II – Falência

–Pelos crimes acima listados, Lucius e Narcisa Malfoy são, por esta corte, condenados ao Beijo do Dementador e...

Nada mais do que o líder do Wizengamot disse pôde ser ouvido, a assembléia entrou em êxtase. Todos os repórteres começaram a falar ao mesmo tempo, os flashs a pipocar pela sala e, as pessoas que simplesmente foram para assistir, a cochichar. Draco Malfoy, por mais incrível que parecesse, não tinha se manifestado. Continuava sentado, com a cabeça baixa, os cabelos cobrindo o rosto. Ninguém seria capaz de adivinhar o que ele estava pensando naquele minuto. Quando quatro aurores pegaram os Malfoy pelo braço, que, curiosamente, não ofereceram resistência, Draco se levantou de um salto, pulando a pequena divisão entre a assembléia e o local onde ficavam os réus.

–NÃO! NÃO! MÃE! PAI! – os flashs dos repórteres se voltaram instantaneamente para a cena de descontrole de Draco, que cobria a distância entre onde estava e seus pais, acotovelando aurores e empurrando qualquer um que tentasse impedir. O que poderia fazer? Nada. Mas tinha que tentar por si mesmo. Não tinha salvo seus pais de Voldemort para que eles acabassem nas mãos do Ministério. Não tinha salvo seus pais da morte rápida que Voldemort os proporcionaria, para acabarem na agonia eterna de viver sem alma, doada para o deleite de um dementador. Não, ele não tinha arriscado a própria liberdade, a própria vida para nada. Não ia assistir a sua família, a única coisa que algum dia ele tinha amado, acabar daquele jeito, não depois de tudo o que tinha feito para salvá-la anos atrás. Estava a um passo de alcançá-los, e poder fazer alguma coisa, qualquer coisa...

IMOBULLUS! – e Draco Malfoy estancou, como uma estátua, sem poder se mexer. Harry Potter desceu, com mais dois aurores, da bancada dos membros do Wizengamot, varinha na mão direita, ainda apontada para Draco, com uma expressão gélida no rosto. Parou diante de Draco, enquanto os outros dois aurores seguravam-no pelos braços. – Você pode ter escapado do destino que seus pais levaram, Malfoy, mas não vai escapar de mim nunca, eu estarei sempre de olho em você. Finite Incantatem! – o corpo de Draco amoleceu como neve ao sol, caindo nos braços dos aurores que já o seguravam.

– Sempre é muito tempo, Potter. Você estará de olho em mim, quando não tiver ninguém de olho em você – respondeu Draco numa última provocação, enquanto era arrastado pelos aurores para fora da sala de audiências.

Um prato cheio para Rita Skeeter.

Draco estava falido.

Para tentar salvar os pais das enormes listas de acusações após o fim da guerra, torrou toda a fortuna da família. Subornava membros do Wizengamot, contratava os melhores advogados do mundo mágico, pagava a imprensa para que esta ficasse do lado dos Malfoy. De nada adiantou. Harry Potter, especialmente convidado para o Wizengamot para aquele caso, fez todo o esforço de Draco, algo inútil. Era assim que terminava: Harry Potter mais protegido do que nunca, – o mundo mágico morria de medo de retaliações por parte dos ex-comensais e seus familiares – Lucius e Narcisa sem alma e Draco... falido. Sem nenhum tostão. Não tinha dinheiro sequer para pagar as contas de casa, sem contar o que devia para muita gente naquela história de julgamento. Os duendes, com quem tinha pego dinheiro emprestado, já o perseguiam e o ameaçavam de diversas maneiras. Draco se perguntava se não seria melhor ter falhado naquela época com Voldemort, para que ele matasse todos eles e ele não precisasse viver aquele fim do mundo, fundo do poço. Morava pior do que um Weasley, e todos seus amigos sonserinos lhe viravam as costas.

Perdera tudo, menos o orgulho. Ainda falava o nome de sua família em alguns lugares, esperando o respeito que causava antigamente, mas agora apenas o olhavam com expressão de nada. Os privilégios tinham acabado... Tudo tinha acabado. Foi então que Draco percebeu que se queria tudo o que um dia ele teve de volta, ele teria que batalhar por isso. Até mesmo trabalhar. Não que algum trabalho fosse restituir toda sua fortuna, mas ao menos ele poderia viver. Foi nesse choque de orgulho e sobrevivência que aquele estranho homem o procurou.

Oferecia dinheiro, muito dinheiro, para que Draco cometesse um simples assassinato: matasse um auror que estava dificultando o caso de um ex-comensal. Era a chance que ele vira de sair do buraco. Matar alguém valia aquele preço. Aliás, era um motivo bem mais nobre do que o motivo de Voldemort para matar pessoas. Voldemort matava por ideais, Draco matava para si mesmo, para seu sustento, sua sobrevivência. Aceitou. Foi simples, muito simples, esperar à noite o auror sair de casa, lançar um Avada Kedavra bem mirado de longe, e desaparatar antes que alguém tivesse tempo de notar que o auror tinha morrido. Outras pessoas começaram a surgir pedindo o mesmo serviço para ele. Algumas queriam que parecesse suicídio, outras, que parecesse acidente, outras, que fosse algo brutal, tantas outras queriam que ficasse claro que a pessoa morreu assassinada.

Alguns assassinatos eram mais complicados, precisavam ser planejados, armados. Draco precisava entrar em cena, deixar o futuro morto vê-lo ou então tomar uma polissuco para manter sua segurança. Não importa como deveria ser o assassinato, sempre era simples, ainda mais para ele que mesmo sem nunca ter se tornado um Comensal de fato, tinha convivido tempo o suficiente com eles para aprender diversos feitiços diferentes, diversas magias negras, todas com o objetivo prático de matar. Com o tempo, Draco percebeu que gostava daquilo, era prazeroso matar, prazeroso receber o dinheiro no dia seguinte. Ele gostava daquilo, era um prazer mórbido, apavorante, mas delicioso.

Com o tempo, a fama de Draco começou a crescer no submundo. Um assassino profissional talentoso, prático e discreto. Alguns sequer sabiam o nome de Draco, apenas sabiam onde encontrar quem o conhecia. Com essa fama, Draco subiu seu preço. Preço que ia subindo de acordo com a técnica e com a fama. Cada vez mais, vertiginosamente. Abriu negócios para lavar o dinheiro que não poderia explicar para o Ministério de onde tinha vindo.

Aos vinte cinco anos, Draco Malfoy era o assassino de aluguel mais caro do submundo da Inglaterra. E o único que nunca tinha levantado suspeitas. Financiar um partido político desviava as atenções do que ele fazia, e todos acreditavam se tratar apenas de um corrupto. Menos mal.