Nota da Autora: "Scars From Long Ago (Tooi Hi no Kizuato)" é parte integrante do soundtrack do anime 'Suzuka'. E, apesar disto, a música que é posta ao longo do texto não é esta, e sim, "Shinjitsu no Uta", do anime Inuyasha.
Disclaimers: "Saint Seiya" não pertence à mim, porque se me pertencesse, eu certamente não estaria aqui, e sim, estaria indo receber meu Prêmio Nobel. De qualquer forma, ele pertence à Masami Kurumada, (in)felizmente, e aos devidos licenciados, onde, (in)felizmente novamente, não estou incluída.
Scars
From Long Ago
Petit
Ange
Parte I.
Inglaterra - Abril de 1957.
-"Fräulein [1 Pandora!"
A garota estancou ao ouvir aquela voz conhecida. Não era da governanta, pois certamente, se fosse, seria bem mais grossa e rígida. Mas era de alguém conhecida, uma das empregadas da casa. Talvez tivesse atrasado-se um pouco e eles já soubessem que havia escapado.
Para completar a situação bizarra, aquele vestido molhado, assim como os cabelos e o resto do corpo também não iriam ajudar muito a bolar um álibi convincente. Estava à mercê dos pensamentos da senhora Helen.
-"Ah... Helen! É você...! Não me assuste assim...!" - pôs a mão sobre o peito, num gesto de susto fingido. De certa forma, havia assustado-se, mas era sempre bom exagerar nestas horas cruciais.
-"Perdoe-me, fräulein, mas a senhora Morgana está a sua procura!"
Morgana, a terrível governanta e a mulher que praticamente criou-a a vida toda. A menção daquele nome gelou cada célula do corpo de Pandora. Helen não parava de olhar para as roupas molhadas da garota, e seu rosto claramente demonstrava uma interrogação engolida, algo que ela queria perguntar, mas não sabia como ou não tinha coragem.
-"Eu sei que quer saber onde eu estive... Mas preciso que me ajude, Helen... Não quero que a senhora Morgana acabe comigo..." - confessou a garota.
-"F-fräulein Pandora...?" - Helen sempre foi uma empregada fiel. E aquela era a questão. Era uma empregada. Podia ser demitida a qualquer hora, se a velha Morgana descobrisse que acobertou a senhorita Pandora em alguma de suas travessuras. Por isso, aquele tom de voz que a filha dos Heinstein usou, somada as suas palavras, foram tudo o que a pobre empregada precisava para começar a tremer.
-"Só diga, se ela perguntar se voltei, que achou-me no banho quando foi levar as roupas para meu quarto, certo...? Sei que é uma desculpa rápida, mas creio que funcionará." - as mãos molhadas de Pandora seguraram a trêmula da pobre empregada. -"Eu realmente ficarei eternamente grata se ajudar-me..."
-"M-mas... Onde a fräulein estava?" - o medo chegou a dar-lhe coragem de fazer a questão matadora do momento.
-"Digamos que eu dei uma escapada rápida. Mas... Esqueci totalmente do jantar de negócios do meu pai, e que eu deveria estar cedo em casa... De qualquer forma, voltei, e só preciso que repita a desculpa que dei." - enquanto repassava as ordens, a garota subia apressadamente as escadas. -"Muito obrigada, Helen! Você é a melhor!"
A velha empregada tinha experiência com crianças e com chantagens. Mas quando estas duas coisas juntavam-se, formava-se 'Pandora'. "Obrigada, Helen, você é a melhor" era a pior frase que ela podia receber, porque invariavelmente, hora ou outra, iria fazer o que a fräulein pedisse.
A jovem correu o mais depressa que conseguiu as escadas e, sem maiores preocupações, chegou ao quarto, fechando a porta. O cheiro de mulher e perfume caro impregnavam o ambiente. Cheiro de limpeza. Já haviam limpado este cômodo. Aliás, tirando o da mãe, era o mais enfeitado da casa. Cor-de-rosa, roxo, caixas e mais caixas de sapatos, vestidos, chapéus... Mais assemelhava-se à uma casa de bonecas.
Aquilo exauria-a. Aquele luxo, aqueles brilhantes, os vestidos... Para algumas pessoas, isso seria ridículo. O dinheiro compra tudo e deixa eternamente a felicidade. Mas só quem era prisioneiro numa gaiola de ouro podia entender o quanto a 'nobreza' também era tão complicada quanto a 'miséria'.
-"De que adianta descobrir isso agora...?" - perguntou-se, atirando-se na cama enfeitada de laçarotes rosas.
Ah, não podia ficar de bobeira naquele momento. Morgana ia passar ali daqui a pouco. Precisava contribuir na mentira e ir imediatamente banhar-se. Inventaria durante o mesmo uma desculpa para o vestido molhado e o rastro de água pela casa. Que Helen ou alguém limpasse aquilo antes da mãe ou do pai verem.
? … … ?
Sair de um bom banho quente com um whisky esperando em cima da mesa. Este era o nome do Paraíso. Se a inspiração não aparecesse depois disto, ele iria socá-la quando viesse. Até a chuva não era-lhe mais um incômodo como antes. Tomar chuva enquanto falava com uma estranha, voltar para casa encharcado e entrar na água quente e em seguida lembrar que havia whisky na mesa... O que mais ele podia querer?
Estava quase na hora do jantar, agora lembrava-se. Vestiu o robe de banho e saiu, vendo-se sozinho em seu quarto. Tinha a aparência típica de um quarto masculino. E, assim como o resto da casa, tudo era ordenado e silencioso. Bem que disseram-lhe que sua cara lembrava a de um homem com obsessão por limpeza. Não que Rhadamantys fosse obcecado, mas manter a ordem era sempre bom.
-"Ah... Que falta faz um charuto agora." - resmungou para si, secando os revoltos cabelos loiros na toalha azul que, em seguida, deixou de volta no lugar.
Saindo do quarto, seus passos foram retos e rápidos até o escritório. Lá, o ar estava mais gelado do que no quarto, mas não foi uma fonte de problemas. O whisky descansando na mesa apagava todo o frio e o desgosto por qualquer outro detalhe sórdido. Bendito seja aquele que inventou a bebida alcóolica.
Wyvern sentou-se em sua cadeira, companheira de muitos anos, e imaginou-se dando uma longa tragada. Ficou encarando a máquina de escrever, como se ela possuísse olhos e também o encarasse. O que escrever? O pior era que agora, contrariando todas suas expectativas, o som da chuva voltava a incomodá-lo. Ao mesmo tempo, porém, invariavelmente fazia-o lembrar da fã não-tão-misteriosa do parque.
Começar a escrever... Precisava começar a escrever.
A garota confundia-se com as palavras. A inspiração confundia-se com os pensamentos. O sorriso tímido. "Senhor Wyvern, o escritor". A inspiração... Ela estava ali. As rosas vermelhas. A chuva. "Senhor".
Era uma vez, um canteiro de rosas. (...)
Sou
yatte hitori kizutsuitari
(Assim,
mesmo que eu me machuque)
Mawari
o nakushita to shite mo
(Mesmo
que eu perca tudo ao meu redor)
Shinjitsu
no uta wa kono mune ni nagare
(Esta
canção da verdade me guiará)
? … … ?
Inglaterra - Junho de 1957.
Às duras penas no início, a obra começou a desenvolver-se. E quando a chuva passou, ela andou ainda mais rápido. Tal qual o sol que é descoberto das nuvens, aquela obra era uma relíquia em meio à todo o resto. Definitivamente, o melhor romance de sua carreira, isso ele podia dizer. E agora, era o dia dos autógrafos, e mais tarde, um jantar onde, provavelmente, falariam de sua obra, que a compraram, que estão achando-a uma preciosidade... Aqueles elogios previsíveis.
'A Daily Instance' foi um sucesso no momento em que saiu das mãos de Rhadamantys e foi parar nas do editor. Ele vibrou e disse que aquilo alavancaria sua carreira à níveis estratosféricos. Encheu a obra de elogios que ele sequer lembrava de todos agora, e enfim, a perspectiva de receber intenso dinheiro por aquela obra que só podia ter vindo do Céu foi o suficiente para animá-lo e quase beijar o escritor.
A tarde de autógrafos passou-se sem maiores emoções no início. Uma palavra gentil à uma, um sorriso à outra, suspiros, gritinhos... Tudo dentro dos conformes. O que ele não esperava era uma mão que segurava seu livro e que, estranhamente, não era-lhe estranha. A pele pálida...
Imediatamente, ergueu os olhos assustado, sentindo o frio da expectativa no estômago, e levou um soco no mesmo ao ver quem era a garota da vez.
-"Senhorita... Heinstein?" - não conseguiu evitar um sorriso. A presença repentina dela tirou-o daquela sensação de fazer tudo automaticamente.
-"Ah, você se lembra de mim... Que emoção!" - Pandora também permitiu-se sorrir, o que provavelmente, pelo clima íntimo, deve ter despertado a inveja das mais ardorosas fãs.
-"Também veio atrás de um autógrafo...?"
Rhadamantys sabia que a pergunta era extremamente óbvia. Mas sentiu-se um adolescente naquele instante. Não soube como agir, o que dizer... Se pegasse o livro dela agora e sua caneta, tranqüilamente veriam que ele tremia. Mas o seu trabalho era aquele, infelizmente. Precisava ser forte e superar aquele momento.
-"Sim. Sei que podia ter esperado ou até mandado outra pessoa no meu lugar, mas... Um livro tão bom merece um esforço de enfrentar uma fila."
-"Então, a senhorita gostou dele?"
-"Se gostei? Foi o melhor de todos! Aquela personagem é a sua melhor até hoje... O destino da pobre Eileen... Não imagina o quanto emocionei-me com ele. Você devia receber um prêmio, senhor Wyvern..." - suspirava Pandora, com um tom animado.
-"Ouvir elogios tão apaixonados me alegra muito." - sorriu.
É claro que, de alguma forma, os dela, especialmente, o animavam bem mais. Reconhecimento é sempre bom, mas a garota-não-mais-misteriosa Heinstein do parque elogiando-o era... Bem mais do que ele previa para a tarde.
-"Me alegra bem mais receber um autógrafo seu esta tarde." - ela dizia calmamente, enquanto tirava as luvas de camurça que usava. -" Do melhor autor no melhor livro."
-"Hum? Vou ficar mal-acostumado assim, senhorita."
-"Não seja tão modesto, senhor Wyvern..." - a garota riu, esquecendo-se temporariamente das estranhas e da situação.
Ao término do autógrafo, no qual Rhadamantys pôs todo seu esforço em manter a mão firme, ele fechou o livro e entregou-o mais uma vez à dona. Os olhos lavanda dela perscrutaram-no por um momento, e logo viraram-se na direção de uma voz feminina que parecia vir de longe.
-"Frä... Lady Pandora!"
-"Parece que tem de ir de novo, não é?" - ele riu, descansando a caneta na mesa. Só agora notou que, quando não era o sino, era uma serviçal e assim ia. Algo sempre, de repente, fazia a jovem ter que ir.
-"Perdoe-me, senhor Wyvern... Ah, e muito obrigada pelo autógrafo, irei guardar este livro com todo o carinho."
Aí estava seu segundo elogio mais importante. Uma fã especial guardando seu livro especial com carinho em sua casa. O escritor sentiu-se animado e até inspirado, depois daquilo, a continuar enfrentando aquela interminável fila de fãs, na maioria esmagadora, mulheres, por mais algumas horas, antes de poder ir embora.
Ele ainda podia ouvir, lá de longe, a voz de Pandora e da mulher que chamou-a, provavelmente, uma de suas acompanhantes.
-"Conseguiu, lady Pandora?"
-"Sim, veja! Não é lindo? Ele fez uma dedicatória completa para mim!"
-"A senhorita parece feliz."
-"É claro que estou. A mamãe vai morrer de inveja quando souber que eu pude ver o Rhadamantys Wyvern e pegar pessoalmente um autógrafo e ela não!" - ria.
-"Como a senhorita é cruel..."
Fechando os olhos e tentando, mais uma vez, concentrar-se em seu trabalho, ele estralou discretamente os dedos antes de abrir os olhos âmbares e encarar a garota trêmula e mais emocionada ainda da fila.
-"Você, senhorita... É a próxima." - sorriu.
? … … ?
-"Vire-se, fräulein."
-"De novo, Morgana? Quantos giros já dei?"
-"Preciso ver como ficou atrás agora."
-"Tudo bem..."
Pandora, pela enésima vez, virou-se de costas para que a velha senhora Morgana ajeitasse-lhe o vestido na parte de trás. Depois de devidamente arrumado, o que levou um bocado de tempo, a mulher passou a olhar para a garota a sua frente. Há alguns anos, ela era apenas um pedaço de gente que vivia correndo e fugindo do quarto para ir brincar lá fora (não que estivesse tão diferente assim), e por conta disso, vivia dando-lhe dores de cabeça, mas agora, sua fräulein era uma moça.
Aquele vestido só evidenciava isso. As curvas discretas e perfeitas da filha perfeita dos Heinstein eram ainda mais acentuadas pelo vestido numa coloração escura, em suas várias e várias camadas de organdi [2. Isto sem contar o cabelo preso, que evidenciava os ombros alvos e o pescoço macio, agora devidamente coberto com colares de ouro fino e, posteriormente, brincos e pulseiras por cima das luvas. Uma princesa de conto-de-fadas, era isso que Pandora parecia naquele momento.
Com os devidos 16 anos, era seu primeiro baile social, e ela tinha muitas expectativas acerca ele. Encarava-se no espelho maravilhada, lembrando-se dos tempos em que era pequena e via a mãe naqueles vestidos perfeitos, tendo até medo de tocá-la e temendo sujá-la.
-"Como eu estou, Morgana?"
-"Está perfeita, fräulein." - a velha governanta dava os últimos retoques enquanto elogiava a garota.
-"Estou nervosa..."
-"Não fique, irá tudo dar certo. Afinal de contas, você irá com seu pai e sua mãe, não esqueça disso."
'E o que isso me traz de bom?', foi o que pensou Pandora, mas decidiu guardar aquela conclusão só para si. Talvez Morgana soubesse a espessura daquela podridão que maculava os Heinstein, e mesmo assim, ainda quisesse encobrir, ou talvez era só mais uma inocente e não sabia de nada. Não importa, o que era importante naquele momento era que não podia pensar em coisas assim. Era seu primeiro baile, precisava estar animada para descer e encontrar os pais.
? … … ?
Tal qual previu o senhor Heinstein, sua filha foi uma das grandes atrações. Os rapazes presentes disputavam sua atenção, e a cada valsa e dança que tocava, iam imediatamente convidá-la a dançar. O homem bebia qualquer coisa que o ajudasse a engolir aquela situação, e sua esposa ria divertida do desespero silencioso dele.
-"Não devia ficar tão apreensivo, Alfred, nossa filha já é grandinha."
-"São esses abutres, Elise. Olhe para eles... Obviamente, estão atrás de nosso capital, ou simplesmente de nossa filha." - ele esbravejava discretamente, bebendo mais ainda do vinho fino.
-"Você é tão desconfiado, meu bem..."
-"Sou realista, Elise, realista."
Há algumas mesas de distância, uma discussão acalorada acontecia, mas sobre outros assuntos que não era uma jovenzinha sendo disputada por um bando de adolescentes, e sim, de obras literárias e grandes mestres da Filosofia. Sempre quando aquele grupo encontrava-se, as conversas acabavam, hora ou outra, parando naqueles tópicos. Atualmente, falavam do sucesso atual de seu companheiro.
-"Rhadamantys, meu caro... Muito assédio na rua depois disto, então?" - Aiacos, aparentemente o mais relaxado deles, perguntava.
-"Não exatamente. Até que tem sido bem tranqüilo."
-"É verdade que já está pensando em seu próximo projeto?" - o outro homem de cabelos brancos, Minos, perguntou, aproveitando para acabar com sua taça.
-"Não nego, é verdade."
-"Se ficar assim logo no início, vai cansar cedo de escrever."
-"Não acho que essa lógica seja aplicada à todas as pessoas, Aiacos." - Minos respondeu. A marca registrada daqueles dois era o fato de que um sempre corrigia o outro, em qualquer situação. Agiam como... 'Amigos do peito'. -"Nem todos são como... Alguém que eu conheço."
-"Isso foi uma indireta?"
-"Na verdade, até que foi bem direta." - Rhadamantys riu divertido, ajudando Minos a acabar com aquele vinho.
-"Só não discuto com você, Minos, porque estou olhando a primeira e, provavelmente, única coisa que vale a pena nesta festa..."
-"O quê?"
-"Aquela menina lá na pista de dança. Dá até vontade de pedir uma dança também, sabia?" - Aiacos apontou para a garota de cabelos presos num coque em seu vestido de camadas de organdi.
-"Qual? A menininha? Aiacos, você virou 'Humbert' [3 agora?"
-"Admita, você também gostou."
-"Não sou como você!"
-"E você, Rhadamantys? Também não achou a única coisa boa da festa, afora as bebidas... Aposto que quer pra você!"
O escritor, entretanto, estava em outro mundo que não era este. Uma vez reconhecida aquela garota, vista duas vezes antes daquela, ele sabia de quem se tratava. Mas uma vez viu-a molhada e bagunçada, a outra num vestido como uma adolescente da idade dela qualquer. Desta vez, ela vestia-se como uma princesa, como uma respeitável dama, e aquilo mostrou-lhe uma faceta dela que o homem não conhecia, e que, invariavelmente, atraiu-o.
Talvez ele tivesse problemas... Mas não, não era hora de pensar naquilo. Sua reação foi automática. Precisava, pelo menos, dar um 'olá' à sua não-tão-misteriosa-fã-senhorita-Heinstein. Tudo tão automático que ele sequer notou quando ergueu-se da cadeira e vidrou os olhos nela, seguindo sem titubear numa marcha cega até alcançar a pista de dança. Será que não tinha de falar com o pai dela primeiro?
-"Mas o que foi isso...?" - Minos perguntava-se, pasmo com aquela situação.
-"Parece que o 'Humbert' é ele, viu?"
-"Aiacos, meu caro, beba e mantenha essa sua boca fechada."
Quando deu-se por si, estava parado do lado da aglomeração de garotos. Pelo seu porte alto e adulto, logicamente pôde diferenciar-se deles, e foi prontamente reconhecido ao fim da dança pela menina.
-"Não acredito. Senhor Wyvern..."
-"Senhorita Heinstein." - fez uma mesura cavalheiresca e, imediatamente, tomou-lhe a mão num beijo.
-"Que coincidência! Nos encontramos duas vezes no mesmo dia."
-"Isso seria um sinal?"
-"Quem sabe, não é...?" - ela riu ao ouvir aquilo. Inesperadamente, o escritor sentiu-se até desarmado diante do sorriso cristalino dela.
Afora os muxoxos derrotados dos outros que não conseguiram lugar para dançar com a dama perfeita de conto-de-fadas, os dois continuaram conversando sobre tudo e sobre nada, despertando desconfiança em alguns, inveja em outros, e quando reconheciam algum deles, espanto. Uma suave melodia voltou a tocar e a embalar os comentários dos outros.
-"Eu tenho uma idéia."
-"Por favor, diga."
-"Concede-me a honra desta valsa, senhorita?" - estendeu sua mão para ela.
-"Não acredito que vou dançar com o escritor Rhadamantys... Mas é claro que sim, senhor Wyvern." - ela estendeu a sua para ele, e aproximou-se.
-"Me chame de 'Rhadamantys', como fez agora, senhorita. Essa coisa de 'senhor Wyvern' cansa uma hora... Todos me chamam assim." - ele riu.
-"Entendo. Para ser sincera, também canso-me com fräulein para cá e para lá." - Pandora acompanhou-o no riso. -"Mas é um segredo."
-"Ele estará seguro comigo."
Aquela situação era, no mínimo, estranha, para não dizer outras coisas. Ambos pareciam alheios à tudo ao seu redor, e riam como velhos conhecidos. O escritor chegou a cogitar em pesquisar se a chuva torrencial, além de propagar o som bem melhor, não causava esse efeito de 'empatia' nas pessoas.
-"Veja só, Elise. E agora é aquele homem." - o senhor Heinstein bufava. -"Os marmanjos da Inglaterra não têm vergonha?"
-"Mas, Alfred... Eu tenho a impressão de que conheço aquele rapaz..."
-"Não diga nada! Preciso de mais uma taça."
A valsa começou com um acorde delicado, que despertou a atenção dos dançantes. Rhadamantys permitiu-se sorrir, e com o gesto de permissão por parte da dama, enlaçou-a para dançar. Sensações diversas tomaram conta de ambos naquele instante.
Para o escritor, foi seu momento de sentir-se, mais uma vez, estranhamente subjugado pela presença da senhorita. Não que fosse um tarado. Longe disso, era até uma afronta pensar isso dele. Mas dançar tão perto dela era um pouco demais para sua impecável pose. E a senhorita Heinstein dançava divinamente... Sua 'admiração' cresceu mais, desde o início.
E para Pandora, foi também a hora de sentir-se surpreendida. Ao contrário dos jovens, que nervosamente valsavam, isso quando valsavam, o senhor Wyvern era um exímio dançarino, e conduzia-a suavemente pela pista, como se já tivessem dançado muitas outras vezes. Além de bom escritor, era uma boa pessoa e dançarino. Chegou a pensar que realmente acertara em conhecê-lo através de livros que pegava sem pedir de sua mãe no seu quarto.
Os violinos sobressaiam-se a todos os outros instrumentos, e aquilo, estranhamente, dava um ar demasiadamente clássico àquela música e, conseqüentemente, a dança tornava-se algo sério e até belo. E, mais uma vez, aqueles movimentos ritmados pareciam acabar com todo o resto do mundo.
-"Sabe hoje de tarde, Rhadamantys, quando fui pegar seu autógrafo?" - ela sussurrou a pergunta, como se não quisesse que ninguém mais ouvisse.
-"Claro, lembro-me como se fosse agora."
-"Eu estava comprando este vestido para ir à este baile, e... Vi uma enorme fila, e perguntei do que se tratava. Quando disseram que era autógrafos do seu novo livro, corri à uma livraria e vi o livro. Comprei-o e folhei-o só para ter uma noção, e então, voltei e me juntei àquelas pessoas... Sabia?"
Ele riu surpreso. Definitivamente, aquela menina era surpreendente.
-"Não, senhorita. Sequer imaginei tal coisa. Do jeito que falou-me, você parecia ter lido mais de uma vez aquele livro..." - confessou, um tanto surpreso.
-"Para alguma coisa as aulas de teatro serviram, não?"
-"Então, fez teatro?" - uma de suas teorias, ao menos, estava certa. Lembrou-se da vez em que ele formulou em seus pensamentos que aquela dama intocável era exímia na arte de esconder emoções com alguma encenação.
-"Sim. Fiz quando ainda estava na Alemanha."
-"Saíram de lá por causa da Segunda Guerra?"
-"Não recordo direito. Lembro-me de tremores de terra e sons ensurdecedores, mas não demorou muito e meu pai saiu do país... Ele dizia algo como 'não quero que minha família seja prejudicada'." - Pandora acompanhava os passos de Rhadamantys agora meio desajeitadamente, devido à confusão de lembrar daquilo e de outras coisas.
-"Seu pai, o senhor Heinstein, está definitivamente correto." - e o escritor, mais uma vez, sentiu-se feliz. Mais um de seus delírios estava correto. Ela presenciou a guerra alemã em algum ponto de sua vida.
'Meu pai é um covarde, ele não está correto', foi o que a garota pensou, mas assim como a maioria de seus pensamentos, guardou aquele para si também.
-"Sim, também acho. Mas isto já é passado... E o senhor? Morou sempre aqui?"
-"Na realidade, nasci nas Ilhas Faroe, na capital, Tórshavn [4. Porém, devido à algumas crises financeiras, meu pai perdeu tudo o que tinha, e assim, tive de vir morar com um conhecido dele aqui."
-"Que terrível...!" - ela exclamou, com aquele gesto que sempre fazia, de pôr a mão sobre os lábios.
-"Não tanto. Hoje estou bem." - ele sorriu cordialmente, notando que os acordes finais da valsa eram executados. 'Uma pena', pensou.
-"É tão bom saber que está melhor." - ela confessou, também devolvendo-lhe o sorriso. -"Afinal, quem não estaria bem de vida publicando romances tão esplêndidos?"
-"Já cheguei a dizer-lhe o quanto ficarei mal acostumado com estes elogios, senhorita Heinstein?"
-"Sim, senhor. Da mesma forma que respondi que devia parar com esta modéstia."
É mesmo... Agora que ela falara, ele realmente lembrou da mesma conversa e das mesmas frases há algum tempo. Na fila dos autógrafos, não foi? Bem, isto não era necessariamente o mais importante do momento, então ele simplesmente riu, e murmurou algo como 'diante de tal argumento, o posso dizer-lhe?', e reiniciou a dança silenciosa de antes.
Ao término da mesma, tanto Rhadamantys quanto Pandora sentiram uma espécie de vazio e, depois de algum tempo encarando-se, separaram-se. O britânico tomou-lhe outra vez a delicada mão e depositou nela um beijo.
-"Foram momentos maravilhosos esta valsa, senhorita Heinstein. Agradaram-me imensamente."
-"Eu digo o mesmo, senhor Wyvern. Muito obrigada." - ela fez uma mesura graciosa ao escritor, sorrindo.
-"Vou voltar à minha mesa, senhorita Heinstein." - entretanto, voltou a exibir aquela pose cavalheiresca, e ofereceu-lhe o braço. -"Mas, por favor, deixe-me acompanhá-la até a sua?"
-"Será um prazer, senhor Wyvern." - Pandora não soube dizer se realmente era ou não era, porque imaginava que o pai devia estar nervoso, mas decidiu refletir sobre estes obstáculos mais tarde.
Aceitando o gesto, ela deixa-se conduzir até a mesa que havia indicado ser a sua. Lá, um homem de rosto sério e uma mulher de face surpresa esperavam a filha. O escritor, por um momento, teve de discretamente engolir em seco. De alguma forma, aqueles olhos desconfiados o deixavam tenso. A garota notou aquele clima obviamente silencioso demais, e pigarreou.
-"Pai, mãe, quero apresentar-lhes o senhor Rhadamantys Wyvern."
A menção deste nome foi o suficiente para, milagrosamente, mudar a feição da senhora Heinstein de surpresa e curiosidade para espanto. O mesmo fenômeno, entretanto, não repetiu-se com o senhor Heinstein, que permaneceu com aquele rosto desconfiado, porém um pouco mais calmo ao saber-se diante de uma 'celebridade'.
-"Não acredito...!"
-"Senhora Heinstein, é um prazer imenso conhecê-la." - o mesmo ritual de beijar a mão da dama repetiu-se.
-"Senhor Wyvern, igualmente." - Alfred ergueu-se de seu lugar e apertou sua mão, sendo prontamente atendido no gesto por Rhadamantys.
-"Sua filha é encantadora, senhor Heinstein. Meus parabéns."
-"Obrigado. Gostaria de acompanhar-nos, senhor Wyvern?" - não que Alfred Heinstein quisesse que aquele escritor ou sabe-se lá o que fosse aceitasse e dissesse 'sim, eu adoraria'. Na verdade, este tipo de pergunta era uma convenção social antiga.
-"Não, agradeço a oferta, mas voltarei à minha mesa. Boa noite à vocês." - fez uma rápida mesura, e deixou-os a sós novamente, não esquecendo de um sorriso dedicado apenas à Pandora, que foi retribuído.
Ao verem-se sós na mesa outra vez, o alemão bufou de novo, pedindo mais uma garrafa de vinho.
-"Não acredito que quis dançar com ele..."
-"Mas, papa [5, Rha... O senhor Wyvern é uma pessoa tão gentil. E dança divinamente bem, devo dizer." - ela falou, e desta vez, voltando à seu velho habitat, seu tom era controlado e sereno.
-"Querido, é o escritor Wyvern...! Meu Deus, Pandora querida, de onde o conhece...?" - a senhora Elise Heinstein, entretanto, parecia bem animada.
-"Pedi um autógrafo do seu novo livro hoje a tarde, mutti." [6
-"Não...!" - a surpresa dela foi ainda maior. -"Que filha desnaturada! E nem avisou-me que ele havia saído...!"
-"Perdoe-me, eu realmente esqueci."
-"Não interessa se ele é um escritor ou qualquer outra coisa, ou se é o 'senhor Wyvern'. O que nós havíamos combinado, Pandora?" - Alfred não parecia contente com aquele comportamento da filha. A face não era tão severa por conta da ocasião social, mas se estivessem em casa, a garota certamente iria vê-lo irado.
-"Combinamos que 'eu só iria dirigir-me àqueles que o senhor escolhesse', papa."
-"E por que não obedeceu-me?"
-"Alfred, querido, não seja tão duro com ela... Pandora só quis..."
-"Pandora precisa aprender, Elise, que ela é nossa salvação. Não pode sair por aí querendo dançar com o salão inteiro! E se, por um acaso, ela acabe gostando de algum destes pés-rapados? O que faremos, Elise?"
-"Querida, não dê ouvidos à seu..."
-"Não, papa tem razão, mutti. Eu fui desobediente e descuidada." - apertou as delicadas mãos na saia do vestido, tentando com todas as forças continuar com sua pose serena de uma dama da alta sociedade. -"Por favor, papa, peço que realmente me perdoe... Não foi minha intenção prejudicá-lo..."
-"Irei dar-lhe uma chance, mas que isto não se repita."
-"Sim, senhor."
Longe dos segredos escusos daquela família, Rhadamantys voltou à sua mesa calmamente, ajeitando o smoking durante o trajeto, e era constantemente observado por Aiacos e Minos, que, munidos de seus drinks e alguns petiscos na mesa, ainda não acreditavam no que estavam presenciando.
-"Ora... Parece que eu ganhei os 500 pence [7, Minos."
-"Não achei que ele fosse tão longe..."
-"Rhadamantys!" - Aiacos fez um sinal para que o mesmo sentasse. Ao fazê-lo, entornou o resto do drink e voltou a olhá-lo. -"O que pensa que está fazendo?"
-"Dançando?"
-"Isso eu sei, oras. Mas você dançou com uma garota (muito bonitinha, por sinal) e foi apresentar-se na mesa dos pais dela."
-"E isso é errado?"
-"Na verdade, é até bem certo, uma norma básica das boas maneiras." - Minos ponderou, passando a mão pelos cabelos prateados. -"Mas o que estamos debatendo é esta ação repentina..."
-"Você nunca fez isso. Ainda mais com crianças."
-"Por que tudo o que faço vira objeto de perversões obscuras em sua mente, Aiacos, meu caro amigo?"
-"Por que isso foi estranho." - Minos completou.
-"Ora, deixem de besteiras. O que importa com quem converso ou deixo de conversar? Viraram minha mãe agora?" - ele esbravejou, desgostoso.
-"Foi ele quem iniciou, não eu." - apontou para Minos.
-"Como?" - ele devolveu, visivelmente também desgostoso. -"Por um acaso fui eu quem começou a apelidá-lo de 'Humbert'?"
Enquanto os dois 'amigos do peito' discutiam calorosamente, apesar da discrição característica, Wyvern teve tempo de sobra para pedir mais uma rodada de drinks à um garçom que passava por ali. Depois de devidamente atendido, o que não demorou tanto quanto ele previa, pigarreou para chamar-lhes a atenção.
-"Vocês dois, querem beber algo? A garganta deve estar seca de tanto discutirem."
O milenar método do desvio da atenção de uma coisa para outra usando a bebida sempre dava certo com algumas pessoas. Aiacos e Minos eram duas delas.
Continua...
[1 "Senhorita", em alemão.
[2 Organdi é um tecido leve e transparente, com um toque engomado. É originário do Urganje, região russa situada no antigo Turquistão.
[3 Referência à Humbert Humbert, um dos protagonistas do livro "Lolita" (1955).
[4 De fato, na ficha oficial de Rhadamantys é dito que ele nasceu no arquipélago Faroe, mas não é especificado onde, então tomei tal liberdade.
[5 "Papai", em alemão.
[6 "Mamãe", em alemão.
[7 Antes de 1971 e da adoção do sistema decimal, a libra esterlina valia 240 pences.
