O transporte tinha sido muito mais demorado do que ele havia imaginado.

A troca dos carros foi feita rapidamente na garagem - que mais parecia um galpão imenso repleto de ferramentas e alguns veículos roubados - de Grande Jon Umber, um dos mecânicos mais confiáveis de Porto Real e um exímio especialista em explosivos, pelo o que Eddard Stark costumava falar. Os Stark e os Umber sempre mantiveram boas relações, tanto pessoais quanto profissionais, o que favorecia ambos os lados. Se a guerra pelo controle explodisse agora, nesse momento, os Umber eram pessoas que apesar de terem um temperamento impulsivo e rude certamente fariam diferença quando a batalha começasse.

Enquanto descarregava o Audi com a ajuda do mecânico, viu Sansa sair do carro e afastar-se, cruzando os braços e esperando o novo veículo chegar com uma expressão nada satisfeita, que o rapaz fingiu não perceber. Os lábios delicados da garota estavam comprimidos numa linha fina e impassível e seus olhos mantinham-se encobertos por uma névoa escura. Theon grunhiu.

- Problemas? - Grande Jon perguntou, lançando um olhar para Sansa. – A garota não me parece feliz.
- Não queira saber – respondeu, atirando o paletó no banco do Audi pelo vidro traseiro. Revirou os olhos e encolheu as mangas da camisa branca.
- Parece complicado – o mecânico riu.
- Imagine alguém gritando nas suas orelhas no meio de um tiroteio e de uma perseguição. Sim, é complicado.
- Vou lá pegar a SUV de vocês – Grande Jon riu novamente e tocou o ombro dele de maneira amigável, quase como se entendesse o que o pobre rapaz estivesse passando.

Assim que Grande Jon se perdeu por uma fileira de carros, Theon ergueu os olhos para a ruiva, que ainda mantinha aquela expressão fechada, e aproximou-se cautelosamente. Era quase certo que receberia uma amostra da crueldade de Sansa, entretanto ele sabia que acabaria precisando passar por isso mais cedo ou mais tarde.

- Qual é o problema?

O olhar furioso que recebeu de Sansa Stark valeu por mil palavras. Os lábios dela se comprimiram e suas bochechas coraram intensamente. Theon sempre achou engraçada a facilidade com a qual o sangue tingia o rosto da ruiva, principalmente quando o homem de ferro fazia alguma piada grosseira ou falava de Ros, a stripper de cabelos vermelhos que era sem sombra alguma de dúvida sua favorita.

- Você descarregou uma arma no meu namorado – ela tentou não transmitir tanta raiva na voz, mas fracassou. – E atirou meu celular pela janela do carro. Qual você acha que é o problema?
- Seu namorado queria te raptar, se você não percebeu – ele rebateu prontamente. – E seu celular poderia ser facilmente rastreado. Foi uma precaução que...
- Não me interessa! – ela esganiçou-se. – Eu odeio você, odeio!

Theon Greyjoy comprimiu os lábios e mesmo não enxergando, sabia que a veia de seu pescoço estaria saltada. Queria dar uma resposta mal criada à herdeira dos Stark, entretanto Grande Jon parou com uma SUV prata na frente deles e abriu a porta do motorista, saindo do carro. Theon lançou um olhar fulminante à Sansa, que fingiu não ver e escancarou a porta do carona, batendo-a com força logo depois de entrar no veículo.

- Boa viagem – Grande Jon desejou com um sorriso, entregando a chave do veículo a Theon.

Depois de deixarem a garagem, tudo o que os acompanhou durante o caminho foi um silêncio pesado. Sansa permaneceu emburrada, Theon permaneceu com os olhos na estrada, remoendo amargamente o insulto da ruiva, e ambos se negaram a trocar uma palavra que fosse para tentar quebrar o clima tenso entre eles até que chegassem ao local estipulado por Robb.

Os Stark tinham diversos imóveis espalhados pelo continente, mas o preferido deles, sem sombra alguma de dúvida, era uma luxuosa cabana escondida a oeste de Porto Real. A família se refugiava ali – sempre acompanhada por Theon, é claro - durante o verão, aproveitando o lago e a brisa amistosa que fazia a grama e as árvores chiar baixinho durante o dia.

O chalé era todo construído em madeira, com um pé direito relativamente alto. Uma sala de estar imensa e decorada com um sofá aconchegante, fotos da família, um tapete cinzento que engolia os pés de quem pisava e uma lareira de pedra que tomava boa parte da parede faziam da cabana um lugar extremamente confortável. Uma escada de madeira polida dava para o andar de cima, que tinha o formato de mezanino e contemplava todos os quartos do chalé.

Theon se lembrou de ter vindo ali no último verão com os Stark. Lembrou-se de ter jogado cyvasse com Robb na varanda da casa, ter apostado corrida com Arya, Bran e Rickon pelo gramado e passeado pela beira do lago com todos os filhos de Eddard Stark. Exceto, é claro, com Sansa, que nunca, nunca fazia coisa alguma com eles, preferindo ficar com a mãe dentro de casa, ou trancada no quarto mandando mensagens de texto à Jeyne Poole. Theon sabia que ela odiava o chalé por não ser na cidade, por não ter um shopping ou qualquer outra atração nas proximidades, ele sabia.

A ruiva tinha tanta aversão ao lugar que assim que desceram da SUV prata, ela surrupiou a chave que ficava escondida num vaso de cerâmica, entrou à contragosto, pisou firme pelo chão de madeira clara e finalmente bateu com força uma porta no andar superior. É até melhor assim, ele pensou, deixando o corpo cair no sofá da sala, pelo menos fico com o resto da casa só para mim. E ele ficou sentado ali, aproveitando o silêncio e observando através da larga janela de vidro as árvores oscilarem conforme a vontade da brisa. Adormeceu ali mesmo, sentindo cada músculo de seu corpo relaxar e se moldar às almofadas do sofá. Acordou quando já era quase noite, com o celular vibrando na mesinha de centro. Esfregou os olhos e atendeu à ligação.

- O que houve? – disse, sentindo sua voz completamente enrolada. Era Robb. – Sim, já chegamos. É, há umas cinco horas, talvez.

Theon Greyjoy fechou os olhos quando Robb Stark perguntou se ele havia revistado o chalé atrás de alguma ameaça. Atordoado, ergueu-se desajeitadamente e correu os olhos pela peça ampla que era o primeiro andar. Não havia nada na cozinha ou na sala, então Theon decidiu subir para o segundo andar. Ainda com Robb no telefone, o homem de ferro puxou a pistola do coldre de ombro com a outra mão e empurrou a porta do quarto de hóspedes, seu quarto, que felizmente estava vazio.

- Sim, ela está bem – disse, indo em direção ao quarto de Robb, que também não apresentava nenhuma ameaça. – É, ficou um pouco assustada, mas não se feriu – o quarto de Eddard e Catelyn, assim como o de Bran e Rickon, estavam completamente vazios. – Só que, como você deve imaginar, não gostou muito da ideia de ficar aqui, presa no meio do nada. E possivelmente assim que me ver vai me obrigar a levá-la de volta à Porto Real.

Talvez demore um pouco mais Theon, foram as palavras cansadas do ruivo. O homem de ferro franziu o cenho antes de entrar no quarto de Arya e Sansa, a pistola comichando em suas mãos. Um breve silêncio envolveu os dois. Eu e meu pai estamos tentando colocar ordem nas coisas, mas os Lannister não vão ceder tão fácil. Posso confiar em você para cuidar de Sansa? De irmão para irmão?

- É claro – ele respondeu sem pestanejar, apertando o celular contra o ouvido. – Nada vai acontecer a ela, Robb, você tem a minha palavra de irmão que...

Assim que abriu a porta do quarto de Arya e Sansa, Theon Greyjoy ficou mudo, sem ação. Em frente a uma das cômodas, avaliando o conteúdo de uma gaveta, estava a irmã mais velha de Robb enrolada numa toalha branca, os cabelos ruivos presos num coque frouxo, perdida em pensamentos. Ele observou a forma como o tecido se enroscava no corpo esguio de Sansa, mostrando as curvas bem delineadas que ela possuía a pele pálida dos braços, dos ombros, do colo. Theon percebeu que algumas gotas d´água escorriam pela curva do pescoço da ruiva e deixou seus olhos acompanharem lentamente aquele percurso. Contudo, no exato momento em que ele estava imaginando como seria traçar o mesmo caminho das gotas com os próprios lábios, encontrou os olhos incrivelmente azuis de Sansa o encarando.

- O que você está fazendo aqui?! – ela gritou, tentando se esconder atrás da cômoda.
- Eu...

Ele abriu e fechou a boca diversas vezes, sem saber o que dizer. Encerrou a chamada – que aparentemente Robb já havia desligado - e enfiou o celular no bolso. Ela corou furiosamente e encolheu-se contra a cômoda ao perceber que Theon não tirava os olhos dela, as bochechas quase latejando de tão vermelhas. Quando ele foi se explicar, tentou inutilmente reprimir um sorriso travesso.

- Estou fazendo uma revista nos quartos, conforme seu irmão...
- Não tem nada para ver aqui, vá embora!
- Algumas pessoas discordariam, senhorita Sansa.

Um silêncio levemente tenso percorreu o quarto enquanto a ruiva assimilava aquelas palavras. O homem de ferro tentou espiar mais alguma parte do corpo de Sansa, contudo a maldita cômoda barrou todas as tentativas do rapaz.

- Vá. Embora. Agora!
- Tudo bem, tudo bem! – ele ergueu as mãos em sinal de rendição. – Estou indo.

Mas Theon não foi, não imediatamente. E quando foi – depois de inúmeros protestos ultrajados e enfurecidos de Sansa -, demorou-se o máximo que pôde. Assim que fechou a porta do quarto, pensou nas gotas que escorriam pelo colo dela, na toalha que mal conseguia ocultar as curvas e nos cabelos ruivos que faziam um contraste com a pele extremamente pálida dela.

E por fim, antes de descer as escadas novamente, pensou em Ros e em como gostaria de estar em Porto Real naquele momento.

x.x.x.

Theon Greyjoy fechou o sanduíche de presunto que havia preparado e sentou-se pesadamente numa das confortáveis banquetas que compunham a larga bancada de madeira encerada da cozinha dos Stark. A noite já ia alta, entretanto o homem de ferro não se importou; depois de revistar cada canto da cabana, só queria comer alguma coisa, tomar um banho e dormir profundamente. Deu uma mordida generosa no sanduíche e pensou em Sansa, que desde o último encontro deles, quatro horas atrás mais ou menos, não emitiu nenhum som no andar de cima. Pelo menos poderei dizer a Robb que, de fato, revistei todos os cantos da casa. Sorriu ao pensar no que a toalha da ruiva escondia e apoiou os cotovelos na bancada, mordendo mais uma vez o sanduíche.

Os ouvidos sensíveis de Theon captaram um som à direita, em direção ao vão que dava para a ampla sala. Sem pensar duas vezes, uma das mãos do homem de ferro voou para a pistola que estava no coldre de ombro, e seu rosto virou-se quase que imediatamente para o vão da porta. Seus olhos escuros encontraram Sansa Stark parada ali, com uma expressão ligeiramente assustada enfeitando seu rosto delicado. A ruiva vestia o mesmo jeans de quando Theon a pegara na faculdade e um moletom azul escuro pelo menos dois números maiores que ela, que eventualmente devia estar no armário de seu quarto desde o inverno passado. E possivelmente fora de moda, o que deve estar a consumindo por dentro, pensou e disfarçou um sorriso.

Depois de ter visto a irmã de Robb usando apenas uma toalha ele pensou que não a veria mais, pelo menos não naquela noite. Aparentemente estava enganado. A ruiva – infelizmente, vestida – caminhou sorrateiramente até a geladeira e abriu-a, ignorando a presença dele e observando sem qualquer interesse o que havia dentro do refrigerador. Theon fixou os olhos nela e acompanhou atentamente enquanto Sansa separava alguns ingredientes e começava a preparar um sanduíche.

- Você sabe ser silenciosa – comentou, esperando por uma resposta que não veio. Ela parecia absorta na tarefa de rechear o pão com frios, e ele sorriu com o canto dos lábios antes de continuar: - E fica muito bem numa toalha, se me permite dizer.

Os olhos azuis dela encontraram os escuros dele, e o rosto de Sansa Stark adquiriu um rubor extremamente intenso. Se fosse possível alguém morrer de vergonha, Theon tinha quase certeza de que não estaria mais em presença da ruiva. Ela desviou o rosto, completamente sem graça, e pegou o prato com o sanduíche. O homem de ferro, vendo que a irmã de Robb estava quase fora da cozinha, disse:

- Eu só... – ele começou apressadamente, e ela parou e virou-se, encarando-o com aqueles olhos azuis que sempre desconsertavam Theon – eu só tentei fazer um elogio e...
- Tudo bem – a ruiva interrompeu, as bochechas coradas. Um silêncio estranho abraçou os dois.

Durante essa quietude oportuna, porém inquietante, Theon Greyjoy abriu a boca para pedir que Sansa Stark ficasse, que se sentasse com ele e comesse, que lhe fizesse companhia, mas preferiu desistir. O olhar que ambos sustentavam transmitia, mais do que tudo, espera, onde cada um tentava prever o que o outro diria ou faria a seguir.

- Eu vou... subir – ela disse, gesticulando em direção à sala.
- Claro, só... fique longe das janelas.

A sombra de um sorriso iluminou momentaneamente o rosto de Sansa e ela sumiu pelo vão da cozinha. Theon ouviu os passos dela ecoarem pela a escada e suspirou aliviado ao ouvir uma porta se fechar no andar de cima.

A brisa noturna fez as árvores do lado de fora farfalharem ruidosamente, e ele ergueu-se da banqueta em que estava, indo em direção à porta de vidro da cozinha que dava para o quintal. Após um gramado bem cuidado, a parte de trás do terreno se encontrava com um lago costeado por inúmeras árvores frondosas, que transformavam a cabana dos Stark num esconderijo perfeito em todas as direções. Até o caminho de acesso à cabana era difícil de ser descoberto, tendo o motorista que sair da estrada e dirigir diversos quilômetros por um atalho de cascalhos que se confundia com as árvores e se transformava numa verdadeira armadilha para os desavisados.

É impenetrável, não tem como os Lannister chegarem aqui, ele pensou, observando atentamente a escuridão do lado de fora. As árvores balançaram e nenhum som foi ouvido. Melhor prevenir do que remediar. Theon trancou a porta, apagou a luz e saiu da cozinha, pensando num banho quente e na cama de hóspedes que o esperava.