Assim que a moça passou pela porta do ateliê de costura, o sino preso ao marco da porta soou. Mas ninguém veio atendê-la.

- Com licença... Madame Linsky? A senhora está aí?

Não demorou muito até que duas mulheres, ridiculamente vestidas como ciganas (com baduques e tudo o mais) apareceram na recepção. É, é isso mesmo o que você está pensando! Eram nada mais, nada menos do que Lucy e Ethel!

- Ah... Qual das duas é a Madame Linsky? - quis saber a moça, sem entender bulhufas.

- ELA! – ambas apontaram uma para a outra – EU! – corrigiram, cada uma apontando para si próprias. Por fim, Lucy definiu: - Nós duas somos! Esta é uma sociedade, somos irmãs.

- Este é um ateliê de costura, certo? – ao ver que as 'irmãs' confirmaram com a cabeça, disse: - Eu vim buscar um vestido a pedido do Sr. Ricky Ricardo.

- Ah, sim! Madame número dois, por favor, vá buscar o vestido!

Ethel entrou e logo trouxe um vestido velho, horrível e todo manchado.

- Mas... Mas esse não pode ser o vestido que eu vim buscar!

- Ah, mas você demorou demais para vir aqui!

- E estão faltando alguns ajustes também. Toma, experimente! – Lucy entregou o trapo à jovem e foi empurrando-a para os fundos – O provador fica ali.

Passado algum tempo, ela ainda não tinha saído. As madames já estavam impacientes e Lucy gritou: - Ande logo, saia daí! Temos várias outras clientes para atender!

- O nosso trabalho é muito solicitado aqui na cidade!

- Ouhh!... Eu não quero sair! Esse vestido não ficou bem em mim!

- Modéstia a sua! – e entrando no provador Lucy puxou a jovem pelo braço, em meio aos gritos de protesto dela. Com isso, a manga comprida acabou se rasgando na costura, saindo inteira nas mãos dela.

- Um acidente de percurso...

- É só puxar a outra para ficar igual! – e foi o que Ethel fez, arrancando mais um gritinho assustado da pobre moça.

- Para começo de conversa, o vestido que o senhor Ricardo encomendou não tem uma saia rodada como esta... E é coberto de lantejoulas douradas!

- Isso também é fácil de se resolver! – e Lucy puxou a saia do vestido, que também se rasgou e Ethel abriu o potinho de lantejoulas e o jogou nela.

Histérica, a moça apanhou o casaco que deixara na entrada, se cobriu com ele, e saiu correndo de lá em meio às gargalhadas das duas amigas.

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Na manhã seguinte, Ricky tomava o seu café enquanto lia o jornal; ignorando os carinhos da esposa.

- Oh, Ricky!... Eu já pedi desculpas! Não achei que aquela moça era uma dançarina que você contratou para o seu show! Até quando vai ficar sem falar comigo?

Levantando-se e dobrando o jornal, ele a fitou com um olhar de reprovação.

- Está vendo, Lucy? É por isso que eu não queria que você soubesse! A pobre senhorita Duvall nunca mais irá querer cantar e dançar na vida!

- Eu enviei meu pedido de desculpas a ela, sério! E mais, a convidei para jantar aqui em casa hoje! Não quero que você perca esse patrocínio por minha causa.

- É sério? – ele perguntou com um sorriso nos lábios, já esquecendo toda a mágoa.

- Sim, querido! – e aproximando-se, a abraçou carinhosamente. Tão logo percebera que havia estragado tudo com suas suspeitas bobas, Lucy dera um jeito de colocar tudo de volta nos eixos. Além do mais, ele não conseguia ficar bravo com ela por muito tempo.

- E então, você me perdoa?

- Mas é claro que sim, querida! – e ele confirmou isso, beijando-a apaixonadamente.

FIM