Após o jantar, quando se dirigia para a torre, sentiu alguém tocar-lhe no braço. Hermione forçou um sorriso e olhou. Era Harry.

Com os seus olhos brilhantes e um sorriso radioso, Harry era agora uma pessoa feliz e despreocupada. Apesar de após a guerra ter sofrido com a culpa da morte de tanta gente, e especialmente com as de Lupin, Fred e Tonks, com o amor de todos os Wealeys (em especial de Giny), toda essa culpa fora ultrapassada e Harry vivia agora os dias felizes e calmos com que sempre tinha sonhado.

- Olá Hermione.- disse, abraçando-a com força- Então, como estás? Porque é que nunca me respondeste às cartas? Fui a tua casa várias vezes, disseram-me que te tinhas mudado. – Disse, com um ar preocupado.

Hermione fez um olhar culpado. – Desculpa Harry. Hesitou um – disse. Após uma breve hesitação, respondeu –Não quis que tomasses o meu lado….Depois de tudo o que os Weasleys fizeram por ti, depois de todo o amor que te deram, o que pensariam se te unisses a mim? O que pensaria a Ginny? O que pensaria o…Desculpa, finalmente tens o amor de uma família, não poderia pedir que pusesses isso em risco por mim. – disse, com as lágrimas a chegarem lhe aos olhos.

- Hermione – disse Harry, agora com um ar sério- És e sempre serás minha amiga. És a minha irmã, e por isso és minha família também. Nunca devias ter fugido de mim. O que aconteceu entre vocês foi chato, mas tu provavelmente tiveste as tuas razões e nunca te vou questionar. E a Ginny pensa exactamente o mesmo.

Hermione fubou de fúria – Com que então também não acreditas em mim? Mesmo após este tempo todo? Mesmo depois de tudo o que passámos juntos, achas que seria capaz de algo assim?

- Eu vi Hermione… eu estava com o Ron, lembraste? – disse Harry, abatido.

- Se sou mesmo tua amiga devias conhecer-me. Afinal parece que fiz bem em afastar-me.

Dito isto, afastou a correr, tentando conter as lágrimas. Harry ficou de boca aberta, sem saber como reagir. Entretanto, Hermione já tinha desaparecido.

Algum tempo depois….

Ron estava deitado na sua cama, tentando adormecer. Nesse instante, Harry abriu a porta do dormitório e entrou.

- Hey, estás a dormir? – Perguntou, enquanto se dirigia para a sua cama.

- Não.. E tu, onde estiveste até agora?

- Estive um pouco com a tua irmã – Ron bufou baixinho ao ouvir isso – e antes disso estive com a Her..

- Não me interessa com quem estiveste. A vida é tua não é? Até amanhã! – Dito isto, Ron fechou com um estrondo as cortinas da sua cama, deixando Harry a pensar seriamente o que andava a fazer de errado nesse dia, para todas as suas conversas terminarem mal.

De madrugada

Horas passaram desde a conversa com Harry e Ron não conseguia dormir. A sua cabeça parecia que ia rebentar com tantos pensamentos, mas o seu coração certamente rebentaria antes com dor.

Vê-la na sua frente no Salão doera-lhe mais do que ele algum dia admitiria. Como era possível poder amar tanto alguém que o magoara tão profundamente? Tinham passado tantos meses, e ao olhar para ela percebera que o seu sentimento e a sua mágoa não tinham diminuído nem um pouco. Era como se tivesse revivido tudo num segundo. Todo o amor no curto espaço de tempo em que fora feliz pensando que ela o amara, e a dor desumana que sentira quando a perdera.

Foi como se o tempo tivesse parado quando os seus olhos encontraram os dela. Merlin, como ele quis esquecer tudo e abraçá-la para nunca mais a largar… Como quis beijá-la e dizer-lhe que a amava e só isso importava….Mas não podia, não depois do que acontecera. Por mais que a amasse, teria que viver sem ela, que tentar por tudo ser feliz sem ela. Mas como poderia se ela era a sua felicidade e a sua vida?

Ron levou a mão ao rosto limpando a lágrima solitária que corria. Como pudera tudo correr tão mal com eles? Depois de tantos anos desencontrados, finalmente após a guerra parecia que tido ia correr bem e iam finalmente ficar juntos para sempre, como sempre sonhara. E depois, em segundos, tudo se desmoronara.

E ela, como estaria? Como teria vivido estes meses? Será que se tinha arrependido? Será que tinha pensado nele? Não gostara da aparência dela. Estava visivelmente mais magra e muito pálida, com olheiras profundas. Quase que parecia que tinha sofrido tanto como ele. Seria possível?

Ron abanou a cabeça com força. Estava estupido? Porque se estava ele a preocupar e a pensar nela? Depois do que ela tinha não merecia um olhar dele, muito menos a sua preocupação. Virou-se na cama, e por fim, conseguiu adormecer, já o sol brilhava lá fora.

Entretanto…

Hermione tinha entrado na torre e dirigido-se ao dormitório como um furacão, ignorando Ginny que a chamava. Entrara no quanto e tinha-se atirando-se para cima da cama, tendo apenas a presença de espírito de fechar as cortinas e lançar um feitiço silenciador. Depois não aguentara mais, e tinha chorado dolorosamente durante horas. Ficara até admirada, por ao fim de tantos meses de lágrimas, ainda lhe restarem tantas.

Por fim, acalmou, e perdeu-se nos seus pensamentos. Como era possível que o seu melhor amigo, o seu irmão, a tivesse abandonado? Até ele duvidava dela. No fim todos a tinham abandonado, e ela estava sozinha. Sem ninguém no mundo.

Levou a mão ao pescoço e tocou na sua tatuagem. Uma rosa dourada. Sim, pensou, sorrindo levemente para si própria. Não estava totalmente sozinha. Agora, aquela rosa e o que ela simbolizava era tudo o que lhe restava.

Sim, ainda tinha uma réstia de luz ao fundo do túnel, algo para fazer com a sua vida quando aquele ano terminasse. E aí, nunca mais teria que suportar o olhar e a desconfiança de todos os que outrora tinha pensado serem seus amigos.

No fundo, até era melhor assim. Se o Harry, Ginny e todos os outros ficassem junto dela, seria extremamente doloroso para todos abandoná-los para sempre, para seguir o seu destino.

Assim, ninguém ali sentiria a sua falta, e dentro de alguns anos, nem seria mais lembrada. Era melhor assim. Ela ia aguentar, ia conseguir terminar a escola, e depois, longe dali, tudo seria mais fácil. Esperava ela.