Chapter Two

Eu escrevo. Escrevo e leio. Releio. Rabisco alguma palavra e depois reescrevo tudo na linha debaixo, recomeçando a frase com mais sentido. Mas não faz tanto sentido.

"Vai fazer o que eu pedi? No restaurante?"

Termino a frase, releio o parágrafo inteiro e suspiro. Largo o lápis em cima da bancada e me viro para olhar além da porta da cozinha, vendo Emmett sentado no sofá da minha sala, mexendo o pé em tique nervoso. Ginger está deitada no tapete, desinteressada demais pra se manter acordada.

Ginger é minha vira-lata cor de gengibre. Ela tem focinho longo, pêlos grossos, olhos cor de amêndoa e porte médio. Adora petiscos e voltas no parque e detesta, simplesmente detesta novas amizades. Gosto de pensar que sou parcialmente culpado por isso, por ser dono dela.

Já Emmett beira o gigantismo, tem olhos e pêlos escuros e péssimos hábitos de convivência. Parece mais vira-lata que Ginger, por sinal. Às vezes eu penso nele como um urso desengonçado.

Era uma coincidência estranha Emmett esperar eu terminar o último parágrafo antes de começar a falar.

Me pergunto porquê ele está todo de preto. Emmett está sempre com as roupas claras que o Hospital o faz usar.

"Vou. Aliás, não é o que eu tenho feito nesses últimos cinco meses?" Respondo, cegamente apalpando a bancada da mesa até achar meu lápis. "Por quê está de preto?"

Emmett olha para baixo, como se estivesse verificando se minha pergunta era baseada em fatos. Ele alisa o casaco com as mãos e depois as enfia nos bolsos da calça preta.

"Estou de folga."

Volto a olhar para os papéis em que estive escrevendo, misturados e bagunçados na mesa. Giro os lápis nos dedos antes de olhar para Emmett de novo.

"Está de luto?"

"Luto do quê?"

"Bem, Emm, você vai ter que voltar para a República enquanto Alice estiver aqui no meu apartamento."

Emmett faz um barulho estranho com a garganta, e contorce o rosto em uma daquelas caretas que ele usava quando era criança e Carlisle o obrigava a brincar com Alice.

Meu apartamento tem dois quartos.

"O luto é praticamente pela morte da sua liberdade."

E agora um dos quartos será entregue por tempo indeterminado à Alice, porque Emmett é desses idiotas que esquecem coisas super importantes, do tipo arranjar um lugar pra irmã caçula morar depois de ficar cinco anos fora do país.

Cinco anos sem falar com Alice e Emmett simplesmente oferece o meu apartamento pra ela morar.

Emm se levanta do sofá de couro, cobrindo a distância até a cozinha com seis passos.

"Você está jogando isso na minha cara porque ficou puto comigo." Fala, se encostando no batente da porta.

Começo a juntar os papéis que estão espalhados na bancada.

"Por quê eu ficaria puto com você?" Sei que Emmett detesta quando eu sou sarcástico. "Por quê você convidou alguém pra passar um tempo no meu apartamento sem que eu soubesse?"

"Não é 'alguém', Edward. É nossa irmã caçula." Emmett se mexe e eu sei que ele quer atenção. Eu paro para olhá-lo. "E eu não a convidei. Alice convenceu Esme, e é muito difícil dizer não para Esme."

Ergo uma sobrancelha, cínico. Emmett tinha abdicado de um quarto com privacidade só para não precisar dizer não para nossa mãe, além do fato de que ele o irmão mais relapso do mundo (depois de mim). Se ele tivesse pensado em onde Alice ficaria, não precisaria aceitar a ideia de Esme.

"Eu ainda não acredito que você só criou coragem pra me dizer isso há dois dias."

"Eu avisaria antes se tivesse alguma forma de te achar nessa cidade. Eu me mudei pro seu apartamento, mas posso contar no dedo as vezes em que te vi por aqui. E em uma delas você estava transando com sua namoradinha de porta aberta." Emmett aponta acusatoriamente.

Posso ser culpado por negligência em atender ligações e em fazer todo esse papel com a família que Emmett cobra, mas não por fazer sexo no meu quarto do meu apartamento. Sexo seguro, por sinal.

Em vez de tentar me defender, eu só corrijo:

"Tanya não é minha namorada."

"Você parou de cobrar o tratamento dentário dela pra trazê-la pra sua cama?" Emmett começa, mas eu ignoro. "Edward, eu já disse que tem algo sanguinário no jeito como ela olha pra Ginger? Você devia pedir uma ordem de restrição contra ela."

Ignoro de novo, mesmo depois que Ginger aparece na cozinha com as orelhas dobradas e o pêlo do rosto amassado.

Às vezes eu preferia o focinho de Ginger ao de Emmett.

"Tanya vai sair da cidade, já que você pensa que ela é um problema. Logo não será mais." Olho rapidamente para o relógio antes de voltar os olhos e o lápis para o papel.

Emmett resolve ficar quieto enquanto eu termino de passar a limpo o que eu escrevi em trinta folhas diferentes. Eu termino de escrever e releio mais uma ultima vez antes de dobrar o papel e colocá-lo no bolso interno da minha jaqueta marrom.

Talvez seja tarde demais, mas eu não consigo pensar que é um investimento inútil.

Emmett ainda está me observando quando eu me levanto.

"Vai ser bom ter Alice por perto. Você precisa de companhia."

"Preciso?" Pergunto, confuso. Começo a juntar os papéis de rascunho em um bolo. "Quero dizer, eu tenho Ginger. E você. Alguns amigos do trabalho, outros da época de faculdade... Família..."

Falo a última palavra por consideração. Não é como se eu considerasse nossa família como companhia, considerando que eu não era muito próximo dos nossos pais.

Emmett não deixa o detalhe de fora.

"Que família? Faz cinco anos que você não vê nossa irmã caçula e pelo menos seis meses desde a última vez que você retornou uma das ligações dos nossos pais. Eu sei que não sou o melhor cara pra falar sobre arranjar tempo, considerando que eu fiico a maior parte da minha vida naquele Hospital, mas... Você podia mesmo guardar um tempo pra família."

Respiro fundo enquanto rasgo os papéis, os jogando fora em seguida. Meu irmão espera uma resposta, mas sabe que eu não vou dizer nada.

"Nunca entendi porque você evita tanto nossos pais."

Eu passo por ele em silêncio e vou até a sala, pegando a coleira de Ginger. Minha cachorra corre animadamente na minha direção, sabendo que íamos dar uma volta. Seguro a maçaneta e olho Emmett.

"Eu não espero que você entenda, Emmett. E não tem muito o que explicar no fim das contas." Eu me abaixo para prender Ginger na coleira e aproveito para arrumar os pêlos amassados de quem dormiu a tarde inteira. Ginger lambe minha mão. "A vida acontece pras pessoas, e aconteceu pra mim diferente do que é pra eles. Entende? Você sabe lidar com essas coisas bem, mas eu não suporto pressão, Emmett, você me conhece... Essa coisa de comprometimento nunca foi muito a minha cara..." Minha mão toca a maçaneta de novo e dessa vez eu abro a porta, deixando o ar gelado do corredor circular pelo apartamento. "Mas Alice vai ficar aqui, não vai? Talvez pareça um pouco com o que era antes..."

Emmett me observa em silêncio, depois pigarreia e começa a andar para fora do apartamento.

Antes de comprar um apartamento, eu morei na República com Jasper e mais dois caras que terminaram a faculdade na mesma época que eu. Depois com Emmett, quando ele começou a faculdade.

Emmett é um ano mais novo que eu, e Alice é três anos mais nova que ele, o que a faz ter 26. Em alguns meses Emmett termina a especialização em medicina emergencial de pronto socorro e a República não será mais uma opção pra ele. Sabendo disso eu o chamei para morar comigo no último semestre.

A questão é outra: Emmett ainda mantém o quarto na república, e por isso ainda divide as contas com a gangue. A conta da comida sempre fica com Emmett, ou seja, sempre que ele não tem tempo para ir até o restaurante pagar o que eles comeram ou passar em um mercado para abastecer a geladeira, o irmão relapso aqui vai dar uma ajuda.

E considerando que Emmett resolveu pegar todos os turnos e plantões possíveis desde que começou a se mudar para o meu apartamento, eu faço o favor de ajudá-lo com isso.

Principalmente porquê na primeira vez que eu fui até o restaurante, eu recebi uma carta.

Quero dizer, não foi bem uma carta para mim e eu sei que tudo foi um engano, mas eu a guardei por pelo menos três meses e agora, sem nenhum motivo específico, eu achei que poderia respondê-la.

Eu amarro Ginger do lado de fora do restaurante antes de entrar. O atendente com pés de galinha já me conhece e acena quando eu me aproximo.

"Vou pegar a conta" Ele avisa antes de sair.

Eu nunca tinha entendido porquê a única conta feita em papel era a da república, considerando que eles tinham computadores e todas as tecnologias mais avançadas de controle. Mas Jasper me disse uma vez que a dona o conhecia e dava desconto.

Ou seja, eles mendigavam comida.

Eu não tinha bolado um plano sobre como devolver o envelope sem que ficasse na cara que eu o tinha feito, mas depois de ser deixado sozinho no balcão, eu tiro o envelope do bolso e o coloco debaixo do teclado do computador, bem a tempo do atendente voltar.

Conversamos algumas trivialidades enquanto eu pago, e depois eu vou embora.

Quando Ginger e eu voltamos ao apartamento, ainda são três horas da tarde e eu imagino que Emmett já deve ter chegado no aeroporto, ou seja, Alice já está em terra.

Ignoro a sensação estranha ao pensar isso.

Eu encho os potes de água e comida de Ginger e deixo a porta da lavanderia aberta para que ela tenha acesso à eles.

A campainha toca e eu automaticamente puxo o celular do bolso para verificar a possibilidade de ser Tanya (ela sempre avisa quando decide passar pelo meu apartamento), mas não há mensagem alguma.

Ginger já está ao meu lado quando eu me aproximo para olhar através do olho mágico.

Há uma mulher lá, e eu não a conheço. Ela ajeita a alça da mochila preta no ombro e mexe o cabelo marrom quando cai sobre seu rosto. Calça jeans e regata branca por baixo de uma parka pesada. Olha de um lado pro outro e depois para porta de novo, estreitando os olhos para o olho mágico. Estranho. Tenho a sensação de ser vigiado.

Abro a porta.

"Olá." A mulher cumprimenta, balançando a mão no ar. Sua voz é baixa e simpática e ela tem um rosto muito bonito, fino.

Penso em dizer algo, mas sou interrompido.

Veja bem, quando eu digo que Ginger não gosta de conhecer pessoas novas, eu me refiro ao "ritual".

Não teve uma pessoa que não passou pelo ritual. Emmett, Tanya... Todos que apareciam no meu apartamento ou no corredor do meu prédio, passavam por isso.

E essa mulher não seria exceção.

Eu tenho tempo para segurar a coleira de Ginger com o pé direito, mas já é tarde. Ginger já está correndo em volta da morena, enroscando seus pés com a coleiras e a deixando sem equilíbrio. Meu pé encaixa na parte que eu supostamente seguraria com a mão e Ginger me puxa para frente quando resolve correr pelo corredor.

É nessa hora que eu caio em cima da mulher que eu nunca vi na minha vida.

Não uma queda bonita, romântica, daquelas que as pessoas vêem nos filmes. Não há troca de olhares com sorrisos, nem aquela respiração ofegante de quem acabou de ver o lado positivo de esbarrar em alguém.

É uma queda do tipo acabei-de-ser-esfaqueado-nas-costas-em-um-filme-do-Tarantino.

Meu nariz lateja e queima quando eu atinjo a testa da mulher e eu tenho certeza que meus joelhos aterrissaram no lugar errado quando eu a ouço chiar debaixo de mim.

Fora meus mais de sessenta kilos jogados em cima das suas costelas, onde minhas mãos resolveram se apoiar.

Ela reclama de dor e eu giro pro lado, deitando no chão e desesperadamente tentando ver se meu nariz está sangrando. E está.

"Ai meu Deus!" Ela se apoia no cotovelo e me olha. "Seu nariz... Seu nariz..."

Eu tento dizer alguma coisa, mas meu nariz queima de novo.

"Você quer que eu te leve pro hospital?"

Toco a ponte do meu nariz e parece tudo no lugar. Eu me sento lentamente e olho Ginger com os olhos estreitos.

"Desculpe." Diz a mulher em voz baixa. Eu a olho, confuso.

"Não, me desculpe você. Quero dizer..." Há um galo enorme se formando bem no meio da sua testa. "Posso te ajudar em alguma coisa?"

"Eu ia perguntar se... Posso te levar pro hospital? Você deveria... Ver esse nariz... Tem... Bastante sangue."

Ela me encara por algum tempo, depois balança a cabeça.

"Meu nome é Bella." Finalmente se apresenta. Ginger se senta em frente a ela, observando cautelosamente. "Estou... Estava procurando Edward Cullen. Devo ter batido na porta errada e..."

"Eu sou Edward Cullen."

Bella desvia os olhos de mim para Ginger.

"Edward Cullen não tem um cachorro."

Ergo as sobrancelhas, largando o nariz para olhar para minha mão. O sangue parece ter diminuído.

"Eu sou Edward Cullen e eu tenho um cachorro... Bem, cachorra."

"Alice garantiu que Edward Cullen não tem um cachorro."

Mas que tipo de conversa é essa?

"Quer ver meu documento?"

Bella encara Ginger por alguns segundos, depois estica a mão e a deixa cheirar. Ginger a lambe e enfia sua cabeça na palma da mulher, esperando carinho.

"O nome dela é Ginger." Apresento, me sentindo mal por tratá-la daquele jeito quando foi a minha cachorra que a atacou. "Me desculpe por ter te de derrubado."

"Sem problemas..." Seu sorriso é sincero, mas ela toca a testa.

Eu sorrio de volta, não por muito tempo.

"Espere. Você disse Alice?"

Bella não precisou responder. A porta do elevador se abriu e lá de dentro saiu minha irmã.

Alice é sempre Alice. No jeito de andar, nos cabelos curtos desfiados, no rosto bem maquiado... Na altura de um gnomo e nas milhares de camadas de roupas de marca...

"Mas o quê..." Ela começa e eu seguro a coleira de Ginger antes que ela se aproxime demais.

Alice arrasta uma mala que bate no seu quadril e se aproxima, confusa.

"O que aconteceu aqui?"

"Edward Cullen tem um cachorro."

"Mas o quê...?" Alice começa de novo, interrompida pelo barulho da saída de emergência.

Emmett surge das escadas com duas malas gigantes nas costas. Suor escorrendo pelo rosto e a boca aberta na esperança de respirar melhor.

"Por quê diabos você veio pela escada? Esse é o sexto andar, Emmett!" Bella fala de novo.

Estou muito confuso pra falar algo.

"Por quê você está no chão?"

"Pequeno acidente..." Ela evita me olhar, mas aponta na minha direção. "Pode consertar o nariz do seu irmão?"

Demora quinze minutos até a situação ser explicada para Alice e Emmett, e mais cinco até Ginger atacar Alice. Dessa vez sem coleira. Alice fica olhando enquanto a cachorra gira a sua volta.

"Ela é louca" Diz por fim.

Emmett levanta Bella do chão e eu me desculpo mais uma vez antes de puxar as malas pra dentro do apartamento. Bella se senta no sofá desconfortavelmente e Alice fecha a porta.

"Você cuida de Bella, Emm. Eu cuido de Edward." Ela me empurra, mas espera eu seguir até o banheiro, já que ela não sabe o caminho.

Alice me ajuda a limpar o nariz e faz um pequeno curativo no corte que eu consegui na pele entre as narinas. Quando termina ela se afasta, segura meu rosto com as duas mãos e me olha, prestando atenção em todos os detalhes. Depois sorri e me abraça.

"Senti sua falta."

Eu a abraço de volta, apertando sua cintura.

"Eu também." E me surpreendo por ser verdade. Nós paramos de conversar por nenhum motivo específico, talvez só a distância, mas era bom vê-la de novo.

Quando voltamos para sala, Emmett estava fazendo uma avaliação sobre o estado de Bella. Ele olhou o galo e riu, dizendo que não era nada, depois apertou as costelas dela, só pra verificar a dor e se algo mais sério podia ter acontecido.

O que era um pouco exagerado, considerando que eu não era um mamute.

"A dor é só por causa da pancada... Você vai sobreviver." E antes de se afastar, aproveita para fazer cócegas em Bella. Ela ri e se contorce antes de afastar as mãos de Emmett.

Ele se senta, mantendo o braço no encosto do sofá atrás de Bella.

"Acho que você sobreviveu também." Comento quando ela me vê.

Suas sobrancelhas se juntam e ela morde o lábio. "Uh, ficou feio"

"Obrigado. Tenho um encontro hoje a noite."

"Então eu agradeço, Bella." Alice enrosca o braço no meu e sorri. "Com o nariz desse jeito, Edward não vai muito longe."

Emmett gargalha quando Bella revira os olhos, rindo.

Alice nos atualiza com suas novidades da Europa e seu contrato com a Vogue e mais um monte de coisas que não são tão interessantes assim. Emmett e eu vamos até a cozinha quando elas vão para o quarto.

"Como você conseguiu ir até o aeroporto e voltar em quarenta minutos?" Pergunto depois de encher duas taças com vinho tinto. Aproveito para pegar a nota do pagamento do restaurante e entregá-la a Emmett.

"Eu achei que Alice chegaria às duas e meia, mas ela chegou uma hora mais cedo." Ele dá um gole na taça antes de deixá-la para pegar a carteira no bolso. Ele guarda a nota, e eu sei que vai depositar o dinheiro na minha conta quando puder. Me pergunto como Emmett achou que ia chegar no aeroporto em dez minutos, mas sei que ele não é exatamente pontual. "Alice ligou para Bella, e Bella me ligou quando eu estava na metade do caminho... Se não tivesse me avisado, provavelmente ainda estaria no trânsito"

Concordo com a cabeça.

"Então, você e Bella...?" Pergunto, bebendo um pouco da minha taça.

"O quê?"

"Têm alguma coisa?"

Emmett me encara como se eu tivesse acabado de soltar a pior das blasfêmias do século.

"Ela é praticamente irmã da Alice."

Não digo nada porque não entendi a resposta.

"Ela é linda, mas... Não seria a mesma coisa, sabe..."

Continuo sem entender, mas concordo com a cabeça.

"E eu a vejo como irmã mais nova." Emmett finaliza e eu continuo concordando, dessa vez entendendo um pouco melhor.

Um silêncio estranho paira no ar e ele me lança um olhar questionador que eu conheço.

"Ela quase quebrou meu nariz, cara." Respondo quase defensivamente. "Eu mal a conheço também."

Minha reputação não deve ser boa para ele reagir assim quase instantaneamente.

"Mas vai conhecê-la. Essas duas são carne e unha." E aponta sugestivamente para o corredor. "Bella vai viver no seu apartamento."

Soa horrível quando ele fala isso.

"Por sinal, eu estou saindo com Tanya."

"Ela está saindo da cidade, não está?"

"Qual é, Emmett. Ela é amiga da Alice." Enceno minha melhor cara de 'Como ousa pensar que eu ia querer algo com Bella?' E ele parece aliviado. Finalizo o assunto com um: "Praticamente nossa irmã."

E nós mudamos para Rugby.

Ginger está dormindo nos meus pés, o que não é novidade. Emmett cochila no sofá e a luz do quarto de Alice apaga por volta das oito horas.

Me pergunto se ela e Bella costumam dormir juntas. Depois reviro os olhos pro meu próprio pensamento e foco minha atenção na lista de compras que tenho que fazer.

Eu ia deixar em cima do balcão só pro caso de Alice ter alguma inspiração culinária, o que eu sinceramente duvidava.

Meu celular vibra e eu vejo a mensagem. Tanya pede um vinho para nossa "despedida", como ela quis chamar.

Eu quero mandar uma mensagem dizendo que preciso cancelar nosso encontro porque quebrei o nariz e estou no hospital, mas é muito mais mentira do que o comum, e é capaz que ela queira me visitar pra ver se eu estou bem.

Eu não respondo. Só enrolo, enrolo e enrolo...

E recebo outra mensagem. Tanya diz que eu estarei em casa antes de Emmett acordar.

É coisa boa que ela não sabe nada sobre Alice.

Eu vou até meu quarto e escovo os dentes, pego minha carteira e passo um perfume antes de sair pelo corredor.

Com a casa de luzes apagadas eu mal vejo Bella saindo sorrateiramente do quarto, mas sei que ela fez isso quando esbarro no seu braço. Eu a olho, esperando as pupilas se acostumarem com o escuro.

Quando eu abro a boca para dizer algo, Bella a tapa e me encara com os olhos arregalados. Institivamente eu arregalo os meus também. Ela pede silêncio colocando o indicador sobre os lábios, e termina de encostar a porta do quarto.

Depois acena pra que eu continue andando, tirando a mão de mim. Meus olhos vagam pela casa à procura de alguma ameaça.

Eu ando até a cozinha e ela me acompanha, demorando os olhos no sofá em que meu irmão está roncando.

"O quê aconteceu?" Sussurro desesperado.

"Alice tem sono leve."

Solto o ar com barulho, porque Emmett é o oposto de Alice.

"Eu achei que tinha um ladrão na casa, algum perigo iminente." Meu tom de voz aumenta, mas Bella continua sussurrando.

"Não seja ridículo." Revira os olhos. "Alice é o perigo iminente. Quer mesmo que ela acorde quando mais ninguém vai ficar aqui? Nem mesmo o dono da casa, o irmão que ela não vê há anos?"

Considero a afirmação e ignoro a crítica. Bella deve saber tudo sobre Alice.

"Emmett fica." Eu aponto.

Bella olha para o relógio.

"Emmett tem um compromisso."

"Com você?"

"Não!" A careta de blasfêmia aparece em seu rosto. "Eu arranjei um encontro com uma amiga... Acho que eles combinam."

Concordo, pensativo.

"Devemos acordá-lo?"

"Não, não agora." Bella batuca dois dedos nos lábios, estreitando os olhos. "Eu o acordo quando estiver longe."

Eu rio baixinho, cruzando os braços na frente do corpo. Bella me lança um olhar questionador.

"Talvez o problema seja Alice, considerando que você também está fugindo dela."

"Não estou fugindo." Bella revira os olhos de novo, mas eu sei que ela ficou incomodada. "Eu passei mais tempo com ela que você, no fim das contas. Acho que isso me dá mais direito de sair escondido."

Continuo sorrindo.

"E então, você vai abrir a porta e sair, ou deixar sua garota esperando?"

"Que garota?" Pergunto confuso, por alguns instantes pensando que ela estava se referindo a ela mesma.

Bella desfaz a careta e me olha seriamente.

"Você é gay?"

"Não!" Eu quase grito. Fico curioso, meio desesperado. "Eu pareço ser gay?"

"Não."

Silêncio constrangedor.

"Você comentou hoje cedo que tinha um encontro... Eu... Deduzi que era uma garota."

Suspiro aliviado. Movimento a mão pra que ela vá andando em direção a sala. Bella veste a parka, põe a mochila nas costas e me espera do lado de fora do corredor.

"Então..." Eu recomeço. "Você trabalha com o quê?"

"Comida." Eu tranco a porta e começo a caminhar lentamente ao seu lado. "Comida, restaurantes.."

"Tipo... Top Chef?"

Bella concorda, enfiando as mãos nos bolsos.

"Emmett disse que você vai praticamente viver no meu apartamento." Começo, e sem esperar uma reação da parte dela, continuo: "Então já te considero muito bem-vinda."

Bella ri. "Você é dentista, não?" Concordo. Bella aperta o botão e volta a mão para o bolso do casaco.

Ficamos em silêncio, esperando o elevador chegar no andar.

Bella aperta o botão que a leva para a entrada do prédio, e eu o da garagem.

"Precisa de carona?"

"Não, obrigada. Eu... Tenho quem me busque."

Estreito os olhos.

"Você tem namorado."

"Não, eu disse que tenho quem me busque."

"Alice não sabe, não é?" Eu sorrio. "Não vou contar nada, pode ficar tranquila."

Bella suspira como se estivesse entediada, mas há um começo de sorriso nos seus lábios. Encosto minha cabeça na parede do elevador e a porta se abre no quarto andar. Ninguém está ali, então a porta se fecha de novo.

"Ele sabe que vai te buscar aqui? Quero dizer, talvez ele seja ciumento com o fato de que você saiu do meu apartamento depois de todo esse tempo aqui..."

"O quê, você vai se apresentar como irmão mais velho superprotetor?"

Eu sorrio, levemente incomodado.

"Esse papel é de Emmett."

"Emmett é um bom irmão mais velho."

"Talvez eu possa ser um também."

A porta abre na recepção e Bella a segura, se virando pra mim como quem pretende terminar a conversa antes de sair.

"Alice ia gostar bastante disso." Seu sorriso é singelo. "Esteja no apartamento pro café da manhã. Ela geralmente acorda às sete."

Bella sai do elevador e acena.

"Leve um Pinot Noir. Boa sorte com a garota."


"Olá, desconhecido.

Eu estou bem, e a essa altura, espero que esteja bem também.

Eu achei sua carta e a guardei pra um desses dias em que a gente sente que tem a resposta para tudo, mesmo não tendo. Espero que tenha resolvido seus problemas, mas caso não, aqui vão alguns parágrafos de alguém que acha que entendeu o que você quis dizer.

Primeiramente, eu aconselharia uma desistência de rótulos. Quero dizer, por quê você tem que se definir como alguém que tem a vida planejada ou alguém que não planeja nada? A graça da vida não é esperar as situações e lidar com elas na hora certa?

Não há nada de errado em traçar objetivos na vida, mas isso não faz com que seu futuro seja certo de nada. A vida é um jogo em que as regras têm sempre suas exceções pra determinados casos.

Meu segundo conselho seria viver um dia de cada vez, como você mencionou. Se você pensar no que pode acontecer, alguma coisa vai te impedir. Se você pensar no que pode não acontecer, outra coisa vai te impedir. No fundo, suas decisões dificilmente vão ser erradas ou certas, só piores ou menos piores. (A não ser que você esteja falando de coisas tidas como crimes. Por favor, não cometa crimes. É feio e errado, sempre. Ok?)

Lembre-se sempre de se manter quem você é e não arriscar uma bomba kamikaze. Algumas coisas da vida são spoilers, do tipo você vai viver um relacionamento que vai te deixar de coração partido. Outras são burrice, por exemplo quando você quer mudar alguém pra que essa pessoa não te magoe e não quebre seu coração. Nesse exemplo a lição é: se não te faz bem e não quer tentar, segue em frente.

Lembre também que viver não é se casar, ter filhos, uma boa carreira e ser rico. Não é viajar o mundo, conhecer culturas diferentes. Não é ser um gênio de alguma arte, nem um herói ou um vilão.

Viver é ser único. Viver é conhecer seus limites e lidar com os momentos. Viver é arriscar.

Espero ter sido de alguma utilidade. Se não, tudo bem.

Com carinho,

A.M.

Ps1: Não sou um stalker.

Ps2: Se você também não for um stalker e quiser replicar esta carta, a um endereço específico na parte de trás da folha, e eu olharei na próxima semana caso venha alguma resposta.


Olá.

Sim, pretendo continuar essa fanfic.

Sem mais desculpas hahaha

See ya,

XxX, ;*