Capitulo II
O bom morcego a caverna torna
O bat-móvel voava suavemente enquanto Terry aproveitava a vista da cidade.
-Hum... As ruas parecem calmas demais... Não gosto disso, Bruce. – disse para o comunicador do carro.
"Já fui chamada de muitas coisas, mas de velho rabugento é definitivamente a mais ofensiva..."
-Max? – a voz da amiga o surpreendeu - O que está fazendo na linha? Você sabe que o Bruce detesta quando...
"Por incrível que pareça, estou aqui a pedido dele. O velho me ligou e pediu pra eu te acompanhar essa noite. Disse que teria que resolver umas coisas... E ele já disse que é pra me tratar por Oráculo quando estivesse lhe ajudando, lembra."
-Ta... Oráculo. Mas que coisas ele teria para resolver a essa hora da noite?
"Você realmente não acha que ele me disse, não é? Sinceramente, tenho certeza que ele só me chama por falta de opção... Duvido que confie em mim. Nem sei como ele me deu aquele emprego..."
Terry sorriu.
-Ele gosta de você... Ao modo dele.
"É isso que me preocupa."
-Eu vou... – ele não terminou a frase, a amiga o cortou antes.
"O alarme da Joalheria Gold acaba de ser acionado." disse a Oráculo, que havia invadido os computadores da policia local para monitorar as ocorrências. "Alameda 15."
-Estou perto, vou tentar interceptar os bandidos. – forçou o manche para frente acelerando o veiculo, ela calculou o tempo.
"Vai chegar lá antes da policia."
E, como ela previu, em segundos estava onde pretendia. Da onde estava pode ver o carro de fuga esperando os assaltantes a duas quadras dali.
Pulou para o prédio mais próximo e se pôs a seguir o grupo de cinco assaltantes que corria pelos becos escuros da cidade, pronto para interceptá-los.
Porém, quando estava prestes a pará-los, outra pessoa o fez.
Os dois homens conversavam em uma das salas de estar da mansão. Dick bebericava uma taça de licor sob o olhar atento do Dog Alemão Ace, que havia se acomodado ao lado do sofá que seu dono sentara.
Bruce estava feliz em vê-lo, enquanto o outro contava como foram os últimos quinze anos longe do pai adotivo, ele se empenhava em ver o que o tempo fizera com o seu primeiro Robin.
-Você não parece ter envelhecido nada. – comentou, embora soubesse o motivo.
-Culpe o ar da Nova Tamaran.
Dick tinha um físico invejável para os seus sessenta e oito anos, na verdade ele não mudara quase nada desde que saíra da Terra, quando Koriande'r lhe dissera que iria embora do planeta para governar a Nova Tamaran e o chamou para acompanhá-la.
Na época ele e Bruce conversaram bastante e no final os dois chegaram à conclusão de que Dick deveria sim tentar formar a família que a vida de vigilante noturno sempre o atrapalhara a ter, mesmo tendo que seguir a ex namorada para fora do planeta.
-Não posso reclamar dos anos que vivi lá. Kori é uma ótima esposa, mas governar a Nova Tamaran não lhe deixava muito tempo para mim. – o mais velho esperou pacientemente que o filho postiço terminasse a dolorosa frase - Decidimos nos separar...
-Então, está dizendo que sua volta a Gotham não tem nada haver com a minha idade já um pouco avançada...
-Mesmo com corpinho de sessenta, - gracejou o mais novo - setenta e oito anos podem ser considerados uma idade muitooo avançada, sabe.
-Você chega lá. Como eu ia dizendo, quer mesmo que eu acredite que você voltou para casa porque terminou com a Kori? Acho difícil já que não fez isso nem quando tinha vinte e poucos anos. – Dick sorriu abertamente ao comentário – Parece ter esquecido que eu lhe conheço muito bem.
-Você conhece todo mundo muito bem, Bruce. Chega a ser chato. – bebericou mais um pouco da bebida doce - Ok, quer a verdade?
-Seria interessante.
-Oh, sim, você pode apostar que é... Gabrielly, sua neta meia Tamaraniana, fará quinze anos terrestres em breve. E ela quer uma festa terrestre, com direito a valsa com o pai, os tios e o avô. – encarou Bruce por um momento antes de terminar – E eu sinto falta do meu pai, e gostaria de aproveitar mais tempo com ele enquanto ainda posso.
A expressão de Bruce não mudou, mas Dick sabia muito bem que ele gostara de ouvir isso.
-Não é prudente. – disse seco, então o olhar desviou por um momento – Você não devia estar fazendo a ronda?
Dick sorriu diante da pergunta destinada às sombras. Em segundos a figura vestida de negro com um morcego vermelho no peito emergiu do lugar.
-O novo Batman... – murmurou o homem a quem Terry não conhecia – Esse uniforme ficou melhor nele do que em você. – brincou.
Bruce sorriu de lado antes de começar as apresentações.
-Terry, eu quero que conheça Dick Grayson. Ele...
-Foi o seu primeiro Robin. Você se tornou o tutor dele depois que os sr. e sra Grayson foram assassinados. O criou. Ele usou o manto do Robin por aproximadamente dez anos até assumir a alcunha de Asa Noturna. Também assumiu o manto do Batman pelo tempo em que você foi considerado morto.
"O primeiro Robin é? Esse cara é bem gato para a idade dele, heim. Ele tem o que? Uns sessenta anos?" comentou Max ao seu ouvido. Ele não tinha desligado o comunicador.
Sem se importar com a pequena interrupção Terry continuou.
-...Casou com Koriande'r, princesa de um planeta chamado Tamaran e...
Fora o riso de Dick que o interrompeu dessa vez.
-Eu devia estar surpreso? – perguntou para Bruce que apenas deu de ombros – O prazer é todo meu, sr. McGinnis. Ou deveria dizer: jovem Wayne? A Waller é mesmo louca, não é?
Sem dar-lhe atenção, Terry olhou de lado para Bruce.
-Eu não disse nada. – o mais velho respondeu a pergunta muda.
-Você não é o único aqui que foi treinado pelo maior detetive do mundo. – comentou Dick – E eu não deixaria alguém assumir o manto do Batman sem investigá-lo primeiro. Mesmo estando em outro planeta.
-Outro planeta? Então era por isso que não conseguia encontrar o seu endereço.
"Isso está ficando interessante." Teve vontade de desligar o visor que permitia a Max ter acesso as mesmas imagens que via.
-Já você, mora com sua mãe e irmão. É noivo da bailarina Dana Tan. Trabalha há dez anos para o empresário Bruce Wayne. Teve seus estudos de Administração pagos por ele e segue sendo o secretário particular do milionário, ao invés de tentar a carreia... Vocês deveriam rever isso, da muito na cara, alguém pode achar que têm um caso.
A gargalhada de Max foi seguida por um "Uii... esse cara é bom." que só fez o humor de Terry piorar.
-Não é tão difícil levantar esses dados quando já se sabe sobre o Bruce. – comentou ele, respondendo ao mesmo tempo a exclamação da amiga.
-Eu posso dizer o mesmo sobre o que descobriu de mim. – disse Dick, ainda sorrindo, depois voltou os olhos mais uma vez para Bruce – Ele não parece tanto com você, apesar do genes.
-Terry é bem mais paciente... – concordou Bruce.
-Percebesse. Você já teria me deixado falando sozinho. E o Damian já teria me mandado para algum lugar desagradável... – e então o jovem Batman se deu conta de que o Dick o estava testando.
Sabendo que o comentário certamente havia irritado o amigo, Max concluiu. "Bom, não parecer com o velho é um elogio, certo?"
Alheio a isso Dick se levantou do sofá.
-Bom, eu tenho que ir. Prometi a Donna encontrá-la no hotel daqui a pouco.
-Donna está na cidade? – perguntou o pai e Dick fez que sim.
"Quem é Donna?" Ele quase respondeu 'a primeira moça maravilha' mas ia denunciar a "presença" de Max.
-Veio só pára me ver. Volta para Star City amanhã cedo. Vai ficar até o fim do mês com o Roy antes de retornar à Themyscira para uma festa. – disse, largando o copo de licor vazio sobre um dos móveis e o movimento o deixou de costas para Terry por uns segundos.
O Batman teria percebido a alteração na expressão de Bruce se não fosse pela exclamação em seu ouvido.
"Hello mama! Que traseiro é esse?"
-Max, quer calar a maldita boca? – chiou para o comunicador, já sem se importar que Bruce e Dick soubessem que mais alguém lhes escutava.
"Isso foi golpe baixo, McGinnis." Ela reclamou.
-Pode apostar que sim. – rosnou antes de desligar de vez o aparelho com um toque dos dedos no ouvido.
Dick e Bruce assistiram a mini discussão em silencio e, ao término dela fingiram que nada tinha acontecido, muito embora o "primogênito" tivesse um sorriso irritante nos lábios.
-Deixe o hotel. – disse Bruce, retomando a conversa com Grayson - Você vem para a mansão amanhã.
-Não é prudente. – alfinetou Dick, repetindo o comentário que ele fizera mais cedo.
-Não era prudente estar na Terra. Ou em Gotham. Mas como você é teimoso, é melhor que fique onde eu posso vê-lo.
O outro concordou com a cabeça antes de alfinetar mais uma vez.
-Ok, mas eu devo lembrá-lo que daqui a duas semanas sua neta chega e que ela é uma adolescente de quatorze anos.
Bruce acenou com a mão.
-Que seja.
-Certo. – ele abaixou e deu um beijo na testa do pai – Vou encontrar com o Tim amanhã cedo. Depois venho para cá. Boa noite. – voltou-se para Terry de novo e finalmente lhe esticou a mão – Esqueci de dizer que eu fiquei muito feliz de saber que o Bruce tenha alguém como você por perto. – e algo no sorriso que Dick lhe dera fez com que a raiva que estava sentindo se dizimasse - E agradecer pelo que você fez pelo meu irmão anos atrás.
Ele estava se referindo a Tim e sua quase conversão em Coringa.
Terry apertou a mão estendida enquanto retirava finalmente o capuz e acenava em concordância.
-Foi um prazer. – disse.
-Nossa. – Dick arregalou os olhos por uns míseros segundos - Tim estava certo, vocês são muito parecidos.
-Está incomodado por que o filho mais velho do cara apareceu? Mas até ontem você estava procurando por familiares e amigos dele... – Max balançou a cabeça em negativo, tomou e gole do suco e continuou - Eu não te entendo, Terry.
Os dois amigos estavam almoçando no restaurante da Wayne Powers onde Max trabalhava. O sr. Wayne estava numa reunião demorada e Terry aproveitou para acompanhar Max na refeição já que a noiva estava fora da cidade, em uma excursão do show onde trabalhava como bailarina.
-Não gostei dele. – disse seco – O cara é piadista demais pro meu gosto.
Max franziu o cenho, estava prestes a dizer ao amigo que ele era piadista demais também, quando percebeu o bico que mais parecia o de uma criança de dez anos estampado na face de Terry.
Ela riu.
-Saquei. Você esta com ciúmes! – o amigo lançou um olhar fulminante na direção dela, mas isso não a intimidou – O preferido voltou e você está com ciúmes dele. – repetiu.
-Não estou com ciúmes. Estou preocupado. – tentou desviar das insinuações descabidas – O cara vai voltar para morar na mansão, e em pouco tempo virá a filha... Uma guria de quinze anos.
-Quatorze... – corrigiu ela – Ela ainda vai fazer quinze. O que me lembra... – sorriu para o amigo – ...quem será que vai organizar a festinha, heim? – levou o dedo a boca, pensativa – Hum... Acho que o secretario particular do avozinho dela, não é? Oh! Esse é você.
-Cala a boca, Max. – rosnou, ainda bicudo – Como eu vou poder trabalhar em paz com uma adolescente na casa, me diz? – ele tomou um gole da água que havia pedido, e esperou a amiga mastigar um pouco da comida.
-Bom, a menina é meio alienígena... E o pior, é neta do velho. Certamente não é uma adolescente normal. – começou a cortar outro pedaço do bife.
-Ela não cresceu com ele... – resmungou.
-Sinceramente, Terry, acho que esta se preocupando a toa. Tenho certeza que o Sr. Wayne sabe o que esta fazendo.
-É pode ser...
Ela mastigou mais um pouco enquanto ele a observava.
-Bom, vamos mudar para um assunto mais proveitoso... Que tal falarmos sobre seu novo ajudante na luta contra o crime? O que seu patrão achou?
-O Bruce viu a gravação que as câmeras do uniforme fizeram. – disse ele, feliz por terem mudado de tópico afinal - Disse que o cara tem potencial, usa técnicas de Boxe, Savate e Jiujitsu... Quase nada oriental. Utiliza bem os golpes, mas tem pouco conhecimento.
Ela ponderou um pouco.
-Boxe e Jiujitsu são populares hoje em dia, qualquer academia ensina. Agora... Savate é mais difícil.
-Em Gothan não há ninguém que de aulas de Savate. Já levantei.
-Eu acessei os arquivos da delegacia e li os depoimentos dos caras. Eles não conseguiram ver o rosto da pessoa que os parou. Mas garantiram que não era o Batman... Não usava roupas especiais, nem mascara... – ela limpou a boca com o guardanapo, num sinal de que terminara a refeição - Bom, você também não conseguiu ver a cara dele, não é?
-Não... Mas estou incomodado com uma coisa. – ela o olhou curiosa – Eu tive a impressão de que conhecia o cara, mesmo não vendo o rosto dele... Sabe quando o jeito de andar te lembra alguém? Eu só não sei quem.
A casa estava soturna como de costume, nem parecia que havia mais um morador nela há uma semana quase. E o motivo era simples, assim como o sr. Wayne, Grayson era silencioso. Mas isso ele também podia ser.
Ouviu um riso vindo de um dos cômodos, se esgueirou até a porta da biblioteca onde, como esperava, Grayson conversava com alguém. Só que não havia ninguém lá.
-Urgente? – falava ele ao celular – Mas o que aconteceu? – o dialogo era seguido por pausas onde a pessoa com quem conversava lhe respondia as perguntas - Ela não foi mais especifica? ... Que estranho. Bom, vamos torcer para que tudo se resolva logo... – riu – É eu sei como é difícil ficar no escuro. Mas você já devia estar acostumado. A conhece a mais de cinqüenta anos... – gargalhou – É, eu sei que falar assim faz com que pareçamos mais velhos. Mas isso é porque somos, Roy. - ele fez um movimento com a cabeça na direção onde Terry estava, era certo que havia percebido sua aproximação - Você as conhece, nada de pedir ajuda a homens... – continuou, como se nada tivesse acontecido – Ah! Sim! Assim que a Gaby chegar nós vamos marcar algo sim. – nova pausa curta – Ok, me mantenha informado. Até. – e desligou o aparelho – A casa é bem antiga McGinnis, o assoalho faz muito barulho. – disse para a porta. Sem motivos para se esconder, ele resolveu aparecer de uma vez – Não se preocupe, só o Alfred conseguia andar por aqui sem ser notado.
Terry levou a mão ao bolso da jaqueta preta que costumava usar.
-Bruce fala muito dele. Parece ter sido uma boa pessoa.
Dick sorriu saudoso.
-Melhor do que todos nós juntos. – apontou o sofá a frente do que ele mesmo ocupava, como que chamando Terry para uma conversa – Acho que Alfred gostaria muito de você.
-Por que diz isso?
-Porque você gosta do Bruce.
-Quem disse que eu gosto dele? – perguntou fingindo seriedade, enquanto sentava no lugar oferecido.
-Para passar dez anos aqui, você gosta dele e muito. E você merece um premio... Ele está mais rabugento hoje do que era na nossa época.
-Que seja. – Terry deu de ombros e desviou o olhar para algum ponto atrás de Dick.
-O que te incomoda McGinnis?
-Nada. Por que acha que estou incomodado?
-Bom, eu conheço um bico quando vejo um. Tenho uma filha adolescente que vive fazendo isso.
Lembrando que a própria amiga percebera a mesma informação em suas feições, tentou (sem sucesso) melhorar a cara. Remexeu-se no sofá, como se não encontrasse uma posição adequada. O olhar do outro continuava incisivo sobre si e aquilo sim o estava incomodando.
-Eu não... – tentou começar – Eu não estou certo de como serão as coisas agora.
-Comigo aqui?
Concordou com a cabeça.
Dick pareceu pensar muito na resposta antes de começar a falar.
-Eu não pretendo tomar o seu lugar, se é o que lhe preocupa. Não tenho mais idade para isso...
-Eu não iria deixar que o fizesse. Mesmo que você tenha mais direitos do que eu.
-Ser o mais antigo me da alguns privilégios. Mas não mais direitos que você, Terry. – era a primeira vez que Grayson o chamava pelo primeiro nome – O maior legado do Bruce não é sua empresa, nem o dinheiro, nem suas posses... Nenhum de nós nunca se importou com nada disso, assim como ele.
Terry sabia disso, aproveitador não era um adjetivo que ele usaria para nenhum dos integrantes do BatClan.
Dick continuou.
-Seu maior legado é o manto do Batman e tudo que ele representa. E isso, hoje, é você quem carrega. Você é o sucessor atual, seja por que alguns de nós não possam mais assumir, - apontou para si mesmo - seja por que não querem, seja por que tinham outras obrigações... – fez um pausa – O fato é que essa família gira em torno do que é melhor para o Cavaleiro Negro de Gotham, isso significa que o que eu puder fazer para deixar o seu trabalho mais fácil, eu farei.
-Esta tentando me dizer que é um aliado?
Dick sorriu aquele sorriso que o desmontara na primeira noite.
-Você entende rápido.
-McGinnis! – o berro vindo do corredor foi identificado rapidamente pelos dois homens – McGinnis, onde você está?
Os cabelos agora platinados da Comissária Gordon surgiram na entrada da biblioteca. Ela parecia irritada, certamente por não ter descoberto nada sobre o vigilante misterioso, mas sua expressão mudou totalmente ao dar de cara com Grayson na sala.
-Dick?
Terry não soube dizer como, mas o sorriso já vasto do homem se abriu ainda mais ao vê-la.
-Oi, Babs... Eu voltei.
Continua...
