Shunkashuutou - As quatro estações -
Notas da Autora:
Yo, people~~
Nem deu tempo de respirar, ne?! Já estou aqui de volta para que ninguém ache que eu morri!
Como prometido, mas aqui está a segunda ONESHOT da coletânea! Lembrando que esse capítulo também já havia sido postado anteriormente, logo não havia motivo para enrolar.
Para o VERÃO temos "O verão mais quente do mundo" inspirada em uma música dos anos 80 chamada "Sekai de ichiban atsui natsu" da banda Princess, Princess.
Recomendo altamente a vcs ouvirem a música antes de lerem a fic para entrarem no clima (a história tbm se passa nos anos 80, o que para aqueles que gostam de climas nostálgicos, é um prato cheio): (youtube) /watch?v=doY90Hf4pdI
Lembrando que não postarei a letra, apenas os versos traduzidos, devido a política do site para songfics.
Espero que gostem!
Bjos e boa leitura =*
O verão mais quente do mundo
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"Ao sentir os ventos de agosto nas mãos, minha imaginação se transporta para as savanas.
Nós dois a bordo de um brilhante Cessna prateado em direção às longínquas fronteiras do país."
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Ilha de Ishigaki, Okinawa, fronteira final do Japão. Agosto, auge do verão de 1989.
Lembro-me muito bem daquele ano. Naquela manhã havia sido acordada pela alta temperatura que teimava em incomodar mesmo com o ar-condicionado ligado. Apesar de acordada, recusei-me a abrir os olhos e levantar da cama. Perguntava, mentalmente, a mim mesma o que estava fazendo naquele lugar.
Estava mesmo muito quente.
*Tec!*
Era a maior onda de calor dos últimos 20 anos e havia atingido em cheio o arquipélago. Sentia como se tivesse sido transportada para o Saara.
Eu havia acabado me formar no ensino médio e era a única de meu círculo de amigos que estava de férias. Enquanto todos já haviam iniciado seus estudos em universidades japonesas, eu me preparava para, no semestre seguinte, iniciar o curso, tão sonhado pelos meus pais: o de medicina no Canadá. Para várias adolescentes da minha idade, aquilo era um conto de fadas; a realização de um sonho incrível. Porém, para mim, havia sido o estopim de uma crise existencial que beirava a depressão. Eu me sentia acuada e amedrontada. Todos ao meu redor me elogiavam e comentavam abismados como era inteligente a filha mais velha de Hyuuga Hiashi e Hikari. Mal sabiam eles que por dentro eu estava gritando... Eu era tão jovem, havia tantas coisas que eu ainda queria ver, viver, saber e conhecer, mas, mesmo assim, dentro de poucos meses, entraria em um avião que me levaria para longe de tudo o que eu conhecia e amava...
*Tec!*
Aceitar o convite dos meus tios para passar as férias de verão na pousada da família em Okinawa, no extremo sul do Japão, a princípio, pareceu uma excelente ideia para uma menina que havia nascido exatamente no lado oposto do país, na ilha mais ao norte, Hokkaido. Era a oportunidade perfeita para arejar as ideias e conhecer mais um pedacinho do meu amado país que logo ficaria para trás. Apesar de amar os ventos gélidos vindos da Sibéria e as paisagens que facilmente se convertiam em um cenário congelado, a proposta de passar algumas semanas no que era conhecido como o "Caribe Japonês" era irresistível para qualquer adolescente de 17 anos prestes a deixar sua terra natal. Gostaria de saber qual a sensação de ter minha pele queimada pelos raios de sol e sentir a brisa morna acariciar o corpo enquanto bebericava algum refresco tropical bem gelado e, se possível, viver algo que nunca havia experimentado na vida: uma paixão. Mesmo que fosse de verão, passageira e fugaz, mas definitivamente gostaria de saber o que tanto atraía as outras meninas no amor.
*Tec!*
Entretanto, descobri que o tal "Caribe" se parecia mais com um "Saara" ou uma "Savana": extremamente quente e solitário.
Durante a primeira semana na pousada, pouco havia saído do meu quarto. Sentia-me sempre enfadada e cansada devido ao calor excessivo. Tentava andar pela praia, porém descobri que minha pele alva, era sensível demais para o forte sol local. Ficou tão vermelha que tive dificuldades para dormir à noite. O corpo inteiro ardia. Tentei fazer amizade com os outros hóspedes, contudo descobri que aquela ilha era um paraíso para recém-casados. Havia, praticamente, nenhum adolescente por ali. A única pessoa conhecida, além de meus tios, era meu único primo, Hyuuga Neji. Contudo, ele havia se mudado no ano anterior para a capital, Tóquio, a fim de cursar faculdade e não iria passar as férias em casa naquele ano. Minha irmã caçula, Hanabi, não pôde viajar, pois logo teria uma importante competição de kendô, esporte do qual era uma das grandes promessas do país. Eu estava sozinha e entediada...
*Tec!*
Suspirei derrotada. O sono havia fugido completamente e um maldito barulho na janela que não me dava sossego! De certo, o vento estava soprando e fazendo com que os galhos das árvores que havia em frente ao quarto, batessem no vidro. Levantei-me e sentei na beira da cama. Coçando sonolentamente o couro cabeludo, corri os dedos pelos longos cabelos azul índigo e constatei que a permanente que havia feito dias atrás, realmente, não havia funcionado. Os fios estavam lisos como se nunca tivessem sido cacheados. Como adiava aquele cabelo! Naquele tempo, todas as meninas ostentavam lindos cabelos cacheados e as que não haviam nascido com os mesmos conseguiam facilmente obtê-los através de procedimentos cosméticos... Todas menos eu!
*Tec!*
Frustrada, esfreguei os olhos perolados, típicos de nossa família e me espreguicei ao mesmo tempo. Percebi que a regata que vestia como pijama estava suada. O ar- condicionado do quarto refrescava, porém, para alguém que estava acostumado com o frio, sempre parecia estar muito quente. Acariciei levemente os seios para desprender o tecido da pele e tive a impressão de que eles haviam aumentado um pouco mais. Como odiava aquele corpo! Naquele tempo, o corpo ideal era magérrimo, sem curvas e com os músculos esguios. Minhas amigas sempre ficavam extremamente elegantes em vestidos justos ao corpo. Exibindo seus quadris estreitos de glúteos firmes enquanto eu parecia ter engolido uma ampulheta... Resolvi abrir as cortinas para ter um pouco da única coisa que me agradara de verdade até aquele momento: a vista panorâmica que meu quarto no segundo andar da pousada proporcionava. O mar. Amplo e profundo, de um verde cor-de-turquesa que não parecia ser deste mundo... Puxei o tecido da cortina e abri a pesada janela de madeira e vidro, foi quando ouvi uma voz feminina vinda do jardim no andar térreo:
"Finalmente! Ouvi falar que o pessoal de Hokkaido dorme muito por conta do frio, mas isso já era demais!"
Uma garota loira com um longo rabo de cavalo acenava e tentava chamar minha atenção. Ela era incrivelmente linda. Grandes olhos azuis e vestia com um short jeans curto de cintura alta e top roxo de frente única. Sua pele era clara, porém suavemente bronzeada, o que indicava que era alguém acostumado ao clima local. Seus cabelos eram modelados com os cachos da moda e ela usava grandes argolas douradas na orelha e tênis all star jeans de cano alto.
"Meu nome é Yamanaka Ino! Neji me pediu para cuidar de você. Yoroshiku ne!"
"Ko - kochirakoso, Hyuuga Hinata." Me apresentei um tanto desconcertada. Ino parecia ser o tipo de garota desinibida e com bastante autoconfiança.
"Disso eu já sei! Desce aí! Vou te mostrar a cidade e te apresentar umas pessoas. Você não pode passar três semanas trancada nesse quarto!"
A ideia me pareceu péssima no primeiro momento. Estava quente e o sol estava forte, porém, Ino san havia tido o trabalho de acordar cedo e ido até a pensão me ver. Além disso, se até Neji, que estava a quilômetros dali, ficara sabendo que eu não estava me divertindo, meus tios também deviam estar sentindo-se mal por conta da sobrinha entediada e trancada na pousada o tempo todo. Depois de refletir um pouco sobre o que teria a perder, troquei de roupa rapidamente, escovei os dentes e decidi seguir a chance o destino estava dando de salvar minhas férias de verão. Enquanto penteava os cabelos azul índigo, ouvi a garota gritar:
"Não precisa comer nada! Vou te levar para tomar café em um lugar especial."
A pousada dos meus tios ficava em uma parte afastada na cidade de Ishigaki, uma das últimas ilhas de Okinawa. Um lugar pequeno, porém movimentado. O fluxo de turistas era intenso, mas os habitantes locais conseguiam manter o charme de cidadezinha do interior. O bairro onde geriam o negócio era uma maravilha à beira-mar e, praticamente, todos os moradores se conheciam.
Eu e Ino caminhamos pelo calçadão na orla da praia por cerca de meia hora, no que, para a mim, parecia ser uma caminhada sem rumo. Apesar de meu típico silêncio tímido, Ino não parou de falar um só instante durante todo o percurso. Contou sobre a cidade, sobre a amizade de infância com Neji e todo o círculo de amigos em comum, sobre a festa em estilo lual que aconteceria no fim de semana e etc. Apesar do excesso de energia, eu realmente havia gostado da companhia da garota. Ela era espontânea e divertida, porém, era bem difícil imaginar como seria sua relação com alguém de personalidade tão séria e madura como Neji.
A certa altura, foi possível avistar, no final da orla, uma casa de farol sob um rochedo elevado. O lugar parecia ter saído de uma pintura impressionista. A casinha branca com detalhes pintados em azul índigo estava geminada ao grande cone branco se levantava virado para o mar. Ao seu redor a grama em verde vivo contrastava com a areia branca logo abaixo na praia e compunha, junto ao azul turquesa da água, um cenário saído diretamente do mundo dos sonhos. Ino me explicou que aquele lugar se chamava Café Paradiso. Era um dos estabelecimentos mais antigos da cidade, pertencendo à mesma família por mais de 50 anos.
Ao entrarmos, reparei que todo o lugar era decorado com motivos navais. Âncoras, bóias, redes, sereias, corais, conchas, pequenos hidroaviões prateados entre outros objetos estavam pendurados por todos os cantos. As cores predominantes, branco, vermelho e azul-marinho, aliadas ao ar-condicionado, traziam ao lugar uma sensação de frescor que eu não havia provado desde que desembarcara na ilha. Sentamos ao balcão e um rapaz aproximou-se para nos atender.
Trajando um uniforme de barrista branco com detalhes azuis, ele não tinha nos lábios o típico sorriso que os funcionários de restaurantes costumam desprender ao verem um novo cliente entrando em suas lojas. Sua pele clara contrastava intensamente com os olhos e cabelos densamente negros. Era sério e havia em sua expressão uma leve arrogância típica das pessoas que não se abrem com todo mundo. Parou a nossa frente e perguntou com uma voz grave e desinteressada:
"O que vai querer hoje, Ino?" Apesar da falta de gentileza, minha nova amiga não aparentou se importar. Parecia já habituada a este tipo de comportamento vindo do rapaz:
"Sasuke ku~~n! Adivinha quem é essa menina bonita do meu lado." Cantarolou enquanto apoiava os cotovelos no balcão e o queixo sob os dedos entrelaçados. Seus olhos azuis brilhando em animação.
O jovem que eu descobrira se chamar Sasuke desviou o olhar da loira para mim de forma instintiva e desinteressada. No momento em que seu olhar cruzou com o meu, senti uma pontada fina cortando rapidamente o estômago. Em poucos instantes, a expressão no rosto do rapaz mudou e ele me olhou como se tudo no mundo fizesse sentido:
"Onde está o Neji?" Certamente meus olhos perolados haviam me denunciado. Esse era uma característica que não era possível esconder em nossa família.
"– Olá, muito prazer, meu nome é Uchiha Sasuke e sou o melhor amigo do seu primo Neji. Como ele está? Por que resolveu não voltar para casa esse ano? Eu tô morrendo de saudade dele... – Foi isso que ele quis dizer Hinata. Mas ele perdeu a educação em algum lugar que a gente ainda não descobriu onde." Ino corrigiu o amigo.
"Que seja." Ele retrucou me fazendo rir miúdo. Aquele jeito era exatamente o mesmo de ser do meu primo. Realmente deveriam ser melhores amigos.
"Neji nii-san está bem. Ele decidiu não voltar para adiantar algumas matérias que são ofertadas durante as férias. Para adiantar o curso e poder voltar logo para casa."
"E para isso precisava cortar contato com todo mundo?" Perguntou emburrado e Ino o cortou:
"Sasuke kun... A sua sorte é que você tem essa carinha linda, porque a sua personalidade é horrorosa! Traga-nos dois especiais da casa, por favor, e não ouse faltar ao lual que estou organizando."
"Você está delirando se acha mesmo que vai me ver nesse negócio." O moreno disse antes de sair com o pedido e o pregar na pequena janela que dava para a cozinha do lugar.
"Não ligue para ele! É assim com todo mundo." Ino comentou quando ficamos sozinhas.
"Tudo bem! Na verdade ele me lembra um pouco o Nii san."
"É verdade! Inclusive no mal humor... Mas, sabe, Sasuke kun veio de Akita para cá há 6 anos atrás e se tornou kouhai do Neji no clube de judô da escola. Eles não confessam, mas todo mundo sabe bem o respeito e a amizade que um tem pelo outro."
A revelação de Ino me provocou um sorriso involuntário. Observei Sasuke que já estava ocupado atendendo outra mesa alheio aos meus olhares. Tão sério e desinteressado... exatamente como meu primo. Naquele momento, de alguma forma, nasceu em mim uma grande vontade de saber mais sobre o barista adolescente menos simpático do Japão.
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"Voe comigo, querido! Dançaremos nas tempestades de areia.
No verão mais quente do mundo, já não vou mais impedir essa emoção."
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"Hinata chan, tem mesmo certeza de que consegue chegar?" Minha tia perguntava preocupada.
"Não se preocupe! Ittekimasu!" Respondi enquanto colocava a bicicleta em movimento e acenava em despedida.
Na manhã daquele dia, minha tia havia recebido um telefonema que colocou a cozinha da pousada para trabalhar. Alguém havia feito uma encomenda dos famosos biscoitos casadinhos Hyuuga. Tudo ficou pronto às 3 e meia, entretanto, não havia ninguém para levá-los até o cliente. Como minha única amiga na cidade havia estado ocupada nos últimos dias com a organização do tal lual, eu não tinha muito o que fazer e ofereci-me como entregadora. Apesar de não conhecer muito bem o lugar, a pior coisa que poderia acontecer em uma cidade como aquela era furar o pneu da bicicleta e eu ter que procurar o endereço a pé.
O lugar ficava do outro lado da ilha que, na verdade, não se gastava mais de meia hora para chegar. Havia algo de diferente no tempo aquele dia. Estava quente, mas, ao mesmo tempo, fresco. A brisa soprava úmida e refrescante, bem diferente dos dias anteriores nos quais parecia mais com a baforada de algum animal gigantesco. Minha tia havia dito que isso era um prenúncio de chuva e que eu deveria me apressar para voltar o quanto antes.
Saindo da pousada, segui em direção à cidade sempre seguindo pelos bairros mais residenciais. De vez em quando passava por um comércio local que geralmente era composto de frutaria, livraria, peixaria e uma loja de utilidades. Logo alcancei um pequeno parque bastante arborizado, com longas pistas de caminhada e vários chalés feitos de madeira rústica. Um lugar extremamente agradável e tranquilo. Segundo o mapa de meu tio, a mansão onde deveria entregar os biscoitos ficava logo atrás do parque. Desacelerei um pouco o passo para apreciar o lugar. Era mesmo muito bonito! Naquele instante me perguntei se na minha nova vida haveria um lugar como aquele que também me fizessem querer desacelerar por alguma razão.
Logo alcancei a mansão. Uma casa enorme branca com um belo jardim ao redor. Com certeza era a casa de uma família muito rica, pois não deveria ser barato manter tudo tão bem cuidado em um clima rigoroso como o de Okinawa. Toquei o interfone e logo alguém atendeu. Pediu que eu me dirigisse à entrada lateral onde haveria um funcionário esperando para acertar tudo. Após dar a volta no muro baixo, logo avistei um rosto conhecido. Uchiha Sasuke entregava alguns papéis para um homem magro e alto assinar.
"Muito obrigada pela preferência." Sasuke disse cordialmente, entretanto, sem demonstrar muita simpatia. Logo que me viu, sem dizer nada, afastou-se para que eu pudesse aproximar-me do mordomo.
Como minha tia havia dito para fazer, entreguei as caixas de biscoitos e um recibo para ser assinado. O homem conferiu os conteúdos e, com uma expressão de aprovação, assinou o papel.
"Muito obrigado pela agilidade." Disse antes de fazer um breve aceno com a cabeça e entrar na mansão novamente.
"Então resolveu sair do seu esconderijo?" Sasuke iniciou uma conversa. Seu tom sarcástico me desconcertava um pouco, mas nada de fato incômodo.
"Ah, sim… Parece que já estou mais acostumada ao clima daqui."
Sasuke também estava de bicicleta e levava uma caixa de isopor de tamanho médio no carregador.
"Está voltando para a pousada?" Ele me perguntou girando sua bicicleta pelo guidom e mantendo-a ao lado do corpo. Pelo visto não pretendia subir.
"Sim..."
"Vamos juntos, então. Estou indo para lá também" Fiz o mesmo com a minha bicicleta enquanto respondia desconsertadamente:
"A-ah, claro..."
Normalmente eu teria um pouco mais de desenvoltura nas minhas respostas, mas naquele momento eu percebi que algo em Sasuke me deixava um pouco mais reprimida que o normal. Ele tinha uma presença forte e imponente, mesmo para um garoto que mal havia saído do ensino médio.
Apesar de ambas as personalidades serem não muito abertas, no final das contas, conversamos bastante no caminho. Começamos basicamente com os mesmos assuntos genéricos que desconhecidos conversam em filas de bancos: Faculdade, clima, conhecidos em comum, etc. Aos poucos fomos nos aprofundando e, sem percebermos, estávamos em uma conversa mais interessante e profunda. Foi assim que descobri que Sasuke logo se mudaria para Osaka para estudar administração, que meu primo e Ino tinham um relacionamento enrolado e que meus tios e o casal Uchiha também mantinham uma amizade muito próxima. Não sei quanto tempo gastamos ao certo no caminho de volta, mas, apesar de estarmos andando e não pedalando, pareceu não ter durado mais que 10 minutos.
Chegamos à pousada dos meus tios com a chuva causada pelo tufão no nosso encalço. Quando entramos minha tia agradeceu a todos os santos que conhecia por estarmos abrigados durante a passagem do tufão. Ela não parecia estar surpresa por ver Sasuke comigo, indicando que sua presença ali era algo constante e natural.
"Okaa san mandou esses caranguejos para vocês, oba san." Disse entregando a caixa de isopor que estava na bicicleta.
"Obrigada, Sasuke kun! Quer um chá? É melhor você ficar aqui conosco até o tufão passar. Hinata pode te fazer companhia, certo, Hinata chan?"
"Claro."
Posso dizer que, ao final daquele dia, eu e Sasuke já éramos como dois velhos amigos. Tudo era interessante nele. Seu sorriso nunca era aberto e seu olhar altivo parecia esconder algo. Sua voz mantinha sempre o mesmo tom baixo e grave. Ele falava sobre assuntos inteligentes, tinha opiniões maduras e um gosto refinado. Era elegante e até mesmo um pouco esnobe, mas sabia como se manter agradável. Era como um galã de novelas de 30 e poucos anos preso em um corpo adolescente...
Hoje em dia, refletindo sobre tudo o que aconteceu, arrisco dizer que foi naquela tarde que me apaixonei por ele.
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"Sem que percebamos, esses anos monótonos roubam a juventude de nossos corações.
Vamos, juntos, recuperá-la"
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Ainda hoje, em poucos lugares do Japão é possível ver as estrelas com tanta clareza quanto nas praias de Okinawa, porém, as noites depois da passagem do tufão foram especialmente belas. Em uma dessas, aconteceu o tão esperado lual organizado por Ino. Eu não sabia o que estavam comemorando, não conhecia as pessoas que estavam lá, mas fui praticamente intimada a comparecer pela loira. Tudo estava muito bonito. Flores, tochas, uma fogueira, bebidas pratos típicos do verão okinawano, música da moda e tudo mais o que compõe uma boa festa. Entretanto, como era de se esperar, depois de 10 minutos de festa, eu comecei a me sentir extremamente deslocada. Apesar de ter sido apresentada a algumas pessoas, fazer amizades com rapidez nunca foi meu forte. Em pouco tempo, a maresia morna que soprava, as luzes e os olhares das pessoas começaram a me incomodar mais do que o desejado, então procurei uma rota de fuga. Caminhei em direção à beira-mar com a intenção, de ficar sozinha, mas avistei uma silhueta conhecida à beira mar.
"Por fim resolveu aparecer?"
Era Sasuke que estava em pé olhando a imensidão negra da praia noturna. Vestia uma bermuda de sarja beige, cinto branco, camisa polo branca e um colar de flores havaiano. Estava descalço, mas seus mocassins de camurça azuis estavam a poucos metros dali.
"Ino consegue ser bem convincente quando quer." Ele respondeu olhando em minha direção.
"Sei muito bem como é."
Ficamos ali durante alguns instantes sem falar nada. Apenas olhando a escuridão do mar até que um sentimento estranho percorreu meu coração. Uma melancolia nostálgica que me fez perguntar:
"Você também tem esse tipo de sensação? Olhar para o mar a noite é como se você pudesse olhar para dentro de si mesmo..."
"Sim… E o estranho é que, quando penso assim, sinto uma súbita vontade de chorar." Sasuke respondeu sem tirar os olhos do horizonte.
"Realmente é assustadora essa história de tornar-se adulto..." Comentei em um tom de lamento.
"Tudo aquilo que se conhece vai ficar para trás…"
Então, por detrás daquela aparência firme, Sasuke também estava sentindo a insegurança de uma mudança brusca de vida.
"Você está com medo? Da sua vida nova?" Perguntei quase que para mim mesma.
"Medo não. Acho que é apenas pesar pelo que vai ficar. Nada mais vai ser igual..."
Eu entendia bem aquele sentimento, então não disse nada. Ficamos ali envolvidos pelo silêncio durante alguns minutos. Não o tipo de silêncio constrangedor que costuma envolver pessoas com pouco assunto, mas, sim, o silêncio confortável do entendimento mútuo.
"Você está bonita." Ele disse olhando para mim com uma expressão leve no rosto. Eu usava um vestido longo de algodão azul claro. Sem mangas e solto, mas bastante acinturado.
"Obrigada." Ao contrário das outras meninas que estavam com uma coroa de flores, eu usava apenas um lírio preso entre a orelha e o cabelo.
"Neji senpai sempre falava de você como a garota mais bonita que ele conhecia." Eu ri e comentei:
"Neji nii san sempre foi muito protetor e ciumento. Agia como um verdadeiro irmão mais velho."
"Ele falava tanto que eu ficava imaginando como você seria..." Sasuke comentou com um sorriso de lado que me fez corar e perguntar em tom de brincadeira:
"Decepcionado?"
"Não mesmo. Acho até que ele pegou leve." Sorrimos e eu desviei o olhar para o mar. Foi quando senti sua mão segurar a minha antes de perguntar:
"Quando você volta para casa?"
"Na quinta-feira."
Ficamos em silêncio por uns instantes até que Sasuke disse:
"Seria muito clichê se eu te beijasse agora?"
"Seria… Mas, eu gostaria mesmo assim."
Eu nunca esqueci aquela noite.
O toque, as sensações, o cheiro do perfume masculino amadeirado misturado com o sal da brisa do mar... Ele nunca soube, pois alguns segredos as mulheres mantém para si eternamente, mas aquele havia sido meu primeiro beijo.
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"No sol mais quente do mundo,
No verão mais quente e brilhante do mundo,
Você foi quem eu mais amei no mundo."
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"Vou sentir sua falta! Promete que vai me escrever?" Ino, toda chorosa, me envolvia em um abraço apertado.
"Claro, Ino chan! Eu também vou sentir saudades." Respondia enquanto retribuía o abraço da minha nova amiga com um pouco menos de empolgação.
Eu já havia me despedido dos meus tios mais cedo naquela manhã. Depois de muita argumentação, consegui convencê-los de que não precisavam me levar até o porto, pois, estaria com Ino e eles, como sempre, estavam muito ocupados com a pousada. Deste então, eu estava enfrentando uma maratona de abraços tristonhos e despedida. Meus tios, os funcionários da pousada, novos conhecidos e agora a loira Yamanaka.
Já havia passado um pouco da hora do almoço e estávamos no porto esperando a balsa para voltar ao continente. O sol estava quente e o ar abafado. Para me proteger, usava um chapéu de praia de palha e usava um vestido de tecido leve. Ino usava regata, colete jeans e os clássicos shortinhos de esportes com all star e meias de cano alto. Como é impossível andar em Okinawa sem algo sobre a cabeça, a loira usava um boné com a aba virada para trás.
"Já despachou as malas, certo? Então, pelo visto não falta na... " Antes que Ino pudesse completar seu raciocínio, vimos Sasuke se aproximando. Mãos nos bolsos, camisa polo, cheiro de filtro solar e a mesma expressão indiferente de sempre.
"Parece que essa é minha deixa. Faça boa viagem, Hinata chan! Yo, Sasuke kun~~" Saudou o Uchiha enquanto virava para frente a aba do boné roxo que usava e se afastava rapidamente.
Restamos apenas nós dois… claro, havia milhares de pessoas no porto naquele momento, mas, quando nossos olhares se cruzaram, parecia que éramos as únicas pessoas em todo o mundo. Ficamos em silêncio durante alguns instantes. Eu, realmente, não estava esperando que ele fosse até o porto se despedir, mas não podia negar que estava feliz por vê-lo uma última vez.
"Qualquer coisa que eu fale agora vai soar como uma daquelas despedidas piegas de filme romântico..."
"O que seria mais piegas do que usar a palavra piegas? Ninguém com menos de 40 anos fala assim..." Rimos, um sorriso nervoso, sem muita vontade nem graça, que surgiu apenas para quebrar o sentimento de perda que surgia naquele momento.
"Espero te ver de novo... Gostaria de poder dizer algo mais sério que isso, mas não tenho direito de fazê-lo."
"Eu entendo… e também espero te ver de novo um dia, Sasuke kun..."
Naquela tarde, a maresia que soprava no rosto dos passageiro durante a travessia da balsa estava mais salgada que o normal. Pois, o sal do mar misturou-se ao das lágrimas que insistiram em rolar silenciosas pelo meu rosto por mais que eu as tentasse segurar...
E foi assim que aconteceu.
Daquela despedida até o presente momento, uma vida inteira se passou.
Meses depois de deixar Okinawa, cheguei ao Canadá. Ingressei na faculdade de medicina como planejado. Levei meses para conseguir me adaptar à nova vida. Clima, idioma, comida, pessoas, tudo era diferente demais. Não foram dias fáceis, mas me esforcei. Estudei, trabalhei, viajei, me apaixonei, enfim, cresci e vivi! As lembranças daquele verão do auge da minha adolescência, à medida que o tempo passava, perdiam a intensidade e transformavam-se em lembranças doces e distantes...
Nos últimos 2 anos do curso, namorei e casei com a pessoa que acreditei ser o amor da minha vida.
Tivemos dois filhos e fomos muito felizes... por um tempo.
A felicidade não resistiu à chegada das preocupações, do distanciamento e do esfriamento. Quando nos demos conta, nada mais restava daquele sentimento original. Só restava a obrigação de vivermos debaixo do mesmo teto e sorrir nos compromissos sociais como o casal que todos pensavam ser perfeito. Foi quando, refletindo sobre mim mesma, percebi que a Hinata de 17 anos que havia deixado o Japão cheia de sonhos, jamais imaginou a mulher frustrada de 47 que estava prestes a se tornar.
Foi, então, que percebi que deveria fazer algo para mim mesma e tomei a decisão mais difícil de toda a minha vida: o divórcio.
Com os filhos já começando a faculdade, decidi também que era o momento de voltar a viver em meu país e, para isso, o pontapé que faltava foi dado meses atrás por Neji durante um telefonema. Ele precisava de um sócio para ajudar a administrar a pousada, ou acabaria tendo que vendê-la. Decidi aceitar o convite e retornar a Okinawa como forma de marcar, de fato, o recomeço da minha vida.
Hoje, quase trinta anos depois, estou de volta a este lugar. Tudo está diferente e ao mesmo tempo tão igual. Ao desembarcar senti como se estivesse em um jogo dos 7 erros. Tudo parecia igual, mas ao mesmo tempo, pequenas diferenças confundiam as minhas memórias. Ino, que cumpriu sua promessa de nunca perder contato, foi a responsável por me buscar no aeroporto e levar-me até a pousada onde já havia um quarto reservado para mim.
"Hinata chan! Obrigada por aceitar a nossa oferta. Não gostaria que a pousada acabasse nas mãos de alguém de fora da família..." A loira me disse após um abraço apertado na área do desembarque.
Ela não havia mudado nada, exceto por algumas marcas de expressão, seu rosto ainda era o mesmo, assim como sua personalidade extrovertida. Sempre achei encantador o fato de Neji ter se casado com ela. Casar-se com seu primeiro amor… um privilégio para poucos! Após concluir os estudos em Tóquio, meu primo abriu mão de uma possível carreira em uma multinacional e resolveu voltar a sua terra natal. Logo que chegou propôs casamento à loira, por quem sempre fora apaixonado, e hoje em dia vivem felizes cuidando da pousada deixada pelos meus tios.
No caminho de ida, passamos pela orla da praia e um sentimento nostálgico invadiu o meu coração. Vários jovens caminhavam pela areia e mergulhavam no mar. A visão de seus rostos bronzeados e sorridentes, trouxe claramente a minha mente, as sensações daquele verão: O sol, a maresia, o calor, o beijo, a despedida… Lembrei de todos os planos que fiz que não foram concretizados. De todas as conversas que imaginadas e de palavras que acabaram nunca sendo ditas...
"Parece que estamos em uma onda de reencontros nos últimos tempos. Sasuke kun também voltou para a cidade a pouco tempo." Ino comentou casualmente.
"Ele havia mudado daqui?" Perguntei despreocupadamente.
"Sim! Mudou e casou com uma louca testuda de Akita... Sério! Ela era muito louca. Obcecada por ele! Os dois chegaram até a ter uma filha, mas acabaram se separando. Afinal, quem que ag..." O tom de Ino passou de alto e empolgado para baixo e contido a medida que chegava ao final da frase, quando disse:
"Ai, me desculpe Hinata chan! Sua separação também está recente… eu deveria ser mais sensível..."
"Não se preocupe, Ino chan! Eu já superei esse assunto."
"Nossa... Desculpe mesmo... Bom, no mês passado ele decidiu reabrir o café da família que ficou anos fechado! Que tal passarmos por lá? O especial da casa ainda é maravilhoso."
Quando assenti concordando, senti meu coração pular uma batida. Subitamente, fiquei extremamente ansiosa. Seria a possibilidade de rever Sasuke depois de tantos anos? Sorri para mim mesma. Então, a Hinata de 17 anos ainda estava viva em algum lugar...
O calçadão da orla da praia ainda é o mesmo e, no final do caminho, o mesmo prédio em formato de farol ainda abriga o mesmo café. Ino estacionou um pouco afastada e desceu do carro colocando seus grandes óculos escuros.
"Você precisa ver como ele não mudou nada. Acho até que está mais bonito agora com os cabelos um pouco grisalhos..."
Não tenho certeza se Ino percebeu minha breve hesitação no instante ao tocar a maçaneta da porta. Do outro lado estava uma história interrompida... O que teria acontecido se eu tivesse ficado no Japão? Será que eu e Sasuke seríamos como Ino e Neji? Ou será que seríamos como o ele e sua ex-mulher taxada de louca? Nunca poderei saber! Apenas sei que, nesse instante, uma porta fechada há muitos anos se abre a minha frente...
"Irasshaimase."
~x~
~X Fim X~
~x~
Vocabulário:
Yoroshiku - Muito prazer
Kochirakoso - Igualmente
Ittekimasu - Expressão usada para quando se sai de casa com intenção de retornar
Okaa san - Mãe
Oba san - Tia ou qualquer mulher mais velha (com idade para ser sua mãe)
Irassaimase - Expressão utilizada no comércio para dar boas vindas aos clientes
Notas finais:
Bom, é isso! Lembrando que o Shunkashuutou é uma coletânea de oneshots, logo essa história não tem continuação e nem é continuação da anterior. No próximo capítulo, teremos o outono.
bjos e obrigada por ler =*
