Jigsaw
Disclaimer: Saint Seiya a Masami Kurumada e à Toei Animation; estou apenas usando a história por questões de entretenimento.
Observação: Esta fic é U.A. (universo alternativo). Os sobrenomes utilizados em vários personagens foram retirados da fic All Along the Watchtower , de autoria de latrodectism, com autorização expressa da mesma.
O conteúdo a ser visualizado é classificado como rating T devido a: violência, linguagem, insinuação sexual de casais tanto yaoi quanto het. Esta fic tem como casais principais Camus&Milo, Saga&Kanon, Shaka&Ikki e faz menções a diversos outros casais.
Capítulo 1: A porta de número 205
Patrulha Leste da Polícia de Wichita, Rua Edgemoor, Wichita – 15 de abril de 1973
Poeira. Poeira por todos os lados. Suspirou, derrotado.
Quando o capitão Aiolos havia lhe dito que aquele lugar andava meio esquecido, Milo havia imaginado apenas a ponta do iceberg do que realmente era a sala de evidências do Bureau de Homicídios. Com os olhos azuis, analisou tudo o que podia ver entre aquelas paredes cinzentas – que ele suspeitava, com receio, que um dia foram brancas. O que via eram caixas e mais caixas amontoadas de qualquer jeito em várias prateleiras de metal. Ele esperava que, quem quer tivesse empilhado aquelas caixas, tivesse tido o cuidado de fazer isso em ordem alfabética. Riu da própria esperança.
- Bem... A culpa é toda minha mesmo. - murmurou conformado após verificar que a única ordem em que as caixas foram empilhadas nas prateleiras era maiores embaixo, menores em cima. Os nomes e datas que ele lia não pareciam ter relação uns com os outros, alguns variando num espaço de até trinta anos.
Desfez o nó da gravata de sua farda. O verão de Wichita não devia em nada para o calor de sua cidade natal, Pátra. Na verdade, era possível que ele fosse ainda mais quente. Dentro daquela pequena sala, que não dispunha de nenhum ventilador funcionando, o calor fora fortemente intensificado. Criando coragem, decidiu começar pela prateleira que estava logo à frente da porta; se tivesse sorte, devido ao caso que estava procurando ser relativamente recente, encontraria por ali.
Havia sido transferido há pouco tempo para Wichita. Era estrangeiro e seu sotaque ainda desajeitado o denunciava rapidamente – na realidade, foi uma surpresa para ele a facilidade com que fora admitido na delegacia, apesar de ser ex-colega de Aiolia, um dos detetives locais. Saíra da Grécia com esperanças de encontrar um emprego em dois ou três meses, mas fora admitido na Patrulha Leste com apenas dez dias no país.
De repente, ao observar o amontoado de fichas policiais dentro de uma caixa que havia descido da prateleira, se lembrou da conversa que presenciara algumas horas antes - e o motivo de ele estar agora enfurnado na sala empoeirada.
- Acordou, você disse?
Milo levantou os olhos dos papéis que estavam em cima da sua mesa e olhou para a direção de onde ouvira a voz séria do capitão Karamanlis, até notar que havia um imenso homem à frente de Aiolos. Nunca havia o visto por ali. Abaixou sua caneca, preenchida com café pela metade, e perguntou-se se o homem havia pelo menos reparado na sua presença. Não parecia ser o caso.
Um olhar mais atento fez Milo perceber que o oficial que conversava com Aiolos trazia em seu quepe cinza-escuro, que ele segurava na mão esquerda, um brasão prateado com uma única estrela. Então, pensou o grego, ele era um inspetor ou alguém de um cargo semelhante. O que ele estaria fazendo numa sub-estação policial municipal? Mais importante, quem havia acordado? Aiolos não sorria, o que era raro, mesmo no trabalho.
Por fim, o homem loiro respondeu:
- Sim. Parece que foi ontem; o hospital ligou pra cá e Aiolia atendeu. Infelizmente parece que ele não pode receber visitas ainda, nem mesmo da polícia.
Aiolos nem esperou-o terminar de falar.
- E eu duvido que 'Olia tenha aceitado isso. - Aiolos imediatamente comentou, o tom de quem já perdera a paciência tantas vezes que parecia ter se esquecido de fazê-lo. Aldebaran deu um sorriso de canto de boca antes de continuar.
- Exato. Indo direto ao ponto, acho que devemos um pedido de desculpas para a recepcionista do... - e retirou um papel do bolso enorme do sobretudo, lendo o que estava escrito nele - ...Centro Hospitalar Meadowlark, o que é administrado por aquele japonês milionário, sabe qual é? - o capitão assentiu com a cabeça – Pois é. O número do ramal e o nome da moça estão aqui. - deu o papel para Aiolos. - Ah, peça desculpas pra mãe dela também.
Aiolos conteu um sorriso inapropriado ao momento. Aldebaran fingiu não ter visto.
Milo ouvia a tudo atento; não duvidava nada que o esquentado colega de trabalho tivesse xingado a mãe de uma pobre recepcionista de hospital que nada tinha a ver com o trabalho deles. Por outro lado, o Karamanlis mais novo devia estar realmente interessado em conversar com quem quer que tivesse "acordado". Conjecturou as possibilidades: um criminoso? Uma vítima? Um devedor?
Por fim, apenas levantou a caneca à boca novamente, considerando internamente se estava ou não sendo muito intrometido ao ouvir a conversa de dois superiores seus.
- Esse Aiolia... Eu juro, já disse várias vezes pra ele aprender a pensar no que ele vai falar. Talvez eu deva puní-lo fazendo-o procurar o arquivo desse caso lá na sala das evidências. - o Karamanlis mais velho falou, derrotado.
A risada de Aldebaran saiu alta e despreocupada.
- O garoto provavelmente vai pedir arrego na hora! Aliás, falando em garotos... - nesse momento, Aldebaran, que parecia ignorar completamente a presença de Milo até então, virou-se para a mesa em que o loiro estava sentado assistindo a toda a conversa. - Quem é o sangue novo aqui, Aiolos? Você ainda não nos apresentou.
Milo foi pego de surpresa. Aiolos olhou-o, parecendo um pouco encabulado também por ter deixado de lado as apresentações.
- Eu sei, grosseria de minha parte. Perdoe-me, quando Shura tira licença eu fico um tanto desmemoriado. - e sorriu condescendente – Aldebaran, nosso detetive Milo Kokinos, transferido da Grécia mês passado. Kokinos, esse é o inspetor Aldebaran Rocha de Kansas City.
- 'Orra... Mais um grego, é? Vamos ter que rever a nacionalidade desse lugar pelo visto. - Aldebaran comentou, ainda sorrindo.
O grego recém-chegado levantou-se de seu assento para cumprimentar adequadamente seu superior, mas Aldebaran ergueu a mão, como se mandasse-o parar.
- Por favor, sem formalidades. Pelo menos não aqui dentro dessa delegacia. - o inspetor falou, sorrindo, e Milo assentiu com a cabeça, ainda meio sem saber o que fazer naquela situação. - Não é por nada não, mas é que eu comecei aqui em Wichita, sabia? Fui cadete, policial, detetive... E algumas coisas eu gostaria que não mudassem.
- Como o senh... - Aldebaran ergueu a sobrancelha. - Como quiser. Desculpe, falta de costume. - o inspetor ao ouvir isto soltou algumas risadas e Milo sentiu que não seria muito difícil deixar as formalidades de lado com Adebaran.
Decidiu expressar sua curiosidade.
- Com licença, eu estava ouvindo a conversa de vocês... - seus superiores apenas esperaram que ele terminasse, logo, não estivera sendo inconveniente. Prosseguiu. - Quem acordou? Foi algum policial?
Fora apenas um palpite às escuras; Milo sabia que provavelmente não se tratava de um policial, pela seriedade com que o assunto estava sendo discutido.
Como se confirmando suas suspeitas, a expressão de Aiolos fechou-se na hora, e Milo sentiu-se engolindo em seco. Ele já havia visto seu capitão sério, mas havia algo a mais naquela expressão do grego mais velho, embora não soubesse o quê exatamente. O inspetor Aldebaran, por outro lado, não mudou de expressão, seu rosto inalteradamente calmo.
Ao invés de Aiolos responder à pergunta do detetive, quem se pronunciou foi Aldebaran:
- Não, Kokinos, na verdade se trata de um civil. Uma possível testemunha.
Milo continuou observando o inspetor falar, seus olhos azuis atentos como forma de demonstrar que ele estava prestando atenção. Aldebaran prosseguiu.
- Você ouviu falar no caso do Massacre de Lincoln Park? - o inspetor perguntou, sentando-se numa cadeira entre a mesa de Aiolos e a de Milo de forma a se acomodar melhor.
- O dos executivos? - foi a resposta de Milo. Conhecia o caso de comentários entre os outros oficiais, mas não sabia muito dos detalhes. - Então aquela tal provável testemunha que encontraram perto do local do crime finalmente saiu do coma?
Aldebaran assentiu com a cabeça e não sorria dessa vez. Aiolos, então, levantou-se de repente de onde estivera sentado ininterruptamente durante a manhã toda e caminhou até a janela da sala do Departamento de Homicídios; era uma sala ampla e bastante ventilada, mas agora ele sentia que algo estava o sufocando. Milo estranhou um pouco a ação inusitada. Mas, se o inspetor Aldebaran havia estranhado alguma coisa, não comentou.
Ao invés disso, voltou a fala sobre o caso de Lincoln Park.
- Sim, esse caso é de uns quatro meses antes de você chegar. Tivemos cinco óbitos neste dia e alguns suspeitos primários, mas não tínhamos provas, então tivemos que soltá-los.
- E você acha que o homem que foi encontrado naquele dia vai ter as provas? - Milo perguntou, genuinamente curioso.
- Eu acredito nisso. Seria bom para todos se conseguíssemos pôr um fim nesse caso.
O inspetor olhou fixamente para Aiolos enquanto dizia isso, e Milo compreendeu imediatamente que 'todos' que Aldebaran se referia na realidade era um homem especificamente. O capitão continuava de pé ao lado da mesma janela, mas dessa vez parecia menos ausente. Se virou para os dois com um meio sorriso e respirou fundo para começar a falar o que estivera pensando consigo.
- Detetive Kokinos, eu era o encarregado do caso de Lincoln Park. - explicou o capitão. - Eu mesmo interroguei, um por um, aqueles homens que foram considerados suspeitos.
Deu uma pausa. Suspirou. Continuou sua fala.
- Se tem algo que me frustra até hoje foi não ter conseguido identificar o culpado naquele dia. Talvez, se eu tivesse feito as perguntas certas... Se eu tivesse prestado um pouco mais de atenção...
Ambos os oficiais presentes na sala com Aiolos sabiam que o melhor a fazer era não falar nada, apenas escutar o desabafo do capitão da patrulha leste, que voltou para a cadeira em que estivera sentado anteriormente, os olhos fixos em algum ponto do chão enquanto ele falava.
- Nesses últimos cinco meses, não tem um dia que eu não lembre da cena que eu vi naquela manhã. Detetive Kokinos, eu assumo que você ouviu falar do estado em que encontramos os corpos?
Milo assentiu com a cabeça. Aiolos, então, continuou a falar.
- Nunca vi cena de crime mais perversa do que aquela. Quem quer que seja o assassino, ele não simplesmente matou aquelas vítimas; ele brincou com elas.
Assim, o capitão concluiu seus comentários. Ninguém falou nada por alguns segundos até Aldebaran decidir quebrar o gelo.
- Então... quem é mesmo que vai buscar o arquivo do caso lá na sala de evidências?
E fora aí que Milo decidira se oferecer para a tarefa a fim de ser de alguma ajuda para o caso do qual não participara. Sinceramente? Estava muito arrependido.
O lugar parecia que só era visitado para se jogar algumas caixas e sair. Como ninguém nunca passava mais de cinco minutos naquela sala, ela não possuía mesas ou cadeiras, então Milo tinha de sentar no chão para vasculhar dentro das caixas. Já pela quarta caixa que escolhera, no meio das muitas opções, viu que finalmente parecia ter dado sorte: a maioria das fichas que estava lendo datava do final de 1972, justamente o período em que estava interessado. Agradeceu silenciosamente aos deuses por isso enquanto olhava os nomes, buscando algum que batesse com um dos cinco nomes que Aldebaran e Aiolos haviam lhe entregado.
Encontrou finalmente a caixa com os nomes que procurava, lendo-os um por um para si mesmo.
Misty Lézard. Asterion Larsen. Moses Wenham. Babel Al Hafeez. Algol Habboub.
Os cinco haviam perdido suas vidas na mesma noite. Os cinco até então trabalhavam em postos-chave da extinta Silver Line – Misty sendo o herdeiro e presidente –, que alguns meses atrás fora referência mundial em construção aérea.
- Os cinco estavam hospedados na mesma pousada que seus arqui-rivais comerciais. - Milo pensou em voz alta.
Esse fora um dos comentários mais frequentes na delegacia; ainda quatro meses depois do incidente, era corriqueiro que os oficiais se lembrassem de Lincoln Park. Fora assim que Milo ficara sabendo do caso, em primeiro lugar. Aiolia provavelmente havia lhe contado a história umas seis vezes naquele mesmo mês. Dizia que era muito óbvio que os chefões da Dimensium haviam apagado Misty, que não acreditava que não haviam encontrado uma única prova no lugar, que talvez devessem ter recorrido à força bruta na hora dos interrogatórios.
Nesses momentos em especial, ele se lembrava do Aiolia que conheceu ainda moleque, em Pátra. Algumas coisas permaneciam as mesmas – inclusive, infelizmente, a impulsividade de seu amigo.
Percebeu que estava divagando quando olhou o relógio na parede à sua frente; os ponteiros marcavam exatas seis e meia. Já estava naquela sala há pelo menos duas horas e seu turno terminaria em breve. Apressou-se em recolher a ficha do caso e colocar a caixa de onde a retirara em seu devido lugar – se é que algo naquela sala tinha um lugar definido. Recolheu seu paletó, que jogara em algum canto da sala e abriu a porta, aliviado quando sentiu uma brisa batendo em seu rosto.
Saiu da sala de evidências, deparando-se imediatamente com Aiolia, que se ocupava em encher uma caneca com café no meio do corredor. Sorriu para o amigo, caminhando em sua direção.
- Ei, 'Olia! Soube que você andou xingando umas recepcionistas por aí.
Aiolia fez uma careta que indicava que ele já ouvira aquele comentário vezes o suficiente naquele dia. O que significava, percebeu Milo, que ele já estava severamente arrependido – e que Aiolos já havia lhe passado um carão digno.
- Cala a boca, Milo. - e olhou para seu colega, confuso, a expressão de raiva desaparecendo. - Ué? Acho que é a primeira vez que tu não tá vestindo teu uniforme todo certinho.
Milo olhou para si mesmo e constatou que, realmente, Aiolia estava certo. Seu geralmente impecável uniforme estava um pouco amassado e provavelmente um tanto quanto empoeirado de ficar sentando no chão. A camisa branca tinha várias manchas de suor, o paletó estava pendurado no braço esquerdo e a gravata estava desfeita. Torceu o nariz para o caos em que se encontrava, mas decidiu que isso não era importante no momento. Saindo dali de onde falava com Aiolia, iria apenas entregar o caso na mesa de Aiolos e ir embora para seu apartamento o mais rápido possível.
- É, deve ser. - e lembrou que Aiolia era irmão de Aiolos, afinal. Não precisaria se locomover toda a estação até a sala do capitão, que era do outro lado do prédio. - Ei, 'Olia, tu podes entregar isso pro teu irmão? Ele pediu pra eu localizar essa ficha lá na sala de evidências. - e estendeu a ficha para o outro grego.
Aiolia leu a ficha, mas não a pegou da mão de Milo. Ao invés disso, apenas perguntou:
- É do caso Lincoln Park?
- Sim. - Milo respondeu, meio impaciente de ter que ficar segurando a ficha e um tanto quanto ansioso por um banho.
- Então fica com ela. - Aiolia falou, deixando sua caneca, agora sem café, no balcão. Milo franziu o cenho. - Meu irmão te botou na chefia do caso. - explicou, sem rodeios. - Ele disse pra eu te avisar isso, por que amanhã mesmo vamos ao Meadowlark.
Milo não disse nada, apenas ficou olhando para Aiolia, boquiaberto. Definitivamente, não estava esperando por isso.
- Então, chefinho, oito e meia lá no Meadowlark. - Aiolia falou, iniciando a caminhada para cumprir seu turno. Virou-se para Milo antes de pegar o corredor oposto ao da saída - Não se atrasa, ok?
E, sorrindo, Aiolia saiu das vistas de Milo, que apenas ficou observando a ficha em suas mãos; um caso que ouvira falar um mês inteiro e que agora era o encarregado principal. Pensou consigo mesmo se era só impressão sua ou suas costas realmente estavam mais pesadas.
Sede da Dimensium Aicraft, 127ª Rua, Wichita – mesmo dia, mais tarde
Tudo o que Camus desejava agora era um banho. Tivera um dia cheio; na reunião anterior, Saga finalmente conseguira fechar contrato com o que havia restado da presidência da Silver Line e eles agora detinham todas as ações que um dia foram de Misty. Todos os departamentos da Dimensium entraram num feriado auto-proclamado, passando o dia festejando pelo grande contrato que agora os colocava na ponta do mercado aéreo nacional.
Todos os departamentos menos um.
Aparentemente, cada um daqueles contratos que Saga havia feito os acionistas assinarem precisava da rubrica do chefe do departamento de Recursos Humanos. No caso, Camus.
O francês jurou pra si mesmo que se fosse obrigado a escrever Camus Albert novamente, jogaria sua mesa pela janela do sétimo andar. Foram centenas de contratos assinados, pelo menos três por acionista. A Silver Line havia sido realmente uma grande empresa – muito embora agora fosse apenas, para Camus, uma grande encheção de saco.
Não que ele não tivesse sido beneficiado com a compra; na realidade, podia-se dizer que toda a Dimensium havia lucrado imensamente com aquele contrato – talvez mais até do que Camus imaginava. Não seria um simples contrato normal que faria Kanon ficar cantarolando durante boa parte do dia, ou Afrodite despertar de sua apatia quase permanente para cumprimentar os membros de Recursos Humanos – que nunca haviam recebido sequer um 'bom dia' do chefe do departamento ao lado. Definitivamente as ações da Silver Line eram bastante valiosas.
Olhou cansado para a última pilha de papéis que não estava assinada; poderia até deixar esses para o dia seguinte, mas seu maldito senso de responsabilidade o mandava concluir logo essa tarefa. Sabia que não iria relaxar enquanto não se visse livre daquilo; com um suspiro, pegou a folha que estava no topo da pilha.
Passos foram ouvidos do corredor que dava para sua sala, despertando-o de suas divagações. Continuou fixo em seus papéis até ouvir o som da pesada maçaneta sendo girada, fazendo um barulhinho característico ao qual Camus já estava bem habituado.
- Oh? Ainda aqui, Camus? - seu visitante disse, surpreso.
O ruivo levantou seu rosto para encarar um homem loiro que era, afinal, a razão de ele estar ali até aquela hora. Uma pessoa normal demoraria para diferi-lo de seu irmão idêntico, mas Camus geralmente acertava identificá-lo com facilidade; ao contrário de Kanon, que provavelmente teria entrado rindo e o chamando de workaholic sem vida social, Saga pareceu ter aprendido bem o conceito de educação e 'não cutuque o francês estressado'.
- É, - respondeu Camus, voltando sua atenção para os papéis novamente – ainda estou por aqui. Digamos que estou tendo um tempo difícil com toda essa papelada.
Saga lhe lançou um olhar solidário.
- Sinto muito, parece que é obrigatória essa burocracia toda. Mas achei que você ia pedir pro Jabu ou pro Ichi assinarem por você. - o grego comentou enquanto olhava para as demais mesas do departamento de Recursos Humanos, atualmente vazias, seus ocupantes habituais já tendo ido embora há um bom tempo.
De fato, poderia ter pedido para seus subordinados assinarem a papelada toda – exceto que isso implicaria neles forjarem sua rubrica. Camus começava a ficar com raiva de si mesmo. Podia ser menos ético; a essa hora, já estaria em sua casa, sem precisar se preocupar com pilhas de papéis e o nome 'Camus Albert' em cima de uma maldita linha.
- Infelizmente, aqui diz 'chefe de departamento de Recursos Humanos'. - falou, o dedo apontando para o papel que acabara de assinar - Esses documentos foram muito eficazes em se dirigirem a mim; não consigo delegar aos outros uma tarefa que claramente é minha.
Saga começou a rir baixinho e Camus se perguntou se havia dito algo engraçado. Decidiu ignorar isso e perguntar logo algo que estava o incomodando desde que vira o presidente à sua porta.
- Saga, o que você faz aqui? - foi direto ao ponto. - Não é por nada, mas eu não acho que você tenha vindo aqui só para jogar conversa fora.
- Astuto como sempre. - o presidente da Dimensium sorriu com o canto da boca, mas o sorriso desapareceu tão rápido quanto surgiu. - Na verdade, tem algo que eu gostaria de lhe contar. Fiquei sabendo só hoje, mas achei que você gostaria de ser deixado a par dos fatos.
Nesse momento, Camus terminava de assinar o penúltimo papel, mas esqueceu a caneta e a folha em um canto da mesa para poder prestar atenção no que Saga iria falar.
- Então conte; afinal, o que aconteceu de tão importante que você desceu dois andares para vir me ver? - disse, interessado em saber o que incomodava o grego àquele horário.
Saga observou toda a sala de cima a baixo. Parecia distraído, mas Camus sabia que ele estava apenas tentando organizar os pensamentos.
- Um amigo meu que trabalha no hospital Meadowlark me ligou hoje de tarde.
Camus aguardou o resto da fala de Saga em silêncio. O grego continuou:
- Você se lembra do homem que a gente salvou naquele dia?
O tom de Saga não dava margens a interpretações dúbias; ele estava se referindo ao maldito dezessete de dezembro do ano anterior. O dia de Lincoln Park. Algumas memórias voltavam à mente de Camus, envolvendo cinzas, Kanon desmaiado, papéis voando em várias direções e um livro picotado no chão.
- Como esquecer disso, não é? Lembro, lembro, um loiro do cabelo comprido, não? - e então Camus lembrou-se do estado semimorto em que o encontraram naquela noite. - Alguma novidade do estado de saúde dele?
A expressão de Saga lhe dizia que fora exatamente isso o que ele viera discutir.
- Parece que ele acordou. Shion não soube dizer muito bem como está o quadro dele, mas acha que está fora de risco. - o tom do grego era monótono mas Camus sabia que ele estava apenas tentando parecer completamente calmo; ainda não dissera tudo o que queria.
Mais silêncio. Camus olhou com o canto dos olhos para a pilha terminada de assinaturas em cima de sua mesa; lembrou rapidamente que elas se destinavam a comprar a Silver Line.
A empresa de Misty e de todos aqueles homens assassinados.
- Camus, quero só lhe avisar... Com a testemunha acordada, pode ser que eles reativem o caso. Na verdade... - disse, dirigindo-se à porta da sala de Camus – ...tenho certeza que irão reativar. Só fique atento que ainda essa semana deverão nos chamar para depor.
O francês optou por não perguntar de onde Saga tirava essa certeza; sabia que o grego tinha lá suas conexões. De repente, entendeu o porquê de Saga ter vindo justamente ao departamento de Recursos Humanos.
- Certo, já entendi. - disse, pegando sua agenda de dentro de uma gaveta em sua escrivaninha. - Vou deixar o Amamiya em alerta para caso precisemos dele essa semana.
Saga sorriu, agradecido.
- Hoje está tarde, mas acho que não seria ruim se você conseguisse entrar em contato com ele amanhã mesmo para agendar uma reunião. - e Saga completou, antes de fechar a porta: - Quanto mais cedo, melhor. Não estou com um bom pressentimento.
O barulho da porta se fechando foi o único som audível no escritório por um bom tempo. Camus refletia sobre o que Saga lhe falara; o homem ensanguentado daquele dia finalmente acordara de um coma profundo. A chave do mistério que o andara assombrando por cinco meses.
Pegou a última folha da imensa pilha que assinara durante o dia e escreveu seu nome em velocidade recorde; feito isso, juntou todos os papéis em duas pilhas grandes e as colocou sobre a mesa de Jabu. Agora era só entregar esses papéis ao banco e a Dimensium seria a nova dona da Silver Line Aerial Building. Segurou um bocejo; o sono e o cansaço já estavam consumindo-o, mas ele teria ainda quinze minutos dirigindo até sua casa, em Oaklawn [1],
Apanhou o paletó, jogou a agenda de contatos de qualquer jeito em sua pasta e abriu a porta para sair. Olhou de relance para o logo azul e branco da Dimensium no topo da porta, a conversa que tivera com Saga dez minutos atrás ainda fresca em sua memória.
Deu de ombros. Fechou a porta e girou a chave duas vezes para trancá-la; após fazer isso, caminhou em direção ao elevador que o levaria até o subsolo, onde seu Caronet sedã cinza o aguardava. Apertou o botão preto que chamava o elevador e aguardou pacientemente ele deslocar-se do nono andar até o sétimo, onde ele estava. Quando as portas metálicas se abriram, constatou com surpresa que não era o único ainda na Dimensium.
A surpresa maior era quem estava ali ainda, às dez e meia da noite de um domingo.
- Não esperava ver logo você por aqui tão tarde, G...
Não terminou a frase.
- Ah, cala a boca. De vez em quando eu trabalho. - Máscara da Morte o interrompeu; Camus decidiu ignorar a grosseria; já era algo corriqueiro vindo do italiano. - Saga me mandou terminar de elaborar o plano mensal do departamento Financeiro pra hoje. 'Inda agora ele tava lá, fungando no meu cangote e reclamando. Tem hora que não sei quem é mais medonho, se é ele ou aquela tentativa de ser humano que ele chama de irmão.
O francês apenas ouvia calado seu colega reclamar, mas a lembrança do nome de Saga o alertava o tempo todo para o aviso que recebera alguns minutos antes. Lembrou-se que o italiano também era um suspeito e decidiu que seria prudente avisá-lo.
- Saga falou com você sobre a ligação que ele recebeu do hospital hoje?
Apesar do italiano não ter demonstrado claramente, Camus percebeu pelo sorriso que se levantava no canto da boca de Máscara da Morte que, sim, ele sabia do que se tratava.
- Sobre o cara que ele e o Dite acharam naquele dia? Falou. Diz que tá preocupado com a polícia vindo atrás da gente, imagem da empresa e um blablabla enorme. - o chefe do departamento financeiro da Dimensium soltou um imenso bocejo. Não pediu desculpas, apenas continuou a falar. - Nem ouvi direito. Se quer saber, eu duvido muito que os policiais vão continuar naquele caso. Já tem o quê, seis meses?
- Cinco. - Camus o corrigiu rapidamente.
- Pois é, isso aí. Eles devem ter coisa mais importante pra fazer do que ficar enchendo a paciência de alguns executivos. E sobre a imagem da empresa... - sorriu, a malícia muito evidente em seu rosto. – Eu achei que aquele caso até que nos ajudou, se quer saber.
- O que te faz pensar isso? - o francês não conseguia acompanhar a lógica de Máscara da Morte; algumas vezes Camus se perguntava se ele realmente passara no teste psicotécnico da empresa ou se chantageara o médico.
- Ora, mio caro, a lei desse mundo é a sobrevivência do mais forte. Você acha que a nossa concorrência vai ousar se meter no nosso caminho agora? - o italiano sacudia a cabeça veementemente, um sorriso imenso mostrando todos os dentes perfeitamente brancos - Não, porque eles nos vêem como fortes. Acho até bom eles pensarem que fomos nós que matamos aquele veadinho do Misty.
Camus respirou realmente aliviado quando viu o ponteiro do elevador apontar para o subsolo. O rumo daquela conversa estava começando a deixá-lo realmente desconfortável. Ao abrir das portas metálicas, se apressou em sair do elevador como se de repente tivesse sido acometido por um sentimento de claustrofobia. O italiano saiu calmamente logo atrás dele, não parecendo perceber que estava afugentando o colega de trabalho.
Honestamente, Camus trabalhava com Máscara da Morte há pelo menos dois anos. Sabia que o homem não era bem o sociopata que aparentava, mas de vez em quando sentia que seu apelido sinistro tinha um quê de ser.
- Bem, boa noite. - ele disse, virando-se para o italiano, que já havia lhe dado as costas e se dirigia para o Monaco azul estacionado do lado oposto do subsolo, um dos únicos dois carros ali presentes, o outro sendo o Caronet [2] de Camus.
Máscara da Morte apenas levantou o braço direito, sacudindo a mão num sinal de que ouvira o francês e aquele era o boa noite dele. Camus abriu a porta de seu carro, jogou sua pasta e seu paletó no banco do carona e começou a dirigir com direção a Oaklawn, bastante ansioso por chegar em casa.
Só pela metade do caminho é que Camus foi perceber que Máscara da Morte havia descido do nono andar, onde só havia a sala do presidente e nada mais.
Centro Hospitalar Meadowlark, Rua St. Oliver, Wichita – 16 de abril de 1973
Milo consultou pela quinta vez seu relógio de pulso: oito e quarenta e cinco. Aiolia estava atrasado – logo ele, que o pedira para ser pontual! Respirou pesadamente, controlando-se para não se estressar tão cedo pela manhã.
Se encostou no seu Chevy Monte Carlo [3] vermelho – primeira aquisição que fez quando chegou na América. Com a mão direita, massageou um ombro tenso; sentia dores nas costas desde o dia anterior, provavelmente efeito de ficar duas horas sentado de mau jeito no chão. Ao se lembrar da tarde que passara na sala de evidências, olhou a ficha policial que trazia na mão.
Passara a noite lendo aquela ficha e provavelmente sabia tudo o que estava escrito nela de cor e salteado. Leu as transcrições dos depoimentos, tinha os dados completos de cada um dos suspeitos e várias fotos do local do crime. Contudo, havia algo que estava faltando.
Os dados da testemunha, e, principalmente, seu depoimento.
Foi interrompido de seu transe por uma voz chamando seu nome à distância. Virou-se para ver Aiolia do outro lado da St. Oliver, um buquê de rosas amarelas chamando sua atenção. Franziu o cenho; aquela cena bizarra de um homenzarrão gritando por ele com flores nas mãos estava começando a dar na vista. Quando o detetive veterano conseguiu atravessar a rua e se direcionar até onde ele estava parado com seu Chevy, Milo foi rápido em comentar.
- Flores, 'Olia? Não sei se você reparou, mas, apesar da foto deixar dúvidas, tem 'masculino' escrito ao lado do nome do tal de Shaka. - disse, uma risadinha maldosa nos lábios.
Aiolia apenas deu de ombros.
- Você logo vai entender. Agora vamos entrando, já deixamos eles esperando tempo demais.
Milo pensou em argumentar que fora Aiolia quem deixara todos esperando, mas resolveu simplesmente ignorar o assunto por enquanto. Estava mais interessado em ouvir o que Shaka teria a dizer para eles sobre o caso de Lincoln Park. Sentiu um frio na barriga e percebeu que já estava nervoso; era a primeira investigação que ele liderava desde que chegara em Wichita.
Subiram as escadarias que davam para o Hall principal do Meadowlark, e Milo teve que parar para admirar a arquitetura do lugar; tinham muitas referências gregas naquelas colunas e nos detalhes das paredes. Bastante incomum para um hospital. Lembrou-se que o lugar fora construído por um japonês e toda aquela informação fez menos sentido ainda.
- A recepção fica logo ali. - o jovem Karamanlis apontou, chamando sua atenção para o balcão onde três moças estavam sentadas.
Milo lembrou-se da recepcionista com que Aiolia falara ao telefone, que provavelmente estaria pouco satisfeita em vê-los ali hoje.
- 'Olia, qual delas é a que você xingou? - perguntou, curioso pra saber o rosto da pobre moça que fora ofendida gratuitamente.
Aiolia fez uma careta, pelo visto irritado consigo mesmo pelo acontecido.
- Aquela do meio. - disse, antes de continuar a falar, num tom de derrota. - E sim, eu sou o maior idiota.
E ele era mesmo. A jovem ruiva sentada no meio do balcão era um espetáculo de mulher; linda, corpo bonito e cara de quem sabia diferenciar estalagmites de estalactites. Leu o nome escrito no papel que Aldebaran havia dado a Aiolia; então, o nome dela era Marin.
Agora sim, pensou Milo, ele entendia o por quê de Aiolia estar arrependido. Por que ele estava arrependido, mas duvidava que fosse realmente por que o esquentadinho achava que sua conduta estava errada. Aiolia era orgulhoso e raramente admitia que estava errado assim, facilmente. Mas o buquê de rosas amarelas estava ali por um motivo.
- Bem, você vai na frente. Tente não xingar a avó dela enquanto pede desculpas. - Milo disse, rindo, enquanto procurava naquele enorme hall um lugar para se sentar.
- Vá se foder. - mas apesar da aparente irritação na voz, Aiolia sorriu.
Milo observou o amigo se afastar, desviando seu olhar assim que Aiolia alcançou o balcão. Passou então a rastrear o local com seus olhos azuis, procurando algo que fosse anormal naquela manhã de segunda-feira. Nada parecia fora do lugar; as pessoas pareciam até mesmo alegres, se é que isso era possível num hospital. Sentou-se numa fileira de cadeiras encostadas na parede do Hall e apenas ficou observando o movimento, sem prestar real atenção em nada ou ninguém.
Detestava hospitais. Desde mais novo, ainda em Pátra, ele se sentia pra baixo quando entrava em um. Tinha certeza que a única coisa que o impedia de estar com a velha sensação de agonia era aquele imenso nervosismo com o caso que tinha em mãos. Olhou em volta, como se esperasse ver a qualquer momento um homem loiro chamado Shaka andando pelo hall do Meadowlark e percebeu que era um pensamento bastante estúpido. Se o cara estava em coma há cinco meses praticamente, não conseguiria nem andar direito.
Novos cabelos ruivos o chamaram de volta para a Terra.
Milo pensou que pertencessem a uma outra mulher, apesar de curtos, por que o rosto fino que eles emolduravam tinha traços bastante delicados, nórdicos até. Mas o corpo... O corpo era de homem. Um homem muito imponente, que se dirigia até a saída do Meadowlark, o terno cinza impecavelmente passado, a gravata listrada em seu devido lugar, mesmo sendo verão e Wichita enfrentando temperaturas de quase quarenta graus.
Os olhos castanhos do ruivo encontraram com os azuis de Milo. O policial, percebendo isso, imediatamente esboçou um sorriso. O ruivo não sorriu, apenas virou o rosto e caminhou até o estacionamento do hospital.
- Mas que sujeitinho mal educado. - Milo cochichou para si mesmo, um tanto quanto contrariado. Checou seu próprio vestuário; trabalhava à paisana naquele dia, mas sua camisa social branca estava adequadamente enfiada dentro da calça de alfaiataria preta. Seus cabelos loiros e curtos haviam sido lavados naquela manhã e estavam bem penteados. Concluiu que o problema não era sua aparência.
Não era exibido, mas sabia que era bonito. Ou pelo menos dentro do padrão. Mas antes que se aprofundasse nessa linha de pensamento, notou Aiolia sacudindo um braço, uma mensagem silenciosa sendo passada para o amigo com os olhos.
Missão solo quase cumprida, vamos à missão coletiva!
Milo suspirou, observando a cena; Aiolia parecia estar indo bem, mas a expressão um tanto quanto contrariada da recepcionista ruiva indicava que ele já estava saturando-a. Com mais atenção, viu que ela havia deixado o buquê de rosas amarelas ao seu lado no balcão, e sorriu por pelo menos uma vitória do amigo.
- Que é, 'Olia? - falou, mais interessado se o amigo havia afinal conseguido convencer a moça a deixá-los falar com Shaka.
- A senhorita Marin disse que a gente pode subir...
- Não quero meu nome envolvido nisso, tá me ouvindo, senhor Aiolia? - Marin o interrompeu, nervosa, imaginando se mais alguém havia os ouvido.
- ...desde que a gente fale primeiro com um tal de Doutor Stavros, da psiquiatria. - continuou Aiolia, como se nunca tivesse sido interrompido. - Não se preocupe, senhorita Marin, que eu cuido direitinho disso.
Milo conteve a vontade de rir, vendo Aiolia todo pomposo jogando charme pra cima da recepcionista. Pelo menos parecia estar funcionando, ainda que levemente; Marin não havia jogado nenhum objeto no grego, o que provavelmente significava que ela estava um pouco tocada pelas flores e pelo pedido de desculpas.
- Muito bem, Stavros, é? - ele disse, fazendo anotações mentais para decorar o nome do homem a quem deviam procurar. - Marin, muito obrigado, nem sei como lhe agradecer. - Milo falou, vendo, então, a recepcionista ficar bastante encabulada.
- Não há de quê. - ela disse curtamente, voltando ao seu trabalho na recepção após indicá-los o elevador, onde eles deveriam seguir para o segundo andar do hospital. - Falem com o doutor Mu Stavros; se pedirem informações irão chegar facilmente até ele. - foi o que dissera antes de se virar para um senhor que perguntava por um pneumologista.
- Ei, falo contigo mais tarde, tá bom? - Aiolia gritou para a recepcionista, já quase dentro do elevador, e Milo novamente teve de conter o riso quando ela não respondeu nada.
- Não vou comer nada agora, não adianta.
Um homem loiro negava o prato de comida que fora colocado ao seu lado direito, embora seu rosto estivesse voltado para a esquerda. Os olhos, semicerrados, escondiam orbes azuis que estavam agora inutilizadas. Ikki suspirou, impaciente; Shaka era um homem de personalidade difícil. Havia alguns momentos em que o enfermeiro chegava a desejar que ele voltasse ao coma em que estivera nos últimos meses.
Pelo menos, pensou o residente, ele ficava calado e não podia dizer 'não' pro soro.
- Deixe de ser tão fresco, ordens são ordens. - Ikki disse, uma veia saltando em sua têmpora. Ele já não era muito paciente normalmente; o fato daquela ser a quinta vez em dois dias que Shaka fazia aquela cena o deixava ainda mais irritado.
- Ordens de quem? Alguém está mandando você ser minha babá? - o loiro reclamou, o tom dizendo com todas as letras "me erra".
Ikki contou mentalmente até cinco, que era o máximo que ele conseguia exercer sua paciência.
- Infelizmente, sim; tem gente me mandando ser sua babá, e olha que esse nem é o meu emprego. - disse, olhando resignado para o prato intocado e o homem rabugento que estava sentado no leito hospitalar. - E eu estou por um fio de dizer exatamente isso pro meu chefe e ser automaticamente demitido, então, pela sua santa mãe que te pariu e pelo meu emprego, come essa porcaria.
Shaka não havia digerido muito do que Ikki dissera, mas a última parte, aparentemente, havia lhe feito refletir; infelizmente, não foi a reflexão que Ikki esperava.
- Engraçado você mencionar minha mãe. Não lembro de como ela era. - divagou, ignorando de propósito a parte da comida.
Um... dois... três... quatro...
- Ah, que legal, também não lembro da minha, é muito triste isso, choro todas as noites agarrado ao meu travesseiro. Agora que já trocamos confidências e choramos nossas mágoas um para o outro você vai comer?
Shaka torceu o nariz para a grosseria. Virou o rosto para o lado oposto ao do cheiro da comida, agora muito mais evidente.
- Não. - o loiro disse, o tom arrogante não passando despercebido.
Fora a gota d'água.
- ARGH. Tudo bem, desisto. - o residente declarou, as narinas infladas de raiva – Se alguém ficar todo desnutrido e precisar de soro, eu vou ser o primeiro a dizer que eu avisei.
Saiu do quarto 205 batendo a porta com vontade, seu rosto lívido espantando as três enfermeiras que estavam no corredor conversando, os passos apressados levando-o o mais longe que podia do paciente que deveria estar vigiando.
Shaka sabia que estava irritando o enfermeiro a troco de nada, mas realmente não sentia vontade de comer. Uma vez ouvira que a vontade de comer era por que os humanos sentiam vontade de viver. Se era assim, então Shaka não sentia mais nenhuma vontade de viver. Por outro lado, não considerava a hipótese do suicídio; achava que os humanos não tinham esse poder sobre a vida. Sage lhe ensinara isso.
Lembrar de Sage o fez se sentir mal.
A primeira coisa que ele perguntara para os enfermeiros que estavam cuidando dele fora o que havia acontecido com seu guardião. A resposta fora um baque: Sage estava desaparecido desde o dia em que Shaka foi levado ao hospital. Ninguém na estalagem soubera dizer aonde ele poderia ter ido e aparentemente a polícia continuava sem pistas.
O pensamento do mestre Sage desaparecido somado com a cena que vira no chalé cinquenta e dois o deixou bastante enjoado. Decidiu simplesmente não pensar mais nisso.
Tentou pensar em outras coisas, mas o beep incessante das várias máquinas que deveriam estar pelo quarto o incomodava profundamente. Duas noites antes, ele tentara levantar de seu leito para desligar as máquinas, mesmo sem enxergá-las direito; descobrira, então, que não tinha forças sequer para andar. Parecia que havia desaprendido a fazer isso. Os médicos o encontraram caído no chão e ele teve uma febre durante a madrugada, sendo supervisionado desde então todas as horas do dia.
Aquelas pessoas todas em cima dele, vinte e quatro horas por dia; ele sentia que em pouco tempo chegaria à beira da insanidade.
Passos calculados vinham do corredor, deixando-o em alerta. Shaka já estava acostumado àquela frequência de pisadas; eram passos calmos, mas decididos. Quando sentiu que os passos já estavam suficientemente próximos, falou:
- Não adianta, doutor, não vou comer.
Mu suspirou. O 205 estava se mostrando muito pior de lidar do que os demais pacientes – e isso incluía um menino suicida e um piromaníaco. Repensara várias vezes antes de manter Ikki como supervisor dele, mas parecia que, realmente, só o residente conseguia fazer ele botar algumas colheradas na boca. Hoje, nem mesmo Ikki havia tido sucesso e isso começava a frustrar o psiquiatra.
- Eu imaginei. Depois conversaremos sobre isso. - pensou se daria uma bronca em Shaka ou em Ikki. Mas o assunto que ele veio tratar era outro. - Na verdade, tenho visitas para você.
Isso pareceu surpreender bastante 205.
- Visitas? - ele perguntara, não muito certo de que ouvira direito. Por instinto, seus olhos se arregalaram, mas nada mudou.
Continuou vendo apenas preto.
- Só não sei se serão do seu agrado. - Mu disse, seu tom indicando que ele não podia se importar menos com quem Shaka gostaria de receber ou não. - Eu pedi para eles esperarem que Ikki já os traria para cá.
- Que tipo de visitas? - insistiu, curioso.
Mu observou o enfermeiro caminhar do início do corredor branco até a sala 205, dois policiais loiros seguindo-o atrás. Fez uma cara de desgosto. Odiava policiais em seu corredor; eles costumavam inspirar medo nos pacientes e isso não ajudava em nada no seu trabalho. Por outro lado, após ouvir a história dos dois, sentiu que talvez 205 precisasse daquilo para seu tratamento progredir. Era arriscado – mas valia a pena.
Virou-se para o paciente, que ainda aguardava sua resposta.
- Daquelas visitas que você nunca costuma gostar de receber. - e, dizendo isso, caminhou na direção oposta à do grupo que se dirigia até ali.
Ikki fez sinal para que Milo e Aiolia parassem quando viu Mu se aproximando. O psiquiatra apenas encarou os policiais, o olhar apático, e se virou para seu subordinado.
- Eles têm meia hora. Você vai ficar na sala com eles o tempo todo. - o residente abriu a boca para protestar, mas Mu levantou a mão para impedir que Ikki falasse. - Isso são ordens. Eu já conversei com esses dois sobre as condições do 205.
Dito isso, O doutor Stavros continuou seu caminho até sua sala, decidido a esquecer um pouco o estresse a que 205 e aqueles policiais o estavam submetendo; ao mesmo tempo, ele se perguntava quais seriam os frutos daquele encontro.
Milo e Aiolia olharam com expectativa para o homem de cabelos castanhos que estava servindo de guia para eles, que havia, se possível, ficado ainda mais rabugento que antes; aparentemente, a relação chefe-subordinado ali não era das mais pacíficas. Ikki prosseguiu seu caminho, andando dez metros até chegar ao quarto que procurava.
- Aqui é o quarto 205. Vou logo avisando que esse homem só não morde por que ele não consegue ver vocês. - disse, entrando no quarto e sentando-se numa cadeira que estava localizada num canto isolado próximo ao banheiro. Cruzou as pernas e passou a observar o dia que fazia lá fora, não muito interessado na conversa que iria se seguir.
Shaka havia ouvido o que dissera, aparentemente, por que torceu o rosto, contrariado. Não reconheceu as vozes daqueles homens quando eles estavam andando pelo corredor; começou a apertar seus polegares, algo que fazia nas raras vezes que ficava ansioso.
Os detetives fitaram o quarto em que sua testemunha estava internada; além do leito – onde Shaka estava sentado, expressão ilegível e bastante calado - e das máquinas de monitoramento, não havia muita coisa para se ver. Uma enorme janela de frente pra porta estava aberta, deixando uma brisa aliviante entrar no quarto. Um vaso, ao lado da cama, guardava algumas camélias frescas. Aquele quarto não parecia uma sala de interrogatório, mas iria ter de servir.
Por fim, Milo decidiu cortar o silêncio.
- Bom dia. Eu sou o detetive Milo Kokinos e esse é meu colega, detetive Aiolia Karamanlis. - ele disse, logo se tocando que Shaka não poderia ver Aiolia. Fez um sinal exasperado para que Aiolia se apresentasse por si só, que ele demorara uns segundos para entender.
- Ah, sim, bom dia, sou o detetive Aiolia Karamanlis. - disse rápido, controlando seus nervos ao ver que Ikki ria da cara dele.
Shaka, obviamente, não notara a comoção; na verdade, sequer parecia ter mudado de expressão, embora seus traços tivessem se anuviado um pouco. Milo observou o loiro, que, mesmo preso ao leito de um hospital, conseguia transmitir uma estranha graciosidade. Aparentemente, ela vinha junto de certo desdém.
- Ora... policiais? Não estava esperando essas visitas. - Shaka disse, aparentemente conformado; seu sorriso arrogante denunciou que sim, ele estivera esperando por isso.
- Sinto se estamos incomodando... - Milo começou a falar, mas foi drasticamente interrompido.
- Estão. Bastante. Não ando muito disposto para conversas esses dias. - Shaka disse, a arrogância muito transparente agora no seu jeito de falar. Aiolia imediatamente fechou a cara e parecia que ia dizer algo, mas Milo fez um gesto para que ele se contivesse.
- … mas nós precisamos lhe fazer somente algumas perguntas rápidas. - continuou, fingindo que não havia sido grosseiramente cortado em sua fala alguns segundos antes. - Se o senhor cooperar, em vinte minutos poderá se ver livre da gente.
Shaka pareceu considerar. Jogando para trás dos ombros algumas mechas de cabelo loiro que caíam por cima de seu rosto, decidiu que não faria mal cooperar por vinte minutos.
- O que querem saber? - suspirou, resignado.
- Conte-nos tudo o que lembrar da noite em que o senhor foi atacado. - Milo pediu, decidindo que não saberia o que falar se não fosse direto. - Com quantos detalhes você conseguir lembrar. - adicionou.
O atual habitante do quarto 205 do Meadowlark ficou imediatamente tenso. As imagens mentais que tentara bloquear naqueles três dias em que estivera acordado pareciam querer ser libertadas, todas de uma vez. Teve lampejos da cena que visualizou naquela fatídica noite, e seu mundo, que estava completamente preto, ficou vermelho-vivo.
Abriu os olhos para tentar se livrar da visão, mas ainda estava completamente cego. Sua têmpora começou a latejar e ele sentiu que todo o esforço mental que vinha fazendo para não se lembrar estava o desgastando.
Fora quase meio minuto até ele conseguir parecer calmo o bastante para responder o detetive Kokinos.
- Sinto muito, senhores, mas vocês estão com azar hoje. - disse, sua voz o mais apática possível. - Eu não quero, e nem vou, falar sobre aquela noite.
Milo abriu a boca em sua surpresa, enquanto Ikki, já bem familiar com o jeito antipático de Shaka, apenas balançava a cabeça como quem já esperava por aquilo.
- Como é? - foi tudo o que Milo conseguiu dizer.
- Exatamente o que eu disse. Não tenho nada pra falar para vocês. Quando o médico me perguntou, eu não respondi; não vejo nenhum motivo para eu arir alguma exceção para a polícia. Já podem parar de perder seu tempo aqui. - o loiro disse definitivamente indisposto a cooperar.
Milo Kokinos já vira muitas pessoas não se intimidarem ao falar com a polícia, mas poucas haviam tido atitudes tão terriveis quanto Shaka. Nos sete anos de polícia que ele tinha na bagagem, o interrogado sempre falava. Mas não esse.
E isso era péssimo.
Shaka era a única testemunha da qual eles dispunham; se ele se recusasse a falar, o caso estaria arquivado novamente. Milo não podia se ver agora, mas sabia que sua reação estava sendo pouco louvável. Mas ainda assim, a pior reação fora a de Aiolia.
- O quê? - Aiolia exclamou, não entendendo bem o que acontecera. Um civil havia acabado de dizer que não iria cooperar com investigações policias por que não queria? - Ora, seu viado filho de uma p...
- Aiolia. - Milo não disse mais nada, apenas subiu o tom de sua voz. Viu que o amigo ia começar a perder a compostura e eles não podiam arriscar isso; não dentro de um hospital.
- Não vou ficar calminho vendo essa mocinha achar que sabe alguma coisa da vida e ficar atrapalhando o meu trabalho, o seu e o do meu irmão! - e dizendo isso, Aiolia se aproximou rapidamente de Shaka, segurando-o pela gola da sua camisola hospitalar, erguendo-o em seguida. - É o seguinte. Você não cooperando nós nunca vamos saber quem matou aqueles homens. São homens que nunca vão ser vingados.
- Aiolia, largue esse homem. - Milo via enquanto em questão de segundos a situação saía de seu controle. Tentou forçar Aiolia a soltar o paciente, mas o braço que estendera para pará-lo foi rebatido de volta para si com violência.
- É um pensamento ridículo esse, - Shaka falou, calmamente, como se desafiando Aiolia a agredí-lo. - de que os mortos querem ser vingados. Os únicos que querem vingança, detetive, são os próprios vivos.
A resposta do grego à provocação foi apertar mais ainda com a mão a camisola verde de Shaka, sua irritação subindo exponencialmente. O interrogado abriu os olhos azuis com o susto, não sabendo ao certo se iria ser agredido ou não.
- E então? - disse Aiolia, a mão direita segurando o loiro com firmeza. - Vai cooperar ou eu vou precisar te forçar a isso?
Antes que Aiolia pudesse dizer mais alguma coisa, sentiu seu braço direito ser agarrado com uma força surpreendente. Virou-se, seus olhos azuis arregalados de surpresa ao se deparar com Ikki o encarando, muito sério.
- Senhor, - ele disse, a ironia do tratamento respeitoso muito clara em sua voz. - solte o paciente. - Ikki apertou com mais força ainda o braço do policial – Não vou repetir.
Aiolia estava tão chocado com a ousadia que obedeceu o enfermeiro. Após alguns segundos, pareceu se dar conta da reação descabida que teve, o sangue descendo da cabeça.
- S-Sinto muito. - ele desculpou-se, sinceramente envergonhado. Olhou para Milo, que o encarava um pouco assustado, mas não dizia nada; este, por sua vez, soltou um suspiro aliviado ao ver a situação novamente sob controle.
Em seguida, Aiolia olhou Shaka, ficando um tanto quanto surpreso que ele não parecia mais assustado; na realidade, ele voltara a assumir a postura arrogante que vinha mantendo no começo da conversa. A diferença é que agora seus olhos estavam abertos, o azul fosco dando a impressão que Shaka o encarava. Essa impressão durou apenas alguns segundos; logo os olhos de Shaka passaram a fitar algum ponto distante, sua cegueira muito aparente.
Ikki caminhou até a porta, fazendo um gesto com as mãos que dizia claramente que a presença dos policiais não era bem-vinda. Em seguida, comentou, ainda sério:
- O tempo de vocês acabou.
Aiolia abriu a boca, mas fechou logo em seguida. Fora culpa dele o péssimo rumo que o interrogatório tomara, e, se Ikki não estivesse por perto, poderia ter sido ainda pior. Porém, antes de se dirigir à porta da sala 205, ele se virou para Shaka, que continuava olhando fixo para o mesmo lugar de antes. Respirou fundo.
Tomou coragem.
- Shaka, - ele disse, e o homem de cabelos compridos inclinou a cabeça levemente para sua direção, indicando que o ouvira. - Eu sinto muito mesmo. Não queria ter sido agressivo nem nada.
Shaka deu uma risada de desdém que Aiolia se esforçou pra ignorar.
- Mas, por favor, considere o que estamos lhe pedindo. - sua voz saiu mais suplicante do que ele queria admitir. - Seja lá quem for que lhe atacou, provavelmente fez aquilo com aqueles homens. E ele está solto.
Nenhuma palavra. Aiolia soltou um suspiro, surpreso quando viu uma mão em seu ombro. Virou-se para encarar seu amigo, que lhe olhava solidário.
- Vamos, 'Olia. Esse homem ainda não está bem. - e deu as costas para Shaka, falando mais baixo, quase murmurando. - 'Tava cedo demais pra isso.
Aiolia parecia relutante, mas terminou por concordar com Milo.
- Certo. - e os dois atravessaram a porta com o número 205, caminhando o longo corredor branco em direção ao elevador.
Ikki apenas esperou eles chegarem ao fim do corredor e fechou a porta. Se virou para Shaka, que agora havia levantado o pescoço como se estivesse observando o teto. Porém, tudo o que seus olhos azuis estavam vendo ainda era preto.
E vermelho.
- Você se machucou? - o enfermeiro decidiu perguntar, quebrando o silêncio; qualquer arranhão em Shaka seria inteiramente culpa dele, e Mu não calaria a boca por um bom tempo.
- Ikki, - Shaka não pareceu ter ouvido a pergunta dele. Ikki ficou mais surpreso por ele ter usado seu primeiro nome, coisa que nunca fizera antes – você acha que eu estou sendo covarde em não querer lembrar de nada?
O residente do Meadowlark franziu o cenho. A pergunta fora a coisa mais pessoal que Shaka já havia lhe perguntado, e Ikki não sabia se seria sábio ser cem por cento sincero.
- Sinceramente? - hesitou um pouco.
- Por favor. - Shaka parecia decidido; se ele pudesse enxergar, com certeza estaria encarando o enfermeiro nos olhos.
E ele pedira sinceridade. Bem, pensou Ikki, ele havia avisado.
- Sim. Tu 'tá só fugindo. Não é digno de admiração nem nada, mas acho que é normal, sei lá. Se esse foi o jeito que tu arranjou de viver... - e coçou a cabeça. - Mas eu acho patético.
Alguns segundos de silêncio fizeram a frase soar um pouco mais rude do que ele planejara inicialmente. Ikki não tinha a intenção de ser grosso; ele só não se importava em falar a verdade na lata, o que geralmente terminava sendo a mesma coisa. Apesar disso, se Shaka ficou ofendido, ele não demonstrou.
- Entendo. - o paciente disse, o tom de sua voz tão sem emoção que tinha que ser forjado. - Você poderia pegar um papel e uma caneta pra mim?
O pedido pegou Ikki de surpresa.
- Pra quê? Vai desenhar?
Shaka nem se importou em negar a sugestão tola.
- Preciso enviar um recado para aqueles dois policiais. - ele disse, e Ikki ficou novamente surpreso, desta vez com o fato de que Shaka queria mandar cartinhas para um cara que havia acabado de tentar agredi-lo. - Não posso fugir para sempre. Aliás, - Shaka continuou, sentindo a cabeça ia começar a doer novamente. - já nem estou mais conseguindo fugir.
Decidiu que seria besteira contrariá-lo, mas lembrou-se de um detalhe importante.
- E dá pra escrever desse jeito? - fora um pouco rude na referência à cegueira de Shaka, mas ele realmente não sabia como o homem escreveria sem enxergar nada.
- Não se preocupe. - e não adiantava Ikki dizer que ele não estava preocupado, que ele só achava aquilo tudo idiota, por que o maldito Shaka já ia falando de novo. - Eu me acostumei a escrever no breu pro mestre Sage quando ele me pedia; meu mestre achava besteira termos iluminação em casa até eu fazer uns dezesseis anos. Sei escrever sem enxergar, mas não posso escrever sem papel e caneta.
O moreno ouviu com atenção Shaka dar um detalhe de sua vida antes do acidente, o que ele nunca havia feito. Suspirou, sabendo que teria que atender seu pedido.
- Tá certo. Vou pedir pra Miho trazer uma caneta e um papel da recepção pra cá. - prometeu, um pouco insatisfeito em ter que mandar alguém subir dois andares por capricho de Shaka, mas tendo certeza que seu chefe nunca iria emprestar papel e caneta para um paciente.
Mu dizia que não fazia isso por medo que eles escrevessem cartas de suicídio. No início Ikki achara isso plausível, mas começou a perceber que Mu não gostava era de contato com pessoas – o que incluía gente à sua porta pedindo qualquer coisa.
- Bem, - disse, caminhando para o corredor, de onde ligaria para o ramal de Miho – já vou saindo então.
- Ah, Ikki, outra coisa. - Shaka disse de repente, virando-se para o enfermeiro, e pela primeira vez Ikki vira uma expressão menos apática rosto do paciente. - Obrigado; acho que vou querer almoçar hoje.
Patrulha Leste da Polícia de Wichita, Rua Edgemoor, Wichita – mesmo dia, mais tarde
- Resumindo: você praticamente agrediu a testemunha. - a voz de Aiolos parecia ter ecoado pela sala do departamento, mas era apenas impressão de Aiolia; o capitão continuava falando num tom calmo e na altura de sempre, embora claramente decepcionado.
Os oficiais que estavam passando pelo departamento da Homicídios naquela tarde cochichavam entre si, ineficazes em sua tentativa de parecerem discretos. Milo estava sentado em sua mesa, bebericando do café forte que ele mesmo fizera na cafeteria, tentando a todo custo não ver a cena do capitão dando aquela bronca em Aiolia.
Infelizmente para ele, a mesa de Aiolos ficava em frente à sua.
- Sim. - Aiolia disse curtamente, aparentemente certo de que se explicar não iria ajudá-lo a essas alturas; não era a primeira vez que ele perdia a paciência com um interrogado, mas era a primeira vez que o interrogado se encontrava numa cama de hospital.
O Karamanlis mais velho apenas fechou os olhos, provavelmente avaliando internamente se deveria dar ou não uma punição para Aiolia. Se ele o punisse, corria o risco de estar sendo severo demais com ele – Aiolia só havia perdido a cabeça por que a testemunha se recusara a prestar depoimento, o que realmente podia ser considerado um crime. Por outro lado, se não o punisse, os oficiais passariam a comentar que ele estava acobertando o irmão.
Suspirou.
- 'Olia, sinto muito, mas não vou deixar essa passar. - foi sua conclusão. Lhe doeu um pouco ver o rosto nervoso de seu irmão, mas era inevitável, afinal. - Essa semana eu quero que você organize a sala de evidências.
Aparentemente, não era aquilo o que Aiolia estivera esperando, o rosto dele perdendo um pouco a cor ao se lembrar do estado de abandono do lugar. Como Milo comprovara no dia anterior, a sala de evidências do Bureau de Homicídios era o lugar menos desejável de se estar daquela delegacia num verão quente como esse de Wichita.
Seria uma semana bastante dura para Aiolia, que apenas assentiu com a cabeça, um tanto quanto contrariado.
- Sim, senhor. - e bateu continência, desanimado. Aiolos sorriu; o irmão havia se arrependido; dessa vez, genuinamente.
O burburinho da sala foi cortado por uma voz séria vinda da porta do departamento.
- Capitão, - o oficial Shura Cabrera chamou, olhando fixamente para Aiolos. – ligação de linha civil para o detetive Karamanlis. - e notou algumas pessoas o encarando, na expectativa. - O mais novo. A pessoa se identificou como Marin.
- Puta que p... - Aiolia soltou, lembrando-se que não havia ligado para Marin na saida do hospital. Na confusão com Shaka, esquecera completamente da ruiva.
Seus olhos encontraram com os de Milo, que deu uma risadinha sarcástica. Aiolia pôde ver claramente o que Milo queria lhe dizer.
Bem feito.
Mas tinha coisas mais importantes para se preocupar no momento.
- Segura pra mim aí, Shura, que eu já tô indo! - Aiolia pediu. Shura apenas assentiu silenciosamente, saindo da sala tão soturnamente quanto entrou.
Aiolia despejou as coisas em sua mesa de qualquer jeito e andou apressado para o corredor onde ficavam os telefones, quase derrubando o detetive Jamian no processo. Aiolos observava a tudo com o olhar divertido, não entendendo muito bem o que acabara de acontecer. Então ele se virou para Milo, que continuava bebendo seu café e lendo o Eagle [4] do dia. Quis saciar sua curiosidade;
- Então, Milo, quem é Marin?
O detetive levantou os olhos azuis do jornal. Deu uma risadinha, lembrando da cara que Aiolia fizera quando indicara a ruiva no balcão.
- Ah, isso. É a recepcionista do Meadowlark que ele insultou. Infelizmente para o Aiolia, uma enorme gata.
Aiolos riu, entendendo a pressa do irmão em atender o telefone. Aiolia não tinha jeito. Em seguida, olhou a ficha do Lincoln Park que estava do lado de Milo.
- Não conseguiram nada? - ele disse, e Milo não precisou ser um gênio para entender o que o capitão estava perguntando.
- Nada mesmo. - suspirou, a decepção bem palpável em sua fala. – Era mais fácil falar com uma porta do que com esse Shaka.
Aiolos apenas assentiu com a cabeça, compreendendo.
- Uma pena. - disse o capitão. - Enquanto ele estiver no Meadowlark, vamos ter que ficar no aguardo.
Antes que Aiolos pudesse fazer mais perguntas sobre como havia ido a missão, Aiolia entrou na sala, parecendo quase tão apressado como saíra. O Karamanlis mais novo mantinha os olhos nos dois, mas caminhava rapidamente para sua própria mesa, no fundo do departamento..
- Milo, - falou, jogando uma pilha de documentos em sua pasta de qualquer jeito, provavelmente amassando os papéis enquanto isso. - pega tuas coisas que a gente vai sair daqui a dez minutos. Eu dirijo.
Milo apenas abriu a boca, surpreso. Aiolos voltou-se para seus documentos, decidindo que quanto menos se envolvesse, melhor.
- Endoidou, 'Olia? - exclamou, não entendendo nada. - Marin te rejeitou e agora tu quer sair com qualquer pessoa só pra não ficar sem nada?
Aiolia não se virou para responder nada, o que fez os demais gregos perceberem que o assunto era sério.
- Não, retardado. É o Shaka. - respondeu simplesmente. Observou então Milo e Aiolos voltarem toda a atenção para ele após ele falar aquele nome em especial. - Marin disse que ele quer nos receber agora à noite. - e pegou as chaves de seu carro, dirigindo-se à saída. - Ele vai dar o testemunho. Agora se apressa que vamos sair daqui a nove minutos.
Sede da Dimensium Aicraft, 127ª Rua, Wichita – mesmo dia, mais tarde
Shun Amamiya às vezes se perguntava se fora mesmo uma decisão sábia aceitar o contrato com uma empresa tão grande quanto a Dimensium. O dinheiro era muito bom, claro, e o emprego não o colocava diante de muitos desafios profissionais, para ser bem sincero.
O verdadeiro desafio desse trabalho, ele descobrira logo, era ir para as reuniões e ter que sentar à mesma mesa que os chefes da Dimensium. Shun os achava ótimas pessoas, no fundo – mas um tanto quanto anormais. Seus olhos castanhos miraram dois belíssimos homens loiros, que estavam sentados do outro lado da mesa conversando casualmente. Ou o mais casual que Kanon e Afrodite conseguiam ser.
- O quê? Quer dizer que teu nome não é Afrodite de verdade? - Kanon exclamou, abismado, pensando como é que ele nunca descobrira isso nos cinco anos que conhecia Afrodite.
Afrodite pareceu pensar em quão ridículo Kanon era por considerar aquela hipótese como viável. Apenas deu de ombros, seus olhos mais fixos na mecha de cabelo com que brincava com os dedos.
- Óbvio que não, né? Eu tive mãe, por incrível que pareça. - e novamente Kanon fez cara de surpresa, dando a entender que não acreditava que Afrodite realmente tivesse pais, o que Afrodite prontamente ignorou. - Que mãe em sã consciência dá o nome de uma deusa grega promíscua para um filho homem?
O Areleous mais novo fez cara de pensativo.
- Tu diz isso, mas parece gostar do apelido... - Kanon comentou, ainda pouco convencido, como se Afrodite estivesse na verdade pregando-o uma peça.
- Claro. - o chefe do Departamento de Engenharia respondeu, como se fosse óbvio - Ele me cai muito bem, não acha?
Kanon parecia que ia comentar algo, mas terminou concordando. Shun ouvia a tudo, um tanto quanto perdido na conversa e um pouco surpreso por Kanon conhecer uma pessoa por tanto tempo e nunca ter ouvido o nome verdadeiro dela. Mas isso que seria impensável em qualquer outro lugar do mundo era na verdade o comum dentro da Dimensium. O descendente de japoneses olhou no relógio de parede elegante da sala de Saga; já eram sete e quarenta e seis, e ainda faltavam três pessoas para a reunião poder começar.
Por fim, Kanon lembrou-se o que ia perguntar desde o início.
- Pera lá, mas se teu nome não é esse, então qual é? - Kanon estava realmente curioso; sabia que Máscara da Morte era apelido – duh – mas nunca havia pensado que Afrodite também utilizava-se de alcunhas num ambiente profissional.
- HA. Por favor. - foi tudo o que Afrodite disse, rindo, enquanto se levantava para buscar um capuccino da cafeteira de Saga, deixando um Kanon frustrado à mesa.
Finalmente, pensou Shun, quando a porta de mogno da sala de Saga foi aberta, três homens adentrando no recinto por ela.
Um ruivo entrou primeiro; Camus, chefe do Departamento de Recursos Humanos e contratante direto de Shun, ostentava um ar que a maioria classificaria como sendo de tédio. Atrás dele vinham o homem conhecido por ali como Máscara da Morte, o chefe do Departamento Financeiro; e, por fim, Saga, um imponente homem loiro que era o presidente da Dimensium e provavelmente o homem mais poderoso de Kansas naquele momento, apesar de não ter muito mais de trinta anos.
Shun já vira muita gente poderosa desde que saíra da faculdade de direito, mas os cinco homens que estavam reunidos naquela sala inspiravam respeito.
- Arrá, eu sabia que íamos chegar atrasados, Saga. - Máscara da Morte soltou, antes de escolher um assento ao lado de Afrodite para sentar. - Podíamos ter deixado aquela papelada pra depois.
- Pra você não fazer? Não, obrigado. - o presidente falou, sério, uma expressão de reprovação para o italiano. Depois se dirigiu aos três que os aguardavam à mesa. - Nos perdoem pela demora. Tínhamos algumas coisas pendentes para assinar...
- Algumas coisas? Tente 'uma pilha de coisas'. - Máscara da Morte resmungou, a mão esquerda massageando o punho direito.
- … para a reunião de hoje. - Saga deixou Máscara da Morte falando sozinho enquanto prosseguia falando. - Obrigado por arranjar um tempo para nós na sua agenda, Shun.
Shun apenas sorriu e disse que não era nada; não era mesmo. Ele praticamente não trabalhava em outro lugar que não fosse a Dimensium. Seus planos para o dia, de encontrar com uns amigos de faculdade, podiam esperar um pouco, em especial quando Camus havia salientado que o assunto era muito sério.
- Bem, ao que interessa. - Saga disse, fazendo um sinal com a cabeça para que Camus desse início à reunião.
O ruivo levantou-se da cadeira que havia escolhido para se sentar, entre Shun e Saga. Olhou para o estranho grupo que tinha à sua frente; em dois anos na Dimensium, ele só havia visto todos os sócios comparecerem umas quatro ou cinco vezes.
- Fui hoje ao Meadowlark; parece que o homem que Saga e Afrodite encontraram naquela noite passa bem, mas – adicionou, antes que Kanon perguntasse o que aquilo interessava a eles. - a pancada que ele levou deixou ele cego.
Máscara da Morte não se conteve e começou a ter um ataque histérico de risos. Um pouco mais discreto foi Kanon, que apenas levantou os lábios com o canto da boca, um olhar de pura satisfação. Afrodite sorriu também, embora mais para si mesmo do que para os outros. Camus e Saga foram os únicos que permaneceram impassíveis, decidindo que ficarem calados seria a melhor saída.
Mas não Shun.
- Qual a graça, senhor? - o jovem de cabelos castanhos olhava muito sério para o italiano sorridente.
Máscara da Morte olhou para Shun, um olhar incrédulo, embora continuasse rindo.
- Qual a graça, você me perguntou? Qual a graça? - e Máscara da Morte parou de ri, mas continuou estampando um sorriso cínico no rosto. - A graça é que agora os policiais tão fodidos, essa que é a graça. Não vão poder fazer reconhecimento visual e chamar a gente praquelas delegacias imundas deles pra fazerem mil perguntas sem sentido. - e se inclinou na cadeira, visivelmente confortável. - Francamente... Qual a graça?
Afrodite agora sorria mais abertamente. Camus decidiu intervir antes que Shun respondesse algo que colocasse o emprego – ou a vida, pensou, fúnebre – do advogado em risco.
- O fato é que eu só consegui acesso ao lugar por que o enfermeiro responsável por Shaka é irmão de Shun. - disse, reprovando com o olhar a atitude grosseira de Máscara da Morte. - Então os policiais não devem poder interrogá-lo tão cedo. Mas com certeza o farão. - e nesse momento ele encarou os quatro companheiros de empresa, que ficaram um pouco mais sérios nesse ponto.
- Eu também tenho certeza que eles irão reabrir o caso. - Saga manifestou seu apoio a Camus, o que era um sinal para que os outros três guardassem seus comentários para si mesmos. - E foi por isso que eu os convoquei aqui hoje. Pedi para Shun vir aqui por que ele irá nos acompanhar quando as convocações para os interrogatórios chegarem
Os homens ali reunidos de repente sentiram o ar mais tenso. Saga suspirou, virando-se para observar o céu de Wichita, onde já não se via mais resquício do sol.
- E acreditem; - disse, o tom cansado. - essas convocações vão chegar.
Centro Hospitalar Meadowlark, Rua St. Oliver, Wichita – mesmo dia, mais tarde
O corredor branco já familiar a eles agora parecia um tanto mais soturno quando se observava-o pela noite. Milo e Aiolia seguiam o doutor Stavros de perto, embora não precisassem de guia dessa vez; desconfiavam que Mu não estaria ali para ser um mero guia. O psiquiatra não mudara de expressão desde que o viram pela manhã; continuava apático e desinteressado. Não fizera uma única pergunta aos dois, o que provavelmente significava que Shaka já havia comentado alguma coisa.
Pararam em frente à porta de número 205.
- Ikki já está de saída, então vocês têm pouco tempo. - o doutor disse, seu tom monótono. - Não quero saber de agressões ao meu paciente mais uma vez, senhor Karamanlis.
Aiolia engoliu em seco e murmurou um 'me desculpe', envergonhado. Mu deu as costas pros dois e se dirigiu à mesma sala em que ambos o viram se enfurnar na primeira visita. Se entreolharam por uns instantes, antes de abrirem a porta do quarto.
Ikki estava dessa vez sentado o lado de Shaka, lendo um livro. Milo reparou na capa; era "A Volta ao Mundo em 80 Dias".
- Júlio Verne? - ele perguntou, estranhando a escolha; Ikki não lhe parecera uma pessoa com saco para a leitura.
O enfermeiro levantou os olhos do livro, enfim reconhecendo a presença da dupla no quarto, mas não respondendo nada ao comentário de Milo. Shaka, que estava com a cabeça deitada no travesseiro, perturbou-se um pouco com o som das vozes. Tentou sentar na cama; sua primeira tentativa fora um pouco desajeitada, mas a segunda, com uma pequena mão de Ikki, que largara o livro num canto para ajudá-lo, foi bem sucedida.
- Vocês demoraram. - foi o que o loiro disse, mas seu tom parecia mais leve do que estivera pela manhã.
- Sinto muito; houve uma batida em Hillside que nos atrasou quase meia hora. - Aiolia respondeu, cauteloso, não querendo que Shaka se intimidasse com sua presença ali.
Shaka não sabia onde era Hillside; apenas no dia anterior ele descobrira que estava em Wichita. Antes do acidente ele havia visitado a cidade, mas apenas umas poucas vezes, e nunca mais desde que fizera quinze anos. Seu mestre Sage costumava dizer que a cidade era perigosa demais para eles viverem ou passarem muito tempo.
Curiosamente, não foi na cidade que ele sofrera perigo de verdade, mas na floresta em que sempre sentira segurança total.
- Certo. Não importa. - disse Shaka. - Podemos começar logo com o que vocês querem.
- Muito bem, se você acha que consegue... - Milo começou, sendo bruscamente interrompido por Shaka.
- Eu consigo. Não pense que eu sou um fraco que foge dos problemas para sempre. - o paciente falou com certa rispidez, ignorando que Ikki sorria com seu comentário.
Já Aiolia sabia que o melhor que faria ali era ficar calado.
- Vamos começar então. O que você lembra do dia em que você foi atacado? - Milo começou o interrogatório, um bloco de notas e uma caneta em mãos. - Chegou a ver quem lhe golpeou?
A dor de cabeça de Shaka agravou um pouco quando ele se lembrou da sensação que fora levar aquela porrada na nuca.
- Não. O golpe veio de trás. Antes de entrar no chalé, cheguei a ver um vulto, mas estava muito escuro e o homem estava muito longe. Sinto muito. - e parecia que sentia mesmo.
- Está bem. - Ele disse, um pouco decepcionado; tinha uma leve esperança de Shaka ter vislumbrado o assassino, mas sabia que era pouco provável. - Vamos mudar de abordagem. Por quê você foi até aquele chalé naquela noite?
Shaka se ajeitou na cama para falar, forçando um pouco seu corpo a lembrar. Fazia frio naquela noite, mas ele havia meditado e sentira vontade de correr. Deu uma volta pelo Lincoln Park – lembrou de como estava cansado – mas viu que estava ficando muito tarde e teria que acordar cedo pela manhã para servir o desjejum a Sage.
Lembrou dos gritos.
- Eu estava indo pra minha casa, que fica no final da estalagem, perto do lago. Ouvi vários gritos seguidos vindos do chalé cinquenta e dois e não consegui ignorá-los.
Ia prosseguir, mas foi interrompido.
- Espera. - Milo disse, pegando rapidamente a ficha do caso, virando as folhas rapidamente até chegar na que procurava. - Você disse cinquenta e dois?
Shaka franziu o cenho, confuso.
- Sim, disse. - não entendeu a confusão do policial. - É o último chalé, que fica à beira do lago. Onde vocês acharam os corpos, não?
Aiolia decidiu falar pelo seu chefe, que continuava com os olhos arregalados e sem palavras.
- Isso não pode estar certo, Shaka. - disse, ele mesmo bastante confuso com a situação.
- Me desculpe? - Shaka não entendia aonde os policiais queriam chegar.
Milo recuperou a fala nesse momento.
- Nós não encontramos os corpos no chalé cinquenta e dois, - disse, notando que Shaka abria a boca em surpresa, e até mesmo Ikki prestava atenção total para ele. - e sim no chalé trinta e sete.
[1] Oaklawn ou Oaklawn-Sunview é um bairro/zona residencial que fica próximo ao rio Arkansas.
[2] Monaco Hardtop e Caronet Sedan eram carros produzidos nos anos 70 pela Dodge, uma divisão da Corporação Chrysler.
[3] Monte Carlo foi um carro produzido pela Chevrolet em meados dos anos 70.
[4] Wichita Eagle-Beacon é o jornal de maior circulação de Wichita; na época em que a história se passa, ele ainda tinha o Beacon no nome; em 1989 o jornal oficialmente passou a se chamar apenas Wichita Eagle.
Imensos agradecimentos para latrodectism e tenentism funster, e, claro, para minha sis DailyCreep, pelos IMENSOS reviews de apoio. =3
