Love in an elevator.
(Amor num elevador)
Livin' it up when I'm going down.
(Aproveitando enquanto estou descendo)
Love in an elevator.
(Amor num elevador)
Lovin' it up 'til I hit the ground.
(Amando até chegar no térreo)
Aerosmith – Love In An Elevator
Two: Madness
Undisclosed Desires
Suoh Mikoto & Munakata Reisi
Chovera de forma intensa durante a tarde, fazendo o impaciente ruivo perder-se em varias horas de sono, embalado pelo doce som da precipitação que se chocava levemente contra as janelas de vidro. Era, sem dúvidas, acalentador, diante do vazio que se encontrava em seu apartamento – depois de fatídicas horas na companhia de seus seguidores e de sua pequena protegida. E naquele momento, apenas o suave ressoar da chuva – juntamente com o sabor e aroma do tabaco que tragava lentamente – preenchiam o recinto quase silencioso. Repousava em uma pequena poltrona de couro preto, divagando acerca de certos acontecimentos na companhia do odiado vizinho, Munakata Reisi. E inconscientemente, mordeu o próprio lábio inferior, lembrando-se do quão fora de si estava naquele dia, levando-o a fazer coisas que jamais imaginara. Sempre lhe diziam que "os opostos se atraem" – e mesmo achando tal frase uma completa idiotice, era algo que não conseguia questionar totalmente, pois grande parte de seus seguidores não tinham o gênio tão forte como o seu. Mas ultimamente, aquela frase em questão vinha fazendo todo sentido em sua conturbada mente.
Funcionava como Ariel e Caliban¹ travando uma intensa luta em sua consciência. Ora dizendo que foram apenas algumas doses de álcool a mais e um desfecho inesperado, ora alegando que todas as coisas que se fazem quando está alcoolizado é resultado de divagações quando se está sóbrio. E tudo aquilo se perdia em sua mente, flutuando vagamente enquanto o agradável barulho da tempestade fazia-se presente. Ascendeu o cigarro à boca, repetindo o habitual gesto de tragar a nicotina e expelir a densa fumaça para cima. Vendo que sobrara apenas a ponta do cigarro em questão, levou uma das mãos a pequena mesa de centro, tateando debilmente a procura de algum cinzeiro – e tão logo estava a buscar outro maço de cigarros sobre o tampo de vidro. Soltou um suspiro rouco ao ver que a tal caixa estava vazia.
Fumar era um vício estranho, dedicado apenas a dias de tédio.
Assim como aquele fim de tarde.
Levantou-se bruscamente, dedicando-se a vagar pelo apartamento em busca de algum par de sapatos perdidos. Antes de enveredar-se para o quarto, parou em meio a enorme porta da sacada, fitando a paisagem opaca pela umidade impregnada no vidro. Um repentino barulho de um relâmpago se fizera presente, indicando que aquela chuva tendia a aumentar ainda mais. Porém ignorou aquilo, completamente decidido a comprar um maço qualquer de cigarros e vagar pelas ruas – certamente vazias – enquanto o maldito tédio não passasse.
E de forma inconsciente, pegou-se pensando no que Munakata Reisi poderia estar fazendo naquele momento. Tal pensamento arrancou um riso abafado de seus lábios, imaginando os possíveis costumes ridículos que o vizinho idiota poderia ter.
Fazia alguns dias que Mikoto não o via.
Desde o pequeno acidente que acontecera em ambos, em certa noite em questão.
Seguiu o caminho até o quarto ao final do corredor, encontrando os ditos sapatos encostados a uma parede próxima de sua cama. Calçando-os de forma rude, caminhou displicentemente pelo apartamento, dirigindo-se até a saída, antes esbarrando em alguns móveis por conta do excesso de sono que ainda rondava seu corpo. E fechando a porta atrás de si, deparou-se com a figura séria do vizinho esperando pacientemente o elevador.
— Ah, Munakata...
— Vejo que finalmente deixou de hibernar, Suoh. – Respondeu desdenhoso, elevando a cabeça em sinal de superioridade. Fitou o mesmo passar levemente os dedos sobre a cabeleira ruiva, como se quisesse arrumá-la de algum jeito.
— Boa noite para você também. – Retrucou irônico, deixando um riso de deboche escapar de sua boca. Aproximou-se de forma arrastada até Reisi, colocando-se ao lado dele – e como era de praxe, para lhe irritar, apoiou um de seus cotovelos no ombro alheio.
Munakata fitou-o de esguelha, mas refreou-se de qualquer manifestação.
Existiam coisas ali que poderiam voltar à tona ao menor sinal de alguma brecha. E isso era a última coisa que Reisi desejava. O silêncio pairou perdidamente entre os dois, até o suave barulho do aviso do elevador invadir o ambiente, indicando que havia chegado ao 14º andar. A última coisa que puderam ouvir fora o explodir de um violento relâmpago em algum lugar muito próximo dali. Inconscientemente, Mikoto deixou seu cotovelo escorregar levemente pelo ombro de Munakata, ocasionando um arrepio incomum na pele do mesmo. O ruivo adentrou ao elevador, sendo seguido pela carranca confusa estampada no rosto do vizinho.
— Algum problema? – Perguntou confuso.
— Não, nenhum. – Reisi respondeu seco, colocando-se ao lado do painel de botões e apertando o que indicava o térreo. Munakata evitou qualquer tipo de contato visual, talvez porque não quisesse fitar a habitual expressão de desinteresse que Mikoto exibia. Sentir-se irritado só por estar perto do ruivo era um costume comum.
E sua irritação tinha um "que" a mais. Aquela noite em questão. Fez uma nota mental, ajeitando os óculos repentinamente. Nunca mais aceitar um cigarro de Suoh Mikoto – pois na companhia do ruivo, cigarros levam a uísques, que levam a situações teoricamente amigáveis, que levam a desafios, que levam a bebidas desconhecidas, que levam a... Ah, Reisi evitava ao máximo lembrar-se do resto. Pensou que não valia a pena gastar seus minutos pensando em coisas que fizera quando estava sem controle. Fora apenas um deslize bastante incomum – e se dependesse dele, nada daquilo se voltaria a acontecer. Jamais!
Não é?
Sentiu as pernas fraquejarem pelo súbito balanço que o elevador dera, para em seguida perceber que o local ficara totalmente escuro. Demorou alguns míseros segundos para compreender o que estava acontecendo. Apoiou uma das mãos no batente de metal do elevador, tateando a parede gélida de aço, em busca de algo que pudesse firmar o corpo. Teve um súbito momento de fraqueza – medo, aflição, terror ou qualquer outro adjetivo que coubesse perfeitamente naquela situação. Imaginou-se em queda livre, os cabos de ligação rompidos, o elevador caindo...
— Munakata? – Ouviu o timbre rouco ecoar um pouco próximo de si – próximo até demais, em sua opinião – deixando-o atordoado. Sentia-se perdido pela falta de visão. Agora seria apenas o tato naquele momento. Nada mais.
— Acho que estamos presos, Suoh.
Reisi quase riu diante do suspiro entediado de Suoh. Era incrível a capacidade do ruivo de mostrar-se totalmente indiferente a qualquer situação. Quisera ser assim também, livre de qualquer coisa que atrapalhasse sua paz.
Se realmente ficasse livre de tudo aquilo que lhe tirava a paz, com toda certeza o maldito vizinho ruivo já estaria bem longe daqui. Definitivamente, longe. Acordou de seus pensamentos aleatórios, sentindo alguns dedos extremamente quentes subir institivamente por sua perna, trazendo aquela sensação de minutos atrás. Ah, o arrepio...
— O que é isso? Um esqueleto? Munakata... Acho que existe um cadáver aqui.
Arqueou uma sobrancelha diante do comentário. Se não estivesse preso ao maldito elevador – e se a maldita luz não tivesse deixado o prédio – com toda certeza, Reisi mandaria toda sua compostura para o espaço, desferindo um belo e doloroso soco no rosto presunçoso do vizinho inconveniente.
— Poderia, por favor, tirar suas mãos da minha perna? – O tom de voz longe da carga habitual, Munakata tateou a própria perna, procurando pela mãozinha suspeita que ousara continuar a investir o contato em sua pele, chegando até sua coxa. Buscou um pouco de ar para os pulmões, imaginando onde Mikoto seria capaz de chegar com toda aquela presunção. Jogou a outra mão para frente, tentando encontrar alguma parte do corpo do ruivo – a ideia de desferir lhe um soco parecia bastante válida naquele momento. Tocou um ponto em questão, que a princípio não soube identificar o que era. Primeiro sentiu a textura alheia com os dedos – parecia mole, comparado com alguma gelatina estranha. Sentiu algo molhado e pegajoso em seguida.
E por muito pouco, não disse um impropério perfeito a ocasião.
— Mais um pouco... E você vai colocar a sua mão dentro da minha boca. – Disse Mikoto, no seu habitual tom de voz irônico. Ouviu um muxoxo irritado por parte do vizinho.
— Como eu ia saber que era a sua boca? Poderia ser muito be- – Fechou os próprios lábios, refreando qualquer expressão absurda que ousasse sair dali. Suoh, provavelmente estaria sentado perto de si, por isso ao levar as mãos para frente, sentiu os lábios à altura de sua mão e... Ah, decidiu poupar-se de explicações. Seu nível de irritação estava chegando ao máximo – nem parecia que o pavio-curto dali era o vizinho ruivo. Relaxou a própria coluna, deixando suas costas escorregarem pelo metal gelado, sentando-se no piso do elevador, em seguida.
— Bárbaro.
— Você não muda mesmo, não é Munataka? – Para sua surpresa, aquilo saíra tão próximo de seu ouvido, que pode achar que era uma segunda voz que ecoava em sua mente ao ponto de tomar o controle. Afastou-se por conta do reflexo, levando ambas as mãos para o lado, empurrando Suoh para longe de si.
A localização de Mikoto ele acabara de descobrir. Cabia agora a si, manter distância do tal inconsequente.
— Em que andar estamos?
— Não pergunte pra mim. – Colocando-se de volta no lugar que estava, encostou seus ombros aos ombros de Munakata, ficando precisamente ao lado dele. O silêncio prevaleceu por algum tempo, até a temperatura do ambiente começar a incomodar ambos os corpos, levando Mikoto a retirar a própria jaqueta preta.
— Bárbaro do jeito que você é... Não duvido que em alguns instantes, ficará nu aqui dentro. – Riu sarcasticamente, emanando o ar de superioridade que tanto irritava Mikoto. Já o ruivo, movido em um cansaço incomum, inclinou a cabeça para o lado, apoiando-a no ombro de Munakata. Tal ato surpreendeu o moreno, sentindo precisamente a respiração quente de Suoh na pele próxima de seu pescoço. E mais uma vez seu autocontrole parecia querer deixá-lo, esvaindo-se pouco a pouco... Conforme a respiração de Mikoto subia contra sua pele.
Clavícula... Pescoço, lóbulo da orelha e algumas palavras capazes de fazer até o austero Muanakata Reisi perder o dom da compostura.
Instintos costumam ficar mais sensíveis quando se está no escuro. A sanidade alheia também.
— Não gosto de você, Munakata. – soprou contra o ouvido alheio — Principalmente quando me faz sentir aquilo que não quero. – levou a língua ao lóbulo inocente, acariciando-a suavemente — Eu simplesmente... Detesto isso.
— Você não gosta de mim. Eu não gosto de você. Vamos viver assim pelo resto de nossas vidas. – De forma inconsciente, curvou a cabeça para o lado oposto ao ruivo, permitindo que Mikoto aprofundasse o toque. – Ou até que u-um de n-nós...
Realmente, era adorável quando Reisi perdia o poder da réplica – desta vez ocasionada pelo nariz alheio que acariciava suavemente uma de suas bochechas.Munakata suspirou. Uma. Duas. Suspirou longamente, mordendo o próprio lábio, como se tivesse perdido o controle dos próprios atos – isto, até sentir a inconfundível mão quente tatear seu peito, como se buscasse algo. Os dedos hábeis subiam pelo seu pescoço, chegando à mandíbula, trazendo seu rosto para o lado onde Mikoto estava. Trabalhar os instintos no escuro parecia deixar tudo, um tanto mais... Perigoso. Tão perigoso como a proximidade dos lábios de Suoh, agora roçando os seus. Um beijo simples que não tardou a vir e tão logo aquele contato tornara-se violento. As línguas se tocavam de forma despudorada – e, diga-se de passagem, quase pecaminosa. O corpo de Munataka parecia querer sucumbir ao desejo, porém era refreado pelo mínimo senso que ainda passeava em sua mente. Senso que fora brutalmente dissipado, quando sentira seu próprio corpo ser erguido de forma brusca. Quando percebera, estava sentado sobre os quadris de Mikoto, com uma perna de cada lado de seu corpo. Mal tivera tempo de esboçar alguma reação de negação, sentiu os dedos alheios trabalharem de forma habilidosa sobre o fecho de sua calça.
Inúmeras sensações estranhas pareciam o prender ali. Era quase impossível de resistir ao inimigo.
Literalmente.
— O que pensa estar fazendo? – Sibilou aturdido, sentindo o zíper de sua roupa ser desfeito com maestria e dedos inconvenientes invadirem sua roupa íntima, apalpando algo a mais em seu baixo ventre.
— Odiando você. – Sorriu desdenhosamente.
Mikoto forçou quadril de Munakata contra o seu, fazendo-o conter um gemido, quando sua mão curiosa chegara ao ponto desejado. Reisi queria sair dali, afastar-se daquele contato, dizer a Suoh o quanto o odiava por deixa-lo sem reação. Porém o ruivo maldito parecia hipnotizá-lo ali. Curvou a cabeça para trás, acompanhando a sensação prazerosa que invadia seu corpo, amolecendo pouco a pouco suas pernas. Mikoto o tocava de forma tão íntima, ao ponto de fazê-lo gemer roucamente – ainda que discretamente. Reisi alcançou os ombros de Suoh, apoiando-se ali, enquanto a tortura maldita ainda continuava.
— P-Pare com i-isso, Suoh.
Pedido completamente ignorado para o seu desprazer, seu corpo entrava em frenesi, enquanto Suoh aumentava o ritmo dos movimentos em seu baixo ventre. E o ruivo mal se suportava ali, sentindo-se completamente duro naquela situação. O lábio alheio tocou a pele sensível de seu pescoço e sentindo que viria o fim dele, apertou o corpo de Munakata contra o seu, deixando-o derramar-se em suas mãos.
— Suoh... – Munakata Reisi sibilou exausto. Parecia longe. Talvez perdido ou meramente cansado. Sua voz estava distante do tom normal... O que fez o ruivo pensar se o Reisi estava realmente bem. – Suoh...
— SUOH! – Mikoto abriu os olhos, deparando-se com a porta de metal do elevador fechando-se lentamente. Virou a cabeça repentinamente para o lado, fitando a expressão curiosa de Munakata que olhava para si com bastante interesse.
— Algum problema? – Perguntou confusamente.
— Não, nenhum.
Reconheceu o tom de voz sério e indiferente de Munakata. Observava-o levar um dos dedos ao botão que indicava o térreo. Sua mente voltara a processar alguma informação. Tentou raciocinar o que havia acontecido ali – ou teoricamente, o que sua mente pensara que poderia acontecer ali. Talvez, tivera apenas um sonho. Embora aparentasse ter vivido aquilo de forma bastante real. Pensou se estava louco. Era como se pudesse ter ouvido e sentido todos os pensamentos de Munakata e ao mesmo tempo... Sentir a si mesmo em um estado de completa entrega. Juntos.
Em uma loucura inexplicável.
Mas tudo não passara de um devaneio bastante incomum.
Fitou a expressão austera e intocável de Reisi, percebendo que o vizinho evitava a qualquer manter qualquer contato visual consigo. Após algum ínfimo tempo de silêncio, Munakata se pronunciou:
— Está com algum problema, Suoh? Parece que viu algo estranho.
— Não, nenhum. – Repetiu para si mesmo como se quisesse acreditar — Nenhum problema...
Calou-se repentinamente sentindo um intenso solavanco, para em seguida tudo ficar escuro. O elevador havia cessado qualquer movimentação, indicando que a energia havia deixado o prédio.
— Munakata? – Mikoto perguntou aturdido. Aturdido demais para esboçar qualquer outra reação.
— Acho que estamos presos, Suoh.
[¹] Personagens de A Tempestade, de William Shakespeare. Bom, nesses termos, estou me referindo ao livro Lira dos Vinte Anos de Álvares de Azevedo, que é divido em duas partes. A face angelical (Ariel) e a face, digamos assim... Funesta (que é Caliban). Yuka Harumi é cultura (ou não).
