PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO

Capítulo DOIS

Set the Fire to the Third Bar

ShiryuForever94

Cárpatos. Uma região belíssima, com montanhas, vegetação esplendorosa em algumas partes, frio, mas não a ponto de matar, naquela época do ano. Podia ser perigosa, cheia de morte e devastação para quem não soubesse como se mover por ali. Não era um problema para Shura de Capricórnio, ou não deveria ter sido.

Isolado há variados dias, sentindo dor em todas as partes do corpo devido a uma queda.

Não deveria ter bebido tanto, não no mais alto ponto daquela cadeia de montanhas. Despencara por metros sem conta e passara muitas horas gemendo de dor com alguns membros quebrados. Não conseguia pedir socorro e teve certeza que iria morrer.

I find the map and draw a straight line

Over rivers, farms, and state lines

The distance from here to where you'd be

It's only finger-lengths that I see

I touch the place where I'd find your face

My fingers in creases of distant dark places

Eu encontro o mapa e desenho uma linha reta

Sobre rios, fazendas e divisões de estados

A distância daqui para onde você estaria

É apenas a do comprimento de dedos que eu vejo

Eu toco o local onde eu encontraria o seu rosto

Meus dedos nos vincos de lugares distantes e escuros

Agoniava-se não apenas por suas dores, mas por saber que a falta de notícias por tempo demais deixaria Saga além de preocupado. Quisera dar uma lição nele, mas não ao extremo de fazer o namorado entrar em crise.

E as crises de Saga eram perigosas para a humanidade.

O lado negro, obscuro e nefando de um ser que quase se igualara a um Deus e por pouco não obtivera êxito em destruir o Santuário.

Shura e Saga se conheciam bem demais, tinham suas picuinhas, mas não eram primadonas infantis que fizessem birra além do razoável para namorados.

Uma sensação forte na alma de Shura o avisou de que havia algo diferente naquele dia, mais um, o terceiro, em que estava imóvel numa depressão abaixo do pico de onde despencara. Não conseguia emanar cosmo chamando ajuda, não conseguia se curar, era tudo muito estranho. Não sentia sua própria energia e isso o deixava entre apavorado e na crença de que havia morrido. Então...

Cosmo.

Forte, negro, perigoso, antagônico, invasivo, beligerante.

- "O que uma criança perdida faz aqui? Não sabe que está junto a uma entrada do mundo dos mortos? Esse lugar é perigoso e pertence ao senhor do Meikai, não deveria estar aqui, não um cavaleiro."

- "Você? O que faz aqui?" Shura estatelou os olhos. Aquele homem... Estranhou ainda sua própria voz, tão rouca e arrastada.

- "Vou responder apenas porque perguntou com tanta gentileza." A ironia era perceptível. - "Estamos com um problema de fugitivos por este local e fui enviado para recuperar algumas almas, e destruir as que se negarem. O que está fazendo aqui?"

Shura arregalou ainda mais os olhos. Não esperava ver aquele ente naquele lugar. Sentia-se mal, não apenas pelos ferimentos, nem pela fome, pois água conseguira da umidade do local.

Sentia-se mal primordialmente por estar diante de um ser poderoso, de alma malévola como poucas e de poderes incríveis. Tentou falar novamente, mas a voz não saiu, tinha a garganta seca demais.

I'm miles from where you are,

I lay down on the cold ground

And I, I pray that something picks me up

And sets me down in your warm arms

Eu estou a milhas de onde você está

Eu me deito no chão frio

Eu, eu rezo para que algo me levante

E me coloque nos seus braços calorosos

- "Amadores." Uma voz com desprezo explícito e Capricórnio viu a figura quase negra de longas asas e aterrorizante olhar se curvar. Shura sentiu-se desnudado perante olhos cor de âmbar com traços de vermelho que o observavam como se o cavaleiro fosse um verme.

- "Valentine, traga água e alguma comida e peça a Myuu que reenvie as suas borboletas, pois o que ele achou aqui não foi uma alma morta, ainda não."

- "Sim, Senhor Kyoto de Wyvern." O ruivo alto, de súrplice arroxeada e voz modulada, foi cumprir suas ordens. Valentine de Harpia era o companheiro de Wyvern e seu mais dedicado e fiel vassalo. Jamais o contestava, não em público.

- "Está longe de casa, criança." Radamanthys era um dos juízes do inferno, portador da súrplice de Wyvern, regido pela estrela da ferocidade e não tinha o menor respeito por nenhum Cavaleiro de Atena. Desprezava-os abertamente.

- "Não sou criança." Capricórnio objetou para logo sentir-se idiota quando foi erguido com facilidade, posto no colo de Radamanthys como uma donzela frágil.

Então, a alguma distância, movimentos.

- "SOLTE-O!" Milo de Escorpião, mão direita em posição de ataque, a unha vermelha imensa e perigosa, o cosmo alto.

- "Se eu o soltar, mais ossos se partirão além dos que já estão transformados em pedaços. Tem certeza que deseja que eu o faça?" Radamanthys perscrutou o lugar com o cosmo roxo perigoso emanando sem medo algum. - "Shaka de Virgem, Kanon de Dragão Marinho, os escoteiros vieram salvar a princesinha em perigo?" Um riso cínico, zombador, na face perfeita do Kyoto inglês por nascimento e conhecido por ser um verdadeiro gentleman.

E por ser um monstro sanguinário sem piedade, torturador incrível e malévolo em todas as suas células. Sem falar que era notório que sentia prazer quase sexual em lutas.

O Kyoto adorava lutar, quase tanto quanto adorava perseguir, dominar, vencer e matar...

- "Afastem-se!" Mãos erguidas acima da cabeça, máscara cobrindo o rosto de feições quase femininas. Lábios em rictus tenso, corpo esguio coberto por uma armadura quase negra que delineava a perfeição em forma de homem.

Harpia. O espectro mais leal a Radamanthys, o único ser que o Kyoto amava. Postara-se na velocidade da luz em frente ao seu juiz.

Ao seu amor.

- "Val, não se preocupe, ninguém quer lutar, embora eu não fosse reclamar se isso acontecesse. E se alguém o ferir..." Um olhar dourado tornando-se vermelho na invocação perigosa de energias ancestrais e poderes vindos do abismo das almas perdidas em pecados e podridão.

- "Apenas queremos Shura de volta. Não precisamos lutar." Shaka de Virgem interveio antes que tudo virasse uma grande confusão. - "Já não há [b]sangue[/b] o suficiente por aqui?"

Shura estremeceu, queria tanto voltar para casa.

I'm miles from where you are,

I lay down on the cold ground

And I, I pray that something picks me up

and sets me down in your warm arms

Eu estou a milhas de onde você está

Eu me deito no chão frio

Eu, eu rezo para que algo me levante

E me coloque nos seus braços calorosos

- "Aproximem-se." Radamanthys falou com voz empostada, firme e calma. - "Cheguem um pouco mais perto, por favor."

Valentine sorriu levemente. Wyvern era insidioso e perito em armadilhas.

Kanon deu um passo e parou. - "Desgraçado! É uma barreira. Ficaremos praticamente indefesos se passarmos para mais perto. Você é mesmo traiçoeiro, Kyoto."

- "Também senti saudades suas. Agora que tal se afastarem para que eu leve o irmãozinho perdido até vocês? Isolamos a área por ser perigosa, não porque achamos bonito o turismo na região."

- "Então foi por isso que não consegui me curar." Shura murmurou e sentiu a energia firme do Kyoto envolvê-lo por momentos e gemeu.

- "Ora, vamos, Shura, agüente, estou remendando alguns pedaços seus enquanto o levo para seus amigos. Apenas não morra de tesão, sei o quanto meu poder pode ser afrodisíaco..." Radamanthys caminhava como se não estivesse carregando um espanhol enorme, forte e ainda vestindo sua própria armadura de Kyoto.

- "Vá pro inferno." Shura falou tentando soar seguro e ao mesmo tempo estremecendo com arrepios e uma sensação de dominação que, droga, lhe dava excitação! Desgraçado! Kyoto desgraçado!

Valentine suspirou fundo. Wyvern era... Um tremendo filho da mãe.

- "Não, Shura, não posso voltar pra casa, ainda." Logo Wyvern chegou perto de Kanon de Gêmeos e sorriu de maneira perigosa. - "Pelo visto, aconteceu algo com Saga ou você não teria saído daquele buraco onde se esconde com Poseidon para vir resgatar Shura. Ou já trocou de amante? Julian Solo era bonitinho."

I hang my coat up in the first bar

There is no peace that I've found so far

The laughter penetrates my silence

As drunken men find flaws in science

Eu penduro meu casaco na primeira barra

Não há paz que eu tenha encontrado até agora

A risada penetra o meu silêncio

Enquanto homens bêbados encontram falhas na ciência

- "Está enciumado? Que houve, seu ruivo não dá conta do recado?" Kanon cruzou os braços e encarou o Kyoto sem medo e sem dúvida. - "Livre-me da barreira que vamos conversar sobre força."

- "Abusado!" Valentine moveu-se. As garras gigantescas da súrplice em riste. Era perigoso. Muito.

- "Levem seu amigo daqui o mais rápido que puderem. Ele já está suficientemente debilitado sem conversinhas ridículas. E, ao que me conste, Kanon, não fui eu quem desistiu de viver na última guerra." Radamanthys observou o efeito de sua menção ao suicídio de Kanon na última guerra santa e entregou Shura, depositando-o no colo do irmão gêmeo de Saga e olhou, apenas um breve olhar, para Valentine. Foi o bastante para o espectro acalmar-se e dar um passo para trás, mesclando o cosmo roxo ao de seu amante.

- "Vocês dois são doentiamente ligados." Milo exclamou observando brumas roxas e negras emanando de Valentine para Radamanthys e de volta a Valentine.

- "O que esperava de seres do inferno? Amor inocente de flores e perfume? Pois vou lhe dar uma mostra..." Radamanthys estendeu uma das mãos e pegou Valentine pelo pescoço, puxando-o para si, rosnando para ele como uma fera indomada.

Valentine gemeu. Guturalmente, sensualmente, estremecendo como folha verde ao vento das monções.

- "Por Atena, vamos embora!" Shaka de Virgem estava perturbado ao extremo. Não era bom sentir-se invadido por gritos de demônios, por pecados de todos do mundo, por dor, comiseração, traição, luxúria, morte. Sem falar que o indiano conseguia enxergar os seres horrendos que circundavam Radamanthys como se fossem pequenos acólitos. Demônios menores, os servos do Kyoto.

- "Saga precisa de controle. Dá para sentirmos no meikai. Tomem cuidado, não pretendo estragar minha vida atual lutando com cavaleiros desmiolados." Foi a fala de Radamanthys antes de tocar de leve os lábios nos de Valentine e dar meia volta. - "Vem, espectro de Harpia, temos deveres. Ao contrário dos Cavaleiros, não damos birrinhas por namorados."

- "Como você..." Shura murmurou sentindo os braços de Kanon o aconchegarem, consolando-o.

Their words mostly noises

Ghosts with just voices

Your words in my memory

Are like music to me

As suas palavras, na maioria barulhos

Fantasmas com apenas vozes

Suas palavras na minha memória

São como música para mim

- "Sou o Kyoto do Inferno predileto de Hades, sei o que preciso saber. Até logo." Radamanthys esvaneceu-se numa nuvem roxa, juntamente com todos os demônios que estavam por ali.

- "Saga..." Shura murmurou, tenso, sentindo dor agora que era movido."

- "Ele está internado no hospital, Shura. Houve algo com ele." Kanon respondeu olhando para Milo que suspirou.

- "Ele foi atacado, Shura. Ele está bem, vai se recuperar, o que temos a fazer agora é cuidar de você. Eu vou na frente." Milo disparou seu cosmo em direção ao Santuário, fazendo anotações mentais para depois enviarem uma missão àquele local para descobrir o que seres do inferno queriam por ali. Invasão da terra lhe pareceu algo assustador. Só que, ao mesmo tempo, confiava na honradez do Kyoto de Wyvern.

Radamanthys era um monstro, mas era leal e honrado. Milo admirava-o em segredo.

- "Ele é mesmo impressionante." Shaka comentou movendo-se rápido como Milo e protegendo Kanon que carregava Shura.

Logo chegaram ao Santuário.

- "Ele quem?" Milo argüiu. Como se não já soubesse.

- "Não se faça de tonto. Radamanthys impressiona até um cubo de gelo."

- "Eu sei o quanto ele impressionou Camus, não precisa me lembrar." Milo suspirou, raivoso. No meikai... Tudo começara no meikai? Saga e Shura haviam se entendido melhor no meikai, Camus descobrira seu amor sem barreiras por Milo ao ver-se assediado pelo Kyoto de Wyvern, Shaka descobrira... Bem...

- "Não foi somente a Camus que ele impressionou." Shaka pigarreou ficando levemente vermelho e vendo o olhar curioso de Kanon se voltar para si. - "E, ora, deixemos de conversas e vamos deixar Shura na Fundação Graad. Ele precisa de algum tempo de repouso, e podemos também deixá-lo perto de Saga, um confortará o outro com seu cosmo. Experimente seu poder, Shura, vamos." O loiro indiano falou calmamente.

Shaka não conseguia deixar de observar Kanon. Fazia um tempo, desde que o geminiano se sacrificara para devolver a armadura de ouro ao irmão, que o cavaleiro mais próximo de Deus admirava a força moral do antes considerado traidor do Santuário.

Shura fez um esforço e sua energia potente se manifestou. Não completamente, mas era algo. - "Creio que ficarei bem logo. O Kyoto fez um bom trabalho nos meus..." Ficou sem palavras por segundos sentindo um arrepio na coluna e completou. - "Nos meus ossos."

- "E lhe deu idéias pervertidas também, pelo visto. Engano meu ou ele fez um bom trabalho foi nos seus hormônios?" Kanon gargalhou vendo Shura quase ter uma síncope com a insinuação. - "Não fique tão sem graça, ele faz isso com bastante freqüência, ajuda numa luta, pois o oponente só falta agarrar o Kyoto e engoli-lo." Um suspiro um tanto estranho de Kanon e Shaka ficou corado.

E sem graça. Engolir pareceu ao virginiano um verbo muito excitante...

- "Shaka, ler cosmos sempre foi um bom talento meu. Que tal ser menos óbvio?" Milo riu baixo se aproximando do indiano. - "Fale com ele."

- "Como?"

- "Milo, será que pode levar Shura para o quarto de Saga? Eu tenho que trocar umas palavras com Shaka." Kanon colocou o capricorniano no chão, vendo que ele já conseguia ficar ao menos em pé e deu-lhe um beijo na testa. - "Ele precisa de você. Cuide bem do meu irmão."

- "Obrigado, Kanon. E Milo e Shaka." Shura viu-se enlaçado na cintura por Milo e foi conduzido com cuidado até o quarto onde Saga ainda descansava.

Enquanto isso...

- "Não é apenas o Milo que lê os cosmos alheios com eficácia, Shaka." Olhos azuis contra olhos azuis. Kanon não era de subterfúgios. - "Sim ou não?"

- "Como é que é?" Shaka ficou ainda mais branco. Se fosse possível, teria sumido de lá... Na verdade era possível, apenas que não quis ir.

- "Vejamos, ficou com ciúmes do Kyoto, monitorou meu cosmo da hora que saímos até agora, não tira os olhos de mim e treme quando me aproximo. Ou você é louco ou está morto de tesão por minha causa." Kanon sequer sorria. Estava falando muito sério!

- "Isso é um jeito de ver as coisas." Shaka virou-se suspirando. - "Até logo, Kanon."

- "Do meu jeito então..."

Um terremoto. Foi como se Shaka de Virgem estivesse no meio de um terremoto. Uma maca, num quarto, um geminiano, um virginiano.

Shaka nem conseguiu saber o que o tinha derrubado. Até querer ser derrubado mais vezes...

oOoOoOoOoOoOo

- "Mas, o que houve com ele?" Shura agoniou-se vendo o belo corpo com roxos, arranhões e, ou muito se enganava, ou eram mordidas.

- "Andou por aí em todas as boates de Atena depois que você resolveu desaparecer, Shura." Shion surgiu do nada por trás dos cavaleiros no quarto. - "Controle o cosmo dele, ou eu terei que sedá-lo. Fale com ele."

- "Controlar o que?"

A voz de Shura pareceu ligar conexões estranhas no cosmo de Saga de Gêmeos. Shion suspirou ao ver a energia do cavaleiro loiro na cama se alterar em oscilações potentes.

- "Depois vocês falam do Kyoto e de Valentine. Eu vou te contar... Vocês deviam se tratar." Milo riu um pouco. - "Hey, Saga, adivinha quem eu trouxe." Milo não tinha medo do outro grego, respeitava o poder incomensurável dele, mas medo? Não.

Simplesmente porque Milo de Escorpião não temia ninguém.

Dois olhos bonitos cor de água que reflete o céu se abriram com alguma dificuldade e dedos se estenderam para Shura que não teve dúvidas e, mesmo sujo, ainda quebrado em vários lugares e sentindo dor, tomou aquela mão na sua. - "Estou aqui, Saga. Desculpe ter preocupado você."

After I have travelled so far

We'd set the fire to the third bar

We'd share each other like an island

Until exhausted, close our eyelids

And dreaming, pick up from

The last place we left off

Your soft skin is weeping

A joy you can't keep in

Depois de eu ter viajado tão longe

Nós acendemos o fogo ao terceiro grau

Nós nos compartilhamos como uma ilha

Até que exaustos, fechemos nossos olhos

E sonhando, continuamos desde

O último lugar em que paramos.

A sua pele macia está derramando

Uma alegria que você não consegue manter dentro de si.

- "Eles contaram?" Saga apertou um pouco mais os dedos ágeis de Shura e num reflexo, insuflou cosmo quente e poderoso no corpo do espanhol, fazendo-o gemer baixinho.

- "Quer parar, 'mamãe'? Só o de sempre, cortes, escoriações, ossos quebrados. Nem sei como ainda tenho esqueleto." O espanhol passou a outra mão pelos cabelos. - "Contaram o que?"

- "Acho que vamos deixá-los sozinhos. Não é mesmo, Milo?" Shion tocou o ombro do Cavaleiro da Nona Casa e saíram de lá discretamente.

- "O que houve, Saga?" Shura sentou-se na beirada da cama do namorado e fez-lhe carinho nos fios longos e um pouco embaralhados do outro.

- "Você precisa de tratamento, depois conversamos." Saga desviou o olhar do de Shura, envergonhado, o que só fez aumentar a curiosidade e preocupação de Shura.

No entanto, Capricórnio sabia que precisava, realmente, de cuidados. Pensou por momentos e apertou o botão chamando os enfermeiros. - "Eu vou voltar e você vai me contar, sem esconder nenhum detalhe."

Saga concordou. Seria uma conversa bem longa, mas tinham certeza que tudo ficaria bem. Estavam juntos, era o principal.

oOoOoOoOoOoOo

Música alta. Corpos balançando. Um inferninho como qualquer outro em Atenas. In da club. Não por acaso o mesmo clube onde Saga fora atacado.

Lá dentro, um homem de pronunciado sotaque inglês e ar alcoolizado chamava atenção nas perfeitas roupas que lhe caíam pelo corpo extremamente bem feito. Botas de cano curto, calça jeans escura e camisa solta de um tom entre azul e roxo.

Loiro, alto, com inexplicável olhar dourado. O homem parecia muito bêbado e chamou atenção de outros dois homens na pista de dança.

Sentado numa mesa mais ao canto, os fios longos e loiros cobertos com tintura para ficarem negros como ébano, os olhos azuis disfarçados com lentes verdes, o corpo masculino e bonito disfarçado com roupas pesadas, Kanon de Dragão Marinho observava a tudo com um sorriso maquiavélico no rosto.

Ao seu lado, Shura de Capricórnio bebericava ouzo sem demonstrar quase nenhuma emoção apesar do sangue quente fervendo nas veias ao ver os seres que haviam maculado Saga.

SEU SAGA!

O espanhol não deixou de perceber quando um dos homens despejou algo na bebida do loiro bonito que parecia muito distraído. Provavelmente doses absurdas da droga do estupro. Pensar naquilo deixava-o doente e a oscilação de cosmo fez o chão vibrar.

- "Você não devia ter vindo, não tem sangue frio o suficiente." Kanon falou baixo, enquanto observava os dois "animais" que haviam atacado seu irmão se acercarem de ninguém menos que do mais maléfico Kyoto do Inferno.

Antros de perdição não eram a sua especialidade, mas eram a "dele".

- "Meu marido vai fazê-los lembrar o local para onde almas decaídas devem ir." Valentine de Harpia sentou-se naquela mesa vestido para desordenar o mais imaculado dos corações. O corpo esguio metido em calças de couro verde escuro aderido a cada músculo perfeito. Uma blusa negra que parecia feita de água fluida agarrada ao peitoral definido. O protótipo do homossexual sedutor e "na guerra". Sem falar no jeito como andava, sem rebolar, mas mostrando ao mundo que tinha um jeito sensual.

E como tinha. Cabeças viravam para olhá-lo. Um ruivo de pronunciados olhos verdes cristalinos.

- "Não tinha outra roupa não? Está parecendo uma puta." Kanon reparou no espectro de Harpia. É... Radamanthys tinha bom gosto.

- "Salvo engano, eu ou Radamanthys deveríamos chamar a atenção. Cada um num estilo para ver qual os atraía mais e, pelo visto, foi o jeito menos óbvio de Wyvern. Não que eu goste de estar parecendo um qualquer. Não aprovo este tipo de roupa e nem gosto de parecer afeminado. Aliás, odeio." Valentine era masculino em tudo e por tudo e apenas aceitara aquele papel, que achava ridículo, por amor ao Kyoto.

- "Não se sinta mal. Acha que adorei tingir os cabelos e colocar lentes? Faço por meu irmão. E, ok, por Shura." Kanon bebeu mais um pouco de ouzo e viu quando Radamanthys arrastou aqueles dois para a pista de dança, esfregando-se neles de um jeito incrível. - "Por Atena..."

- "Não se atreva!" Valentine irritou-se fechou a cara.

- "Eu não fiz nada, apenas não sou cego e Radamanthys é interessante. Ou você não acha?" Kanon ficou imediatamente sério. Não era louco de irritar Harpia. Sem falar que já havia sentido um pequeno exército de serezinhos detestáveis ocultos. - "Precisava trazer essas... criaturas?"

- "Terão seu uso." Um meio sorriso de Valentine e Kanon sentiu o sangue gelar... Seres do inferno não costumavam ter piedade.

- "O show vai começar..." Shura falou ao ver Radamanthys ser beijado, apalpado, imprensado.

- "Eu pessoalmente darei cabo desses dois." Valentine observava seu marido aos beijos e amassos e sentia raiva insuportável. Por que tiveram que colaborar? Por que o Kyoto havia concordado? Então se lembrou que em outras oportunidades, Saga oferecera ajuda a Valentine num encontro difícil no Nepal. Sem falar que Kanon era, o cipriota admitia, um ótimo aliado e muito respeitador. Apesar de tudo, de toda a história, o irmão de Saga jamais se aproximara do Kyoto depois da luta no meikai.

oOoOoOoOoOoOoOo

Horas depois, muitas horas depois, no Santuário, Shura entrava na terceira casa com um grande suspiro. Subiu as escadas de mármore branco riscado por finos veios e caminhou até onde Saga estava adormecido. A imensa cama de casal. Observou-o por instantes antes de depositar um beijo leve em sua testa.

Havia sangue na roupa do espanhol, os gritos dos homens ecoavam em seus ouvidos.

Shura era abnegado defensor da justiça, mas poderia conviver com a imensa exceção que fizera em nome de seu amor por Saga.

O capricorniano novamente suspirou e pensou nos fatos da noite.

O Kyoto de Wyvern não tivera nenhuma piedade. Ver Valentine de Harpia usando sua armadura de garras afiadas fez Shura se dar conta de que aquele homem era um torturador hábil, vingativo, traiçoeiro e cruel.

Não sobraram sequer ossos daqueles homens. Nada. Todo traço terreno deles havia sido como que sugado para o inferno.

Aos poucos. Dedo por dedo. Mão por mão. Membro por membro.

Fatias finas de carne, pedaços de ossos. As almas deles gritando quase tanto quanto seus corpos. E não sendo ouvidas. A eles não seria permitido morrer senão quando o Kyoto quisesse. O loiro sabia manter suas vítimas vivas até que se satisfizesse.

Lune de Balron aparecera com ar soturno e mostrara a todos o quanto aqueles monstros já haviam violado corpos. Crianças, mulheres, homens, idosos. Não importava, a lista de dores que haviam causado era imensa.

- "S-Shura?" A voz grossa e sonolenta de Saga acordou o moreno dos devaneios.

- "Volte a dormir, amor. Está tudo certo, agora."

- "Onde esteve? Esperei você por muito tempo."

- "Apenas resolvendo um problema de comunicação."

- "De que tipo? A essa hora?"

- "Sei que parece estranho, mas foi de última hora." Shura foi retirando suas roupas e separando para destruir mais tarde. Não haveria resquício daquilo.

- "E qual era o problema de comunicação?" Saga soou ligeiramente irônico.

- "Dificuldades de entender o que seja honra, respeito e amor. Vou tomar banho, volte a dormir."

- "Juro que não entendi." Saga virou-se na cama, ainda cansado. As drogas levaram tempo para serem retiradas de seu corpo e seus ferimentos internos demoraram mais ainda para sarar completamente.

- "Nos entenderemos de outro jeito, depois." Shura falou carinhosamente e voltou para perto do namorado, beijando-o na boca.

- "Perdi o sono." Saga sorriu, amorosamente.

- "Eu também..." Shura suspirou e pensou por instantes. - "Quer tomar banho comigo? Na banheira?"

- "Romântico hoje? São quatro horas da manhã, Shura!"

- "Vamos começar bem o dia..."

FIM