II.
O trajeto foi feito em silêncio. Olivia no banco de trás com o menino, Lincoln concentrado no tráfego. No apartamento, quase não se falaram, apenas o essencial. A tensão explodiu na hora de dormir, pois ele pegou alguma roupa de cama e trouxe para a sala. Ela não dizia nada, só observava passivamente e isso –ele bem sabia- não era parte de sua natureza.
Lincoln Lee estava forrando o sofá da sala com um lençol. Não conseguia olhá-la direito. Sabia que alguma coisa havia acontecido e a falta de confiança da parte dela magoava mais do que a verdade, por mais dura que fosse. O objetivo era dormir por ali mesmo. Notou que Olivia não insistira em momento algum para que ele voltasse para a cama de casal do quarto. Não que ele estivesse pensando em sexo, mas era mais cômodo para atender o bebê durante a noite. Subitamente, fez a pergunta que estava atravessada em sua garganta havia horas:
-O que ela viu, Olivia? Não minta.
Lincoln Lee estava chateado. Mas falava em voz baixa para não acordar o bebê. Era um tipo raro de homem que tinha consideração pelas pessoas.
-Não sei do que está falando, Linc.-a voz dela era tão suave, que ele imediatamente descobriu que ela não estava dizendo a verdade.
Definitivamente, estava perdendo a paciência. A voz continuava baixa, mas era possível sentir uma ponta de decepção na maneira que ele se expressava.
-Acha que eu sou algum idiota? Ela entrou bem no laboratório, quando saiu do escritório estava daquele jeito. Pensa que eu não vi a cara de vocês dois? O Bishop é transparente. Que tipo de sacanagem vocês aprontaram? Fale logo...
Ela se obstinava em ficar calada. Ela temia contara verdade e deixá-lo ainda mais aborrecido. Vivia uma confusão de sentimentos, desde que viera para esse universo. Gostava muito de Lincoln. Não queria perdê-lo. Ele era perfeito com ela e com o menino, mas assim que reencontrara Peter vivendo com a outra Olivia, sentira uma contrariedade. Era como uma pedrinha em seu sapato. Sentia ciúmes porque também amava Peter, e além de tudo ele era o pai de seu filho. Não era possível ser indiferente a ele assim, de uma hora para outra. Estaria sendo falsa se afirmasse uma indiferença que não sentia.
Voltou para o quarto. O menino dormia. A Olivia deste universo era estranha. Será que estava fingindo, para captar as atenções? Segundo ouvira dizer, sofrera provações terríveis. Ela era fechada, tinha poucos amigos, não se dava facilmente. Descobrira tudo isso na época em que se infiltrara em seu lugar. E ainda assim Peter era apaixonado por ela. Sim, não era possível se enganar. Ele era nômade e se deixara ficar onde ela estava, para ficar com ela, é claro. Quando ele descobrira a verdade de sua origem e abandonara esse universo, ela o trouxera de volta, apenas pela palavra, pois na ocasião eles não eram amantes. Hoje, no laboratório, ele saíra feito um doido atrás dela, com medo de perdê-la.
Lincoln Lee sentia pena de Olivia Dunham. Não da sua Olivia, mas da Olivia de Peter. Sentia que Peter não estava sendo verdadeiro com ela. Era uma moça estranha. Falava o essencial, quase não ria, parecia sempre preocupada. O rosto só acendia quando ela olhava para Peter Bishop. Ou para o bebê. Ele notara que ela gostava da criança; não se aproximava mais por uma questão de cerimônia. Aquilo devia doer muito por dentro, mas ela nunca deixava transparecer. Cedera seu apartamento para eles ficarem; negociara um acordo com o FBI para que Olivia pudesse ficar em liberdade e criar o filho. Sempre reservada, mas sempre gentil. Não demonstrava ressentimento ou ciúme. Lincoln sentia um pouco de vergonha. Olivia, a suaOlivia era fascinante, cheia de vida. Agia por impulso, só depois refletia e muitas vezes o mal já estava feito. Ouviu seus passos, ela entrara na sala.
-Linc?
-O que houve, Olivia?
Ele ouvia sua respiração.
-Venha deitar na cama, por favor.
Lincoln não se moveu. Ela se aproximou, sentou no canto do sofá, perto de seus pés. Tocou-os devagarinho. Olivia tinha mãos deliciosas.
-Por favor...- ela chegou mais perto.
Ele sentiu os cabelos roçarem seu rosto, ele a atraiu para si. Ficaram abraçados, ela com a cabeça apoiada em seu peito.
-Vamos... antes que o bebê chore.
Olivia ficou de pé, estendeu-lhe a mão. Ele aceitou, sem relutar.
