria nos capítulos restantes pra gente pelo saber a história toda da fic.

Lelymarques: valeu pelo apoio e por ter deixado uma review, mesmo não lendo a tradução!
Livinha: eu demorei, mas ainda assim quero ver suas teorias XD
carlos bert: espero que tenha gostado desse capítulo também...
Renatakovac: fics com certeza são uma excelente forma de praticar o inglês... e quanto mais você ler, mais fácil vai ficando. E review sempre é bom, não importa o tamanho!
Sandy Leah: o mesmo que eu disse pra renatakovac: vai ficando mais fácil a cada tentativa de leitura. A atualização demorou, mas chegou. Espero que tenha gostado...
Sweet lie: mais um capítulo com buscas por Rony... mas acho que posso adiantar que ele volta ao convívio mais cedo do que você imagina...
Pati.nha: muito obrigada! Espero que também tenha gostado deste
Srta Granger Potter: Eu sei que demorou, mas foi o mais rápido que pude P
PatyGranger: Oi! Espero que este capítulo tenha ficado à altura
Vivis Dreco: você achou um ponto interessante: como Hermione vai se sentir quando descobrir quando descobrir a história do filho de Harry (pra mim, é a parte mais marcante dessa 3ª fic. Mas ainda é cedo pra se falar disso). Nada de Laura nesse capítulo também (não lembro se ela aparece no 3º, creio que sim) e Sukesh... Era perfeito demais pra ser verdade! Uhauhauhauh. Apesar das surpresas, espero que tenha gostado desse capítulo. bjos
Fernanda: desculpe a demora! E como você pediu no orkut, vou avisar que o capítulo foi postado! Espero que goste...
MiaGranger28: Não betou o outro, mas betou esse \o/ Muito agradecida!
Marga McGonagall: Espero que tenha gostado do capitulo... Quando tiver qualquer teoria, sinta-se a vontade pra postar! É muito legal ver o que as pessoas imaginam sobre a fic! Bjo
SammyGranger: Oi! Demorei pra atualizar, mas finalmente chegou o capítulo novo... Qualquer sugestão/correção pode dizer, viu? E a espera agora virou torcia pra Lori ser atingida por um raio de inspiração!
Nina: isso de trazer mais dúvida do que resposta é quase constante nas fics de Lori P. De nada... Demorou um pouco, mas depois que comecei, peguei gosto por essa coisa de tradução. Bjos!
morenadf: bem.. cenas H² frequinhas pra quando vier o livro! Eu queria já ter terminado a fic antes do livro, mas fui devagar demais... Mas fiquem tranqüilos que o 7º livro não muda minha intenção de traduzir a fic toda.
thati: pode contar que eu vou até onde Lori for com essa fic. Vai demorar um pouco, mas eu chego lá!
Monique:
Bom... Se vc demorou de ver que estava atualizado pra você esse capítulo saiu super rápido! Rs. Suas duvidas são bem pertinentes e serão respondidas mais tarde na fic. Vou mandar um email avisando da atualização agora '

Fico por aqui pessoas... Espero que a gente se veja em breve. Eu já comecei a tradução do capítulo 3 e ele é grande. Mas digo que acontecem coisas muito interessantes... É isso!

E que o sétimo livro seja acima de tudo bom. Que seja um fim inesquecível, daqueles que a gente fica pensando e com aquela sensação de vazio e gostinho de quero mais. E se não for, pra mim pelo menos a série valeu (e muito) por tudo, sobretudo pelas pessoas que eu conheci por causa dela. Beijos pra todos!