Sua raiva havia se consumado. Ao final daquele dia, o primeiro nome da lista que aparecia era o dele, não o dela. Como sempre acatou a idéia de que o segundo lugar era o primeiro perdedor, voltara para casa completamente insatisfeita e revoltada. No entanto, para quem pudesse ter treinado horas e horas por dia, não aparentava cansaço na semana seguinte, no primeiro dia. Havia pensado bem e resolveu que não valia a pena se cansar tanto logo antes do primeiro dia de aula e treinos por conta de alguém que, com o tempo, sabia que superaria. Mas logo ao entrar, percebeu que havia de fato valido a pena ter treinado, mesmo um pouco mais. Lá estava ele, alongando os braços em um canto da enorme sala, como se já tivesse estado naquela mesma situação pelo menos uma centena de vezes. Entretanto, não se intimidou desta vez. Aproximou-se do professor, dando-lhe bom dia e começou a se alongar. Parecia que a situação começava a se equilibrar. De tempos em tempos, um observava o que o outro faria a seguir, mas infelizmente, ela sempre era pega de surpresa porque, de forma incrível e inusitada, ele sempre sabia quando ela o olhava. Mas aquilo não durou muito tempo, ao passo em que o professor começava a dar as ordens.

"Esqueça, Layla, hora de se concentrar apenas em si mesma. E sem erros, desta vez", pensava ela, ao receber as instruções do professor. Agia naturalmente e, como conseqüência, sem erros. O professor aplaudia os bons e censurava os maus alunos, separando os dois grupos para que não houvesse desvantagem. Ao final do primeiro tempo, todos já haviam aprendido um maior equilíbrio, para poderem ficar juntos. Layla sabia de antemão que as primeiras aulas selecionariam os alunos que poderiam subir logo ao palco e os que necessitavam de mais aulas complementares. E ela definitivamente não desejava aulas complementares.

- Muito bem, classe, agora vou dividi-los em duplas. Estão em níveis diferentes, mas como já percebi os fortes e fracos de cada um de vocês, separarei por este critério! Vamos, vamos, juntem-se vocês... E vocês dois...

O professor, em seu tom "afeminado" e extrovertido, juntava cada dupla da classe. Antes que ela pudesse perceber, Yuri estava parado ao seu lado, observando-a. Tomou um leve susto, arregalando brevemente os olhos e dando um pequeno passo para trás, para não ter que olhar para cima para fitá-lo. Outra regra de etiqueta, como sempre a seguia.

- Parece que estamos no mesmo nível.. - Comentou o garoto com certo tédio, estendendo a mão para ela - Acredito não ter me apresentado a ninguém ainda. Yuri Killian.

Observava-o por um momento em silêncio, como se tentasse entender como ele conseguia ser tão frio e tão gentil ao mesmo tempo. Como sua etiqueta também não a permitia deixá-lo falando sozinho por mais de três segundos, logo estendeu a mão e segurou a dele.

- Layla. Hamilton. - respondeu pausadamente, observando-o ainda da mesma forma por vago tempo e desviando o olhar em seguida. Por um momento, sentiu-se minimamente puxada por ele, vendo que ele havia virado as costas de sua mão para cima e a beijado, praticamente sem encostar os lábios na mesma. O olhar dela ficava ainda mais frio, apesar de esconder a hesitação, e forçava-se levemente a tirar a mão da dele, sem responder mais nada.

- Desculpe-me - dizia ele, ao se endireitar - pensei que era assim que cumprimentavam damas por aqui.

O tom frio era predominante, ultrapassava o tom gentil. Por mais simpático e, por que não, criança que fosse, a voz o deixava jovem e as atitudes, velho. Não sabia descrevê-lo em mente, mas algo a irritava nele, apesar de toda aquela gentileza. Por um segundo, parou para pensar se ele só era esquisito por natureza ou se havia sido criado assim, em outro país.

O clima incômodo era quebrado logo pelo professor, que pedia para que fizessem os passos aprendidos em sincronia. Não era necessário muito tempo para perceber que a sincronia de ambos era terrível. Os passos dela de Ballet eram delicados demais e os dele, rápidos demais. Irritando-se por ser pressionada a entrar em sincronia de 5 em 5 segundos pelo professor, acelerava os passos, mas não o suficiente. Quando pensou que ia conseguir, sua concentração foi quebrada por um sussurro de sua dupla, quase imperceptível.

- Não consegue me acompanhar...? - dizia, junto a um olhar que, na visão dele, era brincalhão, mas na visão dela, atendeu aquilo como um insulto. Pensou em simplesmente sair andando e em pegar o casaco, mas aquilo significaria 10 pontos a menos de confiança nas suas habilidades para o professor. Olhava dele para os outros alunos e ouvia o professor pedir para que ambos continuassem com os passos, ou se perderiam na música, no resto, "e não é admissível que se percam no palco!", exclamava ele.

- Pensei que estivéssemos no mesmo nível... - Ele continuava com as provocações. Parecia saber exatamente como fazer seu sangue subir. O próximo olhar que dera a ele foi de extrema raiva. Queria se vingar daquelas provocações e ultrapassá-lo, mais do que tudo. Voltava a fazer os passos com mais rapidez, sem tirar os olhos dos dele.

Os minutos seguintes lhes pareceram horas, de tanto cansaço que acumularam. Ela, por estar rápida e ele, por incrível que pareça, em acompanhá-la. Ela, por fim, havia ficado mais rápida que ele e, quando o fez, arrancou dele um olhar minimamente mais arregalado e surpreso, poucos segundos antes do professor pedir para que parassem. Ofegava ao parar, como se tivesse forçado além do normal. E de fato havia, já que aquela aula não passava de um Ballet rotineiro, onde ela deveria estar tão acostumada, mas que lhe causou desconforto. Havia, naquele momento, percebido o tamanho daquela sua fraqueza encontrada. Falta de sincronia não fica bem no palco, afinal, e qualquer um sabia disso. Precisava superá-la e este era o seu novo desafio. Fitava-o por mais alguns segundos de um modo mais indiferente naquele momento, como se ele não mais importasse para ela e, em seguida, soltava sua mão, virando-se de costas de forma um tanto determinada, mas mais apreensiva por ter descoberto aquele "defeito". Ele, por outro lado, passou a observá-la com uma cautela maior, como se também tivesse descoberto algo que, no futuro, pudesse ajudá-lo de alguma forma. Afinal, estava ali com apenas um objetivo. E era aquele objetivo que buscaria, mesmo que para isso, tivesse de se aproximar ainda mais de tão arrogante e convencida garota.


"Parece que terei de quebrar esse teu gelo... Layla Hamilton."

Nota da autora: O primeiro contato é tudo a se saber deste capítulo, hm? Os capítulos são pequenos, mas são densos, então o que não faltará é "gosto de quero mais". É um romance que segue a história do Kaleido Star. Portanto, se notarem algo errado com relação ao anime quando lerem, avisem-me e mudarei a história para que fique parecida. Afinal, por mais que eu saiba todos os detalhes do KS, sempre pode me escapar alguma coisa. Obrigada pelas reviews.