Com muita dificuldade, as dores ainda flagelando o corpo, Chris Falcon se levanta. As pernas e o corpo como um todo se tornaram pesados demais, os efeitos do choque de energia ainda estavam bem fortes. Com a boca e a testa sangrando, cheia de hematomas e cortes, se arrastou até a Murasame, e usou a espada como uma espécie de bengala. Mancando, e transformado numa ruiva de corpo escultural, não seria muito dificil achar ajuda...

...exceto pelo fato de que não só a sala do trono, mas o castelo e até mesmo a cidade toda fora tragada por aquelas chamas infernais. Haviam apenas ruínas em todo lugar.

- O... o que aconteceu aqui...? - Encarava, com os olhos abertos, e uma expressão de pânico no rosto.

Falcon caminhava em meio ao que restara de um vasto ataque. Escombros e mais escombros, casas e prédios inteiros arrasados e reduzidos a quase nada.

As horas se passaram pesadas e de modo lento e doloroso no que havia restado de Elsydeon. Chris havia parado para descansar. Logo, surgiu outro problema. A fome. A inanição e a perda de sangue torturavam a garota, que após alguns minutos, voltou a lutar contra as dores causadas pela luta com Milo.

As longas e sofríveis horas de caminhada a levavam agora para um desfiladeiro distante da cidade.

Conseguiu achar, com muita sorte, alguns pedaços de pão, quase todo imprestável graças ao calor do fogo. Mordiscou levemente um pedaço, e ficou mastigando por um tempo, até que essa minúscula mordida deu-lhe forças para continuar.

Seguiu caminhando a passos duros e mancos em direção ao norte, não tinha noção de onde estava indo. Mas o cansaço bate...

Velas.
Som de canos exalando fumaça a vapor.
Um cheiro gostoso de comida.

Ao acordar, Chris percebe que não estava naquele mesmo lugar. Era diferente. Um quarto quentinho e confortável, roupas limpas, sentia não mais a dor dos cortes, nem os sangramentos e o ardor do choque de energia que praticamente lhe salvara a vida, mesmo que ao custo de ter seu corpo mudado radicalmente.

- Ah, finalmente acordou. - Uma voz grossa e rouca veio de perto da porta localizada perto dali. Um senhor barbudo, corpulento, de cabelos castanhos e trajando roupas de mecânico, um óculos de piloto cobria sua testa.

- Sim... mas onde eu tô? - A ruiva perguntou em um tom fraco, estava aérea, sua barriga roncava alto e ela ficou completamente sem graça. Seus sentidos estavam levemente debilitados pela fadiga.

O homem sorriu - Estamos a bordo da minha bela aeronave, Iron Eagle. E trouxe algumas coisas. - Dizia sorridente, trazendo uma bandeja com alguns pratos em cima. Ele deixa próximo de Chris, que começa a comer vorazmente, como se não visse comida a anos.

- Obrigada! - A ruiva sorri, deixando todos os utensílios sobre a bandeja. - Finalmente, tava morrendo de fome!

Como se chama, senhor?

- Sou Rufus Branarg Deymion. E você, jovem senhorita?

- Chris... Chris Falcon.

Rufus arregalou os olhos e ficou sem palavras. Logo em seguida, bateu as mãos em suas maçãs do rosto, para certificar-se de que não estaria delirando, pois ele sabia quem era Chris Falcon... e de repente, uma bela ruiva aparece dizendo ser quem ele sempre conheceu.

- Impossível! Chris Falcon está em Elsydeon. Eu sei que ele se parece uma garota, mas ele não é uma. Ainda mais tão peituda assim!

Chris se irritou. - Você me chamou de... peituda? - Sua mão direita começou a flamejar, e Rufus a encarava aterrorizado.

- Espere! Essas chamas azuis em suas mãos... a marca do Dragão! Chris... o que diabos aconteceu com você?

- É uma longa história, Rufus. Uma longa e dolorosa história...

Ainda dentro daquela majestosa aeronave, Falcon conta a Rufus sobre como se tornou uma garota e sua antiga relação com os responsáveis pelo ataque a Radaxia e sua transformação. Rufus ainda tentava se acostumar com aquilo. Chris descansava calmamente, no prazo de pouco mais de uma hora após a conversa, ela se sentia renovada. Mas havia algo faltando...

- Ei, onde estão minhas roupas? - A ruiva arqueou as sombrancelhas após se dar conta de que estava praticamente nua, envolta apenas por um lençol de um tecido rústico cobrindo o corpo.

- Suas roupas? Ou o que restou delas? - Rufus perguntou, com um tom de deboche em sua voz. - Quando te achei, aqueles trapos mal poderiam servir até mesmo pra usar como luva.

- Hein? Como assim?

- Não se exalte, meus "homens de aço" não fizeram nada com você enquanto você dormia. - Ele acendeu um cachimbo e pôs-se a fumá-lo calmamente.

Chris não havia entendido o que ele quis dizer com "homens de aço". Até que um deles chega. Não um homem de verdade, mas uma máquina humanóide a vapor, com seus tons acobreados, duas esferas luminosas nos olhos, passos calmos e um jeito gentil, que olha para Chris. Esta retorna o olhar aos golems, já familiarizada com tais seres, um olhar carinhoso e cheio de agradecimento.

- Poxa, nunca pensei que você falasse tão sério! - Chris fitou o navegante, rindo.

- Sim. Mas veja. Essas belezas são muito mais confiáveis do que minha velha tripulação. - Rufus se levantou, ajeitando os óculos de navegação em sua cabeça. - Se aquele bando de macacos selvagens estivesse aqui, no lugar dessas obras primas, creio que eles teriam fugido do controle com sua presença. Em outras palavras, poderia ter sido violentada e depois jogada em um canto qualquer. Meus homens eram imprestáveis, beberrões e pervertidos. Durante anos fui visto como um pirata, um saqueador barato, e agora, meus homens de aço me fazem reviver os meus sonhos de criança. Este que você vê agora, é meu mais precioso aliado, Lars Tyson.

- Uau, ele tem nome e sobrenome!

- E também sei falar e cozinhar. Encantado, Lady Chris Falcon. - Lars curvou-se respeitosamente na frente da garota, e logo virou-se de costas. Lars seguiu caminhando em direção a uma cabine próxima, e mostrou algumas roupas para a menina, que ficou encantada com a gentileza do homem-máquina a vapor. As roupas consistiam em um belissimo conjunto de camisa social, mini-saia, meião, botas de cano longo, um casaco e um par de luvas. Todas as peças de roupa tinham uma temática militar. Além das roupas, uma belíssima espada katana, convenientemente envolta em sua bainha, azul, com adereços de dragões em tom dourado.

- Senhor, creio que devemos deixar milady Falcon vestir-se. - Lars caminhou em direção à saida do aposento.

Rufus saiu logo em seguida. Durante o tempo em que ficou cuidando da menina, um homem de aço tomou a direção e manteve o curso. O dirigível colossal flutuava em meio a um vasto vale verdejante.