Card Captors Sakura e seus personagens não me pertencem e sim a CLAMP.
Fanfiction sem fins lucrativos.


- Quem é você? – Matsui indagou contrariado, enquanto virava o pescoço na direção do guerreiro - O que pensa que está fazendo?

O chinês permaneceu calado, colocando um pouco mais de pressão sobre o pulso do velho nobre. Com um movimento afastou-o da gueixa, largando-o logo em seguida.

- O que diabos...? – ouviu-o reclamar, enquanto guiava o corpo dele para longe da jovem. Foi-lhe audível também a exclamação de surpresa da acompanhante, que contrastou com o silêncio da outra.

Ainda mais irritado, o homem cambaleou em direção ao seu oponente, pronto para golpeá-lo. O outro estava prestes a se defender, quando a gueixa interferiu, alteando sua voz em meio aos sons noturnos.

- É o suficiente! – Ambos viraram os rostos para a mulher, deparando-se com sua feição aborrecida. – Matsui-sama, já basta. Creio que isso põe fim a nossa conversa.

Sakura deu as costas para os homens, fazendo um gesto sutil com a cabeça para que Akemi a seguisse. Determinada a sair dali, não viu o meio sorriso que surgiu nos lábios do chinês. No entanto, longe de estar satisfeito com o desfecho imposto sobre seu desejo, o nobre fez-se ouvir.

- Ei, Oiran!* - o velho chamou Sakura, fazendo-a deter-se nos poucos passos que havia dado.

O guerreiro observou com interesse as costas da mulher, notando que os punhos dela haviam se fechado. Sakura girou o corpo no mesmo lugar, com graciosidade. Mirou o velho com uma expressão impassível, porém o mais novo pôde enxergar chamas queimando no fundo de seus olhos verdes.

- Do que o senhor me chamou? – indagou, dando um passo em direção ao nobre. – Receio não ter escutado muito bem.

- E do que mais eu poderia chamar alguém como você? – O senhor exibiu um sorriso desdenhoso, levando a mulher a soltar um leve muxoxo de descrença. – Uma pessoa que vende o corpo para sobreviver... Uma Oi-

- Você... – Sakura andou decidida em direção ao nobre, finalmente deixando transparecer sua raiva.

No entanto, antes que chegasse até o velho senhor, este já havia tombado no chão, inconsciente. O guerreiro chinês se adiantara, dando um soco na face arrogante de Matsui.

- Isso basta. – Sakura pôde escutar pela primeira vez a voz do homem misterioso. Apesar do tom baixo, pôde sentir a força que detinha. - Acho que agora sim é o fim.

Ele deu um meio sorriso para mulher, enquanto ela mantinha-se como uma estátua, a poucos metros de si. Sakura mirava-o com uma expressão de surpresa, o que o divertiu.

- Você... Quem diabos é você? – repetiu a pergunta que outrora o velho fizera, mirando-o com o cenho franzido.

- É estranho ouvir uma mulher usando esse tipo de palavra. – o homem comentou, enquanto se afastava do corpo desfalecido. Aproximou-se um pouco mais da gueixa, que ainda esperava sua resposta. – Sou Li Syaoran.

Os lábios dela titubearam por instantes, pela resposta simples que ele lhe dera. – Eu sou Sakura... – sua resposta fora quase automática, enquanto seus pensamentos tentavam ficar em ordem.

- Eu sei.

Syaoran bocejou cansando, procurando com os olhos a saída do lugar. Estava exausto pelo longo dia que tivera, tendo certeza que o seguinte seria igualmente estressante ou talvez pior. Sem dizer nenhuma palavra, fez uma leve reverência à mulher, traçando um caminho para fora dali.

- Espere, por que...?

- Eu tive uma ideia errada de você... Lá dentro. – O chinês parou por um segundo, apontando ainda de costas, em direção a construção principal do Okiya – Há alguns minutos eu daria razão para o velho. Mas depois do que vi, não mais. Você parece uma boa garota.

Antes que Sakura pudesse pensar em lhe dizer algo, o homem acenou em despedida e desapareceu na escuridão do terreno. A gueixa ainda ficou parada algum tempo sob os lamentos de Akemi, olhando para o ponto em que a sombra dele sumira.


Syaoran permanecia encostado na parede de madeira, com os olhos fechados. Apesar de aparentar estar relaxado, mantinha-se atento aos movimentos dos outros presentes no cômodo. Seu superior conversava com um nobre japonês, negociando mercadorias que fariam parte da rota de comércio dos dois países.

O guerreiro não confiava em nobres japoneses. Mesmo os reis de ambos os países tendo firmado um acordo de comércio entre alguns de seus territórios, nada lhe tirava a ideia de que aquelas pessoas poderiam apunhalar sua nação pelas costas a qualquer momento.

Ainda havia revoltas e golpes compartilhados pelas duas nações. Conspirações contra a China, enquanto seu próprio país tinha planos de conquistar aquele território para si. Mas por enquanto, diante do acordo econômico, o guerreiro chinês aproveitava para respirar melhor.

Estava cansando de batalhas entre os dois povos. Quando era mais jovem, se orgulhara de defender suas terras contra a ameaça japonesa e acompanhar o seu general na aliança com Joseon*. Mas por fim, ele aprendera que tais conquistas não trariam benefício nenhum ao que era mais importante para uma nação... O povo.

Depois de anos de experiência ele pôde entender que seu trabalho se resumia a proteger e alimentar a ganância dos nobres. Por isso, preferiu rebaixar-se em sua posição, tratando de assuntos que estivessem distantes do palácio. Ele que outrora fora o general que comandara as tropas reais, decaíra para um guerreiro de um dos territórios de seu país.

- Ei, Syaoran! Vamos. - Seu superior havia lhe chamado, depois de terminar a negociação.

O guerreiro desencostou-se taciturnamente da parede, esperando que o mais velho se despedisse do senhor japonês. Assim que ambos colocaram os pés para fora da taberna, Li manteve-se alguns passos atrás do mercador, enquanto eles andavam pelas ruas da vila.

- O que você acha? – o mais velho indagou, sem virar o rosto na direção do homem que guardava suas costas.

- Não acho que teremos problemas com ele.

Os chineses alcançaram a rua do mercado, ocupada por uma multidão de comerciantes e seus clientes. Barracas com alimentos, tecidos ou ervas carregava a pequena estrada, deixando pouco espaço para seus visitantes. Nas bordas estavam as construções de madeira, que suportavam as lojas com produtos mais caros, geralmente frequentadas pelos nobres.

O mercador parou em uma daquelas construções, chamando o guerreiro para que lhe acompanhasse. No interior da loja, mostrou-lhe um corte de seda, que Syaoran reconheceu como vindo de seu país.

- Deveríamos conversar com o proprietário? – o velho indagou sem realmente se direcionar para o mais jovem.

Syaoran deu os ombros, direcionando seu olhar para os outros pontos da loja. Os olhos âmbares captaram durante seu passeio algo que lhe prendeu a atenção por instantes. Ao fundo da loja, observou diversos tecidos coloridos e flutuantes pendurados. Com a brisa que entrava pelas janelas, os cortes de seda dançavam diante de seus olhos, parecendo hipnotizá-lo.

E foi perdido nessa visão, que Syaoran lembrou-se da gueixa com quem trocara algumas palavras na noite anterior. Tal como os tecidos tremulantes, a beleza daquela mulher havia prendido sua atenção.


O farfalhar das folhas pareciam chamar-lhe para o lado de fora. Apesar de se fazer quase madrugada, a jovem não conseguira pegar no sono. Sentindo-se disposta em demasia, Sakura recolheu silenciosamente o shamisen e saiu de seu quarto.

Acompanhada pelos sons noturnos, a gueixa caminhou pelo terreno do Okiya em direção ao jardim dos fundos. No quiosque situado no centro do ambiente, acomodou com delicadeza o instrumento perto de si, de maneira que pudesse praticar sua arte.

Não demorou para que a melodia do shamisen ecoasse junto aos sons da natureza. A brisa noturna espalhou sua música nos arredores do jardim, levando sua harmonia até os ouvidos de certo guerreiro que caminhava nas proximidades.

Conformado com a insônia que havia lhe acometido naquela noite, Syaoran decidira respirar um pouco do ar do vilarejo. Hospedado em uma pensão próxima ao Okiya, foi inevitável que a música tocada pela gueixa chegasse aos seus ouvidos enquanto ele fazia um caminho rente ao muro que cercava a construção. Ao ouvir tal melodia, o chinês sentiu-se atraído, reconhecendo o som de imediato.

Syaoran olhou para a parede diante de si, imaginando que as portas do lugar já haviam se fechado àquela hora. Ainda assim, instigado pela música tocada pela mulher, o guerreiro buscou com um olhar meticuloso uma brecha que o permitisse entrar.

Do lado de dentro do Okiya, a jovem gueixa mantinha-se concentrada. Seus dedos iam e vinham com o bachi, produzindo os ruídos que lhe eram tão agradáveis. Ocupada, não percebeu ser observada.

Encarapitado em cima de uma árvore próxima, o guerreiro chinês apreciava àquela apresentação particular. Longe de deleitar-se somente com a música, o homem prestava atenção em cada detalhe da figura feminina. Apesar de estar sem a costumeira maquiagem que as gueixas usavam, a beleza natural de Sakura era evidente.

Os olhos verdes, semelhantes às pedras preciosas que Syaoran vira muitas vezes na mão de mercadores, brilhavam com o reflexo da luz de uma lanterna próxima. Seus cabelos dançavam conforme a leve brisa, como se acompanhassem o ritmo que saia do instrumento. Trajando um nemaki**,a mulher despertou o interesse do guerreirocom suas vestes mais simples, sem o exagero de adornos que ele vira anteriormente no Okiya.

Quando finalmente os dedos dela afastaram-se das cordas do instrumento, o chinês cerrou os olhos por um momento, tentando guardar na memória a imagem que vira naquela madrugada. E antes que ela voltasse a brincar com o instrumento, ele decidiu revelar-se, pulando do local que lhe dera acesso ao jardim.

- Uma bela apresentação – a voz de Li fez-se ouvir no parcial silêncio que havia se instalado.

Ao escutá-lo, a gueixa sobressaltou-se no lugar em que estava, buscando com olhos a presença do visitante. Pouco a pouco, silencioso como uma sombra, o homem surgiu diante de seus olhos, provocando um solavanco em seu coração. A jovem prendeu a respiração, observando-o aproximar-se de si.

- O-o que está fazendo aqui? – indagou, quando ele parou ante a si, sentindo-se um pouco intimidada com o olhar dele.

O homem fez menção de lhe responder. Porém antes que seus lábios soltassem uma única palavra, os passos apressados de Akemi chamaram a atenção de ambos. A jovem subordinada veio correndo até a gueixa, assustando-se ao notar a presença do chinês ali.

- O que...? – começou franzido o cenho, no entanto deteve-se ao lembrar que o quê lhe trouxera até o jardim era mais importante. – Sakura-san, precisamos entrar. Tsukishiro-san está aqui.

- Quem? – Sakura levantou-se imediatamente, esquecendo-se por um momento de seu convidado.

- Tsukishiro-san. – Akemi repetiu, com um tom de voz choroso.

Syaoran viu na expressão da mulher que o tal visitante não lhe era agradável. Apesar disso, obedecendo a seus deveres, a japonesa preparou-se para entrar, passando seu instrumento aos cuidados da outra. Voltando-se para o guerreiro, Sakura fez uma educada mesura, deixando que seus olhos se cravassem intensamente nos dele, durante parte do comprimento.

Resignada, a jovem deu-lhe as costas para entrar. No entanto, antes que fizesse mais um movimento, sentiu os dedos do homem contornarem seu braço. Impedida de seguir seu caminho, Sakura virou-se na direção dele com suas dúvidas estampadas na face.

- Quem é ele? – Li lhe indagara, enquanto a mirava seriamente. – Quem?


*Oiran- cortesã japonesa

**Joseon – Dinastia da Coréia (Reino Joseon), que abrangeu o período de 1392 a 1897.

***Nemaki – Tipo de kimono utilizado para dormir.

Já que citei a Dinastia Joseon, a nível de curiosidade, no caso da China a história se passa mais ou menos durante a Dinastia Ming enquanto no Japão, na Sengoku.
Sei que tinha escrito que não teria um período certo, no entanto tenho me baseado mais ou menos entre esses períodos para desenvolver o enredo.