SAVE ME
Capítulo 2: Percepções
Abriu novamente os olhos, fechados com força ao prever o estrondo da porta. Sabia que o tinha irritado... bastante dessa vez. Os passos ruidosos na escada, a porta fechada com força... um novo som vindo ao longe, como se fosse algo se quebrando.
É, realmente conseguira irritá-lo. Mas estava aliviado por saber que ele tinha ido embora. Não agüentava mais ouvir sua voz.
Suspirou. Talvez o melhor para si naquele lugar fosse ficar sozinho, por mais que a solidão pudesse ser enlouquecedora. Certamente a loucura pela solidão era menos nociva que a loucura de Yune.
Olhou para o alto. Tontura. Quis mexer-se, mas seu corpo parecia pesado. Não se alarmou, já esperava por isso, afinal as coisas não aconteciam de outra forma. Efeito tardio de sedativos que ele lhe dava hora ou outra. Não conseguia evitá-los: tentara, de todas as formas mas logo percebia que não havia alternativas.
Lutando contra seu próprio corpo, quis levantar. Um esforço que lhe parecia muito grande, mas tinha de ser feito. Virando-se de lado, apoiou-se em seus braços, fazendo força para erguer-se. A medida que conseguia, tentava agarrar-se na cabeceira da cama, numa forma de ter apoio e conseguir ir adiante, e mesmo quando finalmente pôde sentar-se, ainda permaneceu agarrado a ela, como se pudesse evitar que caísse.
Visão escura, tudo a sua volta parecia dançar... uma dança estranha, mas da qual era espectador fiel. Não que quisesse presenciar aquele espetáculo, mas simplesmente não podia fugir disso. Forçava-se a apreciá-lo com mais intensidade por que sentia que somente esperar que passasse faria tudo parecer pior. Forçar seu organismo a lutar contra os sedativos era muito mais digno.
Respiração pesada, as batidas do coração descompassadas. Normal. Efeito do esforço, mas logo iria passar, assim como a sensação de que o mundo estava girando. Por pior que parecesse, continuava tentando reagir, por que a simples idéia de ceder lhe parecia trágico.
Olhou para o lado, encostando-se na cama, soltando a cabeceira, tentando normalizar a respiração. O suor brotava dos poros em sua testa, formando minúsculas gotas. Era capaz de senti-las: uma percepção que lhe parecia nova. Coisas que até pouco tempo talvez nãoconseguisse sentir, ou talvez apenas não tivesse disposição para perceber. Lá fora havia outras alternativas, o que não era mais o caso. Agora que perdera tudo e estava confinado entre quatro paredes, restava sua lucidez, seus sentidos e sua imaginação.
Não havia relógio. Não tinha noção das horas.
Nada de janelas. Não havia luz natural. Não sabia se era dia ou noite.
Não tinha noção de tempo. Tentou medi-lo de alguma forma, mas Yune frustrou todas as tentativas de ter o mínimo de controle. Tudo parecia muito longe do seu alcance. Justamente aquelas coisas que ditavam a rotina de qualquer pessoa.
Não sabia onde estava, ou há quanto tempo estava ali trancado. Aquele parecia ser o porão de uma casa ou de um prédio, um lugar adaptado para ser um quarto com banheiro. Era limpo, organizado, relativamente espaçoso. Montado para proporcionar conforto a quem estivesse ali, embora não houvesse conforto possível para ele, naquele momento.
Yune havia o trancado ali e isolado do mundo. Não havia rádio, jornal ou TV. Sabia apenas o que ele lhe dizia, e não era nada que lhe interessava. Apenas uma pessoa, apenas um nome... mas sabia que jamais ouviria uma palavra de Yune a seu respeito.
Miyavi.
Sim, era nele que pensava. Todo o tempo, era nele que pensava. Em Miyavi. Para ele eram os seus pensamentos de carinho, amor, saudade e esperança. E também de temor.
"Será que ele acha que eu o abandonei?"
"Será que tem raiva de mim? Será que ele me odeia?"
Esses pensamentos o atormentavam. Sentia-se mal só de pensar que poderia estar fazendo-o sofrer. Tinha medo de que Miyavi tivesse idéias erradas ao seu respeito. Medo que ele o odiasse.
Amava-o mais que tudo. Rezava todos os dias para que Miyavi não o desprezasse, pensando que o abandonara quando na verdade estava ali justamente por amá-lo. E era esse amor que o fazia suportar o egoísmo de Yune sem ceder. Sua arma para não sucumbia à loucura.
Continua...
