Picturing the Past - I

Obs: Bem, a idéia dessa fic surgiu de um sonho que eu tive há um tempo atrás. O estilo de escrita dela também é diferente do que eu to acostumada a escrever e tudo o mais... espero que gostem A-A E, se alguém por acaso souber de alguma fic que lembre, mesmo que vagamente, essa... por favor ME AVISE.

Agradecimentos à Blanxe pela ajuda.

Beta: Cristal Samejima


'Father into your hands,
I commend my spirit...'


Nunca havia visto aquilo em sua vida. As próprias células sanguíneas do menino destruíam umas às outras sem qualquer motivo aparente e tentava descobrir um meio de pará-las antes que fosse tarde demais; era como se o corpo dele estivesse sofrendo uma auto-rejeição. Internou-o assim que os enfermeiros terminaram de limpar seu corpo, fazendo-o ver os hematomas pelo corpo do tal Duo. Sabia ser efeito daquela estranha doença, afinal alguns dos vasos mais delicados que lhe compunham a anatomia se haviam rompido, causando diversos pequenos sangramentos internos. Não estava nada otimista com o caso de Duo, mas tentaria o possível para salvá-lo.

O menino era forte, isso tinha que admitir, afinal era impressionante que ainda estivesse vivo no estado em que se encontrava e esperava que ele resistisse até que pudesse achar uma cura. Mas antes, precisava estabilizá-lo; precisava encontrar uma forma de fazer com que aquela destruição celular parasse, antes que algum órgão fosse efetivamente deteriorado. O sistema imunológico do menino estava anormalmente alto e aquilo era bom e ruim ao mesmo tempo, afinal, significava que nenhuma outra doença o atacaria em sua vulnerabilidade, mas era por causa dessa elevação em sua imunidade que as outras células de seu sangue estavam sendo destruídas. Precisava equilibrar os linfócitos para que eles agissem normalmente, fazê-los parar de reconhecerem os outros componentes do plasma sangüíneo como inimigos.

Não via qualquer traço de vírus no sangue do menino, indicando que aquela doença era uma anomalia genética e aquilo só tornava o caso ainda mais complicado. Suspirou ruidosamente e observou em seu microscópio a forma com que os glóbulos brancos destruíam as outras células, atacando primeiramente as hemácias. Aquilo era perigoso demais, afinal, poderia comprometer o transporte de oxigênio para o cérebro. Tinha que ser rápido, antes que ele não mais conseguisse resistir, afinal, o menino já estava na iminência de um coma, mesmo com a transfusão de sangue que estava fazendo diariamente e que o mantinha vivo.

Testou a décima droga que desenvolvera durante a internação do menino há alguns dias atrás. Tratava-se de um imuno-controlador, onde havia resquícios do vírus da síndrome da imunodeficiência, mas não o suficiente para contaminá-lo, apenas o mecanismo com que este funcionava. Observou que, alguns segundos após a aplicação da droga na lâmina, a grande parte dos linfócitos estacionaram, não mais atacando as outras células e aquilo quase o fez sorrir, aumentando a dose do teste e vendo os outros também pararem sua atividade. Agradeceu a Deus por finalmente ter conseguido algo que parecia ser efetivo depois de tantas tentativas; aquilo era uma ótima notícia. Agora só precisava testá-la no próprio Duo para ver se daria mesmo certo e, se este fosse o caso, desenvolver mais da droga e determinar a quantidade a ser aplicada diariamente.

Saiu de seu laboratório com a primeira ampola do remédio, caminhando rapidamente até a sala em que Duo se encontrava, apertando em seguida o botão para chamar a equipe de enfermagem. Instruiu para que a transfusão fosse pausada na intenção de testar a nova droga e resolveu aplicá-la diretamente na veia do menino ao invés de colocá-la no soro, para que o efeito se fizesse com mais rapidez. Aplicou uma dose experimental relativamente alta, para que as células se estabilizassem, e esperou alguns minutos antes de colher-lhe o sangue para observar o que se passava em seu corpo. E rezou silenciosamente quando, de volta em seu laboratório, percebeu que a droga havia sido efetiva. Contatou os enfermeiros, contando-lhes da novidade, e instruiu para que fizessem uma última transfusão para que o sangue do menino não ficasse tão deficiente. Agora, só tinha que monitorar o horário para a próxima dose, mas com a quantidade aplicada, duvidava que fosse tão cedo.

-

Uma batida na porta fez com que o menino se levantasse, olhando na direção desta com curiosidade. Porém, ao ver a expressão suave do médico, sua curiosidade se transformou em apreensão e Solo ficou tenso, apertando uma das mãos contra a outra.

- E então? – Perguntou, hesitante. Estava com medo do que receberia como resposta, mas não pode evitar questionar.

- Ele vai ficar bem... ou assim parece. – O sacerdote o tranqüilizou, sorrindo contidamente. – Você quer vê-lo?

Solo sentiu os joelhos cederem e teve de voltar a se sentar para que não caísse. Duo estava bem... Duo ia sobreviver... E o homem que o salvara olhava para si de forma divertida e terna ao mesmo tempo. Solo não pode se conter; deixou que as lágrimas escorressem livremente por seus olhos e precipitou-se ao padre, envolvendo-o num abraço apertado.

- Obrigado, padre Maxwell... muito obrigado... o que eu posso fazer pra te pagar? Pode falar qualquer coisa, padre, você salvou o meu amigo e eu te devo muito. – O menino disse, com a voz vacilante, enquanto seus olhos marejados fitavam a figura bondosa do eclesiástico.

- Solo, eu já disse que não quero pagamentos... a única coisa você poderia fazer para me pagar seria ficar aqui no orfanato com o seu amigo e não voltar para as ruas. Isso é o suficiente. – Padre Maxwell explicou, acariciando o cabelo do garoto suavemente.

Solo assentiu, sem condições de formar qualquer palavra para agradecê-lo por seus atos. Teria Duo de volta e, ainda por cima, teria um lar... pelo visto, Deus realmente existia, assim como os milagres. Pegou-se olhando para a cruz na parede do quarto, depois que soltara o padre de seu abraço apertado.

- Ele existe, não é? – Murmurou, mais para si mesmo que qualquer coisa, mas o eclesiástico o ouviu e acompanhou-lhe o olhar.

- Sim... você não acredita nele, Solo?

O menino respirou fundo, fechando os olhos por um breve momento.

- Acredito, padre... agora, eu acredito.

Sorrindo novamente, o sacerdote pousou a mão em um dos ombros do menino, numa tentativa de passar-lhe conforto.

- Isso é bom, Solo. Porque ele te ama. – Disse, numa voz acolhedora. – E ele ficaria muito feliz se você aprendesse a amá-lo também.

Concordando, o garoto lembrou-se da promessa que fez a si mesmo ao entregar Duo ao médico e soube que realmente teria que aprender a amar aquele tal de Deus, afinal, havia sido ele que fizera o milagre de salvar seu amigo. E era a ele que devia mais do que poderia pagar.

Porém, naquela noite, Solo não dormiu.

Seus sonhos foram povoados por uma bela mulher de cabelos negros e vestes brancas, que lembrava vagamente Duo. A mulher dizia que ele estava cometendo um erro, que aquele Deus era uma fraude. Ela atormentou-o até que acordasse e procurasse o padre Maxwell, que lhe explicou que era normal que Satanás tentasse desviar os que escolhiam o caminho do verdadeiro e único Deus. Solo então jurou a si mesmo que nunca mais deixaria que aquela mulher, aquele demônio com as faces tão parecidas com as de seu amigo, o tentasse para o lado do mal.

E a Morte soube então que havia perdido o principal aliado de seu filho.

-

Duo acordou apenas dias depois, para quase desespero de Solo; o garoto mais velho não esperava que o amigo fosse demorar tanto para recobrar a consciência. Por mais que o padre Maxwell lhe explicasse que estava tudo bem e o outro menino estava apenas se recuperando, Solo não conseguia aceitar aquele fato. Ainda mais com aqueles tubos estranhos no nariz de seu amigo, que o ajudavam a respirar. Se Duo não podia nem respirar por si mesmo, como ele estaria tão bem quanto o padre o garantira? Tinha que conferir com os próprios olhos, ver o amigo olhá-lo e sorrir para si como sempre fazia.

Suspirou aliviado ao ver aqueles belos olhos violetas se abrirem, confusos, enquanto ele piscava repetidamente a fim de espantar o sono que pesava suas pálpebras. Solo sorriu suavemente, segurando-lhe a mão e a apertando delicadamente, como se para passar-lhe algum conforto.

- Hey... como você está? – Perguntou, com a voz baixa para não perturbá-lo.

- Mata o elefante que me pisoteou? – Duo gracejou, a face anormalmente pálida e a voz fraca, porém, o brilho de seus olhos retornara, deixando o outro menino mais tranquilo. – A dor parou, Solo. Como...? – Ele perguntou, um tanto perdido, enquanto tentava enlaçar sua mão com a do amigo.

- Lembra que eu te falei que ia te levar a um padre e que ele ia te salvar? – Solo questionou, vendo o menor assentir para que continuasse. – Ele te salvou, Duo. Ele inventou uma vacina pra parar com a dor e me disse que isso é um dom de Deus.

Duo franziu o cenho gravemente, olhando de forma penetrante para o amigo.

- Mas você não acredita em Deus, Solo. Você sempre me disse que ele não existia e que se existisse, nós teríamos pais e um prato de comida.

O mais velho respirou fundo, disposto a explicar ao amigo tudo o que havia aprendido nos poucos dias em que estivera no orfanato do padre Maxwell.

- Mas eu aprendi, Duo, que ele existe sim. E que ele ama os pobres como a gente. Ele mandou o filho dele pra terra há uns anos atrás e ele era pobre também! – Disse, vendo a curiosidade crescer no rosto do outro menino ao mesmo tempo em que a porta era aberta, revelando a presença do padre Maxwell.

- Era? Ele fazia parte de uma gangue também? Será que a gente já esbarrou com ele e não sabe? – Duo perguntou, surpreso pela revelação do amigo.

O eclesiástico riu, aproximando-se da cama e pousando uma mão no ombro de Solo, enquanto observava o menino na cama.

- Vejo que se sente melhor. – Declarou, antes de tirar a confusão das faces do menino por ter rido de suas perguntas. – Não, Duo. Jesus não fazia parte de uma gangue. Ele viveu há mais de dois mil anos atrás, não tem chances de vocês terem-no encontrado fisicamente. Porém, Jesus está olhando por vocês, cuidando de vocês mesmo sem que saibam disso. – Ele explicou, fazendo o mais novo dos garotos erguer uma sobrancelha.

- Como?

- O corpo de Jesus está morto, Duo. Mas ele ressuscitou, e sua alma está velando por todos nós.

Sem acreditar muito no que lhe era dito, Duo assentiu. Não entendia como alguém podia morrer e ainda assim estar cuidado de todos. E, se ele estava mesmo cuidando, por que ficara doente? Por que não tinha uma família e era feliz como a maioria dos garotos da sua idade? Resolveu não contestar o padre, afinal, tinha a impressão de que isso o aborreceria e não queria chatear o homem que salvara sua vida.

- Padre... Solo disse que você me curou. – Disse, timidamente, mudando de assunto. – Obrigado. Como eu posso te pagar por isso? Não sei se o Solo te contou, mas...

- Mas nada, Duo. Se você quiser me pagar, fique no orfanato ao invés de voltar para a rua. – O padre interrompeu com um sorriso no rosto. – Você terá roupas, comida e uma cama para dormir. Além de poder aprender a ler e escrever e fazer amigos.

Os olhos do menino se arregalaram em surpresa, enquanto a respiração ficava presa em sua garganta. Estava o sacerdote oferecendo-lhe a chance de sair da rua, de ter um teto ao qual se abrigar e não ter mais que se preocupar com o que comeria no dia seguinte? Depois de tudo o que havia feito por si, ele ainda ousava lhe oferecer uma moradia? Aquilo não podia ser verdade... desde quando era mais novo, aprendera a não acreditar nas ofertas bondosas das pessoas. Já vira vários membros da sua gangue voltarem muito machucados por causa disso.

Olhou para Solo de forma desconfiada e sentiu-o apertar sua mão de forma a assegurar-lhe de que estava tudo bem.

- É seguro. Eu tava lá. – O amigo sussurrou para si, sorrindo.

- E os outros? – Duo perguntou, preocupado com os amigos de sua gangue.

- Eu busquei a galera com a irmã Helen. Ela é gente fina, depois você vai conhecer ela.

Suspirando aliviado, Duo olhou para o padre, aceitando sua proposta e vendo o seu sorriso se iluminar. O homem parecia verdadeiramente feliz com sua permanência no orfanato... o que o deixou ainda mais desconfiado. Era muita bondade sem motivo algum.

- Duo, eu acho que nós já podemos tirar os tubos de oxigênio. Pelo jeito que você estava falando, parece conseguir respirar por si mesmo. – O sacerdote gracejou. – Mas se você sentir qualquer dificuldade para respirar, me avise imediatamente. Solo, você pode esperar lá fora enquanto examino seu amiguinho? Pode trazer os outros para verem-no também.

O mais velho assentiu, se levantando da cadeira, mas sendo contido pela mão de Duo que o segurou firmemente com um olhar amedrontado no rosto.

- É seguro, Duo. O cara é gente boa, confia em mim. – Disse, tentando tranqüilizar o amigo. – Eu volto daqui a pouco com o resto do pessoal.

- Volta mesmo...? – O outro perguntou, querendo conferir.

- Lógico. Eu já te deixei na mão, Duo? – O mais novo negou, mordendo o lábio inferior. – Então pronto. Sossega e deixa o padre olhar você. Ele é o cara.

Relutante, Duo o deixou ir, observando sua saída com pesar. Reparou o olhar do médico em si e respirou fundo, tentando acalmar o próprio pânico e confiar naquele homem.

- Fique calmo, Duo. Eu não vou te fazer mal, só quero checar para ver se está tudo bem com você. Seu estado não era muito bom há poucos dias atrás. – O eclesiástico disse, com um olhar gentil no rosto. – Eu sei que é difícil para você confiar nas pessoas, mas eu não mereço um pouquinho de crédito por ter te ajudado? Não pretendo te prejudicar, Duo. Fique tranqüilo.

Suspirando alto, o menino concordou, abaixando suas defesas e deixando que o padre o examinasse. Se Solo confiava nele, então não tinha motivos para duvidar de suas intenções; Solo jamais o prejudicaria ou deixaria que alguém fizesse isso deliberadamente consigo.

Sentiu-se estranho quando o tubo de oxigênio foi retirado de suas narinas, tentando adaptar-se ao fato de que respirar agora seria por sua conta, mas, pelo visto, seu corpo estava preparado para aquilo. Sentiu o médico tocar nos hematomas de seu corpo, aplicando alguma pressão e perguntando-lhe se doía ou incomodava, fazendo Duo rolar os olhos diante da obviedade desta; todo seu corpo estava dolorido, apesar da dor latejante que o rasgava por dentro ter desaparecido. Era normal que estivesse se sentindo assim depois do trauma que ocorrera em suas entranhas. Porém, o médico concluiu que estava tudo bem consigo, apesar de sua aparente fraqueza.

- Bem, você vai ter que se alimentar muito bem de agora em diante. Junto com as suas refeições, vão vir pílulas de ferro e alguns outros remédios. Mas eu devo te dizer que eu não te curei, Duo, só descobri como parar a doença. Então, ainda estou testando a vacina, por isso, assim que você sentir algum tipo de dor, me procure. – Padre Maxwell declarou, vendo o menino concordar. – Você tem uma anemia muito grave e precisou de muito sangue. No seu estado de má nutrição, isso é muito perigoso, então trate de comer tudo o que a enfermeira lhe trouxer.

- Como se eu fosse recusar comida. – Duo grunhiu, insatisfeito pelo comentário do médico. Comeria o que lhe fosse oferecido, não importava o gosto ou a textura, desde que aplacasse a sua fome.

O sacerdote, apesar da declaração do menino, sorriu compadecido. Sabia que no estado em que estava, o garoto não recusaria alimentos, mas tinha que ter certeza de que ele comeria tudo para o seu próprio bem.

- Então está certo, Duo. Seus amigos já devem ter chegado, vou deixá-los a sós. Qualquer coisa aperte o botão vermelho ao lado de sua cama, sim? – O padre instruiu, antes de deixar o quarto, observando o grupo que se encontrava do lado de fora desta.

Depois de cumprimentá-lo fervorosamente, as quatro crianças entraram no quarto de Duo, com ordens expressas de não cansá-lo e não tentarem tirá-lo da cama, o que aceitaram imediatamente. E, observando o rosto do garoto enfermo se iluminar com a entrada dos amigos, o padre Maxwell seguiu pelo corredor, um sorriso crepitando pelo canto de seus lábios. Duo ficaria bem, disso tinha quase certeza e louvava a Deus por ter lhe dado um dom que o fazia capaz de salvar vidas inocentes com a daquele menino.

-

- Hey, Duo, eu tenho que te apresentar um amigo meu. – Mini declarou, alegremente. – Ele chegou um dia antes da gente. Parece um anjo!

O menino olhou para a mais nova do grupo, erguendo uma sobrancelha em divertimento. Mini era amigável e delicada, sempre tentando fugir da realidade em que viviam com fantasias e contos que se lembrava de quando seus pais a contavam. O que Duo achava mais curioso era o fato de Mini não se lembrar de seu verdadeiro nome, mas não ter esquecido um detalhe sequer das histórias que ouvira. Para ele, Mini era sua pequena princesa, a qual deveria proteger com a própria vida se precisasse.

- É? E como é o nome dele? – Perguntou, feliz pela animação da menina.

- Você vai conhecer! Agora que saiu do hospital, você vai poder conhecer todo mundo. Tem tanta gente, Duo... e sabe o melhor? As freiras disseram que vão me ensinar a ler! Eu vou poder ler as histórias! – Mini contou, apertando as mãos do amigo em felicidade. – J.L. disse que vai me dar um livro assim que eu aprender a ler.

Duo sorriu, sendo guiado pela falante criança até o corredor dos dormitórios. Mini o havia buscado no hospital, dispensando educadamente o padre Maxwell e dizendo que o guiaria até o quarto. Os outros amigos estavam fazendo suas atividades e ela já havia terminado as que lhe foram designadas e a irmã Helen a havia explicado o que fazer, pois ela, Mini, estava realmente empolgada em levar Duo logo para o orfanato. O padre riu, deixando que Mini o levasse então, recomendando apenas para que ela não o fizesse correr nem fazer qualquer esforço, já que ainda estava fraco e debilitado.

- O seu quarto a irmã Helen disse que é o três, junto com o Solo e o J.L., além do nosso amigo novo e mais dois garotos que eu não conheço. Eu e a Branca estamos junto com umas garotas também, mas ainda não fizemos muita amizade. – A menina explicou, abrindo a porta do quarto de Duo e o puxando para dentro. – Vem! Olha como o seu quarto é lindo. A irmã Helen disse que a sua cama é a vazia, do lado da do Solo e que era pra você esperar aqui que ela ia trazer suas coisas.

- Coisas, que coisas? – O garoto perguntou, confuso. Não tinha pertences, então não fazia sentindo a tal irmã Helen lhe trazer nada.

- Oh seu bobo, a gente ganha coisas aqui! Roupas e as coisas pra cama e o banho. Acredita que tem água quente aqui? Água quente! – Mini disse, maravilhada.

- Por que eles dão coisas pra gente? – Duo perguntou, desconfiado. Aquelas pessoas estavam sendo bondosas demais e não tinham motivo algum para tal, afinal, ninguém apreciava crianças de rua. Então, o que havia por trás de tudo aquilo?

- Pra gente num andar pelado por aí, ne Duo. A irmã Helen diz que Deus é bom e que devemos ajudar 'o próximo'. Acho que nós somos 'o próximo'. – A menina falou, inocentemente, fazendo Duo sorrir.

- Não sei não, Mini.

- Relaxa Duo, tem muitas crianças aqui. Às vezes eles são como as fadas madrinhas na história da Cinderela...

Olhando para a expressão alegre da amiga, Duo foi incapaz de dizer qualquer outra coisa para contestar-lhe o pensamento. Queria que Mini fosse feliz... queria que ela pudesse encontrar suas histórias e fazê-las virarem realidade. Mas tinha medo que algo lhe acontecesse naquele lugar. Teria que conversar com Solo e J.L. sobre aquilo e descobrir o que os amigos pensavam daquela situação.

- Duo, seu cabelo ta uma zona. Me espera aqui que eu vou chamar a irmã Helen e pegar uma escova pra pentear essa bagunça. – Ela declarou, saindo do quarto rapidamente com um grande sorriso no rosto e deixando o garoto sozinho com seus pensamentos.

Olhando ao redor, Duo estava surpreso com a limpeza e organização do lugar. As paredes do quarto eram pintadas de um azul claro, da cor do céu, dando um aspecto alegre ao local. Caminhou até a cama vazia, a última do quarto, observando que a do lado – supostamente pertencente a Solo – estava arrumada com lençóis brancos, assim como todas as outras quatro. Sentando-se, acabou por se perguntar se tudo aquilo era real, se não era algum sonho causado por sua doença.

Mas logo seus pensamentos foram interrompidos pela entrada de Mini, seguida por uma mulher vestida de preto, que usava um estranho pano da mesma cor na cabeça cobrindo-lhe os cabelos e que carregava uma enorme sacola. A face bondosa da mulher o relaxou um pouco, assim como o sorriso doce que ela lhe ofereceu. E Duo julgou que essa fosse a tal irmã Helen que seus amigos haviam falado.

- Olá, Duo. Como você já deve saber, eu sou a irmã Helen. Fico feliz em ver que está bem... seus amigos estavam muito preocupados com você. – Ela disse, aproximando-se do garoto e depositando a sacola ao seu lado. – Aqui estão suas coisas; suas roupas, os lençóis para sua cama, toalhas, meias e roupas de baixo. Seus sapatos virão assim que eu puder medir o seu pé e se o uniforme ficar largo ou apertado, me avise que eu mandarei consertar.

Duo olhou para a mulher, sem saber o que dizer. Nunca havia ganhado nada em sua vida e, de uma hora para outra, tinha uma casa, uma cama, comida e pertences. Sentia-se sobrecarregado por tudo aquilo, ainda não conseguindo aceitar totalmente aquela situação.

- Eu... – Balbuciou, sem saber realmente o que pretendia dizer.

- Eu entendo, querido. – A freira declarou, abaixando-se e tomando-o num abraço afetuoso. – Não se preocupe, você e seus amigos estão em boas mãos. Nós vamos cuidar de você.

- Por quê? – Duo sussurrou, retribuindo o abraço automaticamente; era tão raro aquele gesto que o garoto perguntou-se se, alguma vez em sua vida, algum adulto o abraçara.

- Porque você merece ser criança, querido. Não é porque você não tem uma família que não mereça ser feliz. Deus não te abandonou, Duo.

Apertando a mulher ainda mais em seu abraço, Duo lutou contra as lágrimas que ameaçavam tomar seus olhos. Será que, pela primeira vez desde que se lembrava, poderia finalmente relaxar e aproveitar sua vida, sem se preocupar em qual seria sua próxima refeição e em defender os menores? Queria acreditar que sim, que tudo ficaria bem e que a irmã Helen cuidaria de si e dos outros e quase teve essa certeza quando ela o soltou, olhando-o nos olhos e acariciando seu rosto.

- Vai ficar tudo bem, Duo.

- Eu espero que sim... – Disse, oferecendo um largo sorrido para a freira.

- Que tal então eu te ensinar a fazer a sua cama para a Mini poder pentear seus cabelos? Há dias ela está falando dos seus cabelos e de como ela gostaria de penteá-los e trançá-los agora que ela tinha uma escova. – Irmã Helen disse, olhando afetuosamente para a menina sentada ao lado de Duo.

Mini levantou-se da cama, ajudando a freira a ensinar o menino a arrumar os lençóis sobre o colchão, alegremente. Depois que Duo havia arrumado suas roupas na parte do armário que o pertencia e deixado que a irmã Helen medisse seus pés, a menina se sentou atrás ele na cama, extremamente empolgada, passando a escova por seus longos cabelos castanhos suavemente para não machucá-lo. Os fios estavam extremamente embolados por terem sido lavados e não penteados, depois de tanto tempo na cama do hospital. Tirando o fato de que Mini não sabia qual havia sido a última vez que o amigo os havia penteado de verdade. O que mais a animava em pentear os cabelos de Duo era que ele seria o único a deixá-la fazer isso, já que os cabelos de Branca não eram longos o suficiente e não conhecia as outras garotas para se aproximar com o pedido. Além do fato de que Duo, para si, era como um irmão mais velho, um cavaleiro que estava sempre disposto a fazer-lhe as vontades. Mas nunca contaria ao amigo que quem via como seu príncipe era J.L.; não queria que Duo ficasse com ciúmes por seu favoritismo.

- Nossa Duo! Parece que um rato fez um ninho no seu cabelo! – Exclamou, atônita pela dificuldade que encontrava em desembaraçar os fios. – Quando eu terminar aqui, você vai se sentir mais leve.

O garoto riu, acompanhado pela irmã Helen, que assistia a perseverança de Mini com um olhar divertido.

- A escova é sua, faça sua mágica, princesinha. – Duo disse num tom carinhoso, fazendo-a sorrir e dando-lhe ainda mais empolgação para pentear seus cabelos. – Só num arranca minha cabeça fora!

- Eu vou preparar algo para vocês comerem enquanto isso. – Irmã Helen falou, ganhando olhares gratos de ambas as crianças. – Eu já volto.

Saindo do quarto, a freira se encaminhou para a cozinha, a fim de fazer alguns sanduíches para Mini e Duo, mantendo a dieta do garoto dada pelo padre Maxwell em mente. Estava extremamente feliz com a entrada das novas crianças. Tão animadas e cheias de vida, sempre querendo aprender coisas novas e compartilhando-as com os amigos. Estava feliz também pela chegada do garoto novo antes do grupo; por algum motivo, ele lhe passava uma paz interior, um sentimento de pureza e contentamento que Helen sentia-se extremamente mal pela tragédia que lhe tomara a família. Não haviam conseguido encontrar qualquer parente, portanto o menino fora enviado para os cuidados do orfanato. Era quase intoxicante permanecer ao seu lado, fazia com que todos se sentissem impuros e indignos de sua companhia. Mas Helen sabia que ele estava disposto a fazer amigos, já tendo se enturmado com o novo grupo.

Quando voltou ao quarto, os pensamentos ainda presos nas novas crianças, ficou admirada ao ver que Mini realmente conseguira desembaraçar o cabelo de Duo, prendendo-o numa trança bem feita e firme. Sorriu para a menina, parabenizando-a, mas notando que Duo massageava o couro cabeludo com uma expressão feia.

- Eu falei pra num arrancar a cabeça, Mini. – Ele grunhiu, ganhando um olhar inocente da menina e suspirando, incapaz de permanecer zangado com ela. – Tenta ser delicada da próxima, ok?

- Não foi culpa minha, Duo. A escova ficou presa no seu cabelo e eu tinha que tirar! – Ela se explicou, segurando as mãos do amigo e o olhando nos olhos com um olhar penalizado. – Me desculpa? Juro que da próxima eu vou fazer direitinho.

- Claro que sim, princesinha. Agora vamos comer que eu estou com fome!

Assentindo, Mini e Duo agradeceram à irmã Helen, consumindo os sanduíches numa velocidade que fez a freira arfar e lhes pedir para comerem devagar. Teve que lhes explicar que a comida não fugiria e que não precisariam se preocupar; sempre que estivessem com fome seriam alimentados. O olhar de esperança que viu nos olhos de Duo fez com que seu coração derretesse, vendo toda a dificuldade e o sofrimento pelo qual aquele menino havia passado. Se Deus quisesse, ele seria muito feliz naquele orfanato, pois infelizmente, aquela seria sua única casa.

-

Mini e a irmã Helen levaram Duo ao refeitório algumas horas depois, enquanto o garoto se empolgava com a perspectiva de comer o quanto quisesse, sem se preocupar se as outras crianças estariam alimentadas também. Havia sido informado que os outros amigos de sua gangue já se encontravam no lugar, acompanhados pelo misterioso menino novo, que fora adotado imediatamente pelos outros sem qualquer receio. Perguntava-se como ele seria e porque inspirara confiança em Solo e J.L. de forma tão instantânea. Ou ele era pequeno demais para se defender, gerando assim instintos protetores nos outros membros do grupo, ou era realmente bom em alguma coisa, de forma a completar as habilidades da gangue.

Mas, pelo que parecia, naquele lugar não mais precisariam ter uma gangue. Estavam, supostamente, protegidos, a comida parecia ser abundante, logo não precisariam roubar para se alimentarem. Mas ainda assim, aquela concepção de grupo era difícil de ser retirada de sua cabeça, ainda mais depois de tanto tempo vivendo daquela forma. Esperava que, se tudo realmente desse certo no orfanato, pudesse viver como uma criança normal, da forma com que a irmã Helen havia dito que ele merecia.

Aspirou o ar profundamente, sentindo o cheiro de comida invadir-lhe as narinas e olhando para Mini com um grande sorriso no rosto. A menina segurou sua mão com força, passando pela porta do refeitório e o guiando até uma mesa já ocupada. Os olhos de Duo correram por Solo, J.L. e Branca, sorrindo para os amigos e os cumprimentando da forma que haviam inventado, ganhando um olhar admirado de um garotinho loiro que também ocupava a mesa. Observou-o, piscando diversas vezes em sua confusão. Então era aquele o novo amigo dos outros? Mini estava certa, ele realmente parecia um anjo e a sensação de paz e bondade que ele transmitia fez com que as perguntas de Duo sobre a confiança dos amigos no misterioso garoto fossem respondidas; o tal loirinho era simplesmente bom demais para causar qualquer mal a alguém. Sabia disso, pois ao viver tanto tempo na rua, aprendera a julgar o caráter das pessoas de forma rápida, para saber em quem confiar ou não e nunca, em toda sua vida, havia errado em sua presunção.

- Duo, esse é o Quatre, o menino que eu te falei. Q, esse é o Duo. – Mini os apresentou, animada pela expressão do antigo amigo. Ele parecia já ter gostado de Quatre ou, pelo menos, havia sentido o que todos eles sentiram ao vê-lo.

- Oi Quatre, bem vindo ao clube! – O garoto de longos cabelos castanhos declarou, erguendo a mão e apertando a do loiro.

- Olá, Duo. Seus amigos falaram muito de você. – Quatre disse, sorrindo largamente por ter sido aceito pelo último membro.

- Mini também falou bastante de você.

Sentando-se ao lado dos amigos, Duo pôs-se a tentar conhecer Quatre melhor, fazendo diversas perguntas e julgando sua expressão ao responder cada uma delas. Sem que percebesse, viu-se conquistado por aquele anjinho de cabelos loiros e olhos esverdeados, que era tão bondoso e atencioso e que parecia verdadeiramente feliz em estar começando a ser seu amigo.

Porém, durante uma parte da conversa, Duo sentiu um peso em seu ombro, como se alguém houvesse pousado a mão ali, e virou-se para trás esperando se deparar com a irmã Helen ou até o padre Maxwell. O que o surpreendeu foi que não havia ninguém atrás de si e a sensação não havia diminuído. Franzindo o cenho, levou a mão para esfregar o local, estranhando o fato de que seu ombro parecia emanar um estranho calor. Reparou que Quatre havia ficado em silêncio, olhando fixamente para algum ponto atrás de Duo com uma expressão esquisita. As outras crianças pareciam não haver notado, pois continuavam conversando animadamente, contando sobre seus dias e sobre as coisas que haviam aprendido.

- Cuidado, Duo... – Uma voz feminina delicada sussurrou em seu ouvido num sopro, que poderia ser confundido com o vento se não tivesse certeza de ter ouvido aquelas palavras. Duo quase pulou da cadeira em susto, olhando com os olhos arregalados para Quatre, que agora tinha o cenho franzido, ainda olhando na mesma direção.

E, tão rápido quanto aconteceu, o peso em seu ombro sumiu assim como a sensação de calor. E a expressão do loiro se abriu, após um suspiro quase imperceptível, mas notado por Duo. Se não tivesse a certeza de que o novo garoto havia visto algo atrás de si, Duo pensaria que aquilo fora um delírio causado por sua doença, mas Quatre agora o olhava com um olhar sério, que logo se dissolveu em sua costumeira delicadeza, enquanto um sorriso bondoso tomava-lhe os lábios.

- E então, Duo? Como foi o seu dia? – O loiro perguntou, como se nada tivesse acontecido, deixando o menino de trança ainda mais confuso.

Contando o que havia acontecido consigo desde que deixara o hospital, Duo não pode deixar de pensar sobre as palavras que haviam sido sussurradas em seu ouvido e na expressão do novo amigo. Tinha a impressão de que algo muito errado havia acontecido naquele refeitório, mas não sabia precisar exatamente o que, nem muito menos descobrir porque aquela mulher o havia mandado tomar cuidado. Mas sabia, sem sobra de dúvidas, que Quatre não era uma pessoa normal. Só não sabia porque tinha aquela certeza estranha e, talvez, até absurda, mas nunca se recusava a ouvir sua intuição. Aprendera desde cedo que esta era a única que não lhe falharia e que sempre estaria ao seu favor.