N/A: Um pouquinho atrasado, mas aqui está o segundo capítulo. Esta é a conclusão da fic Um Presente Especial.
Um Presente Especial
Capítulo 2: Confissões no Dia de Natal
- O que é isso Keiko? - Botan perguntou quando se sentou no sofá de couro marrom na frente da janela na sala de estar da casa de Keiko, seus orbes ametistas estavam cheios de surpresa quando pegou três grandes caixas embrulhadas das mãos estendidas de sua amiga antes de voltar seu olhar para Keiko que sorria feliz.
- Feliz Natal Botan. - Ela disse com uma voz alegre, com os olhos brilhando quando se sentou ao lado da guia espiritual. – Bem, - ela acrescentou - O que você está esperando? Abra.
A divindade observou os membros da família Yukimura abrir seus presentes com um sorriso e sentiu a alegria inundar a sala, Botan se sentiu muito contente por estar com uma família tão carinhosa. Ela não esperava receber nenhum presente. Com um sorriso infantil, Botan suavemente começou a rasgar o papel de presente verde.
- O que é isso? - ela perguntou enquanto rasgava o papel.
- Você vai ter que abrir para descobrir. - Keiko respondeu com um sorriso enquanto observava sua amiga rasgar o embrulho.
Por fim, a divindade completou sua tarefa, tirou a tampa da caixa, um suspiro de surpresa escapou de seus lábios quando estendeu sua mão e retirou uma linda blusa lilás de lã com gola alta. Ela a segurou contra si mesma e inspecionou, aprovando o comprimento.
- Você gostou? - Keiko perguntou.
Botan assentiu.
- Sim, muito. - Ela respondeu, dobrando a blusa cuidadosamente e colocando-a sobre a mesa de centro de vidro na frente dela e recolhia os papéis rasgados, parando quando Keiko falou.
- Não se preocupe com isso Botan. Abra os outros presentes.
Botan olhou para o lado e pegou a caixa embrulhada com papel vermelho, que continha três blusinhas nas cores branca, rosa e púrpura, respectivamente. E a última caixa adornada em papel dourado chamativo continha uma calça jeans em um tom de azul claro. A guia agradeceu Keiko imensamente, dando-lhe um abraço rápido antes de colocar a calça jeans em cima do resto das roupas.
- Todo mundo deve ganhar presentes no Natal, Botan. - Keiko sorriu. - Além disso, sei que você não possui muitas roupas humanas, então eu pensei que isso poderia ajudá-la.
- Muito obrigada, mas não precisava se preocupar Keiko. - Botan respondeu quando começou a pegar os papéis rasgados e colocá-los dentro das caixas sobre a mesa.
- Eu sou sua amiga, lembra? – A morena falou em um tom doce de voz - e amigos dão presentes no Natal.
Botan franziu a testa.
- Mas eu não tenho nada para te dar.
Keiko revirou os olhos.
- E eu não espero por isso Botan. Eu sei que você nunca viveu o Natal em sua plenitude, portanto não se preocupe com isso, ok?
- Ok. - Botan admitiu, com um sorriso feliz em seus lábios quando olhou para seus presentes. Keiko estava certa. É divertido ganhar presentes.
Um ruído súbito surgiu na cozinha, fazendo com que tanto Botan quanto Keiko se voltassem na direção do som.
- Quem será? – Keiko murmurou quando se levantou e correu para pegar o telefone sem fio que estava na mesa da cozinha. - Residência Yukimura, Keiko falando. - A menina de cabelos castanhos disse em uma voz educada, seus olhos brilharam e um sorriso iluminou seu rosto enquanto ouvia a pessoa do outro lado da linha falar. - Sim, claro. Um momento, por favor. - Ela voltou para a sala e para o sofá.
Botan olhou sua amiga com olhos curiosos quando Keiko parou diante dela.
- É para você. – A morena disse com um sorriso maroto, enquanto segurava o telefone ofertando-o para a guia, que o pegou e trouxe até seu ouvido.
- Alô?
Houve uma pequena pausa na outra extremidade, logo após uma voz suave e masculina falou.
- Bom dia, Botan.
Instantaneamente, o rosto de Botan se iluminou, reconhecendo quem estava falando com ela.
- Bom dia, Kurama. - Ela entoou com uma voz alegre. - Como você está?
- Estou bem Botan. E você?
Botan sorriu quando respondeu:
- Eu estou ótima.
- Que bom. - Kurama parou mais uma vez, como se ponderando seus pensamentos antes de continuar. - Você vai fazer alguma coisa importante esta manhã?
Botan franziu a testa.
- Não, não realmente. Eu estava apenas observando Keiko abrir seus presentes. Por quê?
Outra pausa, uma ingestão de ar e então Kurama falou mais uma vez.
- Eu queria saber se você gostaria de patinar no gelo comigo, no parque Katagoi.
Botan prendeu a respiração, com muito medo de falar qualquer coisa que não poderia. Afinal, sou uma cabeça-dura. E se falasse alguma coisa inoportuna, ela quebraria o encanto e alegria que inundaram seus pensamentos e coração. Isto é real e não um sonho maravilhoso! Kurama será meu por algumas horas e teremos todo o tempo do mundo juntos.
- Botan? –A voz de Kurama a chamou suavemente através do telefone, quando a guia não respondeu. - Você não precisa vir se não quiser. - Ele disse em um tom de incerteza, como se duvidando que ela ainda estivesse ouvindo. - Se... houver outra coisa que você pretenda fazer, eu entendo.
Botan saiu de seu torpor, percebendo que estava sonhando quando deveria ter respondido ao kitsune. Diga sim! Sua mente gritou e a guia teve que morder sua língua para impedir-se de gritar sua resposta ao telefone.
- Sim. - Ela começou e então parou, balançando a cabeça para corrigir-se. - Quero dizer, não. Eu não tenho planos no momento. Eu adoraria ir.
- Então verei você em 40 minutos. – o ruivo disse com um leve suspiro de alívio que não escapou dos ouvidos da divindade. -Se não for muito cedo.
A menina de cabelos azuis abafou uma risadinha que surgiu ao ouvir o tom doce e infantil usado por ele. Uma voz que a fez querer atravessar o telefone e abraçá-lo.
- Pra mim está ótimo. Vejo você depois.
- Então até logo, Botan.
- Até logo, Kurama.
Keiko olhou a guia com um olhar questionador, enquanto a observava desligar o telefone e entregá-lo de volta à morena.
- Bem, o que ele disse?
Botan olhou para Keiko.
- Ele quer me levar para patinar no gelo.
- Ah? - A menina de cabelos castanhos murmurou baixinho. Suas feições tornaram-se preocupadas quando notou a expressão pensativa atravessar o belo rosto de sua amiga. - Você sabe como patinar, Botan?
A divindade balançou a cabeça.
- Não.
Keiko sorriu. Isso é ótimo! Pensou, reprimindo a vontade de esfregar as mãos de contentamento. Tudo está conspirando para Botan ficar mais perto de Kurama! Ela sempre deduziu isso, se alguém poderia dar a Botan a felicidade que ela merece, esse alguém seria Kurama. Alguns poderiam dizer que os dois eram o completo oposto um do outro, mas não era o que a morena sentia. A verdade era que Botan e Kurama se completavam. Opostos sim, mas não totalmente. Havia também semelhanças. E eles formam um belo casal! Eu sei disso!
- Bem, não é tão difícil de aprender, Botan. Tenho certeza que Kurama estará mais do que disposto a te ensinar as técnicas de patinação no gelo. - Keiko disse em um tom reconfortante enquanto acenou à deidade para se levantar. - Agora, por que você não vai se vestir? Eu vou ver se consigo achar um par de patins de gelo para você.
- Mas eu já estou vestida. - Botan disse, olhando para seu moletom amarelo e jeans azul escuro.
- Eu quis dizer sobre suas roupas novas bobinha. - Keiko piscou, apontando para a roupa nova que ela havia ganhado de presente no Natal.
- Ah. Sim, claro. - Botan sorriu enquanto pegou seus presentes e se dirigiu ao quarto para se trocar enquanto Keiko sorriu e balançou a cabeça antes de ir para o sótão em busca de um par de patins de gelo para a guia.
Kurama caminhou rapidamente pela calçada que levava até a residência Yukimura, colocando as chaves de seu carro no bolso direito do casaco preto. Ele parou diante da porta e esta se abriu lentamente, revelando uma Botan sorridente vestida com o casaco amarelo que ele a tinha visto usar no dia anterior, um par de patins branco amarrado pelo cadarço estava pendurado em seu ombro direito. Seus olhos pousaram na calça jeans azul clara e botas de couro marrom. Um sorriso se formou no rosto do kitsune. Não importa o que ela use, ela sempre estará bela aos seus olhos. Você tem alguma idéia de como é linda? Ele desejava perguntar-lhe enquanto seu olhar retornou ao seu semblante de tirar o fôlego. Você tem alguma idéia do que eu sinto por você, minha deusa?
- Hum... Kurama?
O kitsune piscou, o feitiço foi quebrado pela voz suave dela. Ele balançou um pouco a cabeça, limpando seus pensamentos.
- Sinto muito Botan. - Ele se desculpou. - Você está pronta para ir?
A guia assentiu e com um sorriso tímido desceu os degraus até o chão repleto de neve enquanto um Kurama envergonhado a seguiu. Ele queria que ela se divertisse. Que desfrutasse de algumas das coisas mais simples que os seres humanos faziam. Não só porque ele a amava secretamente, mas porque merecia um pouco de diversão e lazer. Sentia pena de Botan, seu trabalho era um grande fardo, ela fazia tanto por todos e recebia tão pouco agradecimento ou recompensa.
O ruivo abriu a porta do passageiro para ela e caminhou para o lado do motorista. Ele entrou em seu veículo, deslizando o cinto de segurança antes de colocar o carro em movimento. Kurama dirigia pelas ruas de Tóquio em direção a área mais densamente florestada ao norte, onde o parque Katagoi se localizava.
O parque Katagoi estava situado a meia hora de carro afastado do centro da cidade. Era conhecido como um destino de viagem para os amantes da patinação no gelo, tinha um dos maiores lagos que congelava durante os meses de inverno e era de fácil acesso ao público. Hoje não foi diferente. Patinadores de todas as idades estavam vestidos com seus mais variados trajes de inverno das mais diversas cores. Alguns eram mais eficientes em suas habilidades do que os outros. Casais entrelaçavam suas mãos, trocando olhares afetuosos enquanto deslizavam pelo lago congelado, as crianças riam e gritavam de alegria e seus pais sorriam pacientes logo atrás sem desviar a atenção de seus filhos.
Botan sentou-se sobre um banco de madeira perto da margem do lago, com o corpo dobrado para baixo enquanto lutava para amarrar seus patins. Ela tentou manter a calma, mas suas mãos não colaboravam com sua mente, se atrapalhando com cada nó que tentava dar em vão. Qual o problema comigo? Ela pensou em frustração. Por que estou tão nervosa? Isso é apenas patinação no gelo! Eu posso fazer isso! Uma ruga apareceu em sua testa quando outro pensamento entrou em sua consciência. Será que é porque esta é a primeira vez que estou sozinha com Kurama sem alguma ameaça iminente?
A divindade parou sua luta quando a mão de Kurama entrou em seu campo de visão e repousou sobre suas mãos trêmulas. Com os olhos arregalados, ela voltou seu olhar para a esquerda, onde o kitsune sentava ao seu lado com seus patins já calçados e amarrados, pronto para patinar.
- Deixe-me ajudá-la. - Ele deu um sorriso amável enquanto se agachou na frente de seus pés e baixou a cabeça para estudar os cadarços por alguns segundos antes de concluir o trabalho que a guia não conseguiu terminar.
Botan olhou para os cabelos flamejantes do kitsune, um sorriso terno enfeitou seus lábios. Seu coração se encheu de amor. Ele é tão atencioso e amável. Desejo olhar para seus olhos sempre! Ela pensou enquanto observou ele amarrar o patim direito e, em seguida, passar para o esquerdo.
- Botan - Sua voz saiu calma enquanto amarrou o patim esquerdo. - Sei que esta é a primeira vez que você patinará no gelo.
Botan olhou para ele em surpresa.
- Você sabe?
Kurama assentiu, se levantando de forma que seus orbes esmeraldas enfrentassem os ametistas da divindade.
- E eu prometo ser gentil.
Botan corou. Como não coraria. O pensamento que invadiu sua mente naquele momento não tinha nada a ver com a patinação no gelo. Oh meu Deus! Ela pensou ao olhar para baixo.
Kurama notou a reação dela diante de suas palavras e olhou para ela com preocupação. Eu a envergonhei novamente? Perguntou-se.
Ele inquiriu com seu tom de voz leve, quase provocante, debochando dela.
- Não me diga que você está com medo de tentar algo novo e diferente?
O rubor de Botan se aprofundou. Eu tenho que me controlar. Nós nem mesmo estamos namorando. Nós somos apenas bons amigos. Ela racionalizou.
- Não. - Ela inclinou a cabeça para trás, seus olhos se encontraram com os dele. Ela queria se afogar em seus olhos. Olhar e olhar novamente até que tudo o que restasse fosse uma emoção tão intensa e pura como a que estava sentindo agora. Para vê-lo com os olhos de um amante sem vergonha ou culpa nenhuma. Recompondo-se, ela continuou.
- Estou um pouco nervosa, só isso.
Kurama deu um sorriso reconfortante.
- Eu lhe asseguro, não há motivo para ficar nervosa. Vou estar ao seu lado o tempo todo. - Ele respondeu, levantando-se, mantendo o equilíbrio perfeitamente, estendendo a mão esquerda para ela. - Minha senhora. - Ele disse baixinho, olhando para ela com olhos quentes.
Botan desviou os olhos relutantemente longe de seu belo rosto até sua mão estendida. Com um sorriso tímido, ela apertou sua mão e assentiu.
Kurama a puxou suavemente até estar a seus pés e ficaram lado a lado, ele a apertou um pouco pela cintura quando percebeu sua luta para manter o equilíbrio, ciente de que esta era uma experiência nova para ela. Ele levou-a lentamente até o gelo e lhe deu um sorriso incentivador e que pedia para confiar nele.
Botan patinava debilmente, suas pernas estavam bambas e ela não tirava os olhos do gelo abaixo de seus pés, tentando manter o equilíbrio.
Kurama soltou suas mãos, movendo-se para seus braços, mantendo-a presa firmemente, enquanto deslizava graciosamente para trás, puxando-a para junto dele, dando-lhe instruções sobre os princípios básicos da patinação no gelo.
- Está vendo esta peça de metal na parte frontal de seus patins, Botan? - ele perguntou em um tom suave.
A guia acenou positivamente.
- Isso serve não só para impulsionar para frente, mas para freá-los também. - continuou ele. - Eu quero que você empurre com seu pé direito e incline-o para baixo.
- Assim? - Botan perguntou, seguindo as instruções do kitsune.
- Isso. Agora empurre com o mesmo pé direito, repita o processo com o esquerdo e depois volte para o direito novamente, sempre repita esses movimentos.
Botan fez o que Kurama lhe disse e liberou um suspiro aliviado assim que conseguiu deslizar facilmente para frente.
- Eu consigo fazer isso! - ela gritou de alegria ao avançar em um ritmo muito mais rápido do que antes, porém com Kurama ainda a apoiando.
Kurama balançou a cabeça com um sorriso em seus lábios.
- Você está indo muito bem, Botan.
Os dois patinaram juntos por mais alguns minutos até que Kurama perguntou:
- Pronta para tentar sozinha?
Botan lançou seu olhar para baixo, ainda não se sentia confiante.
- Sozinha? - ela perguntou em um tom quase suplicante que atingiu em cheio o coração do kitsune.
Ela tem tão pouca fé em si mesma. Ele pensou tristemente. Kurama não entendia porque Botan se comportava dessa maneira sendo uma pessoa tão cheia de vida. Bem, eu não vou permitir mais que ela duvide de si mesma. Prometeu a si mesmo assim que parou seu movimento.
- Venha aqui Botan. - ele disse suavemente antes de trazer a divindade suavemente em seus braços.
Botan estava assustada para dizer o mínimo. Ela só tinha estado nos braços de Kurama em algumas ocasiões e cada uma delas tinha sido uma situação de vida ou morte, o que não deixava espaço para formalidades. E agora ali estava ele, com os braços em volta dela, com o queixo apoiado acima de sua cabeça, segurando-a perto dele, como se fossem namorados. A guia descansou a cabeça em seu casaco, fechando seus olhos enquanto sentiu seu corpo forte.
- Eu não sei por que você duvida tanto de si mesma. Mas Botan, tem algo que eu quero que você saiba. – o ruivo fez uma pausa, certificando-se de que a deidade estava prestando atenção antes de continuar. - Eu acredito em você. Eu tenho fé em você. Eu sei que você pode fazer qualquer coisa se focar sua mente para ela. Então, o que você me diz? Dê-se uma chance.
Botan se afastou um pouco, tomando coragem de olhar para esses orbes verdes fascinantes, um sentimento de conforto enchendo-a quando viu o mesmo olhar mágico de ontem. Kurama acredita em mim! Sua mente gritou enquanto endireitou seu corpo e sorriu.
- Eu vou fazer o meu melhor. Eu vou conseguir! – ela disse mais confiante.
Kurama soltou sua presa, já sentindo falta do calor de seu corpo contra o dele, e patinou a cerca de quarenta metros de distância, dando-lhe espaço para tentar. Virando-se, ele enfrentou a divindade e esperou ela começar.
Botan mexeu um pé, depois o outro, como ela tinha praticado. Conforme executava esses movimentos, sua confiança crescia. Eu estou conseguindo! Ela gritou mentalmente quando sua velocidade aumentou. A guia era pura alegria, estava patinando magnificamente, o sentimento de liberdade a fez se lembrar de seu remo, era a mesma sensação que sentia quando voava com ele. E então liberou um grito. De repente ela se viu indo muito depressa, indo direto para um Kurama com os olhos arregalados.
O ruivo poderia facilmente ter evitado que Botan viesse a toda velocidade para cima dele, mas se manteve em seu lugar, não queria vê-la se machucar, então a esperou e recebeu todo o golpe do impacto.
Botan caiu em cima de Kurama e liberou um suspiro agudo, ambos foram direto ao chão gelado.
Kurama reagiu instintivamente, envolvendo os braços em volta da cintura dela, amortecendo a queda com seu corpo quando caiu de costas. Ele segurou-a firmemente contra ele, sem se atrever a mover-se, dando um tempo para Botan se recuperar do choque.
A guia estava em cima do kitsune, com o rosto enterrado em seu peito, envergonhada por sua ação. Eu não posso acreditar que vim direto para ele a toda velocidade! Ela se repreendeu. Ele provavelmente está me achando um desastre ambulante. Ainda assim, Botan não queria se mover. Sentir o corpo dele contra ela apagava qualquer sinal de embaraço que sentia. A divindade respirou fundo admirando seu cheiro. Delicado e ainda assim masculino.
Um estrondo baixo explodiu do peito de Kurama.
As feições de Botan se torceram em confusão quando ela trouxe sua cabeça para cima, descansando o queixo em seu peito enquanto olhou para ele, seus olhos registrando a surpresa que seus ouvidos já tinham registrado.
Ele estava rindo. Kurama estava rindo!
Botan não conseguia acreditar. Nunca antes tinha ouvido Kurama rir daquela forma. Ele sempre pareceu muito sério e reservado, imagina então rir de coisas bobas como essa. Nunca! E, no entanto, ali estava ele, rindo, seus olhos esmeraldas cheios de alegria quando ele fitou os orbes ametistas confusos da guia.
- Bem, você já sabe como patinar, então eu acho que agora preciso te ensinar a parar, não é verdade? – O ruivo continuava rindo.
Botan mostrou a língua para ele, mas por dentro estava muito contente.
- Sim, parece que meu instrutor se esqueceu de mencionar essa informação importante.
Kurama soltou um suspiro e lhe deu um abraço reconfortante.
- Estou feliz que você está bem.
Botan corou, virando a cabeça para o lado, arregalando seus olhos ao notar vários patinadores olhando para eles com sorrisos maliciosos.
- Kurama?
- Hmm...
- Você não acha que devemos nos levantar agora? As pessoas estão olhando para nós.
Deixe-os olhar. Kurama pensou, apreciando o momento. Mas suas emoções logo deram lugar à razão. Ele não queria fazê-la se sentir desconfortável ou constrangida. E eu estou envergonhando-a novamente. Pensou com um suspiro desolado.
- Claro. - Ele disse suavemente, libertando a guia de seu abraço.
Botan descansou as mãos no peitoral do kitsune, admirando os músculos tonificados que sentia sob suas roupas enquanto se afastou gentilmente dele, a seguir se levantou.
Kurama a seguiu alguns segundos depois, endireitando seu casaco. Botan fez o mesmo e então pediu desculpas a ele com um sorriso tímido.
- Sinto muito por tudo isso, Kurama.
O ruivo deu-lhe um sorriso terno.
- Não precisa se desculpar Botan. - ele disse suavemente enquanto estendeu a mão e colocou alguns fios de cabelo azul revoltos atrás da orelha de uma Botan surpresa. - Você pode correr até mim a qualquer momento.
A guia corou em um tom mais profundo de vermelho. Kurama cada vez mais se deliciava com a timidez e inocência dessa menina especial.
Um súbito silêncio se fez enquanto se olhavam um nos olhos do outro, nenhum dos dois sendo capaz de colocar em palavras o que estava se passando em seus corações. Kurama retirou sua mão, acariciando a bochecha da guia com a parte de trás de seus dedos, antes de retornar seu braço a seu lado.
Botan abriu sua boca, prestes a falar qualquer coisa, quando um grito súbito surgiu no ar.
- MINHA FILHA! ONDE ESTÁ MINHA FILHA! YUMI! CADÊ VOCÊ!?
O kitsune e a divindade giraram suas cabeças na direção da voz.
Uma mulher de cabelos escuros vestida com um casaco branco e jeans preto estava patinando freneticamente pelos arredores. Seus olhos castanhos observavam toda a área deseperados e atentos enquanto ela procurava por sua filha entre a multidão de patinadores.
- YUMI! APAREÇA POR FAVOR!
- Onde a menina pode estar? - Botan perguntou, quando desviou o olhar da mulher assustada e dos outros patinadores que começaram a chamar pela menina, para o kitsune.
- Eu não sei ao certo. – o ruivo respondeu enquanto procurou qualquer sinal da menina com sua consciência espiritual.
Kurama inclinou a cabeça para o lado, seus ouvidos sensíveis captaram o som fraco de gelo se quebrando abaixo da superfície e uma tênue batida de coração. Ele fechou seus olhos, suas belas feições formaram uma máscara de concentração e urgência que o fez se desligar de todos e se concentrar no som particular, isolando-o. Deslocou seu corpo para a esquerda quando finalmente localizou a garotinha. Suas pálpebras se abriram e ele patinou para frente em uma velocidade estonteante em direção ao centro do lago, sem prestar atenção aos gritos dos outros patinadores avisando-o para não chegar muito perto do gelo fino. A menina está lá! Sua mente vociferou quando ele parou. Seus olhos varreram o gelo diante dele, o chão frágil começou a se quebrar sob seu peso. Um flash de cor roxa chamou sua atenção e, em seguida, desapareceu.
Não! Sua mente gritou. Aumentando sua energia espiritual, ele usou seu patim direito para quebrar a barreira glacial, seu corpo magro caiu na água gelada através do buraco que seu ataque tinha criado. Uma sensação gelada de dor, como milhares de agulhas, envolveu todo o corpo do kitsune, mas ele rapidamente abafou a vontade de gritar. Qualquer ser humano normal teria sucumbido instantaneamente ao horror gelado da hipotermia. Mas Kurama não era normal, e certamente não iria desistir por causa de um pouco de dor e desconforto. Não quando a vida de alguém estava em perigo.
Ele olhou por toda parte em busca de algum sinal do paradeiro da criança. Onde ela está? Lembrando a direção de seu movimento, Kurama nadou em um pequeno ângulo para a direita, olhando para todos os lados procurando a menina. Por fim, ele a viu flutuando em um pedaço de gelo. Com uma carranca, o kitsune nadou até ela. A dor se tornava cada vez mais insuportável. Seus pulmões estavam sedentos por ar e sua visão estava ficando turva.
Vamos lá! Estamos quase lá! Disse a si mesmo quando colocou mais energia em seu último movimento, alcançando a criança. Ele a puxou perto de si com o braço direito, enquanto usou a mão livre para formar um soco. Com um impulso poderoso, ele bateu para cima com o punho esquerdo, fazendo um buraco no gelo. Conseguindo seu objetivo, com o braço ele apoiou-se a meio corpo para fora da água congelada, engolindo avidamente por ar quando puxou a menina para fora da água e gentilmente colocando-a no gelo em frente a ele. O ruivo estremeceu violentamente, um suspiro cansado escapou de seus lábios enquanto seus orbes esmeraldas cansados estudaram a menina.
Concentrando mais energia espiritual, Kurama descansou sobre suas panturrilhas, estendeu a mão e tocou o pescoço da menina quase congelada, franzindo sua testa quando sentiu que ela estava sem pulso. Ele podia sentir que sua força vital estava desaparecendo. Sem perder mais tempo, fechou os olhos e concentrou-se, passando a mão sobre o peito da menina. Um som de tosse irrompeu dos lábios da criança, e ela começou a expelir a água gelada que engoliu. Kurama rapidamente a virou para o lado, a água saía de seus pulmões enquanto ela lutava para respirar. Isso mesmo. Respire mais. Respire. Ele incentivou mentalmente, virando a cabeça da menininha para o lado, enquanto avistou um grupo de pessoas patinando até ele. Botan estava no meio do grupo.
- Kurama! - Ela gritou, o medo e a ansiedade em sua voz chamando a atenção do ruivo para ela, a preocupação que exibiu por sua segurança aquecendo seu coração e sua alma enquanto ele ergueu a criança em seus braços e, lentamente, levantou-se a seus pés. Foi até a margem, onde era mais seguro, e entregou a menina para sua mãe que chorava desesperada. Ela olhou com medo e preocupação para sua filha. Kurama caiu de joelhos em exaustão.
- Kurama!? - Botan gritou, caindo ao lado dele, envolvendo seus braços em volta de seu corpo trêmulo, segurando-o firmemente contra ela. A preocupação apertou seu coração quando sentiu o quão frio ele estava. Ela abraçou-lhe mais apertado, ignorando a roupa molhada que se agarrava à pele dele, oferecendo o calor de seu corpo a ele.
- Eu estou bem... Botan. - Ele sussurrou, descansando sua cabeça cansada no ombro esquerdo dela quando olhou para a mãe, que embalava a criança em seus braços.
- Yumi? - A mulher sussurrou em uma triste voz, balançando a criança suavemente, seu rosto se encheu de alívio quando a menina abriu seus olhos alguns segundos mais tarde.
- Mamãe? - Ela murmurou, sua pele voltou para uma tonalidade normal, livre dos efeitos da água gelada graças aos poderes de cura do kitsune.
- Oh, meu bebê! Meu bebê! - A mulher chorou, beijando sua filha repetidamente na testa e na cabeça, esmagando-a perto de seu peito quando ela voltou seu olhar para Kurama. - Obrigada! Obrigada! - Ela falou com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Kurama balançou a cabeça. Um pouco de sua força voltou assim que os efeitos da água gelada começaram a desaparecer. Seu corpo começou o processo de auto-regeneração, enquanto observou a mulher levar a criança para fora do gelo até a calçada do parque, com vários curiosos e familiares atrás dela. Aqueles que permaneceram olharam para o kitsune com uma mistura de admiração e reverência enquanto Botan ajudou Kurama a se levantar.
O kitsune passou seu braço esquerdo em volta do pescoço da deidade, assim como Botan envolveu seu braço direito em torno de sua cintura, permitindo a ela levá-lo a um banco de madeira.
Aplausos e gritos de "Bom trabalho rapaz! Bom trabalho!" irromperam em torno dele assim que caminhou até o banco e desabou sobre ele, deixando escapar um suspiro quando se inclinou para trás e fechou seus olhos. Deus, estou tão cansado. Muito cansado. Suas pálpebras se abriram quando ele sentiu uma leve carícia sobre sua bochecha direita. Virando a cabeça para o lado, seus olhos encontraram os preocupados de Botan.
- Kurama?
- Sim Botan? - Ele falou em uma voz sonolenta que fez a divindade franzir a testa.
- É preciso tirar essas roupas molhadas. Você vai pegar um resfriado.
O silêncio reinou por alguns segundos antes que Kurama falou:
- Não precisa se preocupar. - Ele respondeu suavemente. - Vou ficar bem em alguns momentos.
Botan mordeu seu lábio, querendo acreditar nele. Mas o medo em seu coração não iria diminuir. Estendendo sua mão, a divindade a repousou sobre a mão de Kurama, acariciando sua pele com o polegar.
- Mas eu me preocupo com você Kurama.
O kitsune inclinou a cabeça para baixo, seus olhos verdes estavam repletos de surpresa e alegria com a forma como a deidade prendia sua mão, divertindo-se com o contato de sua pele na dele. Ele não disse nada. Apenas esperou Botan continuar.
- Eu fiquei tão assustada quando vi você se jogar no gelo. Pensei... – a voz de Botan sumiu, era incapaz de se expor em palavras, falar sobre a situação que mais temeu em sua vida.
- Você ficou com medo que eu morresse? - Ele perguntou suavemente, cruzando seu olhar com a guia, que assentiu.
- Sim. - Ela respondeu em um sussurro triste quando se inclinou para descansar a cabeça em seu ombro. - Eu sei que foi uma bobagem pensar que você não iria sobreviver, mas ainda assim...
Kurama gentilmente tirou a mão debaixo da mão da guia.
Botan ficou pensativa, seu coração doeu ao imaginar perdê-lo para sempre. Sua respiração falhou quando sentiu seu braço enlaçá-la e puxá-la para perto dele. Ela ignorou o quão molhado seu casaco estava, ignorou certos pensamentos que lhe diziam que não deveria fazer isso, que não deveria estar tão próxima do kitsune. Mas meu coração quer isso, eu preciso disso. Ela respondeu a si mesma, aconchegando-se em seu peito.
- Eu ainda não estou pronto para deixar este mundo, Botan. - Kurama sussurrou enquanto descansou a cabeça contra a dela. - Há muitas coisas que preciso fazer e pessoas para proteger e amar. - Ele fez uma pausa, com um tom mais leve continuou. - Apesar de que eu poderia ter realmente morrido desta vez. - acrescentou, usando sua mão livre para afastar os fios de cabelo de sua testa, sorrindo quando sentiu sua força retornar completamente.
- Você teve medo? - Botan perguntou suavemente - Medo de que você poderia ter morrido ao salvar aquela criança?
- Não. - Ele respondeu sem hesitar, um sorriso iluminou seu rosto e então começou a rir ao ver a expressão de incredulidade dela.
Botan sorriu, mas seu tom era sério quando falou:
- Isso não é engraçado, Kurama.
- Eu não acho. – o ruivo admitiu, liberando seu braço que estava em torno da divindade, embora seus olhos ainda permaneceram em seu rosto. - Bem, acho que nós deveríamos tirar esses patins e voltar para casa. Tenho certeza que você tem muitas coisas para fazer antes de se preparar para a festa de hoje à noite. - Ele parou, notando o olhar de preocupação em seu rosto. - Você ainda quer ir, não é Botan?
Botan assentiu lentamente.
- Então qual o problema? – Perguntou. - Você parece perturbada.
Botan suspirou.
- É que... - começou e então parou, olhando para longe dele.
- Sim?
- Eu não sei se nós deveríamos ir. - disse em um tom suave, voltando seu olhar para ele. - Depois do que aconteceu hoje...
Kurama a silenciou com seu dedo indicador, pressionando-o suavemente sobre os lábios dela.
- Eu estou bem agora Botan. Não será nenhum problema acompanhá-la. - Ele respondeu, abaixando a mão para olhá-la com reverência. - Além disso, eu gosto de passar meu tempo com você.
Botan corou.
- E eu gosto de passar meu tempo com você.
- Então está resolvido. - Kurama se inclinou e começou a desamarrar seus patins.
Botan fez o mesmo, substituindo seus patins pelas botas que estavam na mochila preta que tinham usado para guardar seus calçados antes de entregar a Kurama seus tênis.
Depois de feito isso, os dois voltaram para o carro e se dirigiram de volta a Tóquio para se prepararem para a festa.
Kurama chegou à residência Yukimura por volta das sete horas e desligou o motor de seu carro quando verificou seu relógio. Eu estou um pouco adiantado. Pensou com uma careta quando abaixou o braço e voltou sua atenção para a caixa de veludo preta que estava no banco do passageiro. Suas feições suavizaram enquanto pensava no presente que daria a ela. Será que ela vai gostar? Ele se perguntou. Não queria agir de forma rápida, não queria assustá-la com os sentimentos que tinha sufocado por tanto tempo. Mas quem sabe quantas chances mais eu terei para dizer a ela? Respondeu a si mesmo, a determinação o dominou quando retirou a chave da ignição.
Cheio dessa mesma determinação, estendeu a mão e gentilmente apertou a caixa, trazendo-a consigo quando abriu a porta de seu carro e rapidamente saiu. Ele deslizou a caixa no bolso do lado direito de seu sobretudo, parou diante da porta e apertou a campainha. Esperou pacientemente, unindo suas mãos vestidas com luvas de couro marrom atrás de seu corpo. Alguns segundos depois, a porta se abriu e uma elegante Keiko cumprimentou-o com um sorriso amigável, seu cabelo castanho estava solto como de costume, usava um vestido longo preto e simples que combinava com os sapatos de salto alto que escolheu para a noite.
- Boa noite, Kurama - ela falou com a voz alegre. - Você está um pouco adiantado.
- Boa noite, Keiko. Você está muito bonita.
- Obrigada, eu espero que Yusuke concorde com você. – a morena deu passagem ao kitsune, que retirou seus sapatos e os deixou no local apropriado antes de tirar seu sobretudo, revelando um smoking preto combinado com uma camisa branca e gravata de seda vermelha. Ele segurou o sobretudo com seu antebraço direito e caminhou até a sala de estar, seus pés estavam calçados com um par de meias sociais na cor preta. Ao chegar na sala, admirou a árvore de Natal bem iluminada e decorada.
- Por que você não se senta, Kurama? - Keiko disse ao se dirigir para as escadas - Eu vou ver se Botan está pronta.
Kurama assentiu e sentou-se no sofá enquanto Keiko desapareceu.
Keiko correu pelo corredor acarpetado tão rápido quanto seus pés calçados em um par de sapatos de salto alto permitiriam, parou em frente à porta do banheiro fechada. Ela levantou sua mão direita e bateu suavemente na porta.
- Botan, você está pronta?
- Quase. - Botan respondeu com a voz abafada. – Ainda não me decidi se deixo o cabelo preso ou solto.
- Deixe-o solto. Aposto que Kurama vai adorar vê-lo solto.
- Você tem certeza?
- Por que você não pergunta para ele? - Keiko respondeu com um sorriso malicioso - Ele está aqui agora.
Uma agitação pôde ser percebida dentro do banheiro, de repente a porta se abriu e uma Botan surpresa enfiou a cabeça para fora.
- Sério? - Perguntou agitada.
Keiko assentiu.
- Ele está esperando por você lá embaixo, enquanto nós conversamos aqui em cima. Então se apresse menina!
Botan enfiou a cabeça para dentro e fechou a porta novamente.
- Diga a ele que já vou.
A morena concordou e voltou para baixo. Seus olhos castanhos rapidamente avistaram o ruivo sentado no sofá esperando pacientemente. Com um sorriso, ela falou:
- Botan vai descer em um minuto.
Kurama assentiu, suas feições estavam calmas, embora seu coração estivesse disparado. Disparava com o mero pensamento de passar a noite com a divindade. Ao pensar que esta noite seria a noite em que diria a ela. Confessaria seu amor abertamente e sem medo. Seu coração começou a bater ainda mais rápido quando Botan surgiu em uma visão que lhe tirou o fôlego. Seu cabelo azul caía em cachos exuberantes ao redor de seus ombros nus, acentuando o vestido longo sem mangas na cor rosa. O vestido se adaptava maravilhosamente em torno de seu corpo esguio, a cintura era decorada com um laço branco adornado com um detalhe floral de rosas. Rosas. Kurama pensou com um olhar maravilhado que viajou de cima abaixo em seu corpo. Ela estava simplesmente deslumbrante. Minha bela deidade. Suspirou mentalmente, totalmente encantado.
- Botan, você está... simplesmente impressionante. - conseguiu falar após ficar longos segundos com a garganta seca enquanto se levantou.
Botan lançou seu olhar para baixo para esconder o rubor que se formou em seu rosto.
- Obrigada. - Ela sussurrou timidamente.
Keiko franziu a testa. Neste ritmo nunca vão confessar seus sentimentos um pelo outro. Ela pensou com um aceno de cabeça. Batendo palmas, chamou a atenção dos dois.
- Por que vocês não vão na frente? Yusuke e eu encontraremos vocês na festa.
A guia e o kitsune assentiram em conjunto. Caminhando em direção à porta de entrada, Kurama calçou seus sapatos novamente e Botan pegou o longo casaco preto que pertencia à mãe de Keiko. Ambos dirigiram-se silenciosamente para o carro, entraram e partiram para a escola Sarayashiki, onde seria realizada a festa de Natal.
- Ei vocês dois, aqui! - Kuwabara gritou em um tom acima da música e das conversas que enchiam o salão belamente decorado com flocos de neve e pinheiros artificiais. Faixas com as palavras Merry Christmas estavam espalhadas pelo salão e uma faixa de boas-vindas estava acima do DJ que agitava a multidão com suas músicas, muitas pessoas dançavam na pista de madeira.
Kurama ofereceu seu braço a Botan, andaram graciosamente até a mesa na qual estava o rapaz de cabelos laranja vestido elegantemente em um terno branco, acompanhado de uma sorridente Yukina sentada à sua esquerda com um lindo vestido verde pálido que combinava com suas mechas verde-água soltas que fluíam ao redor de seus ombros.
- Vocês estão muito elegantes. – a donzela de gelo falou com sua voz suave como de costume, com sua mão esquerda pegou o copo de refrigerante na sua frente, a pulseira de ouro e diamantes brilhou em seu pulso.
- Você também, Yukina. - Botan respondeu e desviou sua atenção a Kuwabara que falou:
- Botan, seu vestido é muito bonito. Você está linda!
- Obrigada Kuwabara.
Kurama olhou para Kuwabara com os olhos estreitados enquanto se sentou em frente ao rapaz alto, Botan se sentou à sua direita.
Kuwabara percebeu isso e levantou as mãos.
- Relaxe Kurama, eu estou apenas elogiando a Botan.
O kitsune balançou a cabeça, tentando disfarçar os ciúmes que inundaram seu coração.
- Eu entendo Kuwabara. E concordo com a sua avaliação. Ela está muito bonita com esse vestido.
Botan corou furiosamente, não estava acostumada a receber tantos elogios.
Kurama estendeu a mão para ela e lhe deu um aperto suave como se assegurando-lhe que era verdade. Que realmente a achava linda.
- Então, onde estão Urameshi e Keiko? É melhor aquele idiota não ter se esquecido dela, ou eu vou dar uns socos nele. – Kuwabara falou e a seguir gritou de dor quando algo o atingiu na parte de trás de sua cabeça. - Que foi isso...? - Ele resmungou olhando para trás e esfregando sua cabeça dolorida. Seus olhos se arregalaram quando viu um Yusuke irritado vestido com um terno preto simples, uma camisa branca e uma gravata de seda azul.
- Estou bem atrás de você seu idiota! - Ele rosnou de volta.
- Você não precisava me bater, Urameshi!
- Talvez eu não precisaria se alguém te ensinasse a não falar mal das pessoas pelas costas! - Yusuke respondeu olhando de forma fulminante para seu amigo.
- Seja como for. - Kuwabara resmungou abaixando a mão. Seus orbes escuros varreram a área procurando algum sinal da namorada de seu melhor amigo. - Onde está Keiko?
Yusuke encolheu os ombros.
- Ela disse que tinha de ir ao banheiro, então eu acho que é lá onde ela está. - ele respondeu enquanto se sentou à direita de Kuwabara. Seus olhos castanhos se deslocaram para o kitsune e a guia, um sorriso maroto se formou em seus lábios. - Bem, olhem só... Parece que a bela deusa da morte rendeu-se a um mortal. – o moreno falou em uma voz provocante, que fez a divindade encará-lo com feições escurecidas, ainda mais quando o detetive sobrenatural soltou uma risada. - Então, quando será o casamento? - acrescentou, desviando o olhar divertido para o kitsune que encarou Yusuke com olhos estreitados e dourados. – Ei, Kurama, - ele disse, erguendo os braços defensivamente. - Relaxe menino-raposa, estou só brincando.
Kurama soltou um suspiro, seus orbes dourados voltaram para sua habitual cor esmeralda.
- Isso não foi engraçado, Yusuke.
O detetive soltou um suspiro aliviado. Rapaz, Kurama realmente é superprotetor dela! Ele pensou enquanto estudou a cena à sua frente. Ele realmente a ama. Um sorriso puxou os cantos de seus lábios e desta vez era um sorriso feliz. O moreno desviou seu olhar atrás de seu ombro quando sentiu Keiko se aproximando. Ela trazia uma taça em sua mão direita e sentou-se à direita de Yusuke.
- Olá, pessoal! - a morena disse alegremente, olhando para todos os presentes na mesa com brilhantes orbes castanhos que pousaram por último em seu namorado. – Ei, lindo. - ela sussurrou, inclinando-se para beijar sua bochecha. - Que tal uma dança?
Yusuke sorriu de orelha a orelha, levantando-se de sua cadeira.
- Ótima idéia. - ele circundou o braço em volta de sua cintura enquanto a levou para a pista de dança.
Kuwabara também se levantou, estendendo a mão para Yukina.
- Vem meu amor, vamos para a pista de dança.
Yukina riu da maneira estranha que ele se endereçou a ela, pegou sua mão estendida e levantou-se da cadeira para segui-lo até a pista de dança.
Kurama sorriu, balançando a cabeça enquanto seus amigos tentaram dançar no ritmo da música, sem pisar nos pés de suas parceiras. Oh, bem! Ele pensou com um suspiro quando olhou de volta para Botan. Eles amam-nas, isso é tudo que importa. Seu sorriso se desfez quando notou em quão calada a deidade se tornou. Ele tocou no ombro de Botan. A guia trouxe seu olhar para cima, com olhos cheios de preocupação.
- Botan, algum problema?
A divindade mordeu o lábio enquanto olhava para longe dele.
- Eu não sei dançar muito bem.
- Bem, isso não é motivo para se envergonhar - Kurama falou em uma voz suave. - Se você olhar para a pista, verá que a maioria das pessoas aqui não sabe dançar, mas ainda assim estão se divertindo.
- Eu sei, mas... eu estou um pouco nervosa.
O ruivo se levantou.
- Então eu vou te ensinar a dançar e você não vai mais ficar nervosa. - ele disse suavemente, estendendo a mão para ela pegar.
Botan olhou para ele, para aqueles olhos esmeraldas que lhe prometiam o mundo, e acenou com a cabeça, pegando sua mão e o seguindo.
Uma vez na pista de dança, Kurama se virou para Botan, colocando sua mão esquerda sobre o quadril direito da guia, enquanto apertava a mão esquerda dela com a sua direita. Ele a puxou para mais perto dele.
- Coloque a mão no meu ombro esquerdo Botan, e nós estaremos prontos para viajar no mundo da dança.
Botan assentiu e obedeceu. Seu coração acelerou quando ele começou a girá-la na pista de dança, lhe ensinava os passos da dança, estudava o movimento de seus pés e gentilmente a corrigia até que ela aprendeu, continuaram a dançar por alguns minutos. Eles fizeram uma pausa por alguns segundos antes de iniciar uma dança nova, e dançaram as próximas cinco músicas, até que a última ficou mais lenta. Os casais se aproximaram um do outro, as garotas serpentearam seus braços sobre os ombros de seus namorados, enquanto os rapazes envolveram seus braços ao redor das cinturas de suas namoradas e as puxaram mais próximas de seus corpos.
Botan olhou em volta, querendo saber se ela deveria fazer isso também quando Kurama respondeu por ela, puxando a guia próxima a ele, com palavras doces e macias.
- Está tudo bem, Botan. Eu não vou te machucar.
Botan sorriu timidamente, levantando os braços para envolvê-los em torno do pescoço do kitsune, seu coração batia freneticamente enquanto ele olhava nos seus olhos com tanto amor e carinho que ela não sabia o que dizer. Palavras não eram necessárias. Tudo o que queria dizer refletia-se em seus olhos. E assim permaneceram até o final da música. As luzes se acenderam e o DJ anunciou uma pausa enquanto os casais voltaram para suas mesas para um descanso necessário.
Kurama se afastou da guia relutantemente, com um sorriso nos lábios enquanto conduziu Botan de volta à mesa, segurando sua mão o tempo todo.
Eles falaram sobre vários assuntos diferentes, conversaram com seus amigos e dançaram por mais algum tempo antes de ficar tarde e voltarem para casa.
Kurama acompanhou Botan até os degraus da porta de entrada da casa de Keiko, lançando um olhar cada vez mais intenso para a divindade, ela percebeu e ele sorriu timidamente.
Finalmente, incapaz de suportar mais, ela perguntou.
- O que foi, Kurama?
O ruivo sorriu, afastando-se dela e falando suavemente.
- Nada.
Botan não comprou sua inocência.
- Vamos lá. Diga-me.
Kurama balançou a cabeça, um sorriso amarelo se formou em seus lábios.
- Nada. - ele repetiu no mesmo tom suave que deixava a guia louca.
Por que ele não me fala o que está pensando? Ela se perguntava enquanto subiu os degraus, parando para virar-se com os olhos cheios de dúvidas assim que estudou o homem diante dela.
- Eu me diverti muito esta noite.
Kurama sorriu.
- Fico contente. - disse calmamente, mas por dentro seu coração estava gritando com ele para lhe contar como se sentia.
Eles olharam um para o outro por alguns momentos, nenhum querendo deixar a visão do outro.
- Ok, então tchau - disse Botan, a decepção era evidente em sua voz. Ela esperava por algum sinal de carinho de Kurama. Algumas palavras que falassem a verdade de seu coração. Acreditava que ele tinha algum interesse por ela acima do nível de amizade, mas parece que cada vez que se aproximavam, algo acontecia ou Kurama se afastava dela propositalmente. Era como se quisesse dizer-lhe algo, mas estava com medo de fazê-lo. E eu então? Ela se perguntou. Como ele pode expressar qualquer sentimento por mim quando eu não lhe disse como me sinto? Com um aceno de cabeça, Botan limpou seus pensamentos e lhe deu um sorriso educado para esconder a confusão e incerteza em seu coração.
- Eu acho que devemos nos despedir. – a guia acrescentou, voltando-se para abrir a porta, somente para sua respiração falhar quando sentiu os braços de Kurama se envolverem em torno dela.
- Espere - ele murmurou baixinho, sua respiração roçava o pescoço exposto da garota, o contato causando um arrepio agradável que correu-lhe a espinha. - Tem algo que eu preciso lhe dar. - ele acrescentou enquanto se afastou e recuou para trás.
O coração de Botan disparou quando ela se virou para encará-lo. Será que ele vai falar? Ela se perguntava enquanto esperou ele continuar.
Kurama engoliu o nó que se formou em sua garganta, seu coração ameaçava saltar de seu peito enquanto tentava encontrar as palavras certas para dizer a ela, o caminho certo para deixá-la saber que se importava com ela, que a desejava, que a amava. Colocando a mão no bolso, tirou a caixa de veludo e ofereceu a ela.
- O que é isso? - Ela perguntou, olhando para a caixa que pegou de suas mãos.
- Um presente. De meu coração. - Ele disse suavemente, se esforçando para parecer calmo quando tudo que queria fazer era pegar Botan em seus braços e beijá-la com todo o amor que sentia.
Botan abriu a tampa, seus olhos curiosos estudavam o pano vermelho que ela começou a afastar. Um suspiro espantado escapou de sua garganta quando seus orbes ametistas olharam para a jóia diante dela em choque.
- Oh, meu Deus. - Ela sussurrou em admiração e espanto. Com as mãos trêmulas, pegou o colar, deixando cair a caixa, enquanto o segurou para admirá-lo.
- Você gostou? – o ruivo perguntou, sua voz tensa combinava com seus batimentos cardíacos irregulares, enquanto esperava ela responder.
Botan não sabia o que dizer. Seus olhos se encheram de lágrimas. Uma jóia com uma pedra ametista. Uma jóia que combinava com seus olhos. Ninguém nunca tinha lhe dado um presente tão especial. Ninguém.
- Eu... AMEI! - Ela gritou, correndo para seus braços e abraçando-o com força.
Kurama a abraçou de volta, compartilhando com sua alegria. Eles permaneceram assim por alguns segundos, até que finalmente a divindade se afastou.
- Kurama?... Por que você me deu este presente?
O kitsune manteve a calma, reunindo coragem para dizer o que estava em seu coração.
- Porque eu te amo. Eu te amei desde o momento em que coloquei os olhos em você.
Botan engasgou. Eu ouvi isso mesmo?! Sua mente gritou em surpresa, seus joelhos balançaram em sua confissão. Ela foi até o chão, mas foi segura por um Kurama preocupado.
-Botan? Botan, você está bem? – o ruivo perguntou em voz aflita quando ele puxou-a para seus pés, emprestando sua força a ela.
Botan inclinou a cabeça para trás, procurando seu rosto, certificando-se de que isto era real, que as palavras que ele disse foram verdadeiras.
- Você... me ama? - Ela murmurou baixinho.
Kurama abafou um riso chocado com a forma débil como ela falou.
- É tão difícil de acreditar? - Ele estendeu a mão para acariciar seu rosto. - É realmente tão difícil de acreditar, minha bela deusa?
Botan voltou os olhos para baixo.
- Sim.
Kurama franziu a testa, não esperava a resposta que recebeu.
- Você não acredita que eu te amo?
- Eu não duvido de suas palavras. – disse Botan, suas pernas ganharam força mais uma vez. - Eu só não entendo como você pode me achar bonita quando há tantas outras mulheres mais atraentes do que eu.
- Não em meus olhos. – o kitsune sussurrou em um tom amoroso que quase fez a divindade entrar em colapso novamente. - E não no meu coração. - Ele acrescentou quando estendeu a mão e colocou o dedo indicador de sua mão direita sob o queixo dela, inclinando sua cabeça para cima até que seus olhos se encontraram. - Não há outra mulher em qualquer um dos três reinos que se compare a você. Você é a luz da minha alma Botan. Aquela que levará a solidão para longe do meu coração. O amor da minha vida. A mulher que eu quero como minha esposa. Você é tudo para mim. Você e somente você. Eu te amo.
Lágrimas escorriam pelo rosto da menina da balsa. Finalmente, o presente que ela sempre quis lhe foi dado, seu desejo foi concedido. Já não se sentia sozinha e sem amor. O homem que amou por todo esse tempo, realmente a amava também.
- E eu te amo. Ela sussurrou suavemente.
O coração de Kurama disparou quando ouviu suas palavras. Envolveu seus braços na cintura da guia e puxou-a para ele. Levantou-a do chão, começou a girá-la.
- Diga de novo para mim, por favor. - Ele ria alegremente.
- Eu te amo! Eu te amo, Kurama! - Botan gritou enquanto o kitsune a girava, seu riso se misturava ao dele, até que finalmente o ruivo a colocou lentamente no chão, seus olhos estavam cheios de desejo e afeto enquanto ele se inclinou e roçou seus lábios contra os dela, de maneira suave, doce e inocente no início, aprofundando o beijo quando a divindade correspondeu, desencadeando todas as emoções reprimidas e anseios que se acumularam ao longo dos três anos em que se conheciam. Ficaram assim por algum tempo, deleitando-se com cada toque, até que, finalmente, a necessidade de respirar tornou-se essencial e eles se separaram, olhando um para o outro com surpresa e amor.
Kurama puxou a guia perto dele, inclinando-se para descansar sua testa contra a dela enquanto falou.
- Me desculpe por não lhe dizer mais cedo. - Ele falou suavemente. - Eu queria ter dito já há muito tempo, mas o momento adequado parecia não chegar nunca.
- Eu entendo. - Botan disse estendendo a mão para traçar o queixo dele. – Me desculpe por não ter um presente para você.
O kitsune sorriu para ela, não havia mais necessidade de simular uma máscara para esconder suas emoções. Olhou para baixo nos olhos de quem o havia curado de sua solidão e declamou:
- Seu amor é o único presente que eu preciso. Feliz Natal Botan. - Ele trouxe seus lábios aos dela e a beijou novamente.
FIM
N/A: Esse Kurama deixa a gente caidinha por ele cada vez mais, vai ser romântico assim lá no Makai! Espero que tenham gostado... Um Feliz Natal e um ótimo Ano Novo a todas!
